22 fevereiro, 2012

Ativista, uma postura pedagógica.

Posted in Educação, O pessoal é político tagged , , às 9:57 pm por Deborah Sá

A possibilidade de ação é tolhida por arestas que delimitam o alcance, para minar as contenções seguimos o famoso “trabalho de formiguinha”. A chance de organizar um levante popular se torna possível em conjunto e adesão maciça e para tanto é preciso conjuntura, condição, solo fértil. E quem prepara esse terreno senão os que fazem parte dele? É no fazer-se que está o descobrir-se, reinventar-se, permitir-se.

Reconhecer condicionamentos é de grande valia como auto-análise, mas quando isolado é dado fatalista que amargura ou ainda, age no separatismo entre “libertos” e “marionetes”, parâmetro aplicado pelos detentores do “conhecimento”.
O equívoco é presumir que os que não seguem determinado esquadro são inconscientes de suas coreografias orquestradas, alheios ao olhar de autônomos que os vêem como roedores de pesquisa científica, isso é subestimar a capacidade de aprendizado em uma pedagogia (paternalista, diga-se de passagem) de mera absorção e réplica, inevitavelmente gerando dogmas de respaldo em reverência exacerbada por fontes e bibliografias.

O que falta em certos ativistas e acadêmicos é admitir sua postura de educador, um ortodoxo, prepotente, ultrapassado e intransigente, mas ainda assim, um educador. Em nada se distanciando daquele professor de vocabulário rebuscado tomado pela cólera de um aluno que ousa questionar seus métodos. Um ativista ou educador que se acomoda entre seus pares repetindo velhos discursos e não se atualiza, não compartilha e abusa de discursos de autoridade “Vá estudar antes de falar comigo”, “Você sabe com quem está falando?”, “Você é alienado”, tem grandes chances de ter a hostilidade e desprezo voltado no estilo bumerangue. E ao contrário do que presumem isso não se deve ao fato de que “a verdade é para poucos”, mas de que o alto nível exigido é impraticável e sua postura mesquinha é de imenso desserviço.

As informações devem circular para que idéias originais não encerrem em si mesmas, mas criem outro ponto de partida na elaboração compartilhada. De que adianta um novo pensar se em nada dele é extraído? Se o toque é impróprio, a crítica é blasfêmia e a intervenção é vandalismo, deixem que os guardiões das tradições regozijem na sisudez.
Prefiro o saber quanto mais democrático, quanto mais popular, que inquieta, instiga, emociona e não é determinado pelas certezas. Da ciência da abertura permanente de ser incompleto, nem por isso triste e confuso, nem por isso acostumado. Pra que o expressar da dúvida não seja motivo de vergonha ou desconforto, mas uma amostra genuína da curiosidade que nos aproxima de quem acrescenta o entusiasmo diante do que é inédito.

Se a margem para gozar em liberdade é tão estreita, é por não se tratar de um direito, mas um privilégio restrito. Somos construídos pelo meio e circunstâncias combinados ao acaso aleatório, não nos cabe mensurar o livre-arbítrio.

8 fevereiro, 2012

Marcado, feito tatuagem

Posted in Egotrip tagged , , às 10:34 am por Deborah Sá

Saudade, de despedida tão repentina, desolada de me ser tomado dos braços e ver a cabeça pendendo para trás. Saudade, de um corpo vívido e repleto de energia, da sagacidade de quem colocava as patas sobre meus ombros, saudade do abraço que nunca mais vou ganhar do baixote de alguns centímetros que me mudou irreparavelmente. O nome dele era Snoopy e já contei nossa história aqui.

Ele era bonito de uma forma que nem imagina, as coxas firmes com os músculos a vista, as orelhas finas de um pêlo curto e brilhoso, o focinho bem molhado e temperamento genioso, irresistivelmente genioso. Quando voltava do banho era com a cabeça molhada, pois esperneava tanto que não deixava ninguém passar com o secador por ali. Ele odiava coleira e em um dia específico foi necessário pendê-lo para que um moço entregasse as compras do supermercado, o cão gritava e rodopiava escandalosamente que por temor a enforcar-se corri para livrá-lo da corrente e o segurei para que o moço terminasse o serviço. Se o pano que dormia estava sujo o empurrava para debaixo da casinha (tal qual o personagem ele preferia dormir no telhado) e pulava no varal para pegar um novo. Uma má influência para outros do quintal,  ele quem entrava primeiro na casa e em dez minutos urinava em locais diferentes e ainda dava um jeito de roubar pão sem derrubar o saco de cima da fruteira (!), foi ele que ensinou aos outros como abrir o portão e se encurralado na porta depois de uma transgressão (eram muitas), deitava de barriga para cima com olhar de súplica, deixando à mostra a barriga rosada e repleta de pintinhas pretas. Se eu demorava em voltar para casa ele rodava ao redor formando uma “bolinha” e esperava em um cantinho até meu regresso, para fazer sorrir depois de um dia que era um fardo. Ele foi minha luz em tempos difíceis, quando nem a súplica aos céus me livrava das trevas, quando não tinha força sequer para articular um pedido de socorro. Ele ofereceu o abraço, o carinho, o amor, o cuidado que eu precisava.

