31 janeiro, 2013

Com luva de pelica

Posted in Cotidiano, Crônicas e contos às 1:30 pm por Deborah Sá

navalha
Ao desviar ataques usei a polidez, o “com licença” e o “obrigada” serviram para conseguir avanços nas brechas. Tive de me afirmar primeiro, combater primeiro, porque quem não bate leva na outra face. Se outrora não pude impedir que me odiassem, tentei reagir pé ante pé e por depender das estruturas que me tolhiam o fiz com sutileza. Assim passo meio ressabiada da gentileza que adquiro em resposta. Estranho o espaço no horizonte já que vivia presa no quintal querendo ser bicho solto. Agora o portão se abriu e tenho um espaço imenso para interagir. O cabresto da idiotia que me destinaram escorregou num baque surdo no chão, não me vêem mais como saco de pancadas ou como uma criatura que destila tonterías. Ontem, em um vagão de metrô saquei o lápis para marcar um livro, em instantes entrou causando alvoroço um grupo de jovens barulhentos. Eles se penduravam e davam risadas lembrando de forma fidedigna, o tipo de comportamento que vi nos jovens ao meu redor nos tempos de escola. Eis que uma amiga diz para outra:

– Sua filha da puta, pisou no meu pé. Vou dar um tiro na sua cara.

Eles e elas trocavam tapas e socos como amigos. Para quem não conviveu com esse tipo de comportamento é espantoso, porém, foi de tamanha familiaridade que pude me imaginar mais uma vez nas carteiras, com o barulho zunindo, as canecas de plástico azul voando pela sala, ora me acertando, ora não, enquanto me concentrava em alguma leitura. Voltando ao presente, por um instante acreditei que poderiam avançar contra meu livro fazendo dancinhas, rasgando o papel ou me chamando de retardada. E quão errada estava em minha suposição quando um deles se adiantou e disse:

– Vamos fazer menos barulho, caralho, que a moça está lendo.

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16 janeiro, 2013

Então quem vai te ver morrendo?

Posted in Baú, Memórias às 9:21 pm por Deborah Sá

:: Quarta-feira, Janeiro 31, 2007 ::

Me resta o caminho solitário nesta vida
Meus prazeres foram substituídos
Admiro um algodão-doce
Mas ele não tem o mesmo sabor de antes
Meu sorriso já é mais amargo
Minha tristeza mais tímida
E minha força sai devagarinho entre os troncos
Os pássaros ainda cantam
Mas nem é tão mais doce
A mesma melodia que ouvia
Quietinha na barriga da minha mãe
Um mundo tão incerto
Mas que pelas dores que eu sentia
Sabia que era maior que tudo isso
Talvez eu ainda esteja neste útero
E quando o mundo sofre
Eu sofro um pouquinho também
Pois é muito difícil não sofrer
Com algo que intimamente faço parte
Eu não tenho saudades não
E as que tenho são cada vez menores
Talvez porque quando perco
A lembrança nem é mais tão doce assim
E acostumar com a ausência é tão natural
Que chega uma hora que a gente nem sente mais
E os prazeres desta vida são como dependência
E deles eu me alimento
E corro, arranho e amasso
Todos os velhos desenhos que fiz
Principalmente os cor-de-rosa
Tamanha ingenuidade…
Nem tempo perdido
Muito menos ganho
Pois provar do amargo pode sim
Ter uma pitada de não sei o que
E esse não sei o que é assim
Desse modo mesmo
Encarar-se por alguns minutos pode ser perturbador
Desconfio que Narciso afogou-se ao tentar fugir de si mesmo
O tempo maldito sacerdote
Rasga todas as estrelas
Sentir seus braços presos
Cair no chão novamente
E todos os que te olham
Vêem como você se sente aqui
E como eles vivem ali
Mas o que não percebem
É que mais do que nunca
Você está tentando sair daqui
Sempre me faltou coragem
Mas não vontade
Sempre me faltou decência
Mas não verdade
Sempre me faltou sanidade
Mas não bondade
Sempre quis explodir o mundo
Porque assim me fez
E não adiantou nada
Pois eu descobri que me fiz
Me faço
Me escondo
Sentir uma mente aprisionada
Pelo simples medo de se aceitar
Medo da palavra a seguir
Se vai te chocar
E me trair
E se chover eu nem vou sentir
E se me chamar eu não vou sair
E se sorrir eu vou chorar
E quando chorar vou olhar meus pulsos
E eles estarão lá
E quando eu abrir meus olhos
Continuarei aqui
Precisamos todos!
Desesperadamente acreditar em nossa imortalidade
Esquecer da morte na próxima esquina
Riscar todos os rostos velhos
Os olhos velhos irão morrer
Os ossos velhos vão doer
E quando o velho estender a mão
Eu vou ignorar
Quando o velho me pedir perdão eu vou chorar
Eu vou correr mais uma vez
Pois minha mente não consegue ser liberta
E onde ela se sente a vontade é na palma da minha mão
Eu tenho uma mente que quer se trancar aqui dentro
Eu tenho um corpo teimoso que pesa muito
Eu sou um engodo
Eu sou um fardo, enfadonho e repetitivo
Eu sou a birra e a artimanha
O que questiona e discorda de tudo
Eu sou o que é idiota
Eu sou o que pensa errado
Eu sou alguém que está do seu lado
Alguém que por mais que você tente
Nunca ficará calado
Esse mundo todo tá todo fudido
E eu fico pregando em uma praça pública vazia
E os que passam me olham com desdém
Tem vezes que passam uns loucos
Eles sentam e me ouvem
Conversam comigo
Há alguém que me conheça só pelo meu olhar
E esse alguém sabe ver como esta cabeça confusa
Está sempre correndo atrás da própria cauda
E este alguém tem o maior valor
Se você puder me ouvir eu gostaria que soubesse
Muitas vezes eu até tento gritar
Mas a voz não sai

