30 julho, 2012

Você fala isso porque é jovem…

Posted in Filmes tagged , às 8:47 pm por Deborah Sá

Eu só confio nas pessoas loucas, aquelas que são loucas pra viver, loucas para falar, loucas para serem salvas, desejosas de tudo ao mesmo tempo, que nunca bocejam ou dizem uma coisa corriqueira,mas queimam, queimam, queimam, como fabulosas velas amarelas romanas explodindo como aranhas através das estrelas.

Semana passada assisti On the Road, passados alguns dias, pude perceber o que realmente me ateve foi o retrato de uma juventude não tão diferente da minha. A juventude com hora para acabar. A mocidade de meu tempo ainda fuma, o charme do artista mal compreendido persiste no jeans surrado com chinelos de dedo, um sambinha, a barba por fazer, um baseadinho. A maioria dos jovens que me cercam não tem caderneta de poupança, não se poupa muito dinheiro, alguns porque não sobra, outros porque o futuro pode esperar mais um pouco. Outra parte, porque viu os avós e os pais amargurados de trabalhar feito loucos para conquistar quase nada. Sobre as lutas por igualdade, vejo mudanças gradativas e gosto de reconhece-las para não ruminar o amargor de quem está sempre alardeando as tragédias, os retrocessos conservadores, como quem não sabe colher os pequenos frutos que nascem em tempos cinzentos de fuligem.

Catarse de criança é girar-se até a visão embaralhar, a do jovem é a embriaguez que tira a verdade da língua amortecida, enquanto  a catarse do velho é contar o terço em reza alta. Esse cadenciado é permitido por assumir que somos criaturas alheias, ora cientes, ora distraídas, de nossa desorientação. Se pequenos somos, nos permitem imaginar, posto que o fardo adiante cessará o encantamento. Se jovens somos, bebemos para soltar o que nos proíbem de ser, para demonstrarmos o afeto de desejo entreaberto emergindo a coragem de saltar, vencer a nós mesmos. E por fim, quando velhos somos, permitem que roguemos preces e pragas para a solidão. O apego a juventude é para afastar o medo da morte, do isolamento, do silêncio, do abandono. O tempo que corre indiscriminado nos aproxima dia após o outro do inadiável. Crer na possibilidade de mudança (e no prazer), como característica única da juventude e da meninice, é assumir que chega um ponto onde não há mais o que se fazer, restando lamentar os sonhos pueris de uma juventude que mal sabia do sabor azedo que o futuro reservava.

Teme envelhecer, quem acredita que a rebeldia, o aprendizado, o gozo, a transformação, o amor e a contestação sobrevivem até o despontar do primeiro pé de galinha, do primeiro fio de cabelo branco. Teme envelhecer, quem acha que chegará o tempo em que não haverá mais nada pra aprender e que as ambições da juventude são ilusões. É não acreditar na autonomia do sujeito com décadas para mais ou para menos.

Admitir-se forasteiro é estar aberto a cada peregrino que cruzar o caminho, ouvir a nova melodia, sentir outra forma de amar, aprender o novo idioma sem  medo de alterar o sotaque. Me atraio pela chama de quem irradia, de quem pulsa e faz vibrar em sua presença, dos que me apresentam sóbrios desatinos. Provavelmente isso explique a aproximação e empatia quase imediata que sinto pelos que estão do lado de fora, pela maior chance de compreender o desvario.

