29 agosto, 2012

A Feminista Perfeita

Posted in Corpo, Gênero, LGBT tagged , , às 11:01 am por Deborah Sá

A feminista perfeita não leva desaforo pra casa, ela rebate todas as cantadas que ouve na rua. A feminista perfeita  não usa maquiagem, não sente ciúmes, não é romântica, não usa vestidinhos floridos, ela quase não sorri. A feminista perfeita, nasceu na família com tradição política e tem fotos dela quando bebê no colo da mãe socialista durante a passeata do PT. A feminista perfeita tem um irmão gay, um pai trotskista e uma vira-lata chamada Pagu. A feminista perfeita não ouve música comercial, ela samba não qualquer samba, mas um de raiz com os companheiros de luta. A feminista perfeita não faz dieta, nunca fez chapinha e não pensa em mudar o próprio corpo, aliás, ela não precisa se sentir bonita pois o corpo é instrumento de luta, basta ser forte pra aguentar a vida. A feminista perfeita não usa brincos, não usa sutiã e jamais depila a virilha. A feminista perfeita só tem música de mulher no mp3, cantoras com letras politizadas. A feminista perfeita bebe cerveja que não faz comercial machista. A feminista perfeita só ri da Mafalda, das tiradas sarcásticas de Persépolis e do brilhantismo da Beauvoir. A feminista perfeita não fala palavrão de forma convencional, ela está de útero cheio. A feminista perfeita só frequenta bares lésbicos e a exposição no oito de Março sobre as mulheres no Irã. A feminista perfeita não assiste novela, não usa roupas curtas, justas ou decotadas. Não gosta de moda, as únicas cores do seu guarda roupa são cinza, preto e no máximo um roxo da camiseta do coletivo.

A feminista perfeita não desabafa com outra pessoa sobre como o trabalho dela anda uma merda,  ela não sofre do cotidiano, das pequenezas. Ela dorme e acorda pensando em lutar, diversão é para os alienados e o amor é uma construção social de controle. A feminista perfeita não é simpática, isso é fazer o jogo do mercado, se algo ganha destaque obviamente é porque vendeu a alma.  A feminista perfeita não quer ser mãe, casar, não gosta de cozinhar e nem de dormir de conchinha. A feminista perfeita tem a cara amarrada, a postura altiva e a língua ferina. A feminista perfeita não tem medo da solidão, porque as amizades vem e vão mas a peleja fica. A feminista perfeita jamais é tímida, não tem medo do escuro, nem de barata. A feminista perfeita fala inglês, alemão e francês para traduzir textos imensos das outras feministas. Se você se identificou com ao menos três dos itens acima, parabéns! Isso é completamente irrelevante!  Mas se você, cara feminista, se sente triste por não atender os parâmetros da “feministabilidade” recomendo que se aproxime mais de “seus ícones”. No começo de minhas pesquisas sobre feminismo tive receio de conhecer as moças que admirava, me pareciam boas demais, politizadas demais, que pularam do ventre assim, formadas, contestadoras e seguras. Ao me aproximar o que comprovei é que feministas choram com poesia e gostam de histórias de amor, feministas sabem dar um soco e também sabem carinhar, costurar, cozinhar. Feministas se derretem ao ver filhotes de gato e adoram chocolate, feministas são livres para construir e desconstruir.  Feministas também pisam na bola, podem ser insensíveis e tolher a liberdade alheia. Elas tem crise com o namorado que dá mancadas consideráveis, pode apostar. Há feminista que não consegue sair de casa sem maquiagem e feminista que gasta dinheiro com sapatos e bolsas. Desmistifique a feminista padrão que está no imaginário, não ame a liberdade de quebrar uma fôrma lustrando outra com tanto esmero.

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20 agosto, 2012

É justo comparar escravidão humana com a servidão animal?