Esse é um dos textos do meu antigo blog do qual fiz backup

Sobe um senhor no ônibus

Posted in Baú, Memórias às 9:15 pm por Deborah Sá

:: Quarta-feira, Março 28, 2007 ::

Ele precisa de 33,00 reais pra comprar o remédio
Eu preciso de um remédio pra me livrar do tédio
Ele precisa de um pouco de sorte
Eu preciso de mentiras pra enganar a morte
Ele precisa de só mais cinco centavos
Eu preciso saber quem são os escravos
Ele tenta não chorar na minha frente
Eu finjo ser indiferente
“Desculpa atrapalhar vocês”
Tento aumentar meu MP3
A luz do lado de fora da janela
Passa passa passa
Coitada dela
Ele precisa de um cobertor
Com essa dose acaba minha dor
Ele quer só uma chance de tentar
A mãe dele o ensinou a rezar
Vem a cada segundo
Joga na minha cara que esse é meu mundo
Que é por culpa minha
Que você não tem dinheiro pra sua filha
Sua jaqueta já é gasta
Não me diga nada a imagem me basta
Tome o seu rumo
Ative a fumaça
Diga-me que eu não sei como é
Perder tudo o que se deseja
Pelos caprichos de uma mulher
Com a hipnose constante
Vejo no porta-luvas uma porção de diamantes
Com dentes e cabelos escovados
A moça sorri ao meu lado
“É vagabundo aquele”
É solitário aquele
É desesperado aquele
É sujo aquele
Aquela colher de 5 dias
Dentro do bolso flanelado
Com farrapos soltos e um sol abafado
Um vende paçoca
Um tapa na cara pelos malabares mal feitos
Um plax na mão da prostituta
Relapsa, insana, sozinha ela luta.
Engraxate pivete
Ameaça-me no farol com o seu canivete
Menina descalça do cabelo amarrado.
É chamada pra dentro do carro
Que depois fica com o vidro embaçado
O tio é todo aquele que não precisa da gente
Mas precisamos muito dele
O tio é aquele que bate na gente e quando é noite
Procura aquela avenida sozinha
É aquele que chora e gosta
O fulano que não sei o nome
Alguém que nem de perto o reconheço
E muito menos passa fome

Autoria: Deborah Sá

Esse é um dos textos do meu antigo blog do qual fiz backup

(Sem título)

