28 junho, 2012

Feminismo Estudantil e Movimento Radical

Posted in Gênero às 7:52 pm por Deborah Sá

Anos atrás, eu era Feminista Radical. Era. Agora vejo que não entendo patavinas.

Pra mim, se tratava do Feminismo das rupturas, de lutar para expressão do corpo, das idéias, respeitando a historicidade, o desejo. Meu, e d@s outr@s. Foi importante reconhecer-me enquanto sujeito feminino responsabilizado pela própria opressão, e o direito da recusa em atender padrões irreais de beleza e comportamento.

Discordar nos discursos e práticas não significa largar o que acreditamos, ou que viraremos a cara para quem pensa diferente. A autocrítica é uma tendência felizmente inevitável.

Reconhecer as limitações e saber as implicações de nossos atos é fundamental para o avanço da “pauta” de qualquer luta.  Se porventura, alguma Feminista Radical no Brasil ler este texto e estiver disposta em contribuir, tomo a liberdade de fazer algumas perguntas:

1) O que é de fato o Feminismo Radical? Quem o define?

2) Há quem diga que o Feminismo Radical não existe no Brasil, pois não há força política para tanto, então há um número mínimo para os indivíduos se articularem e se reconhecerem como tal?

3) O que difere o Feminismo Radical do “convencional”? Ele tem mais mulheres negras, indígenas, ou de outras camadas marginalizadas da população como integrantes?

Algumas observações:

A) Sei que há uma tentativa de tornar o discurso menos acadêmico (o Queer é criticado por ser acadêmico e branco), me desculpem a sinceridade, mas a maioria dos textos que trombei por aí sobre Feminismo Radical são de produções traduzidas (não raro, escritos e traduzidos por mulheres brancas e/ou universitárias), com mais de vinte páginas em linguajar muitas vezes maçante, se isso não é academicismo, não sei o que é.

B) Esse ano entrei na Unifesp e não tive nada além de uma semana de aula, mas pude participar (mesmo que timidamente) do Movimento Estudantil e da Greve, o que  observei, é mais ou menos assim:

Alguns têm fama de ríspidos e grossos, no entanto, se você se aproxima e conversa em particular e individualmente, nota que a pessoa é um doce, um(a) fofo(a), dentro de instantes o sujeito pega o fone pra se pronunciar e os tímpanos de quem ouve quase estouram de tanto que gritam palavras de ordem. E isso me faz traçar um paralelo imediato com algumas feministas que usam o espaço virtual como o “microfone” para “gritar”. A revolta é legítima, claro, temos motivos de sobra para nos indignar. Mas o modo escolhido assusta e é antidemocrático.

Em outras palavras, em ambos os casos dizem que quanto mais gente ajudar a construir o movimento melhor, mas se chega um@ novat@ vão mandar ler os clássicos, e se por acaso esse afirma que já leu, vão mandar ler novamente, isso quando não acusam imediatamente de liberal, reacionário, pós-moderno e etc. Baseados no discurso de autoridade de que estão lá há mais tempo, leram mais,  manjam como as coisas funcionam e agir fora daquele método é sambar conforme o sistema espera. Seja como for, desconfio da liberdade “Tamanho Único”.

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6 junho, 2012

A nudez como arma política, ou não

Posted in Corpo, Eventos tagged às 12:07 am por Deborah Sá

Em 2009 me manifestei contra o Lingerie Day, a insatisfação foi ter surgido como uma data criada para um grupo pequeno: “As gostosas”. O banner de divulgação era objetivo: Feias, gordas ou qualquer mulher fora do padrão não seria bem vinda. Tampouco, creio que pornografia com mulheres gordas seja a evidência de que os paradigmas estéticos alcançaram um novo patamar, facilmente grupos marginalizados encontram admiradores na web ou espaços fetichistas, inclusive aqueles que os usam como um prazer descartável aproveitando da baixa auto estima para tê-los como acessório em dependência emocional. Andar de mãos dadas em via pública; ouvir indiretas e comentários por namorar um portador de necessidades especiais, um cadeirante, uma gorda, uma travesti, esse é um “peso” que poucos estão dispostos a enfrentar, ás vezes leva um tempo para levarmos á prática nossas pulsões, outros ainda preferem levar em segredo esses desejos.

