20 agosto, 2012

É justo comparar escravidão humana com a servidão animal?

Posted in Animais, Só falam nisso tagged , , às 5:55 pm por Deborah Sá


Defensores de direito animal há tempos usam analogias entre a escravidão humana e animal, as palavras usadas variam para extermínio, holocausto, chacina e assassinato. Morrissey, líder da banda The Smiths, nos anos 80 lançou o emblemático “Meat is murder” (carne é assassinato).  Também não é recente que o uso de imagens ganhe mais destaque e impacto do que textos, ativistas tentam com materiais gráficos atingir um número maior de indivíduos, mas como cada um interpretará o conjunto de símbolos, letras e formas impressos é resultado do acúmulo de informação que se tem sobre determinado assunto. Um panfleto distribuído em via pública onde se vê lado a lado várias representações de casais LGBTTT com os dizeres “Toda forma de amor é válida” pode ser altamente ofensivo se visto por alguém que não entende o bê-á-bá sobre identidade de gênero, prática e orientação sexual, aos olhos de quem se ofende é completamente absurdo validar a afetividade não heterossexual. Similarmente um panfleto que compare um cão com uma vaca acompanhados da frase “Se você ama uns, por que come outros?” pode parecer um disparate para quem julga inconcebível colocar no mesmo patamar um animal de companhia e digno de cuidados com um animal de finalidade alimentícia. Mas se a distribuição é aleatória, não há como prever o acúmulo e consecutivamente a reação de quem tem acesso a esses materiais. Nesse processo os que dispõem de menos informação muitas vezes não estão dispostos a ouvir as argumentações de quem tenta disseminar o conteúdo, principalmente se isso vier em forma de um texto. Se o verso do panfleto trouxer mais de dez linhas poucos são os dispostos a correr os olhos por ali.

As pessoas tem preguiça de ler e não se trata de incapacidade, há pouco estímulo para esse hábito, talvez isso explique a imensa popularidade de pastores, eles dominam a linguagem das Escrituras interpretando em voz alta e em Libras, para os fiéis que se consideram inaptos para decifrar a Bíblia (o reconhecimento da própria pequenez é valor desejável para um rebanho). Ler demanda tempo, introspecção, reflexão e apuramento do conteúdo exposto e quem exerce essas competências possui um tipo de poder, de domínio. E a quem interessa um número expressivo de pessoas que tem medo de ler e escrever senão os que desejam manipula-los?

Se encararmos a compreensão de uma imagem como igual competência, recairemos no mesmo impasse, falta de estímulo e acúmulo para compreender a real intenção por trás da ilustração.  Embora seja uma forma distinta de transmitir conceitos, a ilustração é uma forma de expressão e linguagem. E isso nos leva há um ponto comum entre feministas, comunistas, socialistas e veganos: São de maioria branca, classe-média, com ensino superior, são letrados. Não importa se nas manifestações em ruas ou blogs, os integrantes majoritariamente têm rostos brancos devido a essa parcela tradicionalmente receber maior estímulo para leitura e produção de textos/imagens. Portanto, é imprescindível não se esquecer de qual lugar falamos, mas atentando para não cair no sofisma “se a maioria das veganas e feministas são brancas e de classe média, logo isso é uma ideologia de dominação”, uma inverdade quando o que se busca é diametralmente oposto, a autonomia, a liberdade, a não sujeição dos corpos. O esforço deve ser empregado para reformular essa afirmação: Sim, é evidente que a maioria nesses grupos é privilegiada pela classe social, raça e por vezes gênero, algumas das consequências diretas da desigualdade econômica são o baixo incentivo à escrita, leitura e produção de imagens. Isso não deslegitima a veracidade dos argumentos apresentados pelos grupos que detém os meios criativos, mas faz urgente a inclusão de outros indivíduos até então ignorados convertendo-se em agentes nesse processo.

