25 outubro, 2012

I got my guts,I got my muscles,I got life

Posted in Cotidiano às 8:32 am por Deborah Sá

Escrevo pra mandar notícias, avisar que estou bem, muito bem. As coisas com a faculdade estão caminhando, na Terça tive uma prova de lascar, acho que não tiro muitos pontos dali. Entrei na academia (de ginástica, ainda falam ginástica? Ou o termo virou musculação?) faz dois meses, perdi três quilos sem esse propósito. E se perder mais não me importo, se estacionar (platô), foda-se. Entrei na academia pra movimentar o corpo, todo ele, adoro exercícios de consciência corporal, dançar, me mexer , fico feliz e animada. A aula de interpretação de textos clássicos (Freud) é bacana, as aulas de quarta e quinta são sensacionais (tive aulas tão emocionantes que deram vontade de chorar, mas me contive). Pensei em mudar pra Filosofia, mas talvez realmente fique na Pedagogia porque o curso pra surpresa minha é muito interessante e denso. Como diz uma professora “Pedagogia não tem glamour”, muitos tem preconceito com o curso dizem que é coisa de Poliana e Smilinguido. E não cara, não é. Como se gente deslumbrada ou escrota não estivesse em outros cursos, o Bush é formado em História e o Pondé em Filosofia, certo? Profissões de prestígio social e que dão dinheiro nunca foram meu forte, se eu desejasse isso investia em um curso de Secretariado e estava aí ganhando alguns mil dinheiros.

Pra alguém que veio da minha classe social o “normal” é fazer um curso técnico em Administração ou algo do tipo, conseguir um emprego em escritório. Para os rapazes algum curso de eletrônica. E eu não acho isso ruim, tem quem fique feliz com isso, mas não deve ser a única opção, o único sonho que cabe. Porque fazer de destino social é barrar os outros “Esse sonho não é pra gente como você, é da escola pra profissionalização técnica e fim, não precisa de curso superior”.  Aí você percebe que o patrão acha que faz um grande favor pra gente como você (que só tem até o Ensino Médio) em te empregar com salário baixo, sem hora extra remunerada, levando patada de cliente e de supervisor que te tratam como se seu trabalho fosse a coisa mais imbecil e substituível do mundo. “Tem uma fila de gente esperando lá fora”, “O seu trabalho? Qualquer um faz”. Foi exatamente assim que o mercado de trabalho como Secretária, curso de Telemarketing e Ensino Médio me tratava. Eu tinha de dar graças a Deusa pelo destrato, por me sentir um parafuso que se enferruja é culpa dele, não porque o desgastaram “Não tem porque você ficar assim, Deborah, ninguém aqui está te pressionando”. Vontade de meter o Foucault e Marx na fuça dessas pessoas.  Ainda sinto receio de me manifestar em sala de aula, mas mesmo assim o faço. Já perdi o medo de ser ridícula na vida, tenho de levar isso pra faculdade, estou lá pra errar. E como erro.

O bandejão da faculdade é maneiro, mas tem gente que reclama. A interação social é tranquila (antes de entrar tinha receio de não conseguir me “enturmar”), algumas matérias são mais descomplicadas que outras e é comum ter de ler o mesmo texto e parágrafo várias vezes pra que façam sentido, coisa de calouro.

Estourar a bolha é um convite que faço pra todos os que ainda estão do lado de fora e desejam entrar, sei que não é simples, não é fácil quando o estigma do fracasso escolar faz você se sentir um lixo e envergonhado da própria condição. Quando qualquer criança da quinta série de escola particular teve mais ensino de Matemática e História do que você. Só aprendi matemática rudimentar com o Kumon depois de adulta, só aprendi a andar de bicicleta com vinte e cinco. Só fui beijar alguém com dezoito.  Só assumi o abuso sexual que sofri aos dez para mais pessoas, com vinte e três. Só comecei a mostrar para os outros o que escrevia com dezesseis. Demorei muito tempo pra assumir, pra arriscar. Hoje prefiro acordar de consciência limpa e alma lavada ouvindo as batidas do meu tambor de entranhas.

14 Comentários

  1. Raiza said,

    Eu acho que pedagogia combina muito com voce.É o que vc faz aqui no blog,ou nao? ensinar sobre o mundo,problematizar as ferramentas do saber. Eu acho que voce daria tanto uma ótima professora quanto uma pensadora da educacao.