Posted in Baú, Memórias às 9:03 pm por Deborah Sá

:: Quarta-feira, Agosto 02, 2006 ::

Sinto que todos se acomodam, mas que pena. Sinto que não há opções, apenas escolher o que seria “menos mal” Que as crianças continuam chorando, eu continuo aqui sem fazer nada, sem ganhar um salário mínimo, morando na periferia querendo ajudar minha família, meus contentamentos são sombras de desejos consumistas de uma classe média, perdoem-me todos, mas não posso ser parte deste mundo, não me sinto parte dele. Sinto-me maquiada para agradar a um fantasma que nem sequer conheço o rosto, sinto-me manipulada, sozinha, triste, não sinto pena de mim, só sinto um grande pesar, pois nada do que o mundo me dá trás contentamento, a não ser fazer coisas que independem da matéria.  O pior é que preciso do dinheiro, pra fazer a faculdade que quero mesmo sabendo que manipulam meu sonho, quando aprenderei quiçá, mais sobre a vida observando ao meu redor. Ajudaria a todos com o mesmo câncer que os mata.
Minhas idéias são muito além de linhas digitadas por um desejo altruísta, já que todas as boas idéias são corrompidas por mentes sagazes. Toda a hipocrisia exageradamente escondida, onde todos somos parte de um teatro sádico, quem nos manipula então? Senão nós mesmos? Presos em armadilhas que criamos.  Criamos uma prisão, perdemos a chave.
Não quero seguir estas regras de conduta, mas para viver neste mundo tão estranho tenho de me adaptar não é mesmo? Veremos até quando minha mente aceitará tudo isto.

Esse é um dos textos do meu antigo blog do qual fiz backup.

Carta para Deus (se é que ele lerá isso aqui)

Posted in Baú, Crenças, Memórias às 8:56 pm por Deborah Sá

::Sexta-feira, Janeiro 19, 2007 ::

Caro papai-noe…ops!

Caro Deus!
Espero que tenha bom humor!
Aliás, creio que se você existir deve ser bem legal…
Não é o que todos espalham por aí…
Que você torra todo mundo, criou um inferno…
Colocou alguém que ia contra seus ideais lá…
Deus…você joga The Sims?
Se você olha por nós…porque sofremos tanto?
Já que não posso proteger todos as crianças
Você pode fazer isso por mim?
Você me ajudou a passar de ano!
Mas porque não protegeu a morte do meu irmão?
Qual o seu critério para solução de preces?
Deus…
É justo aprisionar uma alma a um corpo?
Um corpo que ela não controla?
E que ainda será ele que determinará
Se a prisioneira merece paz ou um castigo?
Deus…
Você é sádico?
Se alguém não aguenta mais viver aqui…
Ela não pode acabar com tudo?
A bíblia veio por sedex?
Você não gosta de sexo?
Porque temos tesão?
Você é surdo?
Você é mudo?
Eu não tenho sensibilidade em te sentir?
E você?
Tem comigo?
Pra mim você não é santo
Você tem sentimentos bem humanos até…
Raiva, arrependimento, amor…
No fundo não acho que somos tão diferentes
Se eu nascer em outro corpo depois
Até me tornar perfeita…
Quando poderei ser perfeita se nem você é?
Se deseja me castigar por isso
Onde está o defendido livre-arbítrio?
Cada boca te prega de um modo
Em cada morte está feita tua vontade?
Viva sua roleta-russa!
E condene os que lutam pela liberdade

Solenemente
O pequeno pontinho aqui no universo
Deborah Sá

Esse é um dos textos do meu antigo blog do qual fiz backup.

