3 julho, 2012

Queer X Feminismo Radical: Overreacted.

Posted in Gênero tagged às 1:07 am por Deborah Sá


Pra quem não está inteirado nos últimos acontecimentos que permeiam os debates virtuais entre feministas, talvez não saiba da guerra fria terminológica que a discussão Queer  X Feminismo Radical tem ganhado nas últimas semanas (ou será que faz mais tempo e eu não percebi?).

Pessoalmente já fui bastante relutante com o Queer, o achava muito pós-moderno, invisibilizante, oba-oba, tudo é livre, tudo é possível, tudo é “pegue e faça”. Pois há uma grande distância entre o que pode ocorrer no plano das idéias e o que ocorre na concretude (escrevi sobre isso aqui). Por outro lado, também me oponho a idéia de que há só uma forma de ser feminista, ou de que o gênero e genitália de alguém reduz sua capacidade empática (nisso se encaixa esse outro post onde critico o Feminismo Uterino).

A sessão de fotos da Valesca Popozuda contra a violência que atinge a mulher, o Femen, o Laerte e o direito de usar o banheiro feminino e tantos outros acontecimentos reacendem essas polêmicas e acentuam a racha entre Feministas, no que concerne ao meu espaço não vejo pra que “demonizar” qualquer uma das partes. Divergências são presentes em qualquer grupo que se reúna, o que me preocupa são as lutas de viés esquerdista  continuamente diluídas, enquanto a inflexível direita continua fortalecida já que se baseia em tradições.

Os objetivos do Queer não são tão diametralmente opostos ao Feminismo, se busca a tríade liberdade, igualdade e fraternidade. Sinto que a reação de ambos os lados está cada vez mais exagerada. Em termos estrangeiros, overreacted.

Escrever um texto sobre amar a própria buceta, ser hétero e gostar de chupar um pau, bem como, defender espaços exclusivos para mulheres não é  cissexista e heteronormativo. No primeiro cenário descreve-se alguém confortável no gênero e corpo biológico que possui, onde não há qualquer culpa em usufruir da própria sexualidade. No segundo, um direito, vivemos em um tempo onde mulheres ainda são silenciadas e violentadas sexualmente, fazendo-se necessário um espaço muito específico para troca de experiências e empoderamento coletivo daquelas que partilham uma história em comum.

Ser mulher é um privilégio? Depende do referencial. Por exemplo, entre um homem muito pobre e uma mulher muito rica, é claro que ela será a privilegiada com mais ferramentas culturais, proteção do estado, cidadania, direito a educação e etc., isso não ocorre pelo seu gênero, mas devido a sua classe. Da mesma forma uma mulher pobre, será privilegiada se comparada com um porco adulto que pode ser legalmente vendido, morto a machadadas e ninguém sentirá sua falta ou verá nisso algum crime. A diferença que os marca nesse caso é o especismo. Uma travesti de roupa curta e uma cis-mulher de roupa curta gerarão respostas violentas muito específicas, embora paralelos de opressão sejam possíveis e desejáveis, a máxima de que “cada caso é um caso” permanece.

Imagine que em absolutamente toda a manifestação verbal ou escrita você tenha que considerar todas as minorias. Em exemplo, explicar que você acha determinado tipo físico bonito: “Acho muito atraente moças negras, gordas, altas, de cabelo crespo”. Isso quer dizer que você odeia ou ignora mulheres brancas, magras, baixas do cabelo liso? E as cadeirantes? E as indígenas? E as com traços peruanos? E as asiáticas? E as albinas? Por mais espontaneidade e menos patrulhamento linguístico e moral, do contrário, é retrocesso de uma ortodoxia renovada.

A grande ameaça ao Queer não são as feministas, elas aliás, foram as responsáveis pela abertura do questionamento das dicotomias de gênero. E o inimigo do Feminismo não é o Queer, é o Patriarcado. Não me preocupo com o “Happy Feminist”, as feministas felizes e burlescas ou pin-ups com suas maquiagens e pole dancing, se dizem ser felizes isso simplesmente não me diz respeito (o que outr@s fazem com seus corpos e consentimento).  Não há contradição em bater tambores com os peitos de fora exigindo tratamento respeitoso, pois somos sujeitos para além de vestimentas, dança do ventre, maquiagens flúor, cabelos descoloridos ou pêlos na batata da perna.  Me preocupa tanto  mais o Feminismo “Frutrica” que nos distancia e dilui em sub-guetos, enxergando inimigos políticos em quem busca outras vias para alcançar nossas reivindicações mais antigas: Autonomia, respeito á diferença, direito ao fortalecimento e iguais oportunidades.