Ano passado não fui à Marcha das Vadias, embora o caráter fosse feminista (o respeito aos corpos independentemente do vestuário) pensei que o título era limitante, não são apenas as “vadias” que sofrem assédio, mesmo quando usava uma saia cobrindo os calcanhares ouvia declarações que faziam corar e retornar para casa constrangida, a mulher livre é aquela que sorri faceira de saia curta, mas também aquela que planeja o casamento, a que é virgem, a que tem pênis e nem pensa em tirá-lo, a que se sente tranqüila para seguir seu próprio ritmo, seja ele qual for, portanto o leque de possibilidades está em contínua expansão e cada grupo, embora com especificidades, é tolhido de se manifestar por um inevitável (?) mal entendido.

Esse ano fui á Marcha das Vadias de SP por simpatizar com os cartazes produzidos no Distrito Federal, sempre que possível busco participar dos eventos e ver com os próprios olhos do que me basear nos noticiários, escolhi um vestido e sem calcinha ou sutiã (não por causa da Marcha, ás vezes gosto de sair de casa assim), fui até a concentração do ato, era um belo dia ensolarado. Encontrei algumas das Blogueiras Feministas, amigas e outros rostos conhecidos, algumas estavam sem camiseta com os corpos pintados e me senti confortável, pois é assim que lido com a nudez de forma geral. Optei por não ficar completamente nua e se o fizesse, não seria necessariamente para protestar, mas para ficar mais “á vontade”. Aquelas mulheres usavam seus corpos como armas e então foi imediato lembrar do Femen, as ucranianas que usam sua nudez como reivindicação. Segundo o Femen, não há qualquer requisito para se filiar, o fato de só reproduzirem as imagens de loiras, jovens, brancas e magras é uma predileção da mira dos fotógrafos e também uma coincidência do biotipo do país. Fato é que a nudez na Marcha das Vadias desse ano causou indignação, incompreensão e até mesmo censura em algumas reproduções. As perguntas que perduraram foram: Vale a pena correr o risco de ser mal interpretada? Não é ingenuidade esperar que o nu feminino em nossa sociedade tenha reação oposta?

É bom ter em mente que toda manifestação pode cimentar as caricaturas de quem as reivindica, principalmente se levarmos em consideração a forma que isso será documentado e divulgado, uma passeata com duração de quatro horas pode ser noticiada na primeira folha do jornal através do recorte de um ato isolado, onde um único indivíduo encapuzado chuta uma viatura policial. Entre fotografar um casal lésbico de negras, ambas vestidas ou dois gogo boys loiros e depilados na Parada Gay, certamente a mira do fotógrafo centralizará o que a audiência quer enxergar. Imaginar que o discurso não seja apropriado de forma palatável e vendável é um engodo, com ou sem roupa, de megafone e estandarte, de cartolina na mão e esparadrapo na boca, pouco importa, a falha, portanto, não é do(s) método(s) proposto(s), mas da distorção na ignorância de quem desconhece outras manifestações do novo, do que foge a dedução imediata.

Reconhecer essa condição não implica resignação, fatalismo, perceber nossas limitações e a consciência de nossos privilégios não deve engessar as ações que podemos executar, somos seres condicionados e ao mesmo tempo capazes de mudar o rumo. O mundo que não compreende os seios expostos de uma mulher comum, é o mesmo que prefere que gays se beijem em âmbito privado, é o que classifica baseado em aparência ou bagagem acadêmica, que julga pelo tamanho do lattes e pelo tamanho do pau. Ademais, nem sempre o nu é político, nem sempre o beijo é premeditado e militante, ás vezes o nu é para quem gosta de ser visto, quem gosta de sentir a brisa, quem chega cansado do trabalho e fica com o mínimo de roupa para relaxar, o beijo de língua pode ser carinho, pode ser tesão, pode ser a faísca no momento propício que surgiu quando menos esperávamos.

A militância quando vira um cargo é fardo que faz adoecer, pesa ao espírito, rouba o brilho dos olhos e a cor dos lábios, deixa o semblante carrancudo, as palavras amargas, vigilante e por isso mesmo, fatigado, nesse estágio qualquer um que pise fora de rijo traçado é jogado aos leões, perde a credibilidade, vira inimigo.  De minha parte, carrego o coração leve por não trair o que desejo, quando almejo abotôo até o pescoço e quando não, calcinha no chão.