10 novembro, 2012

Está ouvindo os gemidos? São da engrenagem

Posted in Corpo, Sexo tagged , , às 6:04 pm por Deborah Sá


Das primeiras fantasias sexuais que me recordo, embora os cenários variassem, uma coisa era certa: Sentia tesão em imaginar alguém com tesão em mim. O que transformava qualquer material pornográfico em algo monótono e completamente sem graça. A fantasia era tátil, demandava olhar sincero, mãos firmes, corpos entrelaçados, cheiros, línguas, deslizes, sorrisos maliciosos, a imprevisibilidade, o frio na barriga.

Uma vez no Multishow de madrugada vi uma mulher em salto alto com as pernas abertas se esfregando em um pneu gigante (de caminhão?), como se a agonia não fosse o bastante, ela puxava e torcia os mamilos com a mesma emoção de quem lava uma louça, a diferença é que ela mordia os lábios e parecia raivosa. A cara dela não era de prazer, era tédio misturado com raiva e não entendi como alguém poderia se excitar com uma pessoa visivelmente insatisfeita. Nos sites de vídeos pornográficos, uma busca rápida por sexo oral levará a milhões de picas de caras feios igualmente raivosos, só que xingando. A impressão que dá é que nenhum deles parece feliz na cena, mas ao menos o cara extravasa com gritos enquanto a mulher só pode gemer e se beliscar. Masturbação feminina é coisa patética de se ver nesses sites, pra começar o que são aquelas unhas gigantes? E aqueles tapinhas na buceta? E a voz masculina comandando toda a ação mesmo quando são duas mulheres? E os gemidos mais forçados do que o sorriso que se dá para o chefe quando na verdade gostaríamos de mandá-lo pro quinto dos infernos? Porém, quando assumo que sou anti-pornografia a primeira acusação é de que sou frígida, anti-sexo, sex-negative, como dizem alguns.

Vamos às considerações básicas: A publicidade tem por função vender, se o produto é novo cria-se a necessidade dele, inventa-se um problema antes imperceptível, dá-se um jeito, o consumidor precisa ter certeza de que a vida dele não será mais a mesma se não tiver uma câmera com duzentos megapixels, um sabonete íntimo ou o novo boné de grife. Pela perspectiva histórica ou social também é crível admitirmos que os valores e conceitos modificam-se com o passar tempo. Somos seres culturais condicionados desde muito cedo, você não escolhe em que família nascer, o mundo já é mundo quando surgimos e nem pode-se desejar o que nunca foi apresentado como possibilidade. Não se pode vibrar com o Quadribol antes de Harry Potter, só desejamos e queremos o que sabemos que existe, ou o que nos dispomos a inventar.

A pornografia dita comportamentos e cria expectativas por isso mesmo é um prato cheio para as frustrações. Sabe a história de que mulheres lêem muitos contos de fada e esperam príncipes encantados se esforçando pra serem “princesas”? A atriz pornô encarna a “princesa encantada” de muitos homens, só que ao invés de estar montada em um cavalo branco está montada em um pau enquanto chupa outro. O que leva o sujeito a pensar que tem “algo de estranho” com sua parceira se aperta os mamilos dela como botões esperando que saia algo dali (um orgasmo barulhento) mas nada sai. Na pornografia não-hétero essas referências ativo/passivo também se manifestam aos montes e atire a primeira pedra quem nunca viu a mesmíssima reprodução de expectativas em casais de lésbicas e gays.

Após Linda Lovelace ser estuprada e espancada para fazer o filme Garganta Profunda, cafetões levavam suas prostitutas e namorados levavam suas namoradas para aprenderem como imitar a atriz. Reconheço que nem toda atriz passou por esse calvário, por ora, meu ponto é tão somente esse: É uma indústria que carrega forte caráter pedagógico de sexualidade normativa e como todo produto cultural, definitivamente não é neutro. Pelo bom senso, parem de sacralizar a pornografia e tirem dessa redoma inquestionável. Pornografia não surge do vácuo, não é o Santo Graal, não é sinônimo de sexo, é a apropriação e representação capitalista do erótico, é a mecanização em uma espécie de paralelo com a Revolução Industrial.

A Revolução Pornográfica converte a encenação sexual em saber sexual, por exemplo, quando se sugere para alguém que fantasie algo que não envolva os genitais, a cara é de total espanto porque esse saber foi depositado na pornografia, parafraseando a bíblia “Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim”. Concordar com isso é assumir que o prazer é tão complexo e burocrático que somos incapazes de exercer reflexão e criatividade, de inventar. Um produto com um marketing tão bem sucedido que se transformou em sinônimo de sexo.

