6 junho, 2012

A nudez como arma política, ou não

Posted in Corpo, Eventos tagged às 12:07 am por Deborah Sá

Em 2009 me manifestei contra o Lingerie Day, a insatisfação foi ter surgido como uma data criada para um grupo pequeno: “As gostosas”. O banner de divulgação era objetivo: Feias, gordas ou qualquer mulher fora do padrão não seria bem vinda. Tampouco, creio que pornografia com mulheres gordas seja a evidência de que os paradigmas estéticos alcançaram um novo patamar, facilmente grupos marginalizados encontram admiradores na web ou espaços fetichistas, inclusive aqueles que os usam como um prazer descartável aproveitando da baixa auto estima para tê-los como acessório em dependência emocional. Andar de mãos dadas em via pública; ouvir indiretas e comentários por namorar um portador de necessidades especiais, um cadeirante, uma gorda, uma travesti, esse é um “peso” que poucos estão dispostos a enfrentar, ás vezes leva um tempo para levarmos á prática nossas pulsões, outros ainda preferem levar em segredo esses desejos.

Ano passado não fui à Marcha das Vadias, embora o caráter fosse feminista (o respeito aos corpos independentemente do vestuário) pensei que o título era limitante, não são apenas as “vadias” que sofrem assédio, mesmo quando usava uma saia cobrindo os calcanhares ouvia declarações que faziam corar e retornar para casa constrangida, a mulher livre é aquela que sorri faceira de saia curta, mas também aquela que planeja o casamento, a que é virgem, a que tem pênis e nem pensa em tirá-lo, a que se sente tranqüila para seguir seu próprio ritmo, seja ele qual for, portanto o leque de possibilidades está em contínua expansão e cada grupo, embora com especificidades, é tolhido de se manifestar por um inevitável (?) mal entendido.

Esse ano fui á Marcha das Vadias de SP por simpatizar com os cartazes produzidos no Distrito Federal, sempre que possível busco participar dos eventos e ver com os próprios olhos do que me basear nos noticiários, escolhi um vestido e sem calcinha ou sutiã (não por causa da Marcha, ás vezes gosto de sair de casa assim), fui até a concentração do ato, era um belo dia ensolarado. Encontrei algumas das Blogueiras Feministas, amigas e outros rostos conhecidos, algumas estavam sem camiseta com os corpos pintados e me senti confortável, pois é assim que lido com a nudez de forma geral. Optei por não ficar completamente nua e se o fizesse, não seria necessariamente para protestar, mas para ficar mais “á vontade”. Aquelas mulheres usavam seus corpos como armas e então foi imediato lembrar do Femen, as ucranianas que usam sua nudez como reivindicação. Segundo o Femen, não há qualquer requisito para se filiar, o fato de só reproduzirem as imagens de loiras, jovens, brancas e magras é uma predileção da mira dos fotógrafos e também uma coincidência do biotipo do país. Fato é que a nudez na Marcha das Vadias desse ano causou indignação, incompreensão e até mesmo censura em algumas reproduções. As perguntas que perduraram foram: Vale a pena correr o risco de ser mal interpretada? Não é ingenuidade esperar que o nu feminino em nossa sociedade tenha reação oposta?

É bom ter em mente que toda manifestação pode cimentar as caricaturas de quem as reivindica, principalmente se levarmos em consideração a forma que isso será documentado e divulgado, uma passeata com duração de quatro horas pode ser noticiada na primeira folha do jornal através do recorte de um ato isolado, onde um único indivíduo encapuzado chuta uma viatura policial. Entre fotografar um casal lésbico de negras, ambas vestidas ou dois gogo boys loiros e depilados na Parada Gay, certamente a mira do fotógrafo centralizará o que a audiência quer enxergar. Imaginar que o discurso não seja apropriado de forma palatável e vendável é um engodo, com ou sem roupa, de megafone e estandarte, de cartolina na mão e esparadrapo na boca, pouco importa, a falha, portanto, não é do(s) método(s) proposto(s), mas da distorção na ignorância de quem desconhece outras manifestações do novo, do que foge a dedução imediata.

Reconhecer essa condição não implica resignação, fatalismo, perceber nossas limitações e a consciência de nossos privilégios não deve engessar as ações que podemos executar, somos seres condicionados e ao mesmo tempo capazes de mudar o rumo. O mundo que não compreende os seios expostos de uma mulher comum, é o mesmo que prefere que gays se beijem em âmbito privado, é o que classifica baseado em aparência ou bagagem acadêmica, que julga pelo tamanho do lattes e pelo tamanho do pau. Ademais, nem sempre o nu é político, nem sempre o beijo é premeditado e militante, ás vezes o nu é para quem gosta de ser visto, quem gosta de sentir a brisa, quem chega cansado do trabalho e fica com o mínimo de roupa para relaxar, o beijo de língua pode ser carinho, pode ser tesão, pode ser a faísca no momento propício que surgiu quando menos esperávamos.

