18 julho, 2012

Como você lida com a beleza do seu lado?

Posted in Corpo às 12:10 pm por Deborah Sá


Já escrevi muitas vezes sobre como os padrões de beleza na grande mídia impactam diretamente a vida de mulheres*, mas e quando seu padrão de beleza está mais próximo, vividamente encarnado? Uma colega de trabalho, uma vizinha, sua chefe, sua melhor amiga? Ela parece muito mais leve, solta, decidida, bonita sem esforço. E se você vive em um meio com muitas delas, como uma agência de publicidade? Quem nunca teve aquela amiga super bonita  da qual se aproximam de você para perguntar se ela tem namorado, qual o nome e telefone?

Indivíduos deslumbrantes nos deixam maravilhados, com um sorriso bobo e um olhar perdido, coração batendo, mãos suando. É mais que atração, é a admiração de um totem, uma espécie de monumento carnal e palpável, ao mesmo tempo de difícil aproximação pelo excesso de consideração e respeito. Quando além de bonita a pessoa é inteligentíssima, carismática tudo se torna ainda mais irresistível (ou penoso).  Mas nem sempre quem admiramos secretamente percebe tamanho magnetismo.

Certa vez estava em um local e avistei uma moça linda, dessas que a primeira vista se destaca na multidão, ela era (é) belíssima e tem olhos que amolecem qualquer coração, já havíamos trocado umas palavras antes daquele dia e ela me parece mais linda a cada vez que a encontro. Mas como dizia, no fatídico dia me aproximei com a intenção de ganhar um beijo e quando o consegui, desacreditei, como costumo brincar, um dos meus lemas é “muita coragem e pouco otimismo”.  Tempos depois descobri que essa mesma moça não usava biquíni, ainda mais descrente fiquei  “se eu tivesse esse corpo, nunca teria problemas de auto estima”. Foi então que decidi contar a ela o quanto a achava indiscutivelmente bela, do tipo que nem me daria bola.

A que admiro a bunda quer por silicone, a que tem muito estilo e é cobiçada era virgem até pouco tempo atrás, a que seria a mulher dos sonhos em qualquer contexto morre de amores por um cara que não lhe dá valor, a que tem um corpo exuberante tem nos pulsos as marcas de tentativa de suicídio e punição, a que cresceu ouvindo que era inteligente queria também ser considerada gostosa. Não são metáforas aleatórias, essas mulheres existem. Discordo da Tati Bernardi, não acho que as mulheres se odeiam. Elas odeiam a si mesmas quando não sabem o que fazer com a admiração que sentem pelas outras. Elas parecem mais felizes e completas que nós mesmas: Indisciplinadas, assimétricas,  insípidas, triviais. Resgato mais uma vez O Mito da Beleza, onde as limitações físicas são baseadas em rédeas psicológicas, não é um problema simples e de imediata resolução se a insegurança foi convertida em parte da nossa prática.

Qualquer comportamento que vira hábito é difícil de alterar pois não pensamos a respeito dele, simplesmente agimos. É por isso que a ex-gorda ainda carrega alguma ressalva e parcimônia em novos relacionamentos, que os apelidos maldosos e gozações de infância não nos saem da memória, que a mágoa e a frustração nos acompanham por mais tempo. Porque a maioria já teve um coração partido, uma humilhação, uma exposição vexatória, quase todo mundo guarda uma fatia de melindre, há muito desgosto em se expor e ser machucado.  E isso não é exclusividade das mulheres, nem da pressão estética, é a cobrança pelo triunfo que chegou para quem está ao lado mas tarda a bater em nossa porta, a admiração sem onde pôr, que se não racionalizada vira o remorso de uma fruta que só dá caroço.

20 Comentários

  1. Fabiane said,

    “a que cresceu ouvindo que era inteligente queria também ser considerada gostosa”

    OUCH. Doeu. Fundo. :(

    • Deborah Sá said,

      Conheço várias moças lindas que passam/passaram por isso.

    • fake said,

      Eu não queria exatamente ser chamada de gostosa, mas queria só que parassem de falar em inteligência perto de mim. Machuca. Será que não sou legal?

  2. Uma frase para mim disse tudo “Elas odeiam a si mesmas quando não sabem o que fazer com a admiração que sentem pelas outras”. Se vc aprender a lidar com isso, vc fica bem. Meu modo foi passar a amá-las. Por suas belezas, por seus charmes, por suas inteligências, pelos seus defeitos. Por tudo.

    • Deborah Sá said,

      Eu também, Fátima :)

  3. @Divinha said,

    Adorei!

    • Deborah Sá said,

      ;)

  4. Carla said,

    Deba, que texto mais lindo. Tão mais lindo do que o da Tati Bernardi. Ela separa as mulheres entre lindas, medianas e feias. Como se. Mas a gente sabe que não é assim. Amar as outras. É isso que vc traz. E que ensina todos os dias aqui. Obrigada pelo amor! Quero carta nova!