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27 julho, 2012

Querida Dieta,

Posted in Corpo tagged , , , , às 1:40 pm por Deborah Sá


Sei que você ainda pensa em mim, na verdade, continua me vigiando. Dizem, que éramos um belo casal, o que as pessoas não entendem é que você trazia malefícios, sua companhia era destrutiva e apenas cedia suas investidas se não me sentia segura. Se aproveitava da minha fragilidade, bem sabe. De querida não tem nada, se te trato nesse tom é pela formalidade de ser uma conhecida em outro tempo, além disso, quando percebem que estamos separadas falam que a culpa é apenas minha. Se descobrirem que estou lhe escrevendo para que suma da minha vida, ficarão possessos. Dizem que é um partidão (vê se pode?), pagam pra ter o ventre rasgado por sua influência, não sei como isso pode ser isso sinônimo de amor-próprio. Você me sugava ao ponto de me tornar uma sombra miúda beijando seus pés, causava tonturas, ânsias, ás vezes não compreendia se me fazia tremer por frio, ou medo. Me davam valor em especial quando em sua companhia, fazendo-me crer que jamais seria amada, desejada, querida e respeitada, se não fosse ao seu lado. Que bom que eu mudei! As pessoas não sabem o quanto fui arrasada, do quanto me sujeitei, das armadilhas psicológicas e de dependência. Não conseguia me alimentar antes de lhe pedir permissão e se tentava sabotar seus planos, sentia teus olhos pesando atrás dos ombros. O que me deixa furiosa acima de tudo, é ter de explicar o nosso rompimento para meus familiares, chegou-se ao ponto de desconhecidos oferecem panfletos com seu nome,  a TV, as revistas, as dicas infalíveis de como te reconquistar em até três semanas… Sei que é boa de lábia, fez sua fama por décadas e constantemente se renova, porém não estou disposta a lhe dar mais sangue, mais força. Detesto relações unilaterais e de possessão  e você é muito, muito ciumenta, por isso nunca quis me casar com você, firmar um pacto “até que a morte nos separe” com alguém da sua laia, é penar por tempo indeterminado. Os verdadeiros amigos são os que amam como sou e os melhores amantes beijam minha barriga (da qual, se referia por apelidos humilhantes). Você foi péssima e me mantinha em rédea curta, jamais admitindo uma melhora,  pois nunca serei suficientemente  boa em teus parâmetros surreais. Falam que se quero me reaproximar  basta “fechar a boca”,  no entanto farei uso dela para que saibam o quão desprezível é a sua presença. Sei que ganha muito dinheiro, tem contatos e adora colocar informantes a paisana, então não venho por meio desta rogar um pedido, mas decretar uma ordem: Vai-se embora, tenho mãos, dentes, facas e garfos, sem medo de usa-los.

18 julho, 2012

Como você lida com a beleza do seu lado?

Posted in Corpo às 12:10 pm por Deborah Sá


Já escrevi muitas vezes sobre como os padrões de beleza na grande mídia impactam diretamente a vida de mulheres*, mas e quando seu padrão de beleza está mais próximo, vividamente encarnado? Uma colega de trabalho, uma vizinha, sua chefe, sua melhor amiga? Ela parece muito mais leve, solta, decidida, bonita sem esforço. E se você vive em um meio com muitas delas, como uma agência de publicidade? Quem nunca teve aquela amiga super bonita  da qual se aproximam de você para perguntar se ela tem namorado, qual o nome e telefone?

Indivíduos deslumbrantes nos deixam maravilhados, com um sorriso bobo e um olhar perdido, coração batendo, mãos suando. É mais que atração, é a admiração de um totem, uma espécie de monumento carnal e palpável, ao mesmo tempo de difícil aproximação pelo excesso de consideração e respeito. Quando além de bonita a pessoa é inteligentíssima, carismática tudo se torna ainda mais irresistível (ou penoso).  Mas nem sempre quem admiramos secretamente percebe tamanho magnetismo.

Certa vez estava em um local e avistei uma moça linda, dessas que a primeira vista se destaca na multidão, ela era (é) belíssima e tem olhos que amolecem qualquer coração, já havíamos trocado umas palavras antes daquele dia e ela me parece mais linda a cada vez que a encontro. Mas como dizia, no fatídico dia me aproximei com a intenção de ganhar um beijo e quando o consegui, desacreditei, como costumo brincar, um dos meus lemas é “muita coragem e pouco otimismo”.  Tempos depois descobri que essa mesma moça não usava biquíni, ainda mais descrente fiquei  “se eu tivesse esse corpo, nunca teria problemas de auto estima”. Foi então que decidi contar a ela o quanto a achava indiscutivelmente bela, do tipo que nem me daria bola.

A que admiro a bunda quer por silicone, a que tem muito estilo e é cobiçada era virgem até pouco tempo atrás, a que seria a mulher dos sonhos em qualquer contexto morre de amores por um cara que não lhe dá valor, a que tem um corpo exuberante tem nos pulsos as marcas de tentativa de suicídio e punição, a que cresceu ouvindo que era inteligente queria também ser considerada gostosa. Não são metáforas aleatórias, essas mulheres existem. Discordo da Tati Bernardi, não acho que as mulheres se odeiam. Elas odeiam a si mesmas quando não sabem o que fazer com a admiração que sentem pelas outras. Elas parecem mais felizes e completas que nós mesmas: Indisciplinadas, assimétricas,  insípidas, triviais. Resgato mais uma vez O Mito da Beleza, onde as limitações físicas são baseadas em rédeas psicológicas, não é um problema simples e de imediata resolução se a insegurança foi convertida em parte da nossa prática.