Os aliados podem não ser nossos idênticos.

11 Comentários

  1. A-D-O-R-E-I!!! escreveu tudo que eu tava sem saco/tempo/paciência pra escrever.
    muito triste que esse tipo de racha seja tão recorrente nas esquerdas enquanto a direita invariavelmente se mantém unida…
    juntos somos mais fortes, e o objetivo é comum, ainda que no caminho os obstáculos não sejam sempre os mesmos.

  2. said,

    Muito bom o seu texto! Você expressou claramente o que eu estava pensando sobre isso!

  3. Rond said,

    ó, Débora, não curti muito. Vou falar o porquê: eu sou queer. Me identifico com essa linha de pensamento e dá vontade de chorar cada vez que vejo pessoas tirando “coisas queer” não sei de onde e refutando. Tipo associá-lo ao neoliberalismo. Mas enfim: não vi imparcialidade no seu texto porque você tem posturas visivelmente não-cisfeministas radicais, como a defesa da “liberdade sexual” por causa do consentimento. E segundo porque NÃO EXISTE essa ideia de objetivos iguais. Os objetivos são diferentes, os MEIOS são diferentes e são, na maioria das vezes, mutuamente excludentes. O cisfeminismo radical é transfóbico SIM, é um movimento de pessoas privilegiadas SIM (deixando claro que eu sou queer, logo minha visão crítica do cisfeminismo radical tende a esse pensamento).

    Acho completamente necessário haver essa diferenciação. TEM que haver cisão. Não existe nem hipótese de haver conciliação entre o queer e o cisfeminismo radical. Primeiro por causa da postura quanto a pessoas trans*, por exemplo. Eu admiro certas posturas cisfeministas radicais como a lesbiandade política e a crítica à sexualidade enquanto produto de relações de poder. Mas critico muito a praxis que utilizam pra falar de gênero, por exemplo. E critico as táticas de propaganda cisfeminista radical, que consistem basicamente em inventar ideias que são do queer pra depois refutar. Associar o queer a alguns movimentos políticos/escolas econômicas e depois.. criticar. Afirmar que o queer diz isso ou aquilo, e depois refutar. Isso é de uma desonestidade intelectual tremenda, mas não digo que só existe isso por parte do cisfeminismo porque já li coisas queer assim também.

    Agora, acho legal haver um mínimo de bom senso: as duas partes não são conciliáveis, ok, mas seria legal ser possível estabelecer diálogo (não direto). Porque eu já li muita coisa errônea sobre a postura cisfeminista radical em sites queer e vice-versa. Eu mesmo tinha um preconceito absurdo pelo cisfeminismo radical por conta de coisas que li que não necessariamente dizem respeito à realidade, como a visão que elas tem do gênero. Não que hoje eu simpatize, muito pelo contrário – mas acho desagradável que se espalhe tanta coisa errada por tantos lados. Espalhar crítica abertamente x sobre y é uma coisa. O x inventar algo de y e criticar já é outra bem diferente. Se chama desonestidade intelectual, como eu já falei.

    E quanto a “abraçar todas as pessoas”, eu penso o seguinte: não existe necessidade nenhuma de especificar todas as pessoas a quem um texto/elogio/qualquer-coisa é direcionado. A questão é: a não ser que se diga A QUEM, o texto vai ser generalizante. Por exemplo: você escreve um texto sobre práticas sexuais. A não ser que você especifique que o seu texto é voltado a relações heterossexuais entre parceirxs cis, é perfeitamente possível dizer que seu texto é cissexista. Acho super necessário pessoas privilegiadas pararem de tomar esse tipo de crítica como ofensa.

    E concordo com sua ideia de que depende de referencial pra pensar o privilégio. Ser homossexual atualmente é muito ruim, mas é inegável a existência de privilégios não-generificados (porque obviamente um homem cis de qualquer orientação sexual vai ser privilegiado em relação a uma mulher cis de qualquer orientação sexual) sobre pessoas bissexuais e assexuais, por exemplo. Não posso falar por minha experiência já que não sou mulher, mas, institucionalmente, o simples fato de uma pessoa ter seu gênero “respeitado” pelo estado já é um privilégio. Poder utilizar banheiros públicos é um privilégio, não ter sofrido intervenção médica nas genitálias ao nascer é um privilégio. Acho de péssimo gosto essa ideia de quer ser mulher cis não é privilegio porque ser mulher (fica implícito nessa visão que só mulheres cis são mulheres) é estar numa posição absurdamente inferior com relação aos homens. Ser homossexual também, e nem por isso existe a negação sistemática (ao menos de minha parte, mas do LGBT – com o G bem grandão mesmo – deve ter sim, com certeza) desse privilégio. Negar esse privilégio é como dizer que ser branco de classe média não é privilégio nenhum porque se paga muitos impostos e o nível de vida fica cada vez mais caro. O mundo não precisa ser perfeito pra alguma pessoa pra que ela seja privilegiada – são intersecções, não verdades cravadas em pedra (ou na carne).