    • Deborah Sá said,

      Você também me inspira!

      Um beijo,

  5. Aproveito do meu primeiro comentário por aqui para dizer: és bonita demais, Deborah!

    Bem… Além disso também és inteligente. Tenho muitas discordâncias contigo, que serão apresentadas devidamente depois de ler bastante teu sítio, mas nada que possa perturbar o que mais importa: saber algo razoavelmente bem.

    Misturar inteligência com beleza… Maravilha! Carícias entre Vênus e Minerva.

    No mais um beijo com um abraço de mais uma pessoa que te lê!

    • Deborah Sá said,

      Obrigada pelos elogios, fique a vontade para comentar.

  6. Dayane said,

    Vc tem uma sensibilidade incrível!

    • Deborah Sá said,

      Obrigada <3

  7. Natália said,

    Olha, discordo e você da Tati: ninguém se odeia. Só cedemos à pressão da mídia e sociedade patriarcal, onde a mulher tem ‘q se cuidar pra ficar linda pro seu namorado, pro seu marido, pra ser aceita’ e pessoas que são mais dentro desse padrão sem o esforço que muitas tem que fazer são ‘fortes concorrentes’, são as que, em tese, tiram a atenção dos holofotes sobre as demais. Isso incomoda, mas não chamaria de ódio.
    Isso tem a ver com o tal recalque feminino, onde a fulana é *maravilinda*, mas sempre haverá quem ache um defeito e só fale dele. Que perca a oportunidade de ter uma amiga porque se incomoda tanto com aquela beleza radiante e esquece do resto. Por isso também que ainda há mulheres chamando umas às outras de vadias.
    Há também as que são belas e, sabendo disso, tratam as demais com ares de superioridade e hostilidade e isso também dificulta as coisas.

    Acho que é preciso reconhecer e combater essa pressão sofrida. E vale pra todas nós. Combater externa e internamente. Não estou isenta disso que estou falando, sei que é difícil, mas podemos nos ajudar.

    • Deborah Sá said,

      Natália,

      Não há ódio no sentido genético, hereditário, mais propenso em alguma faixa etária ou classe social, o ódio é aprendido, alimentado pelas pressões estéticas, pela ascensão a qualquer custo, nas disputas políticas. O auto-ódio é muito forte e também ensinado, mães negras ensinam suas filhas a odiar os seus cabelos, pais brutalizados levam seus filhos em casas de prostituição para iniciar a sexualidade, é um padrão corrosivo perpetuado nos círculos familiares: “se eu passei por isso, você também tem que passar”, faz parte das tradições. E tradições, são difíceis de quebrar.

      Obviamente, existem mulheres que nutrem ódio uma pela outra, essa rixa pode existir em muitos ambientes, mas é de um pessimismo absurdo afirmar que todas as mulheres operam seu cotidiano dessa forma, com rancor, com competitividade. E faz todo sentido que as coisas sejam assim em uma sociedade meritocrática como a nossa, que separa as pessoas entre “campeões” e “perdedores”. Uma das formas de lidar com isso é não ignorando a admiração que sentimos por alguém que conseguiu o que desejamos, mas usar isso como inspiração, só um ego muito ferido faz do gozo alheio seu desgosto.

      E mulheres recebem muitos estímulos (inclusive midiáticos), pra se sentirem um lixo. O problema não é a fulana que é “uma vaca”, o problema é a insegurança de quem fica atormentad@.

  8. Natália said,

    “…mas é de um pessimismo absurdo afirmar que todas as mulheres operam seu cotidiano dessa forma, com rancor, com competitividade.” Espero que não tenha sido meu post a te levar a essa conclusão.
    Acho que a palavra é recalque mesmo ódio é coisa palavra muito forte muito declarada muito definida. E não acredito nisso de ódio genérico. É como falar em amor genérico. São sentimentos que não te permitem meio termo: ou é ou não é. Estamos falando das mesmas coisas, mas damos nomenclaturas diferentes.

    • Deborah Sá said,

      Não foi seu texto, foi o da Tati. E por genérico, eu quis dizer que não é algo que carregamos nos genes, pais coléricos não necessariamente “produzem” filhos coléricos, entende?

      No fundo é tudo questão de vaidade, uma insegurança mal gerida.

  9. Bianca said,

    Esse site é lésbico??? Credo!

    • Deborah Sá said,

      Sinto te informar, mas esse site não é hétero :((( #DoBabado #Bajubá

      • Sheylane said,

        Esse site é lindo!!! O fato de não ser hétero deixa ele mais lindo ainda… Inclassificavelmente belo.


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