Qualquer comportamento que vira hábito é difícil de alterar pois não pensamos a respeito dele, simplesmente agimos. É por isso que a ex-gorda ainda carrega alguma ressalva e parcimônia em novos relacionamentos, que os apelidos maldosos e gozações de infância não nos saem da memória, que a mágoa e a frustração nos acompanham por mais tempo. Porque a maioria já teve um coração partido, uma humilhação, uma exposição vexatória, quase todo mundo guarda uma fatia de melindre, há muito desgosto em se expor e ser machucado.  E isso não é exclusividade das mulheres, nem da pressão estética, é a cobrança pelo triunfo que chegou para quem está ao lado mas tarda a bater em nossa porta, a admiração sem onde pôr, que se não racionalizada vira o remorso de uma fruta que só dá caroço.

16 julho, 2012

Amores não consumados, entre livros e monitores

Posted in Egotrip, Memórias às 4:48 pm por Deborah Sá

Não faz assim que eu posso até me apaixonar

Atípicos no bairro (além de sermos uma família “crente”), tínhamos um computador comprado com dinheiro suado, mas nenhum carro na garagem. Lembro a primeira vez que vi um scanner de mão funcionar, achei o ápice da tecnologia o gibi da Magali com balões na capa digitalizado em preto e branco para a tela do computador, parecia mágica. Ainda mais remota é a recordação das escadas da empresa do meu tio, era um corredor que dava para o computador do meu pai e eu pedia para colocar o jogo do “mata mushquito” (como eu chamava Space Invaders). A tela preta do DOS com letras verdes, os disquetes grandes, o barulho de impressoras matriciais, usar como papel de rascunho para desenho aquele monte de papel com rebarbas e furinhos nas laterais, são partes de minhas memórias de infância.

Por volta dos nove-dez anos fazia um “show” para minha irmã, era “Da pulguinha alegre e saltitante”, consistia em recortar uma pulga cor de rosa desenhada no Paint Brush e mexe-la para cima e para baixo, com voz e personagens que nem lembro. Um dia matei simbolicamente a tal pulguinha em um episódio Season Finale porque estava com raiva, o que fez a minha irmã chorar. Será que minha irmã (agora com vinte anos), lembra disso?  As crianças do bairro brincavam muito na rua, eu e minha irmã não éramos muito fãs de sair para brincar, na verdade, a gente evitava sempre que possível. Uma vez minha irmã levou um tombo tão feio…Caiu de ombros e foi ralando no chão. Tudo bem que ela se machucava em casa de todo modo, pois gostava de correr pela casa toda e não era raro cair da escada. Ela tentava escalar com uma perna em cada parede do corredor, fazendo dessas coisas que sempre me meteram medo, “adulta” e “destemida” . Enfim, voltando a tecnologia…Ao invés de brincar na rua, preferia brincar no Word e no Paint Brush.

Eu gostava de borboletas e golfinhos, bem na época que minha mãe comprou uma enciclopédia onde aprendi um pouco mais sobre eles, com isso palavras novas, por exemplo, “inócuo”, a enciclopédia dizia que borboletas eram seres inócuos, agora tinha mais que um dicionário para aprender (me divertia lendo o dicionário). Logo veio meu desejo por conhecer algum clássico e li Memórias Póstumas, foi quando me apaixonei por Machado de Assis, queria que um garoto me considerasse inspiradora o suficiente para dedicar um soneto, algo como até um anjo cala, quando ela fala . Ele era um zé ninguém, como eu, ele era alguém que parecia inadequado, eu desejava o Machado para mim. Como um namorado, um amante em outra época, eu tinha braços bonitos (talvez um pouco mais gorduchos do que minha época exigia), ele gostava de braços e possivelmente gostaria dos meus, sabia que ele já estava morto, mas a narrativa dele, o modo de falar com o leitor, era algo que eu não havia sentido antes. E claro que era embaraçosa essa admiração secreta por um cara morto. Ainda mais quando o outro cara que me fazia suspirar de amores, tempos depois, era o John Lennon. Lembro de um dia sentar nos degraus da quadra, na oitava série e desabafar com um grupo de rapazes : “Parece brincadeira, mas os homens que eu queria pra mim, já estão mortos antes mesmo de eu nascer”.

