25 maio, 2012

Teu corpo é pra si e para ser

Posted in Corpo tagged às 3:53 pm por Deborah Sá

Quando criança eu tinha um desejo secreto de transformar a frente da igreja em um espetáculo sob holofote, um microfone, papel picotado, palmas… A igrejinha pequena de pouca estrutura na periferia da Zona Sul era um espaço onde gostava de estar, observar as pessoas caindo de sono na oração, os testemunhos engraçados, enfim, via se comportarem de modo peculiar e divertido, levava meu coelho de pelúcia nos braços, as meias azuis de crochê nos pés e um rabo de cavalo balançando por detrás da cabeça (odiava a dor de pentear o cabelo, mas gostava do vai e vem do penteado enquanto caminhava). Era daquelas crianças tagarelas que envergonhavam os pais não percebendo a malícia de falar certas coisas em público, pra ser honesta ainda me resta essa característica, meus amigos sabem que não é raro a cena cômica onde se faz o silêncio no recinto e se ouve apenas a minha voz “Minha buceta de bobs pra isso” ou qualquer outro comentário constrangedor.

Passei por experiências desagradáveis (entre elas, abuso sexual) o que alterou meu modo de agir, sei que minha forma de encarar o mundo pode parecer ofensiva, alguns pais de amigas já deixaram evidente que não parecia boa influência e se preocupavam que as idéias pouco ortodoxas contaminassem seus filhos, na realidade, não subestimo a autonomia e me vejo tão influenciável quanto possível, se há diálogo embasado com bons argumentos posso mudar de idéia e me reinventar. Ao mesmo tempo, posso ser interpretada como uma ótima influência nos moldes tradicionais: Tenho um relacionamento estável há seis anos com um homem, nunca tomei um porre, odeio fumaça de cigarro, detesto bebidas alcoólicas e a cultura de entorpecimento compulsório, sou responsável com meus estudos e compromissos profissionais de forma tão dedicada que alguns se espantam em descobrir que não sou a pessoa “quadradona” que imaginavam. Mas onde está a contradição? Espero a noite para soltar “minhas garras” e finjo a sobriedade? Não, simplesmente coexisto e quem classifica as coisas como inconciliáveis são os outros.

Todavia, comportamentos não são fatalistas e determinantes, não é porque passei por abusos que  vou me trancar pra sempre e sentir nojo do meu corpo, é difícil e trabalhoso se reerguer? Há quem sofra a vida toda? Sim, mas com esforço e o apoio de ótimos indivíduos (incluo aí alguns não-humanos fantásticos que conheci), consegui voltar a minha forma latente de exibicionista. No passado guardava minhas poesias e escritos, quando professor@s, amigos e parentes tinham acesso ao que eu produzia diziam “Você tem que mostrar isso para mais pessoas!”, a própria idéia de construir um blog começou como uma ferramenta de desabafo, não imaginava que mais pessoas poderiam achar interessante algo que saísse de mim. O mesmo vale para tirar fotos, voltei a gostar de ser focada por uma lente. Sem modéstia posso dizer que meus peitos são tão bonitos quanto meu olhar, mas por que devo guardar a beleza e o conforto em habitar esse corpo? Por que seria menos nobre extrair prazer em exibir meu corpo em decotes do que de emocionar alguém com meus textos? A excitação de quem desejo é uma dádiva, perceber que alguém atraente pode se estimular com o que meu corpo proporciona visualmente, olfativamente, tatilmente, é maravilhoso. Se por ventura me acham além de gostosa, charmosa e inteligente, oras, tanto melhor! Em linhas gerais, superestimam a nudez, alguns simplesmente sentem-se confortáveis em seus corpos e gostam do que vêem no espelho, gostam de serem vistos, repudio a condenação moral daqueles que possuem amor-próprio e tornam isso explícito. São permitidas tais sinceridades apenas entre “quatro paredes” ou nem isso se deixam expressar, ao encarar a sexualidade e as urgências da carne como menos nobres. Pergunto-me se esses indivíduos super racionais não fazem caretas enquanto gozam ou se ao olharem uma figura atraente pensam “Nossa, com esse corpo eu filosofava até ás três da matina”, obviamente defendo o respeito e o não constrangimento público, sou contra o assédio e a coação que tantos fazem como forma de humilhação, há momentos propícios para o flerte e o modo de realizar isso é perceber o quanto de abertura o outro nos dá para a aproximação. Nada impede que o ex-dançarino do Tchan estrele uma peça cabeça, que a Dra. Havanir cante o Tchu-tcha-tcha e que um teórico tenha talento para rebolar, quem acha essas posturas contraditórias parece viver em um único estado de espírito onde ou se é puramente teórico e político ou apenas existe o desfrute de corpos suados. Piriguete também quer casar, viver um grande romance, dormir de conchinha e o pastor da igreja pode adorar ficar de quatro e fazer fio terra.