A pornografia é o controle dos corpos, o que se deve, como e onde fazer. E não pense que isso faz das novas gerações mais esclarecidas, garotas ainda não são estimuladas a conhecer o próprio corpo, garotos aprendem de forma muito restrita sobre corporeidade e lésbicas são abordadas por sujeitos desagradáveis que acreditam que elas precisam de um pinto. Quem encara a pornografia como um enunciado de “sua primeira vez” tem grandes chances de se decepcionar, seja do que se espera do próprio corpo tanto quanto do corpo de quem se relacionará: Fluídos apoteóticos, posições que disfarçam “defeitos”, palavras de ordem que mais parecem a moça do Google Tradutor… A pornografia é como um álbum de fotos de uma rede social onde o importante é parecer feliz, na prática significa que é mais urgente tomar viagra e impressionar do que admitir que algo não anda bem, é mais essencial pagar mais de cinquenta reais em uma lingerie e fingir o orgasmo do que ter coragem de sugerir que a pessoa te toque de outra forma, ou ainda, que você está muito carente e só queria mesmo um abraço. A masturbação que pode ser incrível e divertida se reduz ao tédio de quem vê do outro lado da tela opaca seu reflexo mecânico.

Esse post faz parte da Blogagem Coletiva Anti-Pornografia

19 Comentários

  1. Raiza said,

    Excelente Deborah! Vou compartilhar seu texto em todo lugar! Obrigada por participar.

    • Deborah Sá said,

      Obrigada :)

  2. Vivi said,

    Masturbação feminina com aqueeeelas unhas enormes é algo que chega a ser bizarro…..rs.
    Sobre o texto, gostei bastante, imagino a “qualidade” do sexo baseado nestas encenações de filme pornô..triste na verdade…

    • Deborah Sá said,

      De fato, é muito limitado.

  3. Pili said,

    Eu sou da mesma opinião!!!!! Mas fico em dúvida ás vezes sobre me declarar anti-pornô porque sei que o problema não é a pornografia. O problema é esta pornografia. Enfim… você acha plausível que uma outra forma de produção e exposição pornográfica possa ter impacto cultural positivo? (No sentido de disseminar informação sobre a diversidade de corpos, práticas, interesses, etc)
    Eu mesma acho super possível. E há vários exemplos bem sucedidos. Acho que o mais famoso seria ericalust, mas há muitos por aí.
    …Mas aí volto a me perguntar: por quanto tempo? explico:
    A atual indústria pornô nos mostra claramente esse fenômeno do tédio, uma vez que os produtos são aceitos e incorporados no desejo dos indivíduos e das massas. Sendo portanto necessário superar os conteúdos expostos, de forma que eles sempre tragam algo inédito que atraia a atençao do público, ou que cause algum impacto a mais para tirar os consumidores daquele tédio com o material anterior. Enfim, a novidade! Seja estéticas inéditas, cenários, contextos, adereços, práticas, etc. Essas inovações por sua vez também se tornam comuns, aderidas pela maioria, e o impacto que elas produziam quando eram novidade deixa de ser tão forte. É necessário superar novamente.
    Acontece que, para a indústria poder se manter como detentora hegemônica deste conteúdo a ser vendido, a velocidade com que ela precisar expor algo novo é muito maior que a velocidade de seus trabalhadores fingirem novas possibilidades. Portanto a indústria vai buscando sempre algo novo, algo a mais, desenfreadamente. Mais velocidade, força, quantidade… E mais rapidamente do que os seus próprios consumidores são capazes de assimilar. Porque se eles assimilarem, pronto, já será necessário correr pro próximo limite novamente. A indústria tem uma necessidade predatória de extrapolar as possibilidades do sexo. E como se trata de um produto simbólico (que não é sexo nem prazer de verdade) ela ainda conta com a possibilidade desleal de extrapolar as barreiras reais do sexo, inclusive as barreiras físicas.
    Ou seja, os pornógrafos seguem um processo fatal de brutalização: dos corpos de quem participa dessa produção; do desejo de quem compra esses produtos; e do sexo em si em larga escala na sociedade (uma vez que a pornografia não afeta apenas a vida de quem a consome, mas também de seus parceiros, e o público que está exposto a ela mesmo sem procurar intencionalmente acessá-la).
    Acho, sinceramente, que esse processo é inevitável, pelo menos quando se trata de pornografia comercial.
    E acabo achando que mesmo as iniciativas revolucionárias de produçao pornografica serão repetições dessa mesma história.
    … mas ainda assim, queria sua opinião sobre essas iniciativas independentes.