Esperar que cada vegano fique prostrado diante de um quiosque em uma espécie de “Plantão de Dúvidas” frente às calçadas mais movimentadas aguardando por tempo indeterminado, para atender os curiosos, é exigir muito de alguém com vida social ativa. Devido ao impacto de mais rápida assimilação o uso de imagens é boa ferramenta para divulgação, porque faz uso de arquétipos significativos na cultura, símbolos praticamente universais em um só material.  Cada grupo se articula com uma ferramenta de divulgação, uns fazem o papel pedagógico de base respondendo as perguntas mais elementares, outros acham melhor partir para uma abordagem mais direta, por exemplo, dizer sem firulas que carne é assassinato e o sangue que suja o prato depois de um almoço não é a base de urucum e groselha, é o mesmo tipo de sangue que quando nos cortamos sem querer vemos brotar do indicador.

E por que alguns defensores de direito animal fazem o paralelo entre a escravidão? Vejamos a definição do seguinte verbete:

Escravo
adj. e s.m. Que ou quem está sob o poder absoluto de um senhor que o aprisionou ou o comprou.

Assim, escravos são aqueles que podem ser comprados, coisas medidas segundo a utilidade para seu senhor, eles não tem “alma’, podem ser machucados no manejo e transporte se isso for necessário para conter seus passos e direção, açoitados, aprisionados, trocados e substituídos por outro de igual valor. Com pistola de pressão ou machadada, propriedade privada. Ter um escravo humano já foi direito assegurado por lei. E com base na analogia entre o escravo humano de outrora e o escravo não-humano que persiste  até nossos dias, o movimento de direito animal pegou outra palavra emprestada, o Abolicionismo:

Abolicionismo
Sistema de princípios sociais que propugnava pela extinção do tráfico e da escravatura dos negros.

Quando se compara através de termos ou imagens a exploração animal e a escravidão hedionda pelos quais os negros foram submetidos historicamente, a intenção não é menosprezar ou rebaixar essa memória, mas evidenciar um subjugo na prática muito similar repetido com outras vítimas. O Judeu nascido na Polônia, Isaac Bashevis Singer, em The Letter Writer escreve: “Em relação (aos animais), todas as pessoas são nazistas; para os animais, é um eterno Treblinka

Ao contrário do que a dedução precipitada leva a crer, isso não é afirmar que todos os que comem carne e tomam leite são sádicos e assassinos, mas que estão inseridos em um registro onde animais são vistos como propriedade, com as carnes dependuradas na artificialidade das gôndolas de supermercados não residindo nenhum crime prescrito em lei, para quem adquire um peixe com os olhos saltados e inertes ao lado de seus pares sob uma bancada de gelo.

Desleal seria arranjar outro termo para degola e sangria para que o sofrimento dos não humanos parecesse mais justificado, arbitrário seria assumir que queimar com ferro quente uma numeração no corpo de um bovino para demarcar o domínio seja muito diferente de assinalar um escravo, absurdo é castrar sem anestesia um sujeito em cativeiro para que a loucura não seja responsável por canibalizar, oportuno é ignorar que por baixo da nossa pele humana guardamos músculos, gordura, tendões, cartilagem e ossos, a vulnerabilidade onde por baixo do couro guardamos um naco de carne.

18 Comentários

  1. Vivi said,

    OI Deborah, gostei do texto, e não conhecia esta frase do Isaac Bashevis Singer, bacana. Sou ovolcato vegetariana faz muitos anos.
    Entendi a comparação, mas não sei, tenho receio de usar palavras como escravidão, holocausto. Naturalmente sei que não é de má-fé o uso, e pra impactar os que estão de fora do movimento até entendo.
    Mas, embora o dicionário aponte a escravidão como tal, sempre penso na inserção da palavra em seu contexto histórico e único. Claro que a cada novo fenômeno e acontecimento não vamos criar uma palavra nova, mas tem alguns contecimentos históricos da humanidade que foram qualitativamente tão impactantes (holocausto, apesar da frase do Singer , escravidão, guerra-fria, ditadura militar etc) que acho que sao únicos, eu, particularmente ainda me sinto receosa de usar para a questão animal.
    Não estou dizendo que um foi pior que o outro, só que me vejo desconfortável em usar.
    Sabemos que palavras são importantes, não é qq regime que é ditadura, não é qq assassinato que é chacina, não é qq acontecimento que é guerra ou holocausto.
    A questão vegetariana me intriga o debate, ainda estou em construção de minhas convicções e aprendizado, mas escravidão, ou holocausto, não sei não..não acho desleal arranjar outro termo me parece, arranjar outro tempo não irá significar que um designará uma coisa pior que outra (ex. acho imperdoável o que israel faz com a palestina, mas tampouco acho que se possa chmar de holocausto) mas no sentido de sua particularidade histórica, relacional e única.