Outro amor platônico foi o Brian dos BSB, dediquei metade de um diário para ele, mas depois me senti culpada por não ter dedicado esse espaço para Deus, rasguei, joguei fora. Criei um para registrar minha santa ceia anual na igreja, nunca teve mais que duas folhas preenchidas.
Com o Word fazia protótipos de um blog com traduções de músicas do Radiohead, criei um blog virtual, deletei, criei um com a minha irmã, chamado “O NormalMente”.  Também deletei.  Criei o blog “É mais isso”, tive um namorado virtual (digamos que um amor não concretizado não tenha sido uma novidade), depois no Orkut tive outro “rolo virtual”, escrevíamos poesias um para o outro, como se nesse espaço das letras fosse o único para que nosso amor desaguasse, sabíamos que seria só isso, foi como uma espécie de sexo casual, mas romântico e cibernético.  Também tive um namoro virtual “sério”, desses que moram em outro estado, você conta para seus familiares (e é chamada de imbecil), trocam fotos de infância um com outro, promessas, e tem de terminar porque sabe que ele nunca virá para te ver, termina por amor próprio e vai curtir a dor de cotovelo ouvindo Maria Rita enquanto assiste slides de fotos dele.

Em um momento as coisas se misturaram, passei a encontrar “na vida real” os rostos e avatares de quem conversava comigo “virtualmente”, assim vieram amizades em abraços sinceros, ombros que amparam, meu companheiro há seis anos, minhas companheiras de luta, também ativistas.  Me sinto um pouquinho na Zona Sul, no Centro, até na Zona Leste, mas sem a cobrança de sentir um ponto fixo demarcado. Caminho por ainda mais livros, com um relógio que substituiu o tic-tac dos ponteiros, para marcar as horas em duplo clique.

10 julho, 2012

A Política Sexual da Carne – Brasil

Posted in Animais tagged , , , às 1:43 am por Deborah Sá


O consumo de carne no Brasil é um traço cultural marcante, tradicionalmente a celebração entre amigos se faz com um churrasco, sendo ainda mais costumeiro assistir as partidas de futebol com essa prática. Uma festividade que envolva a culinária popular Brasileira também conta com o prato típico feijoada, na realidade, a maioria dos pratos servidos no Brasil tem como ingrediente principal a carne. Nos estabelecimentos comercias não é raro encontrar presunto até nas saladas! O consumo de bebidas alcoólicas, em especial de cerveja, também é muito estimulado com a publicidade massiva nos principais meios de comunicação. O Brasil também é conhecido por sua música, samba, Funk e o Carnaval. O que todos esses pontos têm em comum?  Eles representam a masculinidade do homem brasileiro e conforme o esperado, sua publicidade é propositalmente sexista.

Uma peça publicitária produzida em 2012 para uma marca de cerveja consiste na seguinte cena: Um homem branco, interpretando um vegetariano, assa vegetais em uma grelha durante um churrasco, outro homem (também branco), interpretando um onívoro, se aproxima e pergunta “Onde está a carne?”, o vegetariano então indica para uma porção de carne de soja e o onívoro claramente desapontado se retira da cena. O plano de imagem muda onde podemos ver cientistas observando a cena na qual mudam o processo introduzindo cerveja na situação, alterando então o posicionamento dos personagens: Desta vez, o onívoro assa as carnes na grelha e o vegetariano se aproxima com a cerveja na mão enquanto diz: “Onde estão as frutas que prometeu?”, o onívoro aponta para três mulheres-fruta e encerra perguntando ao vegetariano: “Gosta da fruta?”. O que em português, representa uma piada óbvia sobre a orientação sexual do rapaz. No Brasil, usualmente as cantoras de funk carregam uma alcunha que é associada a partes de seus corpos, alguns desses apelidos fazem referências a frutas como um dispositivo que equipara seus formatos ás partes da anatomia feminina.  Essas mulheres são conhecidas como “mulheres-fruta”.