    • Deborah Sá said,

      Pili,

      Já frequentei o Pop Porn, um festival de produção pornográfica independente e do que assisti e vi não me pareceu nada inovador. Mulheres de dildo, sexo oral, gente branca, enfim, não me parece excitante. A intenção é desmistificar a ideia de que tudo que retrate/filme o sexo assuma o rótulo imediato de pornografia. Na minha interpretação, pornografia é esse mercado massivo, o manual sexual de expectativas irreais. Um simulacro normativo. Defendo um novo olhar sobre a sexualidade, desgenitalizando o prazer, o corpo é como um todo e sexo bom é aquele são, seguro e consensual. Por que os materiais sexuais precisam partir de um mercado? Não podemos nós mesmos compartilhar nossos desejos e práticas sem intermédio de uma indústria?

  4. lala said,

    Concordo em parte. Quando você se refere à “Pornografia”, é a industrializada, enlatada. Mas existem também as amadoras, feitas em casa, simplesmente filmando o tesão um do outro. E nessas, não tem esses “puxões” de mamilos, nem tapas na buceta. É a sacanagem em seu estado puro! ;)

  5. Anton said,

    Déborah, você não é “sex-negative” por não gostar de pornografia, mas sim por confundir desgosto pessoal com necessidade de militância política e querer estender às demais pessoas as SUAS preferências no que diz respeito a sexualidade. Se as pessoas ditas “sex-positive” não se metem na sua masturbação que você diz ser incrível e divertida (tomara que seja mesmo), por que você se mete na vida sexual alheia?

    Além disso, assim como é comum em outros blogs e sites anti-pornografia, é bem evidente o tom “pesado” que você se esforça para colocar nas descrições que fornece: “A atriz pornô encarna a ‘princesa encantada’ de muitos homens, só que ao invés de estar montada em um cavalo branco está montada em um pau enquanto chupa outro”. Será que você não percebe que é VOCÊ quem sacraliza o sexo quando tenta conferir um tom pejorativo às descrições de cenas pornográficas? Como se fosse uma coisa de outro mundo uma mulher transar com dois homens ao mesmo tempo. Só uma mentalidade conservadora – ou com resquícios de conservadorismo, será? – pra enxergar nesse tipo de situação uma forma de submissão política.

    Faz todo o sentido comparar pornografia comercial (para garotos) com os contos de príncipes encantados (para garotas), mas por algum motivo, vemos que muitas mulheres se tornam ADULTAS e aprendem a discernir a realidade dos contos de fada. Muitos homens, idem. Pornografia pode gerar vício, assim como qualquer outra forma de entretenimento ou até mesmo de sobrevivência (vício em comida, por exemplo), mas isso é uma questão de saúde e não uma questão política. A menos que haja aí um certo ímpeto de autoritarismo coletivista querendo regular a vida alheia.

    E novamente, o anacronismo frágil da comparação superficial entre pornografia e capitalismo – como se representações pornográficas não existissem desde as civilizações antigas… Novamente, a confusão gritante e a distinção valorativa entre as categorias do erotismo e da pornografia (não, minha cara, o que você viu no Multishow NÃO foi pornografia, esse canal não exibe conteúdo pornográfico)…

    • Vivi said,

      (Me desculpe a intromissão Deborah).
      Anton disse:
      “E novamente, o anacronismo frágil da comparação superficial entre pornografia e capitalismo – como se representações pornográficas não existissem desde as civilizações antiga”

      Putz, com todo respeito, mas mais anocronismo que sua frase eu acho dificil viu.
      1) pelo que entendi em nenhum momento o post diz que há uma pornografia desde a antiguidade sei lá o que que sempre foi ou teve esta relação com o capitalismo.

