30 julho, 2012

Você fala isso porque é jovem…

Posted in Filmes tagged , às 8:47 pm por Deborah Sá

Eu só confio nas pessoas loucas, aquelas que são loucas pra viver, loucas para falar, loucas para serem salvas, desejosas de tudo ao mesmo tempo, que nunca bocejam ou dizem uma coisa corriqueira,mas queimam, queimam, queimam, como fabulosas velas amarelas romanas explodindo como aranhas através das estrelas.

Semana passada assisti On the Road, passados alguns dias, pude perceber o que realmente me ateve foi o retrato de uma juventude não tão diferente da minha. A juventude com hora para acabar. A mocidade de meu tempo ainda fuma, o charme do artista mal compreendido persiste no jeans surrado com chinelos de dedo, um sambinha, a barba por fazer, um baseadinho. A maioria dos jovens que me cercam não tem caderneta de poupança, não se poupa muito dinheiro, alguns porque não sobra, outros porque o futuro pode esperar mais um pouco. Outra parte, porque viu os avós e os pais amargurados de trabalhar feito loucos para conquistar quase nada. Sobre as lutas por igualdade, vejo mudanças gradativas e gosto de reconhece-las para não ruminar o amargor de quem está sempre alardeando as tragédias, os retrocessos conservadores, como quem não sabe colher os pequenos frutos que nascem em tempos cinzentos de fuligem.

Catarse de criança é girar-se até a visão embaralhar, a do jovem é a embriaguez que tira a verdade da língua amortecida, enquanto  a catarse do velho é contar o terço em reza alta. Esse cadenciado é permitido por assumir que somos criaturas alheias, ora cientes, ora distraídas, de nossa desorientação. Se pequenos somos, nos permitem imaginar, posto que o fardo adiante cessará o encantamento. Se jovens somos, bebemos para soltar o que nos proíbem de ser, para demonstrarmos o afeto de desejo entreaberto emergindo a coragem de saltar, vencer a nós mesmos. E por fim, quando velhos somos, permitem que roguemos preces e pragas para a solidão. O apego a juventude é para afastar o medo da morte, do isolamento, do silêncio, do abandono. O tempo que corre indiscriminado nos aproxima dia após o outro do inadiável. Crer na possibilidade de mudança (e no prazer), como característica única da juventude e da meninice, é assumir que chega um ponto onde não há mais o que se fazer, restando lamentar os sonhos pueris de uma juventude que mal sabia do sabor azedo que o futuro reservava.

Teme envelhecer, quem acredita que a rebeldia, o aprendizado, o gozo, a transformação, o amor e a contestação sobrevivem até o despontar do primeiro pé de galinha, do primeiro fio de cabelo branco. Teme envelhecer, quem acha que chegará o tempo em que não haverá mais nada pra aprender e que as ambições da juventude são ilusões. É não acreditar na autonomia do sujeito com décadas para mais ou para menos.

Admitir-se forasteiro é estar aberto a cada peregrino que cruzar o caminho, ouvir a nova melodia, sentir outra forma de amar, aprender o novo idioma sem  medo de alterar o sotaque. Me atraio pela chama de quem irradia, de quem pulsa e faz vibrar em sua presença, dos que me apresentam sóbrios desatinos. Provavelmente isso explique a aproximação e empatia quase imediata que sinto pelos que estão do lado de fora, pela maior chance de compreender o desvario.

5 Comentários

  1. Essa última frase soou como um soneto de esperanças a meus ouvidos cansados de tantas coisas ruins da internet no último final de semana; foi como um prenúncio de chuva em região árida. Muito bonito. Obrigada.

    • Deborah Sá said,

      Eu que agradeço ^_^

  2. froide said,

    E a gente sofre, sofre mesmo.
    Por um lado as perspectivas de ser o que se quer ser e o que você precisa ser. Não sei se ainda dá tempo de ser jovem depois dos 50, só sei que estou velha no comportamento, gosto da minha solidão, se sou velha aos 20, espero não me arrepender de não ter cultuado nos hábitos e vícios a minha juventude. Escolhi as traças e a cafeína. Ainda sou rebelde?

    Só que acordo todas as manhãs e me pergunto “tenho todo o tempo do mundo”? Peco quando penso que não vou ser jovem, pra sempre.

    • Deborah Sá said,

      Froide,

      O importante é respeitar sua vontade no presente.

  3. Querida Xará

    Eu vim do blog da Lola agora e , infelizmente, li que Niemi se foi..Mas vai com a Luz, é o que espero.

    Bjs


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