A militância quando vira um cargo é fardo que faz adoecer, pesa ao espírito, rouba o brilho dos olhos e a cor dos lábios, deixa o semblante carrancudo, as palavras amargas, vigilante e por isso mesmo, fatigado, nesse estágio qualquer um que pise fora de rijo traçado é jogado aos leões, perde a credibilidade, vira inimigo.  De minha parte, carrego o coração leve por não trair o que desejo, quando almejo abotôo até o pescoço e quando não, calcinha no chão.

6 Comentários

  1. Raiza said,

    Eu compreendo que qualquer manifestação pode ser mal interpretada,mas ainda assim os métodos devem ser melhor avaliados,creio eu,pois podem afastar possíveis aliados.

    • Deborah Sá said,

      Concordo que as ações devem ser pensadas, especialmente quando tornado explícito o teor político de nossos atos. Estar ciente é também perceber as responsabilidades em assumir e praticar o que acreditamos. Porém, noto que algum@s militantes se sobrecarregam nessa responsabilidade e tolhem novas vivências, por exemplo, uma mulher que se sente culpada por namorar um homem, um homem que se sente “machista” por desejar fazer sexo anal, enfim, gente que coloca uma carga tão pesada nos próprios ombros que pouco abre a boca longe do computador com medo de sujar a própria imagem, a imagem do movimento.
      Pensar antes de agir, ter tática, estratégia, paciência, tudo isso é muito bom, mas se levado ao extremo só trás frustração e cansaço, a pessoa fica fingindo que não sofre por amor, fingindo que não depende de ninguém, fingindo que não tem dias ruins, fingindo que acorda e dorme pensando como uma militante, que não dá risada, que não fala bobagem, aí vejo simpatizantes das causas que luto completamente insegur@s por não serem assim o tempo todo, culpand@s pelo próprio desejo, se espelhando em um personagem idealizado que é tão complexo, influenciável e contraditório quanto qualquer um@ de nós.

      Por mais responsabilidade e menos fardo, para quem milita e para quem quer fazer parte ^_^

  2. Pedagogos: Leandro,Thamara, Sandro, Aurea, Claudia, Debora & Eliseu. said,

    Olá , primeiramente gostariamos de dizer que seu blog esta lindo, adoramos muito.
    Somos um grupo de sete estudantes da UERJ e estamos construindo um blog para falar de gênero, diversidade e defender outros direitos que deviam mas não estão assegurados, gostariamos que comentassem sobre e nos ajudassem a construi tal espaço: http://equaleoxdaquestao.blogspot.com.br/
    nosso email: qualeoxdaquestao@gmail.com
    Respeitosamente,

    Pedagogos: Leandro,Thamara, Sandro, Aurea, Claudia, Debora & Eliseu.

  3. Thais Lima said,

    Deborah, pq não há uma página no facebook para o “aqueladeborah”?
    Eu conheci o blog hj, li alguns (mentira, passei a tarde inteira o lendo) posts, e senti o “peso” de não tê-lo conhecido antes.
    Eu acho que o que vc escreve aqui deveria ser melhor divulgado, as pessoas deveriam ler e se informar, isso é de extrema importância!
    Acho que no facebook os seus posts iam chegar num número maior (e cada vez maior) de pessoas, além da facilidade que a rede proporciona para o debate dos assuntos.
    Enfim, é só uma idéia, e eu até me disponho a ajuda-lá nisso, se for do seu interesse e se minha ajuda for necessária… =)

    • Deborah Sá said,

      Olá, seja bem vinda, Thais!
      Tudo bem?

      Agradeço os elogios, a questão é que não conseguirei administrar os comentários lá, aqui, meu twitter e demais aplicativos on-line…De toda forma, no final de cada post é possível compartilhar em poucos cliques o post em outras mídias. A Universidade que estou está em greve, estou desempregada, meu HD pifou e perdi arquivos importantes, enfim, estou um pouco atrapalhada e agora realmente não conseguirei me dedicar a isso, mas gostei da sua idéia ;)

      Fique a vontade para comentar nos posts (mesmo nos antigos, leio todos), ás vezes eu demoro um pouquinho pra responder, não estranhe ;P

      Um abraço,

    • Deborah Sá said,

      Oi Taís,

      Criei, está aqui:
      https://www.facebook.com/quediscorda

      :)


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