Há uma mulher, cujo apelido é relacionado a um pedaço de carne, que posou para a Playboy de 2008. Alguns exemplares foram embalados em bandejas de isopor e comercializados em açougues. Bancas de jornais a anunciavam como ingrediente de um cardápio e banners foram impressos com o corpo da modelo marcado com indicativos gráficos que a comparavam com os pedaços de um bovino abatido. Aliás, “abate” é uma expressão idiomática comum para se referir a mulheres com as quais se deseja ter relações casuais. O funk produzido no Brasil é feito com versos que falam sobre o cotidiano, violência e a sexualidade de uma camada marginalizada da população: Negros, pobres e também mulheres que estão dentro desses recortes de classe e raça. A acusação mais comum que se faz sobre o funk é contra sua linguagem explícita e seu potencial para reduzir mulheres a meros objetos sexuais, embora a publicidade mencionada acima represente as mulheres-fruta sem qualquer participação mais relevante do que dançarinas, todas as cantoras desse gênero fazem ao menos uma canção muito similar em conteúdo a “Short Dick Man” e “Lick It” produzidas pelo grupo 20 Fingers, populares nos anos 90. Ou seja, letras que representam uma mulher independente sem medo de falar abertamente sobre sua sexualidade, ao mesmo tempo em que tenta subverter sua objetificação a usando como vantagem.

As mulheres com grande destaque midiático (atrizes, cantoras, participantes de reality show, etc.) são convidadas para participarem dos eventos relativos ao Carnaval. Aos olhos de um estrangeiro, um país cujas mulheres vão a público falar sobre sua sexualidade e tem como celebração o carnaval, onde dançam nuas ao vivo, há de se imaginar um ambiente onde a figura da mulher seja fortemente empoderada. Isto é um erro. A violência contra as mulheres no Brasil é alarmante. Em 2001 a Fundação Perseu Abramo trouxe a triste estatística de que a cada 15 segundos uma mulher é espancada no Brasil. Em 2006 foi decretada a lei Federal de nº 11.340 conhecida como “Lei Maria da Penha”, que visa punir com maior rigor e coibir as agressões sofridas por mulheres em âmbito familiar e doméstico. Maria da Penha Maia Fernandes, foi uma mulher espancada brutalmente e agredida diversas vezes pelo marido durante seis anos de seu casamento.  Seu esposo tentou assassina-la com uma arma de fogo a deixando paraplégica e em outra ocasião, a eletrocutou.  Seu cônjuge só foi punido depois de dezenove anos de julgamento, cumprindo apenas dois anos em regime fechado.

Embora haja avanços significativos na paridade entre os gêneros, o Brasil possui o discurso ambíguo de preconceitos velados também em outros âmbitos que abrangem uma imensa variedade de minorias: O racismo está presente nas piadas, as mulheres que ousam andar nas vias públicas com saias curtas tem sua moral questionada, e se por ventura sofrerem algum assédio ou violência, culparão a vítima por seu vestuário. Ademais, o Brasil tem a seu dispor uma das maiores Paradas Gay do mundo sendo recordista na violência contra Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros. A contradição não se encerra nessas circunstâncias: Nosso estado laico contém o nome de Deus em suas cédulas, e o Congresso possui uma bancada de forte cunho religioso. A agressão e violência contra animais de estimação e outros não-humanos é socialmente condenada, mas também tolerada se feita em âmbito privado. Ao mesmo tempo, somos o país com a maior empresa em processamento de proteína animal do mundo e denúncias de trabalho escravo no setor pecuarista. Rejeitar o consumo de derivados de animais não é apenas encarado com estranhamento pela maioria da população, sobretudo tal ato é visto como um insulto e afronta contra a identidade cultural de um país que encobre sua desigualdade e violência com uma injusta e muito recente democracia.

Elaborei o texto acima a pedido de Carol Adams, autora de The Sexual Politics of Meat, traduzido recentemente para o Português em A Política Sexual da Carne – A relação entre o carnivorismo e a dominância masculina. Cujo título já indica, faz as analogias entre o consumo de carne e o patriarcado.

A tradução e revisão do texto para o inglês  foram realizadas com a ajuda do meu companheiro Yuri, a intenção era retratar a publicidade brasileira para explicar que nosso contexto e costumes adequam-se perfeitamente no raciocínio exposto há vinte anos atrás, quando Carol lançou a primeira edição de seu livro. Através do Blogueiras Feministas, por pedido da Editora Alaúde, elaborei três perguntas para Carol, as respostas estão nesse link.

3 julho, 2012

Queer X Feminismo Radical: Overreacted.

Posted in Gênero tagged às 1:07 am por Deborah Sá


Pra quem não está inteirado nos últimos acontecimentos que permeiam os debates virtuais entre feministas, talvez não saiba da guerra fria terminológica que a discussão Queer  X Feminismo Radical tem ganhado nas últimas semanas (ou será que faz mais tempo e eu não percebi?).