Alguns defendem que para se prevenir o melhor é nunca se expor, não tirar fotos de nudez  é uma medida de precaução porque uma vez exposta essa faceta de sexualidade escancarada perde-se o emprego e a credibilidade é esgotada para todo o sempre. O problema meus caros, é se julgar revestido de uma autoridade que determina como os corpos alheios deverão se comportar e decretar o rechaço para a ousadia de quem desafiou um padrão limitante de respeitabilidade.

5 Comentários

  1. esse é um dos posts escritos por vc mais bonitos que li nos últimos tempos. e, para não perder o hábito, claro que eu me identifiquei, principalmente com a parte do rabo de cavalo balançando (fosse na igreja ou em qualquer outro lugar). é um dos poucos elogios que eu lembro quanto à minha aparência quando criança. enfim.

  2. Deborah Sá said,

    Muito obrigada ^_^

  3. fabinho said,

    Escreve muito bem ,facil ler seu blog tem blog que e pesado ler da sono o seu e leve gostoso ler sou da ccb vir artigo que legal boa sorte !!!

  4. Ana Carolina said,

    Gostei do muito do texto, você é uma ótima escritora!
    Também sou contra, como você muito bem descreveu, a essa :”cultura de entorpecimento compulsório, “.
    Acompanho seus twits mas nunca tinha lido o blog já está no favoritos!
    Sobre a exposição do corpo, vc mostrou um ponto de vista que eu não tinha pensado nem visto em outro lugar, e para falar a verdade faz sentido para mim. A nudez o sensual é visto como safadeza, e vulgaridade a muito tempo, e não sei se é pq acontece de em alguns casos ser, ou simplesmente é uma coisa que aceitamos por não pensar muito a respeito.
    Existe tanta vulgaridade com fim de pura exposição que que nem sentimos que criamos um padrão de achar a exposição sinonimo de safadesa e não valorização ou auto apreciação. Ficamos com vergonha as vezes de algo em nós e quando vimos que alguém se aceita e se mostra, não só não aceitamos como acatamos como uma ofensa pessoal.

    Abraços.

    @Carol_Darota

    • Deborah Sá said,

      Olá,

      Bem vinda ao blog Ana Carolina :)

      Muito obrigada pelos elogios.
      Pois é, tratamos quem gosta de “se exibir” como alguém problemático que clama por atenção o tempo todo, é como a extroversão, algumas pessoas são mais soltinhas e gostam de falar bastante, usar roupas coloridas, um visual mais extravagante, outras preferem não chamar muito a atenção, são mais quietas, com roupas em tons sóbrios. Nada disso é indicativo de caráter, cada um@ vive conforme o que acha mais confortável e no fundo todo mundo busca aceitação e admiração, quando a pessoa tímida prefere não falar em público ela teme justamente a rejeição coletiva, nós gostamos de nos sentir amados, queridos, não há mal nenhum em gostar de receber carinho, se sentir desejável.
      Assim como cada pessoa tem uma linha de raciocínio distinto (em um filme, cada espectador recebe as imagens e chega a conclusões diferentes), nossos corpos funcionam e nos proporcionam prazer de forma diferente. Dançar, por exemplo, tem gente que gosta de mover mais as pernas, outros os braços, outros o quadril, mas como associamos determinadas partes do corpo a conceitos sexuais ou de gênero, um homem que goste de requebrar os quadris é visto como menos másculo ou ainda a mulher que “gosta de ir até o chão” é vista como mais “vulgar” que outras. O corpo é prazer, quando ouvimos a melodia de uma música e batemos o pézinho, ali mora o desfrute, por isso gosto tanto de dançar, porque tem de se permitir fazer movimentos bobos, rodopiar e qualquer espontaneidade que o corpo inventar na hora.
      Costumam achar o cúmulo alguém gostar de ficar pelada, ser vista, de usar roupas curtas ou justas e nessa cobrança querem que alguém justifique porque está se divertindo. “Como ousa ser gorda e dançar assim e assado com essa roupa colada?” Se a pessoa está confortável e se sentindo linda, qual é o grande problema? Uma gorda com roupa justa abala a órbita dos planetas? Com sua dança ela vai esgotar a sua “barrinha de vida” como em um videogame? A mulher que faz pose pelada e guarda a foto merece punição por gostar da própria imagem? Merece sofrer por…estar feliz e orgulhosa do espelho? Somos bunda, peito, coração, cérebro, caráter, desejo, somos uma coisa só. Ter auto-estima não significa se achar superior, mas ser sincer@ e admitir suas qualidades, ao mesmo tempo em que reconhece as qualidades dos outros.

      Um abraço!


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