    Beijos desculpe se ficou confuso

    • Deborah Sá said,

      Oi Vivi,

      Não me pareceu confusa e acredito que cada um@ encontra a maneira mais conveniente para se expressar, no caso do veganismo e direito animal é comum receber respostas agressivas, costumo ser ponderada no que escrevo e mesmo assim alguns ficam ofendidos porque mexe diretamente com os privilégios enquanto espécie. A reação costuma ser entender o discurso mais ou menos assim: “Então quer dizer que eu sou uma assassina?”, “Então quer dizer que eu sou anti-ética?”, “Então quer dizer que você é iluminada?”. Parecido com o que as feministas ouvem: “Mas eu não sou machista, amo a minha mãe”, “Então você se acha muito especial porque não ri de piada machista?”, parte do princípio de que o que orienta é uma pretensa superioridade quando na verdade é a busca pela igualdade, é acreditar que não há motivos morais e éticos para usar e humilhar os indivíduos. É respeitar o “outro” mesmo que esse outro tenha focinho no lugar do nariz.

      Seja por imagens ou palavras, há grandes chances de má interpretação porque o raciocínio e interpretação dependem do histórico e acúmulo que trazemos sobre o assunto, no meu entendimento o melhor é falar individualmente com cada sujeito para ouvi-lo e a partir daí construir um debate, começando por argumentação de base tentando explicar porque seria injusto matar um animal para comer quando se vive com condições econômicas suficientes.

      Cada fato histórico é único, mas poucas são as pessoas que se opõem a comparação (assassinato, escravidão, holocausto humano x animal) pelo contexto histórico, a maioria é porque acha humilhante e incabível colocar no mesmo patamar as milhões de mortes humanas com as milhões de mortes animais. E se fossemos inventar outro termo, como chamar uma morte de bois e vacas a cada oito segundos somente no Mato Grosso? Como nomearíamos se esse tratamento fosse dado a uma minoria humana? Extermínio em massa justificada em especismo?

      • Vivi said,

        Concordo totalmente Deborah, com as respostas e comentários das pessoas. Sempre digo, os não vegetarianos são muito mais chatos do que o senso comum do vegetariano chato em minha experiência. Ainda sim, sempre penso, mesmo que o vegetariano fosse chato (a maioria não é), seria chato “por uma causa” não é? Diferentemente do não vegetariano que quer criticar porque , (chutando a opinião), as resistências sempre incomodam talvez.
        Sabe, tenho muitas dúvidas sobre vegetarianismo que não tenho conclusões, não me identifico com todo o tipo de vegetarianismo, e as pessoas que são e suas opiniões, mas certamente as críticas que recebo são extamente estas…tantas mistificações sobre o vegetarianismo e preconceitos que me dá raiva..
        (não sei onde li, mas que , no fundo, estas resistências contra vegetarianos são como para quem come carne se “justificar” (no funo uma culpa?) em comer, por isso tanta birra, sarro e a inversão de que os vegetarianos que são os chatos da vez..)
        Quanto ao uso da escravidão para os direitos animais, mesmo não concordando, certamente minha razão é diferente destas que as pessoas costumam ter memso..

        bjão

      • Deborah Sá said,

        Vivi,

        Assim como existem vários feminismos, existem vários tipos de vegetarianismo e cada um deles parte de um mesmo ponto. No caso do primeiro “A idéia radical de que mulheres são indivíduos” e no segundo “A idéia radical de que não-humanos também são sujeitos”. E é bom que haja essa diversidade dentro de cada interpretação.