Eu peço desculpa

Posted in Baú, Memórias tagged , às 8:42 pm por Deborah Sá

:: Quarta-feira, Junho 27, 2007 ::

Eu peço desculpa

Sinceramente eu peço desculpa
Eu não sou de todo obrigada
Mas assim fui educada
Talvez você não entenda
E talvez saiba melhor que eu
Mas lhe peço desculpa caro amigo
Eu peço desculpa por ser tão hipócrita
Eu peço desculpa por te fatiar
Eu peço desculpa por te dar tanto amor
E me corta o peito ver sua carinha sorridente
E me dói saber o quanto eu sou má
Sim, justo pra quem nunca me fez nada.
Eu sinto muito, mas eu nem sei como.
Acho que é mal da minha espécie
Eu não sei prolongar a paz
Eu não sei viver em harmonia
Eu consigo apunhalar as costas e achar bom
Sinceramente me desculpa
Eu não consigo ver sua carne temperada e não salivar
Eu não me sentiria tão mal em comer meu semelhante
Nem tão mal assim
Comer você me mostra o quanto não importa
Não importa que você sofra
Não importa que você sangre
Não importa que você grite
Não, não vou ouvir.
Eu não ouço o mendigo
Mas eu olho o cachorro
E ainda me chamam de insensível!
Não, o mendigo não é vagabundo.
Nem o cachorro
Mas o cachorro já foi meu amigo
Bah! Não aquele, mas outro!
O humano se corrompeu
O cachorro não
O cachorro vive da vontade dele
Ele vive talvez da melhor maneira
O cachorro é o impulso
E o homem é o medo
O cachorro é tão bonito na vitrine
Tão bonito que quase me faz chorar
Como um pôr do sol
Só que o cão eu posso tocar
Eu posso ganhar carinho e até me faz rir
O cão mais levado o mais inquieto
Este é o melhor cão
Mas preferem os castrados
E porque preferir estes?
Pois estes se transformam em humanos
O humano é um bicho castrado
E o bicho cão pula
E pede atenção
E o bicho homem está bravo
E bate no cachorro porque está bravo
E grita porque está bravo
E se o cachorro late bravo
O humano não gosta e manda calar a boca
E coloca uma focinheira que custou um trocado
Assim o bicho sossega e dorme
Depois o dono abre a geladeira e frita bife no fogão
Assiste a TV
Pra ver o mundo injusto não é preciso ligar a TV
Basta nascer

Escrito por: Deborah Sá

Esse é um dos textos do meu antigo blog do qual fiz backup. Em 2007 foi o ano em que me tornei vegetariana.

10 janeiro, 2013

Estar sóbria e sã me faz consciente para o que é sublime e material

Posted in Crenças tagged às 10:49 am por Deborah Sá

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Life of Pi é o primeiro filme comercial que tem como protagonista um não-branco vegetariano.  Aborda a espiritualidade de modo não convencional e profundamente respeitoso, tarefa difícil quando maioria das obras culturais recentes (e alguns cristãos) falam de fé como um rolo compressor. Essa fé pode ser exatamente como o capitalismo: Predatória, agressiva, colonizadora, esmagadora. Ao sair do cinema foi impossível não repensar minha relação com a transcendência, os animais e a própria espiritualidade. Meu ancião preferido na igreja era um veterinário de profissão. Lembro de uma exortação onde defendia que os animais não eram desprovidos de alma e que da sua forma, louvavam a Deus. No canto das baleias, no vôo dos pássaros, cada um deles entregava a Deus um tributo e ao morrerem, tal qual o corpo material seu espírito não-humano fenecia. Foi esse mesmo ancião que conduziu meu batismo anos mais tarde. Não acreditava que minha alma fosse mais ou menos nobre do que a de um cavalo ou pássaro. Se havia algo de divino em mim certamente havia neles, pois era perceptível nos olhos miúdos de um roedor que brilhava a mesma matéria da qual eu era feita. A poeira de estrelas, o universo na boca de Krishna. Ao pôr em foco os olhos de um animal não enxergava apenas um pedaço de mim mesma, uma expectativa ou projeção, via outro ser que poderia ou não, me amar de volta. Qual a relevância se os animais são capazes de pensar como nós, humanos? Ou ainda, se são capazes de amar na mesma intensidade que amamos? A realidade é que jamais poderemos mensurar do que e como são ocupados espíritos e entranhas, mesmo em nossos pares em espécie.

