4 outubro, 2012

Ser gauche na vida

Posted in Egotrip às 4:39 pm por Deborah Sá

Estender os véus no varal, as mãos enrrugadas de lavar quintal, hinos tocando ao alisar a barriga que espera mais um, aguardar o marido enquanto pensa o que será o jantar. É onde estaria nessa quinta-feira se tivesse seguido o que o destino colocava como única saída. Não me satisfazia, mas também não sabia o que desejar, já que sonhos germinam em terra úmida e fizeram-me semi-árido do querer. Foi de escrita que fiz lágrima, foi de tinta que fiz raiz, foi de tempestade que fiz cais. Trabalhei em escritórios, desses pequenos e improvisados, desses no fundos das casas, desses de ar-condicionado e de prestigiosa avenida. Todos quantos tentei, não fui feliz.

Auxiliar Administrativa, Secretária, Telemarketing, é disso que é feito meu CV, e uma carteira de trabalho com o primeiro carimbo de quatro anos atrás: Seiscentos e sessenta e oito reais. Comprar um Gol pra lavar no fim de semana, ter orgulho de limpar pneus com escova de dente, era esse o referencial de vida ganha. Recusei o saber técnico de um cargo burocrático, feminino, mão-de-obra barata, substituível. O que me cativa está no pensamento, nas letras impressas e nas telas, nas conversas de bar, no diálogo com o recém-conhecido, nas cartas trocadas, no amor que não cessa, no silêncio que acompanha o reinventar, no som das palavras e da música, na excitação de uma conversa boa o suficiente pra terminar em sexo, no movimento dos corpos. Perder-se pra achar alguém diferente logo adiante, outro de mim. E hoje enquanto cobria os olhos para proteger do sol uma frase me soprou ao pé do ouvido “Vai! Ser gauche na vida”.

9 Comentários

  1. Dayane said,

    Com licença poética

    Quando nasci um anjo esbelto,
    desses que tocam trombeta, anunciou:
    vai carregar bandeira.
    Cargo muito pesado pra mulher,
    esta espécie ainda envergonhada.
    Aceito os subterfúgios que me cabem,
    sem precisar mentir.
    Não sou feia que não possa casar,
    acho o Rio de Janeiro uma beleza e
    ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
    Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
    Inauguro linhagens, fundo reinos
    — dor não é amargura.
    Minha tristeza não tem pedigree,
    já a minha vontade de alegria,
    sua raiz vai ao meu mil avô.
    Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
    Mulher é desdobrável. Eu sou.

    Adélia Prado

    • Deborah Sá said,

      Olá, Dayane,

      Me lembrou aquela música:

      “Quando nasci veio um anjo safado
      O chato do querubim
      E decretou que eu estava predestinado
      A ser errado assim”

  2. Natália said,

    As escolhas destoantes <3 Muito amor, viu?

    • Deborah Sá said,

      =***

  3. Tulipa said,

    Você ser gauche na vida nos rendeu esse texto maravilhoso. Melhor escolha possível. Que você seja sempre muito mais…

    Te admiro muito.

    • Deborah Sá said,

      Gracias =)

  4. Que coisa mais maravilhosa! E, como vc falou de cartas trocadas, tomei vergonha na cara! Amanhã uma cartinha será colocada no correio. Com atraso, mas plena de amor!

  5. Van. said,

    Adoro visitar você, pelo menos aqui…

    • Deborah Sá said,

      Óun <3


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