        Se não se sente confortável ou não concorda com essa associação, não a use. Eu já usei algumas vezes e deu muita confusão para explicar, mas vai de cada um. É igual a Marcha das Vadias, dependendo de quem olha parece contraditório exigir respeito com os seios de fora… São abordagens um pouco mais complexas porque o senso comum vê tudo de outra maneira, mas ao mesmo tempo, ás vezes é necessário correr esse risco, senão vivemos com medo de expressar nossas reais intenções na intensidade que acreditamos ser mais condizente.

        Beijos ;)

  2. Natália said,

    Sobre a presença esmagadora de branc@s e classe média, é bem verdade. Sou negra e pobre (há quem insista comigo que não sou negra, q sou parda por que o tom da minha pele não é ‘tão escuro’. Sempre que escuto isso, ouço isso: olhe não se rebaixe tanto, seu tom de pele é tolerável.) Certa vez fomos (eu, meu namorado, seu colega e sua namorada) na feira vegetariana q acontece semestralmente na vila mariana e a primeira observação que não podemos deixar de fazer foi ver que 90, quase 95% das pessoas eram brancas e, aparentemente, de classe média. Vimos olhares desconfiados, olhares ‘tortos’ até pensei q fosse ouvir algum argumento ao estilo da boa e velha meritocracia, mas não.
    Vi blogueiro fazer post sobre ‘o problema de classe do vegetarianismo’ (http://distritovegetal.wordpress.com/2012/05/10/o-problema-de-classe-do-veganismo/), mas como exposto aqui, com outras palavras, ‘o problema é bem mais embaixo’.

    Eu ia concluir com mais alguma coisa, mas abri tantos parênteses que esqueci! (deve ser falta de b12…hahaha)

    • Deborah Sá said,

      Oi, Natália,

      Já perdi a conta de quantas vezes feministas ficaram ofendidas quando falei que éramos maioria branca, classe-média e universitárias, costumo dizer “Olha para mesa que estamos, quantas ao nosso redor são negras?”, é claro que existem muitas mulheres negras que são feministas, mas pega a maioria das fotos das mulheres de coletivos feministas e procura quantos rostos negros há na imagem pra você ver… Isso significa que as bandeiras feministas são descabidas? Óbvio que não, mas que é importantíssimo não esquecermos os debates de classe e raça.
      Sei bem como é esse sentimento de “não pertencimento”, de achar que vai ser hostilizada, embora eu seja branca e agora também de nova classe média (não tenho carro, só estudei em escola pública, acabei de entrar na Universidade), a primeira vez que pisei em uma Universidade me deu muito medo de lerem “Supletivo” na minha testa :P

      Mas no fim das contas foram gentis ;)

      Eu quero é que mais e mais negras e negros frequentem esses espaços (os da universidade também). Que péssimo esses comentários sobre “mas você não é tão escura”, sei bem como é… Engraçado que essas mesmas pessoas ignoram que há várias tonalidades de branco, minha pele, por exemplo, é mais para o amarelo do que para o rosado e ninguém me diz “Mas você não é tão branca assim…”

      Beijos!

  3. Peço desculpas já pelo comentário longo. Mas apreciação tal só poderá ser feita com extensão considerável.

    Não considero ruim tratar qualquer tema com uma veiculação propagandística. Nós majoritariamente damos uso largo do discurso retórico. Propagandear vem a ser uma modalidade da retórica. Também é bom esclarecer que nada de censurável há com discursar de tal maneira. Para tanto remeto compreender a teoria dos quatro discursos aristotélicos por Olavo de Carvalho traçada. Todavia são passíveis de crítica qualquer discurso.

    Toda crítica se faz estabelecendo critérios de valor. O valor: eis um dos problemas mais sérios atualmente. Quando relativizamos discursos ao dizer que são de tais ou quais grupos, assim os invalidando pois quem os profere defende sua parte não outra, chegamos ao cúmulo de considerar a própria veracidade da realidade como passível de relativização. Daí para fechar toda boca temos um passo só.