Posted in Animais, Só falam nisso tagged , , às 5:55 pm por Deborah Sá


Defensores de direito animal há tempos usam analogias entre a escravidão humana e animal, as palavras usadas variam para extermínio, holocausto, chacina e assassinato. Morrissey, líder da banda The Smiths, nos anos 80 lançou o emblemático “Meat is murder” (carne é assassinato).  Também não é recente que o uso de imagens ganhe mais destaque e impacto do que textos, ativistas tentam com materiais gráficos atingir um número maior de indivíduos, mas como cada um interpretará o conjunto de símbolos, letras e formas impressos é resultado do acúmulo de informação que se tem sobre determinado assunto. Um panfleto distribuído em via pública onde se vê lado a lado várias representações de casais LGBTTT com os dizeres “Toda forma de amor é válida” pode ser altamente ofensivo se visto por alguém que não entende o bê-á-bá sobre identidade de gênero, prática e orientação sexual, aos olhos de quem se ofende é completamente absurdo validar a afetividade não heterossexual. Similarmente um panfleto que compare um cão com uma vaca acompanhados da frase “Se você ama uns, por que come outros?” pode parecer um disparate para quem julga inconcebível colocar no mesmo patamar um animal de companhia e digno de cuidados com um animal de finalidade alimentícia. Mas se a distribuição é aleatória, não há como prever o acúmulo e consecutivamente a reação de quem tem acesso a esses materiais. Nesse processo os que dispõem de menos informação muitas vezes não estão dispostos a ouvir as argumentações de quem tenta disseminar o conteúdo, principalmente se isso vier em forma de um texto. Se o verso do panfleto trouxer mais de dez linhas poucos são os dispostos a correr os olhos por ali.

As pessoas tem preguiça de ler e não se trata de incapacidade, há pouco estímulo para esse hábito, talvez isso explique a imensa popularidade de pastores, eles dominam a linguagem das Escrituras interpretando em voz alta e em Libras, para os fiéis que se consideram inaptos para decifrar a Bíblia (o reconhecimento da própria pequenez é valor desejável para um rebanho). Ler demanda tempo, introspecção, reflexão e apuramento do conteúdo exposto e quem exerce essas competências possui um tipo de poder, de domínio. E a quem interessa um número expressivo de pessoas que tem medo de ler e escrever senão os que desejam manipula-los?

Se encararmos a compreensão de uma imagem como igual competência, recairemos no mesmo impasse, falta de estímulo e acúmulo para compreender a real intenção por trás da ilustração.  Embora seja uma forma distinta de transmitir conceitos, a ilustração é uma forma de expressão e linguagem. E isso nos leva há um ponto comum entre feministas, comunistas, socialistas e veganos: São de maioria branca, classe-média, com ensino superior, são letrados. Não importa se nas manifestações em ruas ou blogs, os integrantes majoritariamente têm rostos brancos devido a essa parcela tradicionalmente receber maior estímulo para leitura e produção de textos/imagens. Portanto, é imprescindível não se esquecer de qual lugar falamos, mas atentando para não cair no sofisma “se a maioria das veganas e feministas são brancas e de classe média, logo isso é uma ideologia de dominação”, uma inverdade quando o que se busca é diametralmente oposto, a autonomia, a liberdade, a não sujeição dos corpos. O esforço deve ser empregado para reformular essa afirmação: Sim, é evidente que a maioria nesses grupos é privilegiada pela classe social, raça e por vezes gênero, algumas das consequências diretas da desigualdade econômica são o baixo incentivo à escrita, leitura e produção de imagens. Isso não deslegitima a veracidade dos argumentos apresentados pelos grupos que detém os meios criativos, mas faz urgente a inclusão de outros indivíduos até então ignorados convertendo-se em agentes nesse processo.

Esperar que cada vegano fique prostrado diante de um quiosque em uma espécie de “Plantão de Dúvidas” frente às calçadas mais movimentadas aguardando por tempo indeterminado, para atender os curiosos, é exigir muito de alguém com vida social ativa. Devido ao impacto de mais rápida assimilação o uso de imagens é boa ferramenta para divulgação, porque faz uso de arquétipos significativos na cultura, símbolos praticamente universais em um só material.  Cada grupo se articula com uma ferramenta de divulgação, uns fazem o papel pedagógico de base respondendo as perguntas mais elementares, outros acham melhor partir para uma abordagem mais direta, por exemplo, dizer sem firulas que carne é assassinato e o sangue que suja o prato depois de um almoço não é a base de urucum e groselha, é o mesmo tipo de sangue que quando nos cortamos sem querer vemos brotar do indicador.

E por que alguns defensores de direito animal fazem o paralelo entre a escravidão? Vejamos a definição do seguinte verbete:

Escravo
adj. e s.m. Que ou quem está sob o poder absoluto de um senhor que o aprisionou ou o comprou.

