20 novembro, 2012

Vários dedos de raiz

Posted in Corpo tagged , às 9:34 pm por Deborah Sá

Minha primeira Barbie era negra, uma moça da igreja me deu de presente de aniversário. Por crescer na periferia era mais do que natural conviver com pessoas negras, vivíamos na casa dos fundos de aluguel para uma mulher com seus dois filhos, também negros. No ambiente escolar a minoria era branca. Lembro de uma casa que eu adorava visitar porque era muito maior que a nossa, tinha um limoeiro no quintal e os meninos do casal tinham um carrinho desses que parece um pedalinho por dentro, queria muito dirigir, mas o menino dono do carrinho só me deixava andar de carona e como comportada que era, aceitava. Eles tinham a pele muito bonita, a família inteira, negra.

Na terceira série minha melhor amiga (negra), tinha o cabelo comprido e todo trançado, eu achava divino o modo que as tranças moviam com seu caminhar, seus olhos eram pretos, redondos e grandes como jabuticabas, seu sorriso largo e luminoso, ela era mais alta que eu, esguia.  Pode apostar que se me perguntassem como eu gostaria de ser, seria como ela. Acho que nunca disse o quanto a admirava. Fiquei triste em anos mais tarde vê-la na lotação com os cabelos escorridos. A avó do meu pai era Italiana, veio para o Brasil de navio tentar a sorte e claro, era muito pobre. Tem gente na minha família (uns reacionários do interior de SP) que chamam fulaninhos como nós de “gente que não tem o sangue puro dos Henrique”,  fazendo questão de lembrar que minha avó tinha Aparecida com dois P no RG. Meu pai foi um adolescente com um pôster da Donna Summer no quarto, minha mãe é uma Pernanbucana de Lagoa do Ouro que veio pra SP ainda muito pequena. Algumas pessoas da família da minha mãe acham muito bacana ter sobrenome de Português. Ao final, meus dois sobrenomes são de origem Portuguesa,  trago a mistura de muitos locais inclusive da colonização primeira.

Na igreja ou entre familiares era de praxe ouvir um comentário mais ou menos assim “tomara que seu filho puxe o avô/tataravô/de olhos verdes/azuis”, lembro de garotas usarem lentes de contato que imitavam essa pigmentação, algumas alisavam o cabelo com ferro e perdi as contas de quantas vi com um risco na testa por esbarrar em uma chapinha muito quente. Foi na escola que descobri que em determinado período da história do país negros eram açoitados. Impressionada com as figuras nos livros didáticos fui perguntar para o meu pai se aquilo era mesmo “de verdade”, ele confirmou. Pasmei. Tudo o que remete aos traços negros ou características de pessoas negras sempre me pareceu empoderador. Os cabelos e penteados,  a voz grave, os lábios grossos, o porte altivo, para ser bem sincera desde muito pequena acho a negritude majestosa, negras e negros parecem reis e rainhas.

Já raspei a cabeça na zero muitas e muitas vezes, absurdo é abrir mão do privilégio do cabelo-de-branca, como se no meu cabelo estivesse tudo o que sou, como se todo meu amor, meu corpo e minha capacidade fossem embora tal qual Sansão, a tesoura-Dalila aparentemente só enfraquece fios lisos. Quanto aos meninos negros embora não recebam formol ou passem por chapinha e escova aos seis anos (há meninas que passam por isso ainda mais novas), não vêem os cabelos encaracolarem, descerem dos ombros, virarem um rabo de cavalo. Há homens que nunca deixaram os cabelos crescerem, eles não sabem nem qual é o formato de seus cachos, se grandes e espaçados, se pequenos e próximos. No Ensino Médio durante o intervalo dezenas de garotas se espremiam na pia para passar mais creme de pentear nos cabelos e em seguida colocavam uma faixa para esconder suas raízes, é exatamente isso que o racismo exige de negras e negros: O disfarce como pedido de desculpa por existir, o encobrir de toda raiz.

Sei que meninas entram aqui no blog procurando “formas de ser branca”, “como clarear a minha pele”, “quero ser branca” . Se for o seu caso acredite, você é linda! Você não precisa alisar o cabelo pra ser amada, não precisa ter olhos verdes pra despertar amores, você não precisa clarear e apagar sua pele, sua história! Você é belíssima! Seu cabelo não é ruim, ele não faz mal para ninguém, ele precisa ser cuidado com carinho e não com raiva, ele é macio e cheiroso, triste é aquele que nunca acariciou algo tão macio e fofinho feito nuvem. Espero que um dia esses desafortunados sejam capazes de perceber quão bonitos são braços e pernas entrelaçados em outros tons.

Blogagem Coletiva Mulher Negra 2012

27 Comentários

  1. Charô said,

    Obrigada Deborah por colaborar com a gente. Ainda mais você que sempre fala sobre isso. Suas palavras sempre tão gostosas pra quem quer e precisa se amar… <3

    • Deborah Sá said,

      Por nada, querida <3

    • Lindo e forte seu texto! Tenhamos orgulho do que somos. Seja negro, branco, pardo, indio. A nossa raiz, a nossa verdade tem que ser transparente, isso nos torna lindos! Nossa diferença é o que temos de mais belo. Não esconda isso. Permita-se ser!

  2. Carol Flor said,

    Odeio esse mundo que vai tentar convencer minha filha que os cachos dela são errados.

    • Deborah Sá said,

      :)

  3. Ághata said,

    Lindo o post, Deborah!

    • Deborah Sá said,

      Obrigada :D

  4. Incrível seu texto!
    Tão cruel que o pensamento reacionário, preconceituoso e conservador ainda faça com que milhares de pessoas considerem-se feias e inferiorizadas por causa de seu cabelo e sua cor!

