10 julho, 2012

A Política Sexual da Carne – Brasil

Posted in Animais tagged , , , às 1:43 am por Deborah Sá


O consumo de carne no Brasil é um traço cultural marcante, tradicionalmente a celebração entre amigos se faz com um churrasco, sendo ainda mais costumeiro assistir as partidas de futebol com essa prática. Uma festividade que envolva a culinária popular Brasileira também conta com o prato típico feijoada, na realidade, a maioria dos pratos servidos no Brasil tem como ingrediente principal a carne. Nos estabelecimentos comercias não é raro encontrar presunto até nas saladas! O consumo de bebidas alcoólicas, em especial de cerveja, também é muito estimulado com a publicidade massiva nos principais meios de comunicação. O Brasil também é conhecido por sua música, samba, Funk e o Carnaval. O que todos esses pontos têm em comum?  Eles representam a masculinidade do homem brasileiro e conforme o esperado, sua publicidade é propositalmente sexista.

Uma peça publicitária produzida em 2012 para uma marca de cerveja consiste na seguinte cena: Um homem branco, interpretando um vegetariano, assa vegetais em uma grelha durante um churrasco, outro homem (também branco), interpretando um onívoro, se aproxima e pergunta “Onde está a carne?”, o vegetariano então indica para uma porção de carne de soja e o onívoro claramente desapontado se retira da cena. O plano de imagem muda onde podemos ver cientistas observando a cena na qual mudam o processo introduzindo cerveja na situação, alterando então o posicionamento dos personagens: Desta vez, o onívoro assa as carnes na grelha e o vegetariano se aproxima com a cerveja na mão enquanto diz: “Onde estão as frutas que prometeu?”, o onívoro aponta para três mulheres-fruta e encerra perguntando ao vegetariano: “Gosta da fruta?”. O que em português, representa uma piada óbvia sobre a orientação sexual do rapaz. No Brasil, usualmente as cantoras de funk carregam uma alcunha que é associada a partes de seus corpos, alguns desses apelidos fazem referências a frutas como um dispositivo que equipara seus formatos ás partes da anatomia feminina.  Essas mulheres são conhecidas como “mulheres-fruta”.

Há uma mulher, cujo apelido é relacionado a um pedaço de carne, que posou para a Playboy de 2008. Alguns exemplares foram embalados em bandejas de isopor e comercializados em açougues. Bancas de jornais a anunciavam como ingrediente de um cardápio e banners foram impressos com o corpo da modelo marcado com indicativos gráficos que a comparavam com os pedaços de um bovino abatido. Aliás, “abate” é uma expressão idiomática comum para se referir a mulheres com as quais se deseja ter relações casuais. O funk produzido no Brasil é feito com versos que falam sobre o cotidiano, violência e a sexualidade de uma camada marginalizada da população: Negros, pobres e também mulheres que estão dentro desses recortes de classe e raça. A acusação mais comum que se faz sobre o funk é contra sua linguagem explícita e seu potencial para reduzir mulheres a meros objetos sexuais, embora a publicidade mencionada acima represente as mulheres-fruta sem qualquer participação mais relevante do que dançarinas, todas as cantoras desse gênero fazem ao menos uma canção muito similar em conteúdo a “Short Dick Man” e “Lick It” produzidas pelo grupo 20 Fingers, populares nos anos 90. Ou seja, letras que representam uma mulher independente sem medo de falar abertamente sobre sua sexualidade, ao mesmo tempo em que tenta subverter sua objetificação a usando como vantagem.

As mulheres com grande destaque midiático (atrizes, cantoras, participantes de reality show, etc.) são convidadas para participarem dos eventos relativos ao Carnaval. Aos olhos de um estrangeiro, um país cujas mulheres vão a público falar sobre sua sexualidade e tem como celebração o carnaval, onde dançam nuas ao vivo, há de se imaginar um ambiente onde a figura da mulher seja fortemente empoderada. Isto é um erro. A violência contra as mulheres no Brasil é alarmante. Em 2001 a Fundação Perseu Abramo trouxe a triste estatística de que a cada 15 segundos uma mulher é espancada no Brasil. Em 2006 foi decretada a lei Federal de nº 11.340 conhecida como “Lei Maria da Penha”, que visa punir com maior rigor e coibir as agressões sofridas por mulheres em âmbito familiar e doméstico. Maria da Penha Maia Fernandes, foi uma mulher espancada brutalmente e agredida diversas vezes pelo marido durante seis anos de seu casamento.  Seu esposo tentou assassina-la com uma arma de fogo a deixando paraplégica e em outra ocasião, a eletrocutou.  Seu cônjuge só foi punido depois de dezenove anos de julgamento, cumprindo apenas dois anos em regime fechado.