Assim, escravos são aqueles que podem ser comprados, coisas medidas segundo a utilidade para seu senhor, eles não tem “alma’, podem ser machucados no manejo e transporte se isso for necessário para conter seus passos e direção, açoitados, aprisionados, trocados e substituídos por outro de igual valor. Com pistola de pressão ou machadada, propriedade privada. Ter um escravo humano já foi direito assegurado por lei. E com base na analogia entre o escravo humano de outrora e o escravo não-humano que persiste  até nossos dias, o movimento de direito animal pegou outra palavra emprestada, o Abolicionismo:

Abolicionismo
Sistema de princípios sociais que propugnava pela extinção do tráfico e da escravatura dos negros.

Quando se compara através de termos ou imagens a exploração animal e a escravidão hedionda pelos quais os negros foram submetidos historicamente, a intenção não é menosprezar ou rebaixar essa memória, mas evidenciar um subjugo na prática muito similar repetido com outras vítimas. O Judeu nascido na Polônia, Isaac Bashevis Singer, em The Letter Writer escreve: “Em relação (aos animais), todas as pessoas são nazistas; para os animais, é um eterno Treblinka

Ao contrário do que a dedução precipitada leva a crer, isso não é afirmar que todos os que comem carne e tomam leite são sádicos e assassinos, mas que estão inseridos em um registro onde animais são vistos como propriedade, com as carnes dependuradas na artificialidade das gôndolas de supermercados não residindo nenhum crime prescrito em lei, para quem adquire um peixe com os olhos saltados e inertes ao lado de seus pares sob uma bancada de gelo.

Desleal seria arranjar outro termo para degola e sangria para que o sofrimento dos não humanos parecesse mais justificado, arbitrário seria assumir que queimar com ferro quente uma numeração no corpo de um bovino para demarcar o domínio seja muito diferente de assinalar um escravo, absurdo é castrar sem anestesia um sujeito em cativeiro para que a loucura não seja responsável por canibalizar, oportuno é ignorar que por baixo da nossa pele humana guardamos músculos, gordura, tendões, cartilagem e ossos, a vulnerabilidade onde por baixo do couro guardamos um naco de carne.

15 agosto, 2012

Femen Brasil

Posted in Corpo, Gênero, Só falam nisso tagged às 2:30 pm por Deborah Sá


Para início de conversa, não tenho problema com nudez. É uma ótima forma de alimentar o amor-próprio e nem sempre há de se ter um caráter político, subversivo, chocante, a nudez pode ser plácida e descompromissada, como alguém que toma sol na varanda ou saltita pelado pelo corredor da casa. Minha prática nudista (pois é, adoro ficar pelada) tem muito mais a ver com conforto do que qualquer outra coisa. Não tiro a roupa porque quero ser agredida e despertar raiva, tiro a roupa porque gosto da sensação e os corpos são para si e para ser. Aprecio a coroa na cabeça das Femen (tenho uma tatuada no peito com um propósito não-feminista). Portanto minha oposição não tem a ver com o fato delas usarem a nudez, flores  ou serem bonitas.  Sempre há risco de uma ativista ser mau interpretada, com ou sem roupa.

Divergências: O rito de iniciação, a pré-seleção das candidatas, o alistamento, a idéia de se militarizar¹, Soldadinhos de Jesus, Soldadinhos do Capitalismo² agora aparecem as Soldadas do Neo-Feminismo?  Um dos valores que mais aprecio é autonomia e se essa depende de apadrinhamento, não me apraz. É saudável aprender com os outros, se inspirar em alguém para construir algo, mas a partir daí supor que é preciso hierarquizar ao transmitir conhecimento é presumir que a ação não se constrói coletivamente, vira reprodução de uma fórmula fechada.
Se apartar: “Você tem que abraçar essa idéia sabendo que pode perder amigos, família…” não me parece nada agradável demarcar essa diferença nas relações pessoais, a renúncia. Outra premissa para militar no Femen é ter peitos, não qualquer peito, mas peitos “de mulher” grandes o suficientes para fazerem o formato circular, símbolo do grupo. Seriam aceitos homens com peitos (siliconados, ou não)? Mulheres magras sem volume suficiente? Por que fugir da palavra “feminista”? Prezo por certas radicalizações, ser feminista, ser de esquerda, não deveria ser indecoroso, tornou-se uma necessidade em tempos onde a direita aparece descolada no programa do Bial enquanto os ícones da esquerda permanecem na academia. A meritocracia é uma das características do Feminismo burocrático onde existem pré-requisitos para ser promovido.

