16 julho, 2012

Amores não consumados, entre livros e monitores

Posted in Egotrip, Memórias às 4:48 pm por Deborah Sá

Não faz assim que eu posso até me apaixonar

Atípicos no bairro (além de sermos uma família “crente”), tínhamos um computador comprado com dinheiro suado, mas nenhum carro na garagem. Lembro a primeira vez que vi um scanner de mão funcionar, achei o ápice da tecnologia o gibi da Magali com balões na capa digitalizado em preto e branco para a tela do computador, parecia mágica. Ainda mais remota é a recordação das escadas da empresa do meu tio, era um corredor que dava para o computador do meu pai e eu pedia para colocar o jogo do “mata mushquito” (como eu chamava Space Invaders). A tela preta do DOS com letras verdes, os disquetes grandes, o barulho de impressoras matriciais, usar como papel de rascunho para desenho aquele monte de papel com rebarbas e furinhos nas laterais, são partes de minhas memórias de infância.

Por volta dos nove-dez anos fazia um “show” para minha irmã, era “Da pulguinha alegre e saltitante”, consistia em recortar uma pulga cor de rosa desenhada no Paint Brush e mexe-la para cima e para baixo, com voz e personagens que nem lembro. Um dia matei simbolicamente a tal pulguinha em um episódio Season Finale porque estava com raiva, o que fez a minha irmã chorar. Será que minha irmã (agora com vinte anos), lembra disso?  As crianças do bairro brincavam muito na rua, eu e minha irmã não éramos muito fãs de sair para brincar, na verdade, a gente evitava sempre que possível. Uma vez minha irmã levou um tombo tão feio…Caiu de ombros e foi ralando no chão. Tudo bem que ela se machucava em casa de todo modo, pois gostava de correr pela casa toda e não era raro cair da escada. Ela tentava escalar com uma perna em cada parede do corredor, fazendo dessas coisas que sempre me meteram medo, “adulta” e “destemida” . Enfim, voltando a tecnologia…Ao invés de brincar na rua, preferia brincar no Word e no Paint Brush.

Eu gostava de borboletas e golfinhos, bem na época que minha mãe comprou uma enciclopédia onde aprendi um pouco mais sobre eles, com isso palavras novas, por exemplo, “inócuo”, a enciclopédia dizia que borboletas eram seres inócuos, agora tinha mais que um dicionário para aprender (me divertia lendo o dicionário). Logo veio meu desejo por conhecer algum clássico e li Memórias Póstumas, foi quando me apaixonei por Machado de Assis, queria que um garoto me considerasse inspiradora o suficiente para dedicar um soneto, algo como até um anjo cala, quando ela fala . Ele era um zé ninguém, como eu, ele era alguém que parecia inadequado, eu desejava o Machado para mim. Como um namorado, um amante em outra época, eu tinha braços bonitos (talvez um pouco mais gorduchos do que minha época exigia), ele gostava de braços e possivelmente gostaria dos meus, sabia que ele já estava morto, mas a narrativa dele, o modo de falar com o leitor, era algo que eu não havia sentido antes. E claro que era embaraçosa essa admiração secreta por um cara morto. Ainda mais quando o outro cara que me fazia suspirar de amores, tempos depois, era o John Lennon. Lembro de um dia sentar nos degraus da quadra, na oitava série e desabafar com um grupo de rapazes : “Parece brincadeira, mas os homens que eu queria pra mim, já estão mortos antes mesmo de eu nascer”.

Outro amor platônico foi o Brian dos BSB, dediquei metade de um diário para ele, mas depois me senti culpada por não ter dedicado esse espaço para Deus, rasguei, joguei fora. Criei um para registrar minha santa ceia anual na igreja, nunca teve mais que duas folhas preenchidas.
Com o Word fazia protótipos de um blog com traduções de músicas do Radiohead, criei um blog virtual, deletei, criei um com a minha irmã, chamado “O NormalMente”.  Também deletei.  Criei o blog “É mais isso”, tive um namorado virtual (digamos que um amor não concretizado não tenha sido uma novidade), depois no Orkut tive outro “rolo virtual”, escrevíamos poesias um para o outro, como se nesse espaço das letras fosse o único para que nosso amor desaguasse, sabíamos que seria só isso, foi como uma espécie de sexo casual, mas romântico e cibernético.  Também tive um namoro virtual “sério”, desses que moram em outro estado, você conta para seus familiares (e é chamada de imbecil), trocam fotos de infância um com outro, promessas, e tem de terminar porque sabe que ele nunca virá para te ver, termina por amor próprio e vai curtir a dor de cotovelo ouvindo Maria Rita enquanto assiste slides de fotos dele.

Em um momento as coisas se misturaram, passei a encontrar “na vida real” os rostos e avatares de quem conversava comigo “virtualmente”, assim vieram amizades em abraços sinceros, ombros que amparam, meu companheiro há seis anos, minhas companheiras de luta, também ativistas.  Me sinto um pouquinho na Zona Sul, no Centro, até na Zona Leste, mas sem a cobrança de sentir um ponto fixo demarcado. Caminho por ainda mais livros, com um relógio que substituiu o tic-tac dos ponteiros, para marcar as horas em duplo clique.

7 Comentários

  1. renatalima91 said,

    Que lindo, Deborah.
    Estive remexendo nas caixas e mais caixas guardadas nos armários (minha vida parece uma Matriohska, são compartimentos, dentro de compartimentos, caixas dentro de caixas, quem sabe uma metáfora para a verdade de que sou muitas, dentro de um só invólucro?) e revivi memórias de antes mesmo de você nascer.
    E memórias recentes, e de um passado mais ou menos recente.
    É bom né, abrir as caixas, remexer as gavetas, ver coisas de que não precisamos mais, abrir mão, deixá-las ir.
    Beijos!

    • Deborah Sá said,

      É muito bom, mesmo :)
      Ajuda a entender o que nós éramos e o pedaço de passado, que nos faz ser quem somos.
      Abrir as suas Matriohskas fez ver o que?
      Beijos :)

  2. Isabela M said,

    Engraçado Deborah eu pensei que eu era a única que tive um amor platônico por alguém morto, quando tava na 8ª série eu tinha uma quedinha pelo Jim Morrison.

    • Isabela M said,

      *teve

    • Deborah Sá said,

      ^_^

  3. Carla said,

    Eu acho que vc está escrevendo cada vez mais bonito! Sério mesmo. Inspiradora! Eu adorava criar historinhas quando criança. Lembro que tinha uma máquina de escrever, não sei se da minha mãe, da minha avó ou do meu tio. Eu me metia a escrever loucamente! Tb sonhava que me dedicassem poemas – que eu fosse bela e inspiradora o suficiente para receber um poema de amor. Muito muito muito. Até descobrir que eu poderia ser aquela que dedicava poemas e cartas de amor. Desde então, tenho musos e musas. ;)

    • Deborah Sá said,

      Obrigada, querida <3

      Que gracinha, imaginei a pequena Carla, agora :)


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