    • Deborah Sá said,

      Obrigada, estou de fato me identificando com o curso :)

  2. juliamaccari said,

    Oi Deborah
    fuçando os blogs da vida eu encontrei o teu. Já faz um tempo que ando lendo e acho demais o que tu escreves. Esse texto em especial me tocou. Já compartilhei algumas destas tuas dúvidas, dessas descobertas ao fazer uma licenciatura quando todo mundo mais esperava que você ‘desse’ em alguma coisa diferente. Acho que sou mais nova que tu, mas quando fui fazer vestibular, ouvi muito do tipo ‘Letras? Pra ser professora? Que desperdício!’ ou ‘Tu podias fazer alguma coisa a mais na tua vida’ (esse a mais, é claro, se referia a dinheiro). A grande maioria dos meus colegas fez medicina, direito, engenharia e blablabla. Enfim, sair da bolha é ótimo e estudar educação é melhor ainda. Espero que tu continues curtindo o curso.

    Um beijo

    • Deborah Sá said,

      Olá, Júlia ;)
      Obrigada. Também espero continuar gostando!

      Seja bem vinda e comente sempre que quiser, um abraço.

  3. luísa said,

    Deborah, sempre leio aqui. Tava com ‘saudade’ de um texto seu. Meu companheiro também faz pedagogia e pensou em trocar pra sociais.. na ilhU$P é melhor permanecer em pedagogia. socias é tão burocráticozinho.

    Tentarei UNIFESP. Talvez a gente se tope ano que vem..

    beijos bakunianos haha :*

    • Deborah Sá said,

      Hahaha, que gracinha ;)

      Vá sim ^_^

      Beijos feministas!

  4. Estou com vontade de carta nova! (sem pressão, sem pressão! rs) Carinhos e ternuras pra vc!

    • Deborah Sá said,

      /o\ :P

  5. Pili said,

    oi débora. eu vim daquelas escolinhas aristocráticas onde os jovens tratam as vagas de faculdade como herança deles, aguardando apenas chegar a hora de entrar. MInha familia não tinha o mesmo padrão que as demais, eu era bolsista. Só que dentro dessa escola eu não lidava apenas com implicância de crianças e adolescentes, eu também lidava com abusos e irresponsabilidades dos adultos. Tive uns problemas sinistros na coluna (misto de sobrecarga emocional, com ter sido empurrada escada abaixo umas duas vezes) e passei anos brabos de fisioterapias diversas. Duas cirurgias depois, uns meses sem poder levantar e ir até a aula, chegou o fatídico dia do vestibular. Não passei. De lá pra cá arrumei diferentes estágios e empregos, mudei de cidade atrás de oportunidades, até funcionária pública eu fui, fui tocar a vida! Cinco anos depois, prestei novamente vestibular e ingressei numa federal. Devido ‘as greves desse ano só vou começar em novembro e estou muito ansiosa! Enfim, queria dizer que a melhor hora pra começar é… assim que podemos! E te desejar muito sucesso com seu caminho. adoro seu blog, um beijo enorme! Parabéns!!!

    • Deborah Sá said,

      Pili,

      Obrigada! Sinto muito pelas coisas que passou, mas ao mesmo tempo fico feliz de que viveu as coisas ao seu tempo. Gostei muito do seu comentário e concordo “a melhor hora pra começar é… assim que podemos!”.

      Outro beijo! E boa sorte na faculdade!

  6. schneewittchen said,

    ah, que linda! então, musculação é um tipo de ginástica ;-) academia, pra mim, foi um jeito de aceitar o tamanho do meu corpo com o tamanho da minha cabeça. uma educação corporal mesmo. saber que posso ser forte, saber que meu corpo não é tão desastrado. admiro ainda mais pq vc é vegana. por conta das coisas de proteína e tal. beijo beijo.

    • Deborah Sá said,

      Schneewittchen,

      Também sinto isso, a percepção corporal fica mais aguçada. Reparo que na musculação as pessoas se olham mais no espelho e não acredito que seja por simples amor-próprio, mas pra se perceber em outra perspectiva, ter consciência do próprio corpo não é apenas o sentir-se na pele, mas ver no espelho, na fotografia, se sentir com as mãos, tomar banho, pentear os cabelos, os tecidos das roupas…

      Beijos!

  7. Amo você, Xará, é tão linda e com cabeça ótima( só discordo de 2 coisas, suas, mas deixa para lá).

    Admiro sua falta de auto-piedade ao falar do abuso que soreu

    Bjaum

    • Deborah Sá said,

      Obrigada :)

      Uma Deborah que discorda da outra Deborah, faz todo o sentido.

      Um abraço,


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