5 setembro, 2012

Não é moda, quem pensa incomoda

Posted in Educação, Memórias tagged às 5:09 pm por Deborah Sá

Sem prazer em estudar para as provas de escola, preferia ler e pesquisar onde a curiosidade levava. A ânsia de saber mais, somada a uma postura insegura e uma silhueta rechonchuda me fizeram piada pronta. Há pouco tempo percebi que de algum modo, aquele posicionamento representava uma afronta ao lugar que pertencia.

Ia aos mesmos mercados, não andava de carro, assistia aos mesmos programas na TV, ria das mesmas piadas, tinha pais divorciados, acreditava em Deus, ia até a Belmira Marin tomar um sorvete na loja de um real, até a Cidade Dutra pagar uma conta, comer o churrasquinho de gato na calçada do Carlos Ayres. Ou seja, o espaço físico era compartilhado.  Quando comecei a fazer uma lista dos filmes que queria ver mas não os encontrava nas locadoras do bairro, tive de  pegar ônibus para ir até o Shopping Interlagos ver se achava por lá. Um dos que me deu mais felicidade foi alugar O Fabuloso Destino de Amélie Poulain. Anos mais tarde, meu pai comprou um jornal na banca que vinha com esse DVD e me presenteou. Era solitário assistir sozinha, ter esses gostos um tanto diferentes sem ninguém para comentar, então insistia bastante para que minha irmã  acompanhasse, ás vezes ela tinha paciência, outras vezes não. Sei que para algumas pessoas parecia petulância “como é que ela gosta desses filmes chatos, demorados, “cabeça”?”. Não sabiam quantas vezes  os versos Olhos abertos fixados no céu, perguntando a Deus qual será o meu papel. Fechar a boca e não expor meus pensamentos, com receio que eles possam causar constrangimentos. Será que é isso? Não cumprir compromisso abaixar a cabeça e se manter omisso.”, fizeram arrepiar.

Passaram-se alguns anos e entrei no supletivo, um dos moços, começou a me tratar com a gentileza própria de quem flerta, não dei bola. Até perceber que ele era um tremendo homofóbico e a antipatia só cresceu. Quando um professor fazia perguntas demorava a levantar a mão (detesto monopolizar os espaços), mas a sala sabia, ou eu, ou ele, falaríamos algo a respeito. Por educação, esperava ele se pronunciar e em seguida me posicionava, na maior parte dos casos, me opondo, não pelo simples prazer de discordar, mas porque eram opiniões preconceituosas.  Revoltado, convenceu seus amigos:  Se abria minha boca na sala de aula rompiam palmas do fundo da sala, assovios, barulhos.  A reação era esperar terminar, fazer uma reverência, continuar a fala. Uma hora eles cansaram. A gota d’água foi o dia em que cheguei na sala de aula e vi um aluno que eu gostava de conversar, fã de RAP, segregado por ter a fala mais lenta (era seqüela de um aneurisma), encolhido, sentado, enquanto o tal homofóbico, de pé, apontava o dedo o acusando de ser louco por tomar remédios psiquiátricos. Ao intervir ele se defendeu com aquela ladainha de “você acha que sabe-tudo”, quando expliquei que além de não saber de tudo (senão não estaria no EJA, continuando os estudos), jamais usei o conhecimento pra humilhar alguém, ao contrário dele, que se achava muito superior por nunca consultar um psicólogo tornando evidente o quanto era um ignorante sobre (mais esse) assunto.

No ambiente de trabalho formal convivi com provocações diárias, zombavam das minhas caixas de chá, me chamavam de madame, dos absurdos que ouvi estão as frases “Tem um gato sujando meu carro, o que acha de eu mata-lo?” e a máxima “Tudo o que você sabe da vida é porque viu na internet (sobre defender cotas, LGBTTT minorias em geral)”. Ou seja, compreender e fazer uso da linguagem, arranhar no inglês, é indicativo de que estou em um recorte de dominância mesmo que não tenha o objetivo de fazer uso pra oprimir, é isso que a tensão entre classes sociais faz. Por mais que vivesse na periferia, a música que ouvia, o gosto para filmes, ser vegetariana, destoava. Compreendo que a barbárie é intrínseca na criação em todos extratos econômicos, nesse mesmo emprego já ouvi pessoas aos risos contando como era divertido participar de um linchamento, o dia que bateram em uma “mulher-macho”, como matariam suas esposas se descobrissem uma traição… Analogamente, mas dessa vez em um emprego em uma avenida chique de SP, ouvi que a polícia tinha de ser mais dura e piadas machistas surgiram uma após outra.

Por ocupar essa posição singular (nova classe média?), saliento o quão ingênuo é o mito de que na classe trabalhadora só existem espertalhões (como pensam certos funcionários dos escritórios nas avenidas caras), ou quem crê que na periferia todo mundo só curte pagode, funk, usa chinelo de dedo com um sorriso no rosto e o coração puro, uma versão atualizada do bom selvagem (como pensam alguns universitários de faculdades federais e públicas). Gente sádica, mal intencionada e intransigente há em toda parte. Ser machista, arcaico e preconceituoso não é um dado de classe, entrementes é fator cultural e o que antecede a ruptura é o estrondo da colisão.

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