No meu entendimento as ativistas do Femen não são “inimigas”, elas só escolheram outros métodos para lutar contra coisas que também julgo importante defender, como o direito ao parto natural em casa, contra o turismo sexual e o machismo. Porém, me oponho fortemente a militarização implícita. Se você tem algum pensamento que destoa da maioria, esperarão uma boa explicação que o  justifique (a normalidade não precisa de motivo além de “é o que todo mundo faz”). Existem várias formas de divulgar uma causa, uma delas é “sê o exemplo” onde por via de um bom testemunho desperta-se a curiosidade alheia pela postura diferenciada, também dá para panfletar, colar cartazes e lambes, usar um megafone… O Femen acredita que em comparação com todas as tentativas anteriores o que trará mais visibilidade é tirar a roupa. Se isso será eficiente só o tempo dirá e para ser honesta, não acho que isso desgasta ou suja a imagem do feminismo. Isso é superestimar o Femen e subestimar a luta feminista construída por gerações, a história não funciona assim, do dia pra noite “puf”, uma ideologia é substituída por outra, as releituras e readaptações felizmente são imprevisíveis e incontroláveis. Não é preciso tanto afobamento. As pedras no sapato do feminismo permanecem as mesmas: O machismo, a ignorância, a misoginia, o patriarcado.

Discordo de quem diz que o Femen Brasil representa uma vertente “feliz” do Feminismo convencional, ao contrário, me parecem sérias e compenetradas (se preparam psicologicamente para apanhar de policiais, serem xingadas nas vias públicas e o rachaço social). Não compactuo com os métodos do Femen pelo fato de tudo que me parece rijo demais causa estranheza, e de bruto, basta o que rodeia,  dá pra lutar sem abrir mão do sorriso. E não quero entrar nas farpas de qual vertente feminista é mais “durona”. Curioso esse tempo onde escapar um prazer é sinônimo de sucumbir.

¹ Em momentos de tensão e ruptura, a barbárie costuma imperar com poucas alternativas diplomáticas. Reconheço que centenas de pessoas, principalmente negras e pobres morrem na periferia de SP e em tantos outros lugares por aparato bélico. Nas argumentações acima me refiro a um registro de mínima estabilidade democrática, onde as pessoas possam vivenciar um evento “pós-traumático” e superar, ao contrário de um lugar onde esse “pós” simplesmente não existe e a agressão intensa é recorrente, em exemplo, as experimentadas por mulheres no Congo.

² Funcionários que trabalham  e choram escondido pelo esporro do patrão premiados pela competitividade e o lamber de botas. É uma das coisas que mais me enojam no ambiente corporativo (e programas do tipo “O Aprendiz”): Pelo prestígio de manter uma profissão metem-se em roupas desconfortáveis, aguentam sorrisos falsos e tapinhas nas costas, cumprem metas e simulam personagens que não são.

13 agosto, 2012

Niemi

Posted in Memórias às 12:06 pm por Deborah Sá


Fui avisada pela leitora Deborah Meira na caixa dos comentários que Niemi (uma moça bacana, que já comentou aqui no blog algumas vezes), faleceu. Ela era mais ativa no blog da Lola e foi através de lá que conheceu meu blog. Era muito simpática. Eu não sabia que estava doente. Ela também era atéia. E pediu que não chorássemos, não ficássemos tristes. Sou uma manteiga derretida e por incrível que pareça, não chorei. Não por falta de sensibilidade, eu respeito muito “a partida”, mesmo sendo atéia. Mas acho que especialmente para quem estava sofrendo, deve ser um alívio, um descanso. Tenho muito respeito pelos mortos, por quem se vai. Procuro respeitar as memórias. E acho que ela desejaria ser lembrada assim, com respeito. E assim como ela se sentiu grata pelo o que aprendeu nesse período de vida, a recíproca é verdadeira para os que aprenderam com ela e eu a agradeço pelo que ela compartilhou aqui. Uma tia minha também morreu esse ano, a mãe do meu sogro idem. Desejo consolo e boas lembranças para os ficam e sentem saudade, desejo a dança na poeira do universo para os que se vão e o meu profundo respeito, se por ventura nesse trajeto esbarrarem com a minha finada avó, ou os finados cães, mandem um abraço.