    Enfim, é isso aí. Falei muito. Abraços beijos e ainda quero tomar chá mate com você!

    • Deborah Sá said,

      Rond,

      Gostei muito do seu comentário e ainda estou aprendendo sobre o Queer, que inicialmente via com desconfiança justamente por não levar em consideração algo que já me era precioso em outros aspectos, mas negligenciado no caso do Queer: Ler, ouvir, antes de levar em consideração a opinião dos outros sobre como tal assunto é invisibilizante. E concordo que há desonestidade intelectual em ambos os lados.

      Ainda acho que é possível um feminismo não cis, um Feminismo Queer, embora que para alguns isso signifique ser neo-liberal. Mas felizmente faz um tempo que descobri que meu Feminismo não precisa do aval de ninguém ;)

      E é uma dúvida genuína, não me leve a mal: Como escrever um texto sobre amar a própria menstruação sem ser cis? Como fazer disso um post-desabafo sem ofender? A caixa de comentários serve para interação e debate, mas será que isso não é ter que justificar cada palavra proferida? Não fazer uso de palavrões, por exemplo? Ou ter que justificar que “Ei, esse link da nova música da Britney é sensacional, mas é pop-cis, produzido para mulheres e gays de um enlatado americano”. Tudo tem de ser politizado? Ou não falar sobre algo é imediatamente afirmar seu oposto, por exemplo, falar do orgulho de “ser mulher” me faz imediatamente uma transfóbica que odeia mulheres trans?

      O mundo não precisa ser perfeito pra alguma pessoa pra que ela seja privilegiada – são intersecções, não verdades cravadas em pedra (ou na carne).²

      Me deve um chá e sua companhia <3

      • Rond said,

        No caso, você está falando da SUA menstruação. Não é cissexista nem muito menos transfóbico falar da sua mulheridade, de como você a entende. Cissexista é diminuir a experiência de ser mulher ao padrão de sexo e gênero cultural.

        E.. não tem isso de falar de algo é afirmar seu oposto. O orgulho de ser mulher não tem oposto que discrimine. Seria diferente se você falasse que tem orgulho de ser hétero, por exemplo. O orgulho de ser mulher não apaga mulheres trans. O orgulho de ser cis, sim (não consigo engolir essa ideia de ter orgulho de algo que você não precisou batalhar pra aceitar/ser aceito).

        Acho bem necessária essa politização quando ela é possível, entende? E essa de ‘explicar as palavras’ vai de pessoa pra pessoa. Se você não quer ofender ninguém, acho que deve sim. Mas só de estar aberta a debates já mostra que você pode aceitar que foi ofensiva em alguma palavra, diferente de outrxs blogueirxs por aí.

        (E cissexismo e transfobia são diferentes. É tipo preconceito e discriminação.)

      • Deborah Sá said,

        “O orgulho de ser mulher não apaga mulheres trans. O orgulho de ser cis, sim”. Entendi :)
        Obrigada por explicar essas coisas que ainda são novidades para mim, e se ofendi alguém nas minhas colocações, peço desculpas.

        Um abraço ;)

  4. Dayane said,

    Seus textos são sensacionais, Deborah!Parabéns!Muito mpróximos da forma cm penso!

  5. […] significado que ignorei. Na segunda vez vieram acompanhados de dois textos (texto 1, da Hailey e texto 2, da Aquela Déborah) que tentavam dar conta de explicá-los. Daí em diante cada vez que comentei […]

  6. […] significado que ignorei. Na segunda vez vieram acompanhados de dois textos (texto 1, da Hailey e texto 2, da Aquela Déborah) que tentavam dar conta de explicá-los. Daí em diante cada vez que comentei […]

  7. Olá. Adorei essa conversa e fui atrás do Rond. Somos agora amigxs no feice. Ele me disse que vc é uma linda que gosta de carinho. Vai aqui então muito carinho e vou me viciar no seu blog, adorei. Bjo de Curitiba.

    • Deborah Sá said,

      Bem vinda!

      Carinho aceito <3


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