      2) Aí que entra o seu anacronismo: representações pornograficas que existe desde as civilizações antigas (se é que se pode chamar de “pornograficas”) estarem desvinculadas do capitalismo (óbvio pois não existia capitalismo lá) não significa que HOJE ela não seja totalmente subordinada ao capitalismo?
      Se vc não considera o multishow pornografia, bom para vc, mas isso não significa que ele não esteja dentro de uma cadeia da indústria pornô, direcionada a um publico, com TODAS as ligações possíveis com outras cadeias da pornografia…
      O que que a existência de uma “pornografia” desde antigamente faz dela uma “comparação frágil” com o capitalismo nos dias de hoje?
      Ué, nas civilizações antigas não havia “indústria” pornográfica, não existia o mercado mundial controlado por poucos que ditam tendências, etcetcetc…
      E se é para comparar coisas que existem desde antigamente: música existe desde antigamente, escola também, e? E por isso não podemos dizer que HOJE ela esteja acoplada ao capitalismo? que estão mercantilizadas, de maneira muito distinta de outrora? ..e isso implica em novas formas de se analisar tais coisas a meu ver. E isso é que não é ser anacrônico a meu ver (como o post da Deborah fez muito bem). Saber distinguir de que tempo histórico estamos falando para fazermos as críticas relacionadas à sociedade em que vivemos. Pois pornografia -hoje- não existe no vácuo nem na abstração deslocada da sociedade que ela se insere, indepedente de que quem gosta ou faz parte dela pensar diferente.

      E ” ímpeto de autoritarismo coletivista querendo regular a vida alheia.” rs, Me desculpe, mas eu acho que vivo num mundo diferente do seu, pois mais regulação da vida alheia que o capitalismo nos impõe eu acho dificil hein…rs
      Bom, não vou me alongar mais, desculpe, e digo tudo isso sem nem ter opinião formada sobre o assunto “pornografia” de maneira geral…Só achei complicada toda a critica mesmo.

      Abraços..

    • Deborah Sá said,

      Anton,

      A masturbação alheia não me diz respeito. O que compartilho é uma perspectiva e crítica pessoal sobre como a pornografia é limitante. A sexualidade não precisa ser só “cabeça”, não tenho nada contra o sexo como entretenimento, divertimento, aliás, é até uma preferência pessoal (sexo lúdico) só que nada disso está no piloto automático pornográfico. As pessoas visivelmente não se divertem ali, quem assiste e tem pênis espera litros de gozo, quem tem vagina espera lábios menores e um cu rosa. Sério, há produtos com esse propósito. Sou uma pessoa com pouca relevância no impacto mundial criticando uma indústria bilionária, pode ter certeza que quem detém poder nessa história não sou eu.

      Nenhuma posição ou prática sexual é sinônimo de submissão política, anal, oral, o que for. Sendo são, seguro e consensual é o que importa para ser justo. A regra é bem simples, se você fica desconfortável e inseguro não faça, ninguém pode definir como, quando e onde fazer sexo se isso te faz sentir humilhad@. Defendo inclusive que quem ainda é virgem e deseja esperar o momento deve ser respeitado, sexo casual, relacionamento aberto ou fechado, o que importa é o respeito e concordância entre ambas as partes. Que tipo de feminista eu seria se julgasse o padrão de respeitabilidade de alguém pelo tanto de parceir@s sexuais? Ao contrário do que você supôs, não acredito que há nada de sujo no sexo e no linguajar que a ele se refere, acho buceta uma palavra muito mais bonita que vagina, por exemplo.

      Pode apostar que antes de falar que pornografia é uma coisa sem graça pesquisei as mais diversas práticas e “parafilias”, o exemplo do Multishow foi um modelo mais palatável sobre representação sexual do que é entendido como pornografia. No mais, a Vivi expôs muito bem sobre as relações capitalistas e o erótico. Faz realmente muito tempo que representações sexuais explícitas ou sutis permeiam a cultura humana, contudo anacronismo é chamar de pornografia (conceito atual) o Kama Sutra.

  6. nádia said,

    Oi Déborah, atualmente vejo um forte movimento feminista pró-sexo que acusa a crítica à pornografia de moralismo. Gostaria que você comentasse isso em algum post.

  7. Chico said,

    Existe um@ historiador@ que pesquisa a relação de Garganta Profunda com a Era Regan. A proposta é justamente tratar da relação entre a sociedade de consumo e as questões de gênero que dela fazem parte representada na – e através da – pornografia. Infelizmente não tenho o nome da pessoa, agora.

  8. Raquel said,

    Bravo, bravíssimo!!
    A coisa que eu acho mais terrível nos filmes pornográficos é quando o cara ejacula no rosto da mulher, o prazer está em humilhar a pessoa, que coisa triste…

    • Deborah Sá said,

      Olá, Raquel,

      Obrigada pelo elogio! Mas não creio que ejacular na cara seja intrinsecamente um ato de humilhação, sequer sexo anal, oral. Meu ponto de partida é: Acha humilhante e vai te deixar desconfortável? Não faça. Porém, não há nada de errado se gostar de algo SSC (São, seguro, consensual).

      Um abraço!


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