    Cá nem sob tortura vou prosseguir a questionar se tal problema se deve por usos indevidos da ferramenta da dubitação na busca do saber ou se não foi com acerto que demos escolha pelo caminho filosófico da modernidade… Qual? Todo conhecimento nascido do lugar particular, e não universal, tão exemplarmente colocado na frase “Penso: logo existo”.

    Basta dizer uma frase.

    Nosso buraco muito mais abaixo vem a ser do que podíamos imaginar.

    Enfim… Outra saída não há senão o… Discurso (rs)! Principalmente com quem entende. Melhor: entende como também honestamente leva qualquer debate. Todas as pessoas nunca vão ter entendimento tão aguçado que nem o nosso pois a vocação intelectual não está sozinha: graças às deusas! Eu, por exemplo, não sei limpar roça. Mas tem quem saiba. Tal vocação vale que nem a nossa? Talvez imensamente mais! Nosso dever, enquanto pessoas intelectualizadas, é servir a quem na verdade só quer seguir a vida sem tantos questionamentos. E nem por isso tal criatura pode ser besta: temos aí João Grilo.

    Não sei se me fiz entender mas… É da vida!

    Bem… E chega de dizer a palavra todo toda vez oportuna!… Lá se foi mais uma!

    • Natália said,

      Eu, confesso, não entendi.

    • Deborah Sá said,

      Sérgio,

      Concordo quanto ao uso do discurso, mas minha tendência é flertar mais enquanto prática de poder como o Foucault defende, assim em todos nossos ritos mais cotidianos, nos corpos e silêncios estão impregnados valores.

      Sobre o juízo de valor e os pré-conceitos, também concordo, costumamos assumir que de determinadas bocas não sairá nada considerável, não damos direito de resposta e desse “mal” não há grupo que não padeça! Alguns até preferem calar suas opiniões porque acham que o mundo não está maduro o suficiente para compreender certos conceitos. O que também julgo um direito. Como li certa vez “O armário é meu e eu abro quando quiser”.

      Pessoalmente sou fã de armários quebrados e jaulas vazias, mas cada um tem o direito de escolher o que mostra e o que esconde.

      Não separo as habilidades da mente e do corpo, sei que não quis dizer que todo aquele que trabalha os músculos ou domina o ofício de artesão, pedreiro, ou qualquer tarefa corporal é um completo imbecil, mas delimitar que “Nem todas as pessoas nunca vão ter entendimento tão aguçado que nem o nosso pois a vocação intelectual não está sozinha” é algo que discordo gigantescamente, isso é subestimar a capacidade empática e de inteligibilidade alheia, categorizar os fatores cognitivos, classificar os saberes. Não me percebo como alguém a levar a “luz” (no sentido da palavra “aluno”) para os outros, o que faço é compartilhar o que tive acesso para que outros também tenham direito a tal discussão, minha visão é construtivista, não estou a comunicar um conhecimento fechado, mas convidando outros para pensar junto, a construir a partir de outras perspectivas. A perspicácia em analisar fatos não é menos útil do que a desenvoltura em dar em cima de alguém, não há nada de sobrenatural nas minhas capacidades e estou a todo o momento a aprender com os outros, a mudar de opinião, minha avó, pessoa não letrada é extremamente agradável e de imensa grandeza de espírito, ao contrário de alguns letrados esnobes, mesquinhos e desagradáveis que ferem os outros pela sua soberba, com a chamada “inteligência emocional” estagnada no próprio umbigo.

      • A questão da prática de poder eu prefiro deixar em aberto por enquanto pois a revisão particular minha da Filosofia não chegou na contemporaneidade. São leituras mil que vão me fazer ficar de cabelos brancos antes do tempo! Todavia concordo já com a presença dos valores em ambientes normalmente para tais não imaginados sequer.

        Compreendeste bem: não quis dar mas… Meu comentário deu larga margem às interpretações de conhecimento como restrito de meia-dúzia. Cá pois esclareço por um exemplo. Chamamos o trabalho de braçal quando pegamos em enxadas e foices. Entretanto para lidar com tais instrumentos um leque de compreensão imensa se precisa ter. O tempo do plantio como também da colheita… Toda viração dos elementos em prol da cultura dirigir… Sem contar a tradição cultural que se faz em torno de tanta labuta. Temos açúcar aqui na Zona da Mata pernambucana: por meio dele também uma gama de coisas que praticamente vem a ser uma sociedade baseada na cana. Sei que bem entendeste mas ensejo consigo para melhores esclarecimentos.

