19 dezembro, 2012

2012

Posted in Cotidiano às 8:49 pm por Deborah Sá

Em Janeiro meu cabelo estava laranja, além disso, juntei coragem e larguei o emprego, pois se entrasse na Faculdade seria impossível chegar na aula á tempo.  Pintei o cabelo de preto e fiz uma tatuagem, a mudança no cabelo foi porque secretariado era função que pedia visual mais formal, a tatuagem, era desejo antigo e eu precisava me adaptar para um novo lugar, não para me tornar um robô. Encontrei o trabalho, mas não me adaptei, nem me arrependi ao sair de lá em Abril. Entrei na Faculdade com um amigo na mesma sala, Elias. Andamos tão juntos que há quem pense que somos namorados. Penso que não apenas “ensapo” as mulheres que andam comigo, é mais provável que “enamoro” quem anda ao lado, pareço sempre um par, pareço sempre um amor.

Estourou a grande greve das Federais, participei de Assembléias,  Congregações (antes da Universidade, esses termos eram analogias pessoais a vertentes protestantes). Tive até coragem de falar algumas palavras naqueles microfones, vi discussões, acusações, picuinhas, tive de separar briga. No mesmo Abril, raspei por conta própria o cabelo dos lados, ficou bom. Em Junho, raspei tudo novamente, na zero, pra crescer por igual. Ainda está crescendo, não sei se terei disposição de deixar chegar até os ombros, até o momento está bem bonitinho. Começaram as aulas em Setembro, li muito.  Quando era difícil compreender, por mais de três vezes a mesma xérox. Pensei em largar Pedagogia e ir pra Filosofia ou História, porém, me encantei pelo curso. Em especial pelas matérias de Quarta e Quinta, além da minha PPP (Prática Pedagógica Programada), totalizando 6 matérias, ao invés de cinco. Fiz trabalhos em grupo (ás vezes no esquema Bloco do Eu Sozinho). Falo bastante na sala de aula. Pode não parecer, mas tenho de me esforçar pra falar diante de uma sala com desconhecidos, mas depois de começar, relaxo. É meu modo de aprender, fazendo perguntas pra ver se fiz correlações bizarras. Adoro estudar, participar, escrever, me sinto produtiva. A Universidade alimenta isso que tantas vezes foi tolhido, a sede de saber mais. No final a coragem/curiosidade fala mais alto e meto as caras pra aprender. Costumo apostar minhas fichas porque só saberei se acertei depois que passou. O que também passou foi o primeiro semestre,  não peguei DP, todas as notas foram maiores que sete. Estou orgulhosa não apenas pelas notas, mas pelo empenho, por não desistir dos meus desejos, por não baixar a cabeça. Por nunca ter concluído suicídio. Sou humana e obviamente já cogitei maneiras de por fim ao que parecia impossível suportar em tempos idos.

Sábado passado um rapaz da faculdade se suicidou no Centro Acadêmico. O conhecia “de vista”, me entristeci por sua morte, ele só tinha 20 anos, a idade da minha irmã. Isso é pesado e triste, não creio que quem se mata seja fraco, aliás, isso não me cabe. Cabe apenas o respeito por quem se foi, não importa como, nem quando, sei que o peso da dor pode ser imenso, para além do tempo de vida. Já sofri por pensar que não era digna de despertar amor e interesse, já me senti incapaz por não resolver uma conta de divisão. As dores deságuam nas metáforas que só a gente pode enxergar. Como semana passada, que vi decorações de Natal em garrafa PET e lembrei do meu avô. E doeu, voltei pra casa chorando. Ele fazia esse tipo de coisa, artesanato em garrafa pet, aquele homem bruto que me fez mal tinha a delicadeza de um artesão,  isso me machucou. Lembrar desse ocorrido é um nó que nunca vai me abandonar, sei que não. Sou marcada, uma criatura marcada como tantas outras. A gente não se cura de uma cicatriz desse tamanho, aprende a lidar, as memórias podem nos atingir como uma onda inesperada, fazendo engolir a água salgada de lágrimas. Eu tomei um caldo, porque faz parte do ofício de viver. Ás vezes ainda sinto remorso quando isso acontece em público, quando alguém me vê vulnerável nesse estado, mas tento me perdoar porque é cada vez mais raro essa dor grande e desesperadora, nesse caso tudo que precisei foi de um bom banho quente, ir pra academia. Let it be.