Faz oito anos que recebi o vaso de violetas como condolências, que morte, vida, saudade, companheirismo, silêncio, amizade e igualdade (dessa que você fita nos olhos de quem não tem seus privilégios e sente vergonha pela conduta opressora que “os seus” praticam) construíram meu presente esperançoso, terno e nem por isso frouxo de direção. Queria marcar isso em minha pele de modo que ao mirar o reflexo de um espelho, encontrasse um signo que sintetizasse minha própria história.

Não sou hábil em traçar harmoniosamente cores, tons e forma, para tanto pedi que Caroline Jamhour (você pode conhecer o trabalho lindíssimo dela aqui) trouxesse vida a minha idéia e para prática chamei Ana Anami (aqui o site, contato e endereço do Estúdio).

Com elas, consegui resolver alguns entraves iniciais: Não encontrava imagens de tatuagem de violetas no Google para inspiração, nem queria tatuar em alguém que houvesse treinado em porcos ou qualquer outro não-humano sem consentimento. Esperei a cicatrização completa para escrever essa experiência e as dúvidas mais comuns:

Doeu?

Sim, consideravelmente. Mas não há como adivinhar como o seu corpo reagirá com a dor; já passei por tratamento de canal, tirei quatro dentes do siso, usei aparelho, fiz essa tatuagem no peito, mas não me depilo com cera nem uso salto porque dessas dores faço questão de abrir mão. Mas o propósito é bem parecido, sabemos que é incômodo, mas o “resultado final” valerá o esforço. Dizem que tatuagens no pé e na costela são as que mais doem e obviamente é um grau de sofrimento menor desenhar uma estrela pequena comparada com fechar as costas com a figura de um dragão.

Coçou?

Sim, muito, mas não coce. A primeira etapa depois de feita a tatuagem é escorrer bastante tinta enquanto envolta no PVC (não se assuste), e até cicatrizar é necessário proteger do sol. Soltará uma casquinha (que parece aquela pele fina que solta quando a cola escolar seca nas mãos) e não pode ser arrancada/cutucada, tem de soltar naturalmente.

Demorou?

Entrei no estúdio ás 13:00 e saí por volta de 17:30, em um só dia foi desenhada e colorida.

E se você se arrepender?

Quem faz tatuagem pensando em apagá-la é melhor nem começar ;)

E quando você ficar velha?

Terei uma tatuagem bonita, muita história pra contar e rugas. Provavelmente farei bolos, tortas e mousses ainda mais gostosos.

Qual a dica para manter uma tatuagem com cores fortes?

Essa dica é valiosa: Depois de feita a tatuagem precisa ser lavada com água morna e para preservar a cor use água gelada para finalizar, essa ducha fria fará um choque térmico que ajuda no processo de cicatrização. Incorporei isso na minha rotina diária pós-banho, o efeito é excelente.

Que produtos usar na cicatrização?

Limpei apenas com sabonete de glicerina (Phebo) e água (no processo descrito acima, com choque térmico), depois do banho usei guardanapos de papel para enxugar com cuidado (batidinhas suaves). Existem alguns produtos para cuidado pós-tatuagem que são Veganos, a lista completa aqui.

Quais os cuidados com a alimentação?

Se você é onívoro e bebe: Não beba, evite carnes em geral (especialmente de porco), frituras, chocolate, queijos, frutos do mar, pimenta, comidas muito condimentadas e alimentos gordurosos em geral.

Se você é Vegan: Não beba, não coma chocolate, pimenta, alimentos muito condimentados, ou frituras.

Existe tatuagem não Vegana?

O pigmento que dá cor a tinta é tipicamente derivada de plantas ou metais. A cor preta, no entanto, é oriunda de um processo de queima de osso de animais queimados. Esse pigmento é chamado de “black bones” (osso preto). As tintas também podem conter goma-laca. O liquido que faz a suspensão e carrega o pigmento, mantém a tinta uniformemente misturada, o que facilita a aplicação. Essa suspensão contém: água purificada, álcool etílico, propilenoglicerol e glicerina e também pode conter hamamélis.

A glicerina utilizada pode ser de origem vegetal ou produzida a partir da gordura animal. Há em torno de 10 marcas de tintas veganas.
Classic Colour SystemsDermagloElectric Ink (essa é a mais comum usada no Brasil),  Eternal Inks , Intenze , SilverBack Ink , Bloodline and Skin Candy ranges , Stable Colour

Fonte