Não encontrei a transcendência dentro da religião (e olha que estive muito tempo dentro dela). Buscava amparo e amor, encontrei o medo e a culpa. As vezes em que experimentei um deslocamento entre mente e corpo foram em crises de ansiedade. Começava por uma angústia, seguida por suor, cabeça quente (sensação de ebulição), a visão desfocava, as pernas e braços desobedeciam, estava presa em um corpo rijo e desobediente em um alerta de perigo e terror. Busquei técnicas que me trouxessem de volta para a realidade, a primeira delas consistia em me concentrar e movimentar cada parte do corpo: Os dedos do pé, girar os calcanhares em movimentos circulares para dentro e para fora, continuar com os joelhos, os quadris e subir calmamente até a cabeça. Aprendi com a Yoga. A segunda maneira, conforme instruiu um psicólogo, era em fechar a mão em concha e dar leves batidinhas nos braços e pernas. Havia uma expressão na igreja que era “estar na carne”, que significa fingir a manifestação do espírito santo quando o que se diz e movimenta vem do próprio sujeito, usando o nome de Deus em vão, uma blasfêmia. A meu ver, não há meio de sair de nossos corpos e a pior das blasfêmias é o ódio, a agressão descabida sob os mais fracos, o berro. Os líderes religiosos que gritavam no púlpito e nos canais de TV da madrugada vociferando profecias de enxofre e ranger de dentes eram prepotentes, mesquinhos, sem qualquer elevação espiritual e sádicos. O medo do inferno e de Deus durou até eu perceber o quanto esse discurso de ódio não condizia com minha filosofia de vida. Abandonar a existência de Deus e consequentemente a crença na possibilidade de sua intervenção no curso da vida não impediu o contato com o sublime, a contemplação e a sensibilidade holística. Nas orações cristãs que antecedem refeições os presentes agradecem a Deus pelo alimento e saúde dos humanos, a gratidão nunca se dirige ao alimento, aos campos por serem férteis, a chuva pelo nutrir da terra, ao sacrifício do animal que jaz em pedaços. Talvez essa atitude seja explicada devido ao fato de que o respeito pela terra e a conexão com os animais sejam traços da fé não ocidental e de religiões pagãs. Na interpretação de muitos líderes cristãos, o que nos cerca pode ser tomado sem pedir licença, sendo o mundo um reino deixado pela divindade única que nos coroou como seus herdeiros para exercer domínio sob “inferiores” (não agraciados pelo sopro de vida do Criador).

Os momentos mais sublimes que tenho recordação são aqueles que estive diante de acontecimentos embebidos de beleza material. Como no dia em que cansada de uma rotina de trabalho desci do ônibus porque perto do parque vi um caminhão de morangos. Comprei uma caixa, me sentei na grama e com o sol se pondo comi com a visão de um céu alaranjado riscado de azul. Ou ainda, no dia quente em que após dar um banho de mangueira no Snoopy, com uma toalha em um dos ombros e ele nos braços, subi até a laje da minha avó e lá de cima avistei o céu muito azul. Com aquela sensação de formigamento que os raios solares fazem levantar na pele, estiquei a toalha no chão cinza, deitei e fiquei a deixar o sol bater enquanto o cão se sacudia e lambia meu rosto fazendo rir. Quando ele cansou, sentou sob duas patas e olhou para o horizonte com a ponta das orelhas ainda molhadas enquanto eu o observava em sua anatomia altiva e ensolarada. Senti que aquele era um momento de estímulos sensoriais variados, contemplação, que aquilo, era estar viva. Essas experiências não transcendem a matéria mas elevavam o espírito, portanto são sublimes muito embora não sejam místicas. Se não há qualquer garantia de que outros mundos ou dimensões nos aguardam após a morte, o que pode nos dar mais esperança do que a torrente sensorial e prazerosa que dispomos? Se essa é a derradeira jornada por que desperdiçá-la em dissabores e egoísmo? Estar diante das estrelas e reconhecer a pequeneza diante do universo em nossa fugaz existência com tudo o que coexiste nesse tempo breve, é uma dádiva. E no dia em que meu espírito repousar nos átomos que dançam pelos ares juntar-me-ei com toda a matéria que um dia foi tão ou menos sólida que meu peito.