    • Deborah Sá said,

      Obrigada, Verônica :)
      É mesmo absurdo, convencer alguém que ela é incapaz por causa da aparência!

      Um abraço

  5. Raíssa Kellermann said,

    Eu também tive uma melhor amiga na escola que era negra, ela era linda, tinha um rosto de boneca e os cachos largos, eu amava o cabelo dela ainda mais quando soltava, ela gostava do meu (liso, sem forma, totalmente xoxo). Um dia cansada de dizer q o cabelo dela sim q era show eu disse: vamos brincar assim, eu arrumo seu cabelo como se fosse meu e vc arruma o meu como se fosse seu. O cabelo dela eu só soltei o meu ela prendeu só a parte de cima para trás. Ela não gostava que eu dissesse que ela era negra ficava ofendida, preferia ser chamada de morena. Eu concordava sem entender pq era feio ser negra.

    • Deborah Sá said,

      Lamentável o que a cultura do auto-ódio faz…

  6. Natália said,

    Ai, arrepiei. Levei muito tempo pra enxergar essas coisas. Cheguei a me odiar por ser o que sou. Pessoas como você e como a Simoni (do balão mágico) são achincalhadas todos os dias por ‘gostarem de negros’. Triste, mas é preciso manter-se nas convições. Passei a usar meu cabelo ‘in natura’ e senti q mudei a rotina do meu escritório! Isso apesar de cabelo liso significar elegância (pelo menos foi o que eu vi num comercial de chapinha) e cabelos cacheados indicarem pobreza e desleixo.
    As mulheres daqui, estão deixando seus cabelos mais naturais, recebi elogios…mas mesmo que não recebesse é assim que eu gosto de ser….hoje.

    • Deborah Sá said,

      Natália,

      Que legal! É tão bom quando nos aceitamos, não é? E pode acreditar, isso pode ajudar outras pessoas (e pelo visto já está acontecendo) a se amarem também!

      Beijos!

  7. Namisi said,

    Oi Deborah, tudo bem?

    Já tem um tempo que eu leio o teu blog, mas sempre fiquei na vergonha de comentar. Mas hoje vim ver o teu blog e achei esse post, tão lindo e sincero que tive que dar o meu parabéns! A situação do negro no Brasil ainda é muito difícil e (eu sinceramente acho) a questão da aceitação vai demorar pra acontecer. Seja na relação entre negros e brancos, mesmo que no final sejamos todos mestiços, ou entre o próprio negro que nem sempre se aceita e simplesmente reproduz todo aquele aprendizado negativo que passam pra gente. Mas quanto mais textos lindos como o teu melhor!

    Beijo

    • Deborah Sá said,

      Namisi,

      Concordo com você, há um longo caminho, mas devemos contruí-lo :)
      Obrigada pelos elogios e pelo comentário, sempre que quiser sinta-se livre para opinar!

      Beijo!

  8. Regiane said,

    Texto lindo!
    Não aliso, quando faço isso percebo que não faço apenas uma escolha estética, mas também politica e ninguém vai me convencer que isso é feio, inadequado ou errado.
    Eu sou uma negra e meu cabelo é bom!

    • Deborah Sá said,

      Exato!

  9. Nathy said,

    Me emocioneii, que liiinda forma de escrever, que linda história.

    :)

    • Deborah Sá said,

      Obrigada, Nathy!

  10. Phê Brito said,

    Reblogged this on Blog da Phê Britoe comentado:
    lindo texto da Verônica Neves

  11. Nath Rodrigues said,

    Fiquei comovida!!
    Foi um pouco da minha infância. Vivia querendo ser lisinha, chapadinha e tudo mais que pudesse não parecer que tinha o cabelo crespo. A sociedade é cruel com as crianças! Ensina-as que é natural não serem elas próprias…
    Sempre guardei em mim a vontade de liberdade, ainda que medrosa, ainda que velada. Um dia, com quê e porquê, ela desabrochou em mim!!!
    Nunca fui tão feliz e segura sendo eu mesma!!!

  12. Carol said,

    Amei seu texto, uma grandeza em sentimentos…
    Já algum tempo aprendi a valorizar e amar a
    tonalidade de minha pele… E amo meus cachos!

  13. Heloisa said,

    Muito lindo…
    Parábens

  14. Maravilhoso, seu texto, colei um trecho e quero por na minha pg face, com os devidos créditos, claro,posso?

    • Deborah Sá said,

      Claro, obrigada :)

  15. Rebeca said,

    Nuus adorei a reportagem..realmente infelizmente temos essa mania antes impressa na mídia…ouvi também muitos comentários de mães negras e com país negros dizendo:’aí se tudo der certo,ele vai nascer como o tataravô,branquinho dos olhinhos verdes’…
    como se ter cabelos crespos,olhos pretos,nariz achatado,lábios grossos fosse um defeito!’
    E pasmem,ouvi dizer de pessoas mais velhas que no momento me elogiavam pela minha educação e gentiliza:’você é uma ótima pessoa é tão legal e tão boa que só faltava ser branca’…fiquei sem reação!
    por isso que infelizmente por isso temos a tendencia: de afinar o nariz com muita maquiagem,alisar os cabelos até cansar,chapinha todo dia,e lentes de contato,pois nascemos com isso que eramos feios…incrível depois de tanta luta,depois de tanto esforço e séculos de escravidão eramos para ser carregados no colo ou melhor sem diferença dos demais!Eu ainda não tive coragem de me render aos blacks,mais em breve com certeza,essa vida de chapinha e escova não dá para aturar por muito tempo kkkkk

    • Deborah Sá said,

      Rebeca,

      Lamentável esses comentários que ouviu! Acho que o black valoriza todo tipo de rosto e dá uma empoderada no visual!

      Um abraço,


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