Ir pra academia tem me feito muito bem, ás vezes a endorfina bate forte ao ponto de sorrir toda suada em cima da esteira, meu aparelho preferido é a bicicleta elíptica porque faz dançar. Mover o corpo dá uma sensação de centralidade, de colocar as coisas nos eixos.  Ocorreram fatos inéditos: Escrevi alguns textos a pedido da Carol Adams (o que é uma honra). Consegui uma bolsa auxílio transporte na faculdade. Escrevi para o Blogueiras Feministas e ganhei “A Política Sexual da Carne” de presente. O número de visitas no blog aumentou consideravelmente (o número de visualizações diárias pulou para 250) e teve seu dia mais agitado (1528 no dia desse post). Destranquei meu twitter. Fiz novas amizades. Criei um tumblr chamado “Veganismo Popular”. Minha mãe se formou. Troquei correspondências com a Carla. Comecei a ler Harry Potter  e já estou no sexto livro (me identifico horrores com a Hermione). Comprei o livro da Nádia Lapa, ganhei uma dedicatória e um abraço. Li “Como ser mulher” e achei divertido, com ambos os livros é possível chegar a conclusão que nem toda produção feminista precisa ser sisuda e acadêmica. Descobri Tofutti, um sorvete de tofu divino, o primeiro que provei foi pago pela Ágatha, uma moça que parece muito comigo fisicamente, mas faz exatas e toca Cello. Minha irmã está morando com seu companheiro e uma amiga, eles adotaram quatro gatos. Feministas e demais mulheres ao meu redor começaram a ter filhos e parecem muito felizes, conseqüentemente isso me trás contentamento. Mais algumas pessoas entraram em contato pra perguntar dicas de como serem veganas. Passei a tirar mais fotos sorrindo (antes, achava que meu sorriso em fotografias deixava com cara de boba). Misteriosamente comecei a achar gengibre um tempero interessante e tenho arriscado usa-lo. Meus exames de saúde nunca foram tão satisfatórios (a médica do SUS disse que foi um dos melhores exames que ela já teve em mãos). Larguei dois empregos pra me dedicar a vida acadêmica. Hoje fui ao Sesc e passei um dia agradabilíssimo com minha mãe, além de ganhar um maiô vermelho lindo. A relação com meu pai continua boa, com a minha irmã idem. Meu companheiro, Yuri, continua sendo aquele lindo que me acolhe, ama e incentiva como deve ser. Ainda não “aprendi” a usar vírgulas e pontuações de forma gramaticalmente esperada, nem sequer me importa engolir essas vez por outra, mesmo que seja pra refazer, reinventar e reordenar tantas vezes quanto for necessário o pensamento, a escrita . É ótimo saber que não há nada de errado comigo, que o importante é dar voz aos dedos, dar força aos passos, dar leveza ao toque, para deixar o que há de vir, devir.

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11 dezembro, 2012

Eu me apaixono o tempo todo

Posted in Cotidiano às 10:01 pm por Deborah Sá

Procurava um exemplar na livraria, me aproximei do vendedor, vi um senhor:
Eu:  – O Sr. Está na fila?
Senhor: – Mais ou menos, o rapaz já está me atendendo, mas pode ser a próxima, ele é rápido.
Eu: – Obrigada.

Enquanto isso um sujeito passa na minha frente, pergunta, é respondido e saí.
Atrás dele surge João Gabriel Vasconcellos (pra quem não sabe, ele é pra mim, belíssimo). Fico com cara de trouxa.

Senhor: – Viu o que dá em ser educada como você? Vem um espertinho e passa na frente.
João Gabriel Vasconcellos: *olha pra mim*
Eu: … *olho pra ele*

Penso em uma fração de segundo:
“Meu Deus, que homem lindo, ele está olhando pra mim, ele está olhando nos meus olhos, mas que lindo que ele é! Não é muito mais alto que eu. Estranho, não me sinto ameaçada. Ele parece humano como eu, não me sinto inadequada diante de tanta beleza. Na verdade, se ele estivesse em uma mesa de bar bem capaz que eu me aproximasse…Caramba, melhor desviar o olhar! Ele deve me achar uma maluca.  Droga, minha cara está quente.  Cacete, está com a namorada, olha pra baixo. Deborah, disfarça!”:

Falo com o vendedor: – Boa noite, com licença, você poderia por favor, me informar onde fica a sessão de HQ e Comics?