Pessoalmente já fui bastante relutante com o Queer, o achava muito pós-moderno, invisibilizante, oba-oba, tudo é livre, tudo é possível, tudo é “pegue e faça”. Pois há uma grande distância entre o que pode ocorrer no plano das idéias e o que ocorre na concretude (escrevi sobre isso aqui). Por outro lado, também me oponho a idéia de que há só uma forma de ser feminista, ou de que o gênero e genitália de alguém reduz sua capacidade empática (nisso se encaixa esse outro post onde critico o Feminismo Uterino).

A sessão de fotos da Valesca Popozuda contra a violência que atinge a mulher, o Femen, o Laerte e o direito de usar o banheiro feminino e tantos outros acontecimentos reacendem essas polêmicas e acentuam a racha entre Feministas, no que concerne ao meu espaço não vejo pra que “demonizar” qualquer uma das partes. Divergências são presentes em qualquer grupo que se reúna, o que me preocupa são as lutas de viés esquerdista  continuamente diluídas, enquanto a inflexível direita continua fortalecida já que se baseia em tradições.

Os objetivos do Queer não são tão diametralmente opostos ao Feminismo, se busca a tríade liberdade, igualdade e fraternidade. Sinto que a reação de ambos os lados está cada vez mais exagerada. Em termos estrangeiros, overreacted.

Escrever um texto sobre amar a própria buceta, ser hétero e gostar de chupar um pau, bem como, defender espaços exclusivos para mulheres não é  cissexista e heteronormativo. No primeiro cenário descreve-se alguém confortável no gênero e corpo biológico que possui, onde não há qualquer culpa em usufruir da própria sexualidade. No segundo, um direito, vivemos em um tempo onde mulheres ainda são silenciadas e violentadas sexualmente, fazendo-se necessário um espaço muito específico para troca de experiências e empoderamento coletivo daquelas que partilham uma história em comum.

Ser mulher é um privilégio? Depende do referencial. Por exemplo, entre um homem muito pobre e uma mulher muito rica, é claro que ela será a privilegiada com mais ferramentas culturais, proteção do estado, cidadania, direito a educação e etc., isso não ocorre pelo seu gênero, mas devido a sua classe. Da mesma forma uma mulher pobre, será privilegiada se comparada com um porco adulto que pode ser legalmente vendido, morto a machadadas e ninguém sentirá sua falta ou verá nisso algum crime. A diferença que os marca nesse caso é o especismo. Uma travesti de roupa curta e uma cis-mulher de roupa curta gerarão respostas violentas muito específicas, embora paralelos de opressão sejam possíveis e desejáveis, a máxima de que “cada caso é um caso” permanece.

Imagine que em absolutamente toda a manifestação verbal ou escrita você tenha que considerar todas as minorias. Em exemplo, explicar que você acha determinado tipo físico bonito: “Acho muito atraente moças negras, gordas, altas, de cabelo crespo”. Isso quer dizer que você odeia ou ignora mulheres brancas, magras, baixas do cabelo liso? E as cadeirantes? E as indígenas? E as com traços peruanos? E as asiáticas? E as albinas? Por mais espontaneidade e menos patrulhamento linguístico e moral, do contrário, é retrocesso de uma ortodoxia renovada.

A grande ameaça ao Queer não são as feministas, elas aliás, foram as responsáveis pela abertura do questionamento das dicotomias de gênero. E o inimigo do Feminismo não é o Queer, é o Patriarcado. Não me preocupo com o “Happy Feminist”, as feministas felizes e burlescas ou pin-ups com suas maquiagens e pole dancing, se dizem ser felizes isso simplesmente não me diz respeito (o que outr@s fazem com seus corpos e consentimento).  Não há contradição em bater tambores com os peitos de fora exigindo tratamento respeitoso, pois somos sujeitos para além de vestimentas, dança do ventre, maquiagens flúor, cabelos descoloridos ou pêlos na batata da perna.  Me preocupa tanto  mais o Feminismo “Frutrica” que nos distancia e dilui em sub-guetos, enxergando inimigos políticos em quem busca outras vias para alcançar nossas reivindicações mais antigas: Autonomia, respeito á diferença, direito ao fortalecimento e iguais oportunidades.

Os aliados podem não ser nossos idênticos.