10 janeiro, 2013

Estar sóbria e sã me faz consciente para o que é sublime e material

Posted in Crenças tagged às 10:49 am por Deborah Sá

Imagem

Life of Pi é o primeiro filme comercial que tem como protagonista um não-branco vegetariano.  Aborda a espiritualidade de modo não convencional e profundamente respeitoso, tarefa difícil quando maioria das obras culturais recentes (e alguns cristãos) falam de fé como um rolo compressor. Essa fé pode ser exatamente como o capitalismo: Predatória, agressiva, colonizadora, esmagadora. Ao sair do cinema foi impossível não repensar minha relação com a transcendência, os animais e a própria espiritualidade. Meu ancião preferido na igreja era um veterinário de profissão. Lembro de uma exortação onde defendia que os animais não eram desprovidos de alma e que da sua forma, louvavam a Deus. No canto das baleias, no vôo dos pássaros, cada um deles entregava a Deus um tributo e ao morrerem, tal qual o corpo material seu espírito não-humano fenecia. Foi esse mesmo ancião que conduziu meu batismo anos mais tarde. Não acreditava que minha alma fosse mais ou menos nobre do que a de um cavalo ou pássaro. Se havia algo de divino em mim certamente havia neles, pois era perceptível nos olhos miúdos de um roedor que brilhava a mesma matéria da qual eu era feita. A poeira de estrelas, o universo na boca de Krishna. Ao pôr em foco os olhos de um animal não enxergava apenas um pedaço de mim mesma, uma expectativa ou projeção, via outro ser que poderia ou não, me amar de volta. Qual a relevância se os animais são capazes de pensar como nós, humanos? Ou ainda, se são capazes de amar na mesma intensidade que amamos? A realidade é que jamais poderemos mensurar do que e como são ocupados espíritos e entranhas, mesmo em nossos pares em espécie.

Não encontrei a transcendência dentro da religião (e olha que estive muito tempo dentro dela). Buscava amparo e amor, encontrei o medo e a culpa. As vezes em que experimentei um deslocamento entre mente e corpo foram em crises de ansiedade. Começava por uma angústia, seguida por suor, cabeça quente (sensação de ebulição), a visão desfocava, as pernas e braços desobedeciam, estava presa em um corpo rijo e desobediente em um alerta de perigo e terror. Busquei técnicas que me trouxessem de volta para a realidade, a primeira delas consistia em me concentrar e movimentar cada parte do corpo: Os dedos do pé, girar os calcanhares em movimentos circulares para dentro e para fora, continuar com os joelhos, os quadris e subir calmamente até a cabeça. Aprendi com a Yoga. A segunda maneira, conforme instruiu um psicólogo, era em fechar a mão em concha e dar leves batidinhas nos braços e pernas. Havia uma expressão na igreja que era “estar na carne”, que significa fingir a manifestação do espírito santo quando o que se diz e movimenta vem do próprio sujeito, usando o nome de Deus em vão, uma blasfêmia. A meu ver, não há meio de sair de nossos corpos e a pior das blasfêmias é o ódio, a agressão descabida sob os mais fracos, o berro. Os líderes religiosos que gritavam no púlpito e nos canais de TV da madrugada vociferando profecias de enxofre e ranger de dentes eram prepotentes, mesquinhos, sem qualquer elevação espiritual e sádicos. O medo do inferno e de Deus durou até eu perceber o quanto esse discurso de ódio não condizia com minha filosofia de vida. Abandonar a existência de Deus e consequentemente a crença na possibilidade de sua intervenção no curso da vida não impediu o contato com o sublime, a contemplação e a sensibilidade holística. Nas orações cristãs que antecedem refeições os presentes agradecem a Deus pelo alimento e saúde dos humanos, a gratidão nunca se dirige ao alimento, aos campos por serem férteis, a chuva pelo nutrir da terra, ao sacrifício do animal que jaz em pedaços. Talvez essa atitude seja explicada devido ao fato de que o respeito pela terra e a conexão com os animais sejam traços da fé não ocidental e de religiões pagãs. Na interpretação de muitos líderes cristãos, o que nos cerca pode ser tomado sem pedir licença, sendo o mundo um reino deixado pela divindade única que nos coroou como seus herdeiros para exercer domínio sob “inferiores” (não agraciados pelo sopro de vida do Criador).

Os momentos mais sublimes que tenho recordação são aqueles que estive diante de acontecimentos embebidos de beleza material. Como no dia em que cansada de uma rotina de trabalho desci do ônibus porque perto do parque vi um caminhão de morangos. Comprei uma caixa, me sentei na grama e com o sol se pondo comi com a visão de um céu alaranjado riscado de azul. Ou ainda, no dia quente em que após dar um banho de mangueira no Snoopy, com uma toalha em um dos ombros e ele nos braços, subi até a laje da minha avó e lá de cima avistei o céu muito azul. Com aquela sensação de formigamento que os raios solares fazem levantar na pele, estiquei a toalha no chão cinza, deitei e fiquei a deixar o sol bater enquanto o cão se sacudia e lambia meu rosto fazendo rir. Quando ele cansou, sentou sob duas patas e olhou para o horizonte com a ponta das orelhas ainda molhadas enquanto eu o observava em sua anatomia altiva e ensolarada. Senti que aquele era um momento de estímulos sensoriais variados, contemplação, que aquilo, era estar viva. Essas experiências não transcendem a matéria mas elevavam o espírito, portanto são sublimes muito embora não sejam místicas. Se não há qualquer garantia de que outros mundos ou dimensões nos aguardam após a morte, o que pode nos dar mais esperança do que a torrente sensorial e prazerosa que dispomos? Se essa é a derradeira jornada por que desperdiçá-la em dissabores e egoísmo? Estar diante das estrelas e reconhecer a pequeneza diante do universo em nossa fugaz existência com tudo o que coexiste nesse tempo breve, é uma dádiva. E no dia em que meu espírito repousar nos átomos que dançam pelos ares juntar-me-ei com toda a matéria que um dia foi tão ou menos sólida que meu peito.

6 Comentários

  1. Danielle said,

    Que lindo! Eu não sei escrever bem, então não saberia falar de todas as formas que esse “post” me emocionou, mas você acabou de me proporcionar uma deliciosa torrente sensorial.

    Obrigada.

    • Deborah Sá said,

      Por nada, Danielle, também agradeço esse comentário ;)

  2. Chico said,

    Isso me lembrou essa fala do Hawking, que por sinal está até rolando em forma de meme no Facebook:

    • Chico said,

      O link está saindo desde o início, mas veja desde os 44m e 10s.

      • Deborah Sá said,

        Oi, Chico!

        Assisti ao vídeo completo, ainda não conhecia, gostei bastante, obrigada pela indicação.

        Um abraço,

      • Chico said,

        Que bom que gostou, Deborah.

        Um abraço!


Os comentários estão desativados.

%d blogueiros gostam disto: