28 novembro, 2012

Comida de criança é enlatado e fritura?

Posted in Animais, Consumo, Infância tagged , às 9:42 am por Deborah Sá

Vi um vídeo que gostaria de compartilhar com vocês, é a palestra de um garoto de dez anos chamado Biel Baum. Ele reflete sobre a comida que oferecemos para as crianças e defende que cozinhar não deveria ser um privilégio de adultos. Tal tarefa pode ser divertida e variada, bem como a comida de uma criança pode ser mais que macarrão, nugget e batatinha, além de abordar a influência das gigantes corporativas na alimentação, Biel também fala sobre sua decisão em se tornar vegetariano.

Como alguns de vocês que acompanham o blog bem sabem,  defendo um Veganismo que leve em consideração as questões de classe e desigualdade social. Não adianta defender que o Veganismo é para qualquer um quando tanta gente ainda passa fome. O garoto do vídeo foi criado em uma família com dinheiro, ele faz viagens internacionais, tem condições de comer orgânicos todo dia.  Nunca viajei de avião e sequer saí do país, nesse momento em que escrevo não há um único alimento orgânico em minha despensa ou geladeira. Me tornei Vegana em 2007, se você é novo por aqui e deseja saber mais sobre dê uma olhada no F.A.Q Vegan ou nos arquivos do blog.

Estou cansada (de verdade) de ver o discurso de alguns membros da  esquerda que desdenham da empatia de quem nasceu em família de classe média ou mais endinheirada. Karl Marx? Nasceu em família de classe média e com pai advogado. Simone de Beauvoir? Uma acadêmica também com pai advogado. Nem por isso a gente desdenha das idéias dessas pessoas e da sua contribuição na mudança de percepções sobre as estruturas. Há quem defenda que os valores da cultura dominante não deviam ser ensinados na escola , que só os oprimidos deviam produzir o próprio saber. Concordo que é classista falar que a única forma de cultura legítima e boa é aquela que se vê na TV Cultura e nos Sarais de Poesia da Av. Paulista, a periferia também faz sarau, também faz poesia, também faz crítica social. Sem contar que o país é muito mais que o eixo Rio-SP. Educadores  de escolas públicas não precisam fazer o esforço de privar o acesso a cultura dominante (por cultura dominante me refiro aos costumes e normas cultas), seus alunos já são privados dela por morarem em bairros longe do Centro, por um Histórico Escolar sem prestígio. Aposto no oposto, na contramão, as pessoas devem ter acesso a produção intelectual porque são capazes de compreende-la e fazer uso dela. Não é só a pessoa com diploma que pode contemplar a solidão e a pequenez diante do mundo. Quando um caminhoneiro experimenta a melancolia da estrada vendo a vida passar na noite estrelada e silenciosa ele experimenta uma sensibilidade disponível para maioria de nós.  Isso me leva crer que não só é possível levar o debate do vegetarianismo/veganismo para mais pessoas como fazer o contrário é subestimar a capacidade alheia de se sensibilizar e tomar partido.

Se é possível obter água cavando o chão, se é possível enfeitar a casa, se é possível crer desta ou daquela forma, se é possível nos defendermos do frio ou do calor, se é possível desviar leitos de rios, fazer barragens, se é possível mudar o mundo que não fizemos, ou da natureza, por que não mudar o mundo que fazemos: o da cultura, o da história, o da política? Paulo Freire (2000)

12 Comentários

  1. Mara said,

    Parabéns por sua reflexão. Bjs

    • Deborah Sá said,

      Obrigada :)

  2. Michele Piacente said,

    Admiro a sua sensibilidade e otimismo. Está coberta de razão…ler seus textos sempre me tira do pessimismo da minha covardia.
    =)

    • Deborah Sá said,

      Sua linda <3 Eu também te admiro muito :)

  3. Ághata said,

    Que garoto fofo!!
    Muito legal o vídeo!!

    Seus posts são sempre otimistas, Deborah! Isso é tão bom!

    • Deborah Sá said,

      Uma graça, né?
      Muito obrigada :D

  4. Bi said,

    Muito bom o texto! Obrigada por compartilhar o vídeo :)

    • Deborah Sá said,

      ;)

  5. Raíssa Kellermann said,

    Nossa, amei esse post. Vendo o vídeo me lembrei que quando era criança eu tb gostava de cozinhar (agora eu não gosto mais hehehe), outra coisa é q eu nunca senti vontade própria de comer carne, nunca gostei muito, tinha arrepios de entrar em açougue, odeio o cheior e o gosto, e ficavam me obrigando a comer e eu achava q eu estava errada, mas não conseguia gostar. Acho q achavam ainda mais estranho pq muita gente nunca tinha ouvido falar de alguém q não comia carne nem sabia que alguém “podia não gostar” disso, pq aqui no Rio Grande do Sul carne é uma coisa muito importante pra um monte de gente.

    • Deborah Sá said,

      Raíssa,

      Esse valor cultural é fortíssimo, a minha prima também não gosta de comer carne desde pequena :)

      Eu ainda gosto de cozinhar :)

  6. Sabrina Campos said,

    Olá Débora! Gostei muito do seu post ;) Sou a mãe do Biel Baum. Só tem uma ressalva: nós não somos uma “família com dinheiro”. Fazemos intercâmbio de casas, não gastamos em plano de saúde, não temos carro, só utilizamos saúde pública, o Gabriel é homeschooler (ou seja, menos um gasto com escola), reciclamos todas as nossas coisas e viajamos pelo mundo com 3 malas e 2 mochilas. Somos uma família de 5 pessoas. Simplesmente escolhemos que a nossa prioridade não é o consumismo desenfreado. Portanto, no que geralmente qualquer família de classe média gasta (plano de saúde, escola, carro, prestações pra ter uma tv de plasma) nós não temos… O Gabriel consome orgânicos porque recebe doação de alimentos orgânicos das empresas, em troca de publicidade no seu programa. O patrocínio em $$ doamos completamente para 4 ONGs no Brasil e em Camarões. Fazemos escambo de quase tudo.
    Existem muitas maneiras de ter o melhor da vida e do mundo. Uma delas é abdicar do conforto ou do consumo-ocidentalizado. Essa é a nossa escolha e compartilhamos tudo o que temos: tempo, talentos, serviço voluntário, críticas ao sistema, alimentos, $, tudo.
    Um abraço grande e um ano cheio de sonhos bonitos para realizar!
    Sabrina

    • Deborah Sá said,

      Olá, Sabrina!
      Que bom que gostou! Sinta-se a vontade para participar com comentários ;)
      Presumi que levavam uma vida com “mais dinheiro” pelas viagens que fazem, para isso é necessário falar inglês e ter um capital cultural diversificado que a maioria das pessoas não tem acesso (tive de procurar no Google o que era “homeschooler”). Não significa que sua família seja “rica”, mas para os parâmetros da maioria dos brasileiros vocês tem acesso a bens culturais atípicos, é uma espécie de privilégio (não do tipo de privilégio que um filho de celebridade tem, mas mesmo assim, um privilégio). Tal qual o fato de eu ser branca é um privilégio na sociedade racista em que vivo, dá mesma forma que ser humana dá uma série de privilégios que não-humanos não possuem. Isso não invalida de forma nenhuma a ampla variedade de atitudes bacanas que vocês adotaram (pelo o que me falou e porque imagino que sua família seja disposta e empática), aliás, meu esforço no post foi reforçar que devemos prestar atenção no que é dito, tentar entender o discurso antes de julgar ou atacar as pessoas por trás dele. O importante é reconhecer nossos privilégios e construirmos uma sociedade mais empática, e ao que tudo indica, isso faz parte do seu modo de vida.

      Um abraço grande para você e sua família (e um especial para o Biel ;))!


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