        Intelectuais não considero nossa querida patotinha das acadêmias mas quem realmente d’ algo sabe. Sócrates, segundo Platão, não via com bons olhos qualquer escrita… Sábio! Bem exemplificaste com tua vozinha. Minha bisavozinha, de saudosa memória, dava-me cada lapada por saber mais: grandemente mais!… Êta! Com humildade sigo qualquer intenção de conhecer por sua causa. Lembro Tomás de Aquino quando diz: “A verdade é filha do tempo”! Meu respeito para cabelos brancos.

        E também respeito qualquer tipo de conhecimento. Sei que de maior parte deles necessito. Vai chegar o momento que precisarei do conselho de feirantes a governantes. Sou parte da construção humana: portanto colaboro com quem for preciso. Mais: discussões há que são de todas as pessoas ou que tem a ver com elas que nem a carne nas mesas cotidianas. Entretanto com umas uso do discurso dialético… Com outras, retórico… Por aí vai! Cada pessoa tem sua vocação. Não vou poder exigir a compreensão da minha companhia de bar de lógica peripatética: vou somente com ela “… beber, cair e levantar”, ora!

        Não vejo problema com a classificação. Mas aí são outros quinhentos pois tem muito pano para costurar mangas! Basta ver as nossas citações. Entretanto que bom diálogo com quem segue base filosófica divergente da minha posso ter inclusive tendo muitos pontos de convergência! Se todas as discussões assim se fizessem já teríamos muitas blusas prontas para serem vestidas… Ou rasgadas: como preferir. Abraço!

      • Deborah Sá said,

        Creio que se fez mais objetivo agora, de fato concordamos em muitos aspectos.

        Obrigada por comentar!

  4. Geleiras said,

    Gostei de sua resposta. Apesar de que, na minha opinião considero a liberdade animal estar inserida em outros aspectos. A relação comercial e utilitarista em cima do animal sem uma relação que havia anteriormente, o distanciamento que temos por meio de açougues e supermercados.
    Como eu disse na discussão do link que eu passei, uma imagem assim fora de seu contexto funciona mais como uma mensagem ofensiva para quem não está inserido no discurso de direitos animais. E o fato de que uma das lutas de direitos raciais foi distanciar o negro da posição de animal, uma charge assim acaba por suscitar outro discurso. Que foi o que originou a discussão e concordo com sua postagem.

    “começando por argumentação de base tentando explicar porque seria injusto matar um animal para comer quando se vive com condições econômicas suficientes.” bem isso, eu sou contra o consumo de carne em meios urbanos. Mas quem trabalha com comunidades tradicionais se vê por vezes um “ataque” á essas comunidades para a imposição de uma dieta que só é possível em ambientes urbanos, o que complica é o fato de que é muito mais fácil atacar pessoas simples do que empresas como a SADIA por exemplo. O que algumas pessoas que não possuem essa consciência e a capacidade de relativizar acabam funcionando como massa de manobra para fortalecer justamente aquilo que atacam. (Caso aqui em Florianópolis, fim das terras comunais e a tentativa de proibir a pesca com tarrafa enquanto se abria as portas para atuneiros e barcos estrangeiros).

    Não sei se ficou claro.

    Obrigado pela postagem.
    Marcel Angelo

  5. Geleiras said,

    Relacionar o negro, ou a mulher com um aspecto irracional foi uma base dos discursos que imperaram por muito tempo em nossa sociedade. A comparação não leva em questão esse aspecto o que dá um tom ofensivo á mensagem.

    • Deborah Sá said,

      Marcel,

      Isso é verdade, durante muito tempo tentaram aproximar a imagem dos negros com animais, inclusive com embasamento “científico” (craniologia, etc). Uma das formas de justificar a opressão é “desumanizar”, transformar em bestas. Explico isso melhor no post “Ridicularização”.