Embora haja avanços significativos na paridade entre os gêneros, o Brasil possui o discurso ambíguo de preconceitos velados também em outros âmbitos que abrangem uma imensa variedade de minorias: O racismo está presente nas piadas, as mulheres que ousam andar nas vias públicas com saias curtas tem sua moral questionada, e se por ventura sofrerem algum assédio ou violência, culparão a vítima por seu vestuário. Ademais, o Brasil tem a seu dispor uma das maiores Paradas Gay do mundo sendo recordista na violência contra Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros. A contradição não se encerra nessas circunstâncias: Nosso estado laico contém o nome de Deus em suas cédulas, e o Congresso possui uma bancada de forte cunho religioso. A agressão e violência contra animais de estimação e outros não-humanos é socialmente condenada, mas também tolerada se feita em âmbito privado. Ao mesmo tempo, somos o país com a maior empresa em processamento de proteína animal do mundo e denúncias de trabalho escravo no setor pecuarista. Rejeitar o consumo de derivados de animais não é apenas encarado com estranhamento pela maioria da população, sobretudo tal ato é visto como um insulto e afronta contra a identidade cultural de um país que encobre sua desigualdade e violência com uma injusta e muito recente democracia.

Elaborei o texto acima a pedido de Carol Adams, autora de The Sexual Politics of Meat, traduzido recentemente para o Português em A Política Sexual da Carne – A relação entre o carnivorismo e a dominância masculina. Cujo título já indica, faz as analogias entre o consumo de carne e o patriarcado.

A tradução e revisão do texto para o inglês  foram realizadas com a ajuda do meu companheiro Yuri, a intenção era retratar a publicidade brasileira para explicar que nosso contexto e costumes adequam-se perfeitamente no raciocínio exposto há vinte anos atrás, quando Carol lançou a primeira edição de seu livro. Através do Blogueiras Feministas, por pedido da Editora Alaúde, elaborei três perguntas para Carol, as respostas estão nesse link.

7 Comentários

  1. Natália said,

    Foda é fazer um discurso desse com o mesmo cunho pra um vegano e ele dizer q no caso das mulheres ele não acha q temos o que lutar, que já conquistamos o que precisávamos, acha que piada machista não tem nada a ver com preconceito….zzzzzzzzz
    Argumentei q a visão dele é a mesma de alguns sobre o veganismo. A pessoa é allheia ao que acontece e reduz a importância da causa ao seu nível de conhecimento..

  2. Fernanda said,

    Presunto em salada? rsrs Imagine que eu pedi um yakisoba vegetariano e veio um com ovo e PRESUNTO!! Liguei na hora para o restaurante e perguntei se ela sabe de onde sai o presunto!! que raiva!

    • Deborah Sá said,

      Sei que dá raiva, mas na verdade a maioria das pessoas não tem informação sobre esse assunto. Melhor explicar de forma minuciosa: Vai ovo-peixe-atum-manteiga-bacon-presunto-queijo-ovo-na-massa-tempero-de-carne-frango? E pra não perder (ainda) mais tempo, diga que é por conta de uma alergia, assim vão te levar a sério mais rapidamente :P

  3. Einstein said,

    E se disser que é por causa de alergia, e tiver uma carteira da OAB, ou estiver junto com alguém que a tenha, e dizer que não ve a hora de comer algo que não deveria por engano pra colocar na justiça, e falar dos 15000 que recebeu de indenização de outro restaurante, aí sim vão levar a sério hahaha.

    mas brincadeiras aparte, o vocabulário do nosso português está cada vez mais com palavras de duplo sentido, cada vez mais contaminado, coisas simples que viram apelo sexual, apelo comercial, se bem que ambos se fundem em uma coisa só, sexo, venda, venda, sexo, comércio, num país de futebol-carnaval-cerveja onde para vender mais vale tudo.

    ainda indo um pouco mais além, acabo lembrando da elitização do veganismo, indiretamente causada por uma cadeia produtiva que privilegia do ponto de vista fiscal e financeiro a industria da proteina animal. Afinal de contas, a comida vegetariana era pra ser mais barata, mas na maioria dos lugares que conheço, é muito mais cara, pois nao tem os incentivos do governo, e a lei da oferta-procura acaba tornando meio inacessível. nunca vou me esquecer do la vegetariana, em montevideo, único restaurante vegetariano do lugar, 460 pesos por pessoa, 46 reais, ou 46 pila como se diz aqui na “terra do churrasco”.

    • Deborah Sá said,

      Einstein,

      Não raro nem o gerente desses estabelecimentos levam a sério nossos questionamentos, os atendentes de restaurantes são sobrecarregados, desvalorizados e ocupam cargos com alta rotatividade, baixos salários e plano de carreira que beira a inanição. Eles tem metas a cumprir, muitos para atender e é normal rolar uma distração no tratamento…Quanto ao idioma não creio que seja exclusividade do Português nem da nossa época, sexo vende faz tempo!

      Para “besteiras” e comida pronta, realmente os preços são mais caros e é inegável um problema de classe. Importante não fazer vista grossa nesses aspectos, auto-crítica é fundamental.

  4. eu me pergunto as razões por terem publicado esse livro agora no brasil, tantos anos após o lançamento nos EUA..
    Deborah, você sabe se ouve alguma tipo de pressão política frente à editora?

  5. Ótimo blog! :D
    Mas alguém aí sabe onde baixar o livro em PDF? Seria melhor para espalhar conhecimento se não fosse obrigatório pagar por ele :/


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