Depois da resposta percebi que o local estava cada vez mais cheio e fui embora. Queria ler lá dentro, mas não havia onde sentar. Já valeu a noite trocar um rápido olhar com um homem muito bonito e encher minha cabeça de pensamentos. Pensei em como a beleza às vezes é admiração em segredo, daqueles breves flertes no metrô com a moça que sorri de volta, a atendente do cinema com piercing na boca, o rapaz de cabelos cacheados e olhos castanhos que passa por mim enquanto atravessamos a rua, eu me apaixono o tempo todo. E há uma pontada gostosa em imaginar, será que nesses breves segundos me amam de volta?

5 dezembro, 2012

Humor politicamente correto?

Posted in Filmes, Gênero tagged , , , às 1:42 pm por Deborah Sá

Meu amigo Elias, recomendou o ótimo documentário sobre humor: “O Riso dos Outros”. Comediantes, cartunistas e ativistas falam sobre os limites e formas de elaborar o humor.

Ao terminar lembrei imediatamente de um texto de 2009 que gosto muito, do Antônio Prata (que também está no documentário):

PC

O politicamente incorreto está na moda nos meios de comunicação. (Fora deles, não, pois não pode estar na moda o que nunca caiu em desuso). Colunistas, jornalistas e blogueiros enchem o peito e, como se fossem os paladinos da liberdade de expressão, desancam os movimentos sociais, o feminismo, maio de 68, os quilombolas, os índios e tudo mais que tiver um ar de correção política ou cheire a idéias de esquerda. Tá legal, eu aceito os argumentos, mas não levantem as vozes tanto assim: não há ousadia nenhuma em ser politicamente incorreto no Brasil; aqui, a realidade já o é.

Imagine uma escola religiosa na Dinamarca. Flores nas janelas, cheiro de lavanda no ar, vinte alunos loiros, com cristo no coração e leite A correndo pelas veias, respondendo a uma chamada oral sobre o Pequeno Príncipe. Ali, o garoto que se levantar e cuspir no chão será ousado. Mostrará que a despeito do aroma de lavanda, o ser humano é áspero, é contraditório, é violento. Quando a realidade fica muito Saint-Exupéry, é importante que surjam uns Sex Pistols para equilibrar. Agora, cuspir no chão de uma escola municipal em São Paulo, diante da professora assustada que não consegue fazer com que os alunos, analfabetos aos dez anos, fiquem quietos, não tem nenhuma valentia. Quando a realidade da polis é o caos, o som e a fúria são a correção política.

O sarcasmo dirigido aos intelectuais de esquerda seria audaz e iconoclasta caso o Brasil tivesse vivido de 37 a 45 e de 64 a 85 sob as ditaduras de Antonio Candido e Paulo Freire. Se antropólogos de pochete e índios com camisa do Flamengo estivessem ameaçando o agronegócio, devastando lavouras de soja para plantar urucum e cabaça para fazer berimbau. Se durante o carnaval as feministas pusessem no lugar da Globeleza drops de filosofia com Marilena Chauí e Susan Sontag. Se a guitarra elétrica fosse banida da MPB pela banda de pífanos de Caruaru. Do jeito que as coisas são, contudo, o neoconservadorismo faz sucesso não porque choca a burguesia, ao cuspir no solo de onde brotam seus nobres valores, mas porque assina embaixo da barbárie vigente – e ri dela.

Nos EUA, o politicamente correto está tão entranhado nas relações que eles até o chamam pelo apelido: PC. Aqui, as duas letras ainda nos remetem ao tesoureiro do Collor, o ex-presidente que caiu após escândalos de corrupção e apareceu na capa dos jornais essa semana depois de ser eleito para chefiar uma comissão no senado. Enquanto não substituirmos um PC pelo outro, em nosso imaginário e nas manchetes, quem quiser cuspir no chão pode continuar cuspindo, mas deixe de lado esse tom varonil de quem está pegando touro à unha, quando não faz mais do que chutar cachorro morto.