      O que quero dizer, é que da mesma forma que um homem é insultado ao ser “rebaixado” a condição de “mulherzinha”, qualquer um é inferiorizado quando chamado de “burro”, “galinha”, “porco”. O preconceito enraizado na linguagem explicita também o especismo. Suscitar o debate é importante, nesse específico são levantadas questões mais profundas, por exemplo, o que nos faz humanos? Há um livro chamado “Então você pensa que é humano?” que trata bem disso. Lembrando que a(s) ciência(s) e a linguagem nunca foram neutras.

      Não posso falar por todos os veganos do mundo, mas nunca vi esse ataque a comunidades indígenas. Ou a quem tem só farofa pra consumir, não há nem o que dizer. Por isso o Veganismo tem de necessariamente passar pelos debates de classe, raça e gênero. Sobre como se alimentar, a TV, jornais e revistas já fazem o papel de educador nutricional, falando dos novos alimentos em voga (semente de chia, linhaça…), programa Bem Estar, Globo Repórter… As pessoas já são influenciadas pela propaganda da lanchonete, salgadinhos e biscoitos recheados. O que defendo é a alimentação consciente, nem por isso chata e sem sabor.

      Em uma ruptura do consumo de insumos de origem animal, não é boicotar o pescador brasileiro, é a pesca em nível mundial mesmo. É claro que tenho plena consciência de que se eu não como atum, meu vizinho come, mas é algo do qual sei que não preciso e não quero fazer parte, tem a ver com consciência limpa, pelo mesmo motivo que ficaria desconfortável em comer carne de cachorro.

  6. Einstein said,

    ainda lembrando outro post, em que referenciava palavras do português com duplo sentido, lembro da transposição de palavras:
    escravidão = trabalho digno
    matadouro = centro de processamento de matéria prima
    voto obrigatório = direito constitucional

    podemos derivar
    abolicionismo = entrada na nova escravidão

    por isso evito o termo abolicionismo.

    e acabo lembrando da NBR, a tv do governo federal, pena que não tenha onde colocar o vídeo, mas gravei uma reportagem que fala da produção de suínos e tudo mais, e a “semana do suino” que vai ocorrer entre maio e junho de 2013, onde um colono, chefe do sindicato dos suinocultores, fala sobre a organização do evento, em que vão lançar na tv aberta, em rede nacional, rede de rádio, e redes sociais, uma imensa campanha pela divulgação maciça da carne suína. Aí a apresentadora pergunta: “o preço vai baixar”? e ele responde “não, a ideia é só vender mesmo.”. Obviamente, estamos diante de uma enchurrada de propaganda não oficial, que é pior que comercial, pois este tipo de propaganda é o que planta na cabeça da pessoa “se eu nao comer isso eu vou morrer”, estamos perto de uma época em que vamos ouvir.. “eu ouvi na ana maria braga que…..”. Poucos dias depois, no mesmo canal de tv, aparecem altas reportagens sobre “como é feita a mortadela”, “como é saudável”, e uma incrível reportagem inclusiva feita em libras sobre a semana nacional da carne suína.

    Esse mesmo governo que divulga isso, é o que determina o que chega nas escolas, o que chega nas escolas determina o futuro… … … aaaaa…é o fim do mundo.

    • Deborah Sá said,

      Concordo, com exceção da parte “Esse mesmo governo que divulga isso, é o que determina o que chega nas escolas, o que chega nas escolas determina o futuro… … … aaaaa…é o fim do mundo.”. O que determina o que chega nas escolas é @ professor@. Certamente há currículo escolar, as expectativas das famílias, dos alunos, da direção, coordenação pedagógica, a LDB, os livros didáticos (somos um país que se destaca nesse setor, inclusive muitas editoras nacionais foram compradas por multinacionais)… Então as coisas não são assim tão imediatas.

      Além disso, é importante considerar que os saberes ultrapassam o ambiente escolar (ainda bem!), se as influências e coersões culturais fossem tão determinantes não haveriam veganos.

      Um abraço


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