27 março, 2012

A Novidade (que de nova, não têm nada)

Posted in Cotidiano às 2:17 am por Deborah Sá

Um comentário aqui, um parêntese acolá, uma piadinha machista que ouvimos quase sem querer durante o trajeto de volta pra casa, uma injúria racista que enerva e faz serrar os dentes, contar até dez, hoje durante o almoço o homem da mesa á frente contava ás gargalhadas como batia em seus três cães. Esse tipo de comportamento sádico e escarnecedor me faz profundamente incomodada, sinto a impotência de nada interferir na dose de Horrorshow diluída no cotidiano. No trem abarrotado ou no metrô,  é perceptível a aglomeração de homens sorridentes que aos solavancos disputam a entrada quando as portas se abrem ao arrastar senhoras e seus netos pendurados sob os ombros.  E ao conversar com outras mulheres, ao saber das notícias, sim, claro, vivo em um mundo machista, limitador, patriarcal e ao ligar a TV e ver apenas brancos,  me recordo, ah, claro, esse mesmo mundo é racista, não posso esquecer esse adendo. E com o MP3 nos ouvidos (talvez se nascer contorcionista em outra vida, consiga ler as xérox da faculdade nestas condições), “A novidade veio dar a praia

Dano colateral da desigualdade, um desfecho trágico e isolado, tornei-me espectadora absorta do espetáculo de sereias despedaçadas por aqueles que tem muito além á usufruir e por costume desmantelam barbatanas e guelras. Recuso os beijos de Deusa,  ao tão desigual enquanto tento (um tanto desengonçada),  livrá-las de beijos forçados e partilha sangrenta. Enquanto isso o tilintar dos talheres segue em tímida seqüência “Uh, uh, uh, uh, uh, uh, uh, ah, ah”

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11 março, 2012

Quando passei na faculdade

Posted in Desabafos às 10:34 pm por Deborah Sá

Imaginei euforia, imaginei gritaria mas não previa que o momento tão aguardado me traria silêncio, vontade de ficar só, lágrimas. E me perguntavam porque transparecia tanta tristeza em alcançar o que almejei  por anos.

Larguei meu antigo emprego, o último dia foi em uma sexta, entrei no novo na segunda, ou seja, não experimentei o desemprego o que é ótimo em termos de economia pessoal já que meu pé de meia nem é tão grande assim, no entanto é conturbado no sentido de adapta-me. Sou expansiva e sabia que para trabalhar no ramo que tenho experiência significaria colocar no “armário” algumas coisas que são importantes ao expressar individualidade. Cobri os fios laranjas com tinta preta, coloquei roupas mais sóbrias, tenho guardado meus decotes para os fins de semana, tenho de mudar e isso pode parecer bobo para quem não teve um histórico conservador e cristão, demorei uma “caralhada” de tempo pra assumir o que sou e agora me sinto triste em ter que sufocar isso pra atender uma demanda de mercado.  Somado, ainda não dominei todas as atividades que assumirei nesse novo cargo e estou naquela fase de treinamento quase infantil quando o “não” impera. “Você não deve fazer isso, aquilo, aquilo outro”. Difícil ter segurança em um ambiente desses, mas pode ser apenas a fase de adaptação, então sigo.

No dia da matrícula da faculdade compareci por horas esperando a secretaria abrir, a hora da matrícula começar e minhas supervisoras no serviço não gostaram pois houve desencontro de informações. Me desesperei e sentada nos bancos de madeira da Unifesp apoiei o rosto nas mãos e chorei de lavar a alma, muita pressão, muita insegurança, muito de não saber do que será daqui para frente, as funcionárias da limpeza vieram perguntar se eu passava mal prometendo colocar meu nome na caixinha de orações da igreja. Fiz a inscrição e dias após vi uma palestra (?) no teatro (?) e encontrei um amigo (ele estudará comigo).

Um lado meu está tremendamente feliz por ter passado na Unifesp em Pedagogia (depois peço transferência para História), mas estou em um período forte de instabilidade, de não saber se serei hostilizada na faculdade, no serviço, se darei conta de conciliar os estudos e o trabalho.  Sei que muito dessa incerteza está enraizada no meu passado, de me dizerem, de me agredirem, de me privarem, de lutar muito pra entrar em uma faculdade pública e agora arcar com mais responsabilidade, então não é um período de festa, é de refazer-se, de flexibilizar-se, de recriar-me na medida que as circunstancias surgem.

Amanhã começam as aulas e o que será daqui pra frente é uma incógnita, não vou me perder por aí, isso que importa. Se não fujo da alegria, tampouco ignoro a angústia e a incerteza, seja lá o que me aguarda, há forças para manter a cabeça erguida.