23 janeiro, 2012

Lei da Palmada – Instrução ou punição?

Posted in Corpo, Educação, Infância tagged , às 12:45 pm por Deborah Sá

Isso é uma palmatória, se você não sabe reconhecer uma provavelmente seus pais ou avós sabem.

Faz praticamente vinte anos que olhei meu braço e vi ranhuras de um chinelo, uma havaiana branca de tiras azuis. Corri quase como uma quadrúpede ensaiando bipedismo ao colocar os braços na frente pra evitar chineladas. E elas vieram, sem que recorde o motivo. Presenciei adultos punindo crianças entre elas minha irmã de rosto corado depois de levar uma bronca, sem compreender porque truculência resolveria ambas as dificuldades. Quando somos realmente pequenas (os) e os adultos parecem figuras majestosas e soberanas, é absolutamente inquestionável qualquer coisa que venha deles, um ângulo que revelam para qualquer hóspede cotidiano é o quanto vivem a beira de um colapso nervoso, a vida adulta é um copo de cólera tilintando o excesso.

Nem todas as crianças são anjos de candura, algumas podem ser ardilosas o bastante para acusar injustamente colegas mais dispersos, incitar intrigas, agredir os mais novos, maltratar animais. Punir essa minoria (que costuma atear o comportamento de manada) não a tornará mais maleável se a fórmula para o delito e intransigência inexiste, nem todo pedófilo foi molestado na infância, nem toda criança que é ferida o repete em estruturas menores.

A Lei da Palmada inquieta porque retém um dos plenos poderes da educação ortodoxa: O “direito” de agredir quem contraria suas expectativas de aprendizagem, se essa descrição soa tremendamente injusta é porque o é. Qual a diferença entre uma criança frustrada que quebra os bibelôs de sua mãe, para uma tutora que belisca quem não soube lavar a louça da forma que ela esperava? É a violência patrimonial e física, alternada e imediata, o jogo de poder entre crianças e adultos transtornados sobre o que sentem em relação um ao outro, um teste de nervos. Sim, o (a) tutor (a) pode estar em “um dia difícil”, sobrecarregado com as atribuições da modernidade, mas isso não significa que a criança esteja satisfeita em seus dissabores. O mínimo que se espera é que haja maturidade de quem tem mais vivência para estabelecer a conciliação.

Assumir o caráter irrevogável da violência na educação de jovens e menores, é presumir que enquanto estiverem abaixo da hierarquia dos guardiões das tradições, maior será a vulnerabilidade á palmatória de seus mestres e se porventura, os subjugados apanham é por merecerem tal tratamento seguindo o abominável ditado: “Manda quem pode, obedece quem tem juízo”.  Somente é dado poder equivalente para os infantes quando se tornam gerentes de sua própria prole, ou seja, sua peculiar semi-propriedade privada. Para os que temem um reinado opressor de quem mal saiu das fraldas, o que os difere dos maridos que temem a falsa acusação de suas esposas na Delegacia da Mulher?

Não pretendo definir se a índole inata da criatura humana, na civilização minimamente estabilizada (guerras, conflitos extremos, ser apartado do convívio social, são fatores que extrapolam a análise), é boa ou má. Todavia, não parece razoável o ataque para cada descompasso que enfrentamos entre nossos pares, quem dirá aplicar rigorosas penas aos que como espectadores e integrantes do seu redor, podem não ter a completa dimensão das estruturas que circundam, mas inevitavelmente são afetados pelos impactos das condições do presente.

Os filhos de pisadelas e beliscões não necessitam reger em antigos compassos.

6 Comentários

  1. Amanda said,

    Oi Deborah! Lindo post! Aproveito para deixar um link que recebi no facebook, e que aborda um pouco de como os índios educavam suas crianças na época que os portugueses chegaram aqui… Acho que você vai gostar:

    http://blogdaamazonia.blog.terra.com.br/2012/01/15/faz-mal-uma-palmadinha/

    Abraços

    Amanda

    • Deborah Sá said,

      Obrigada :D

      Gostei do texto, não sabia dessas informações :)

      Um abraço,

  2. luciana said,

    mto bom deborah! posso postar no meu blog depois, como uma contribuição? como se diz, release, é? vc tá ótima!Fiquei mto feliz de ler sobre este tema.Agradeço.

    • Deborah Sá said,

      Obrigada,

      Sim, pode postar, sem problemas.

      Um abraço,

  3. Vinicius said,

    A punição regulamentada me deixa perplexo, na real.

    Não dá pra entender e, pior, não é uma demonstração da clara de como o direito é um aparelho repressivo/ideológico por excelência? Dando a base pra família se utilizar de mil e uma maneira para reproduzir a forma social hegemonica

  4. T said,

    Tudo isso é complexo pra mim… Apanhei dos meus pais. E sempre tive a consciência de que eu apanhei pq aprontei. Meus pais nunca me bateram sem eu ter aprontado alguma.. E daí cresci com essa idéia de que eu sempre apanhei (de cinta, de porrada, de tapa, de faca, de fio) pq mereci e que isso nunca me matou, serviu pra formar meu caráter e bla-bla-bla…

    Mas hoje, com 26 anos, observo e me espanto em como eu sou assustado. Ouço alguém gritando e tremo todo. Sempre imagino que seu eu confrontar alguém na rua vou levar uma porrada no nariz (ou um tiro).. Em como fico extremamente incomodado quando duas pessoas discutem ou começam a brigar.. Fico mal, com vontade de chorar, etc..

    E daí que a gente (eu e minha irmã mais velha) cresceu com medo do meu pai. Ele chegava em casa no FDS e a gente ia deitar, só levantava da cama qdo percebia que ele não tava nervoso..

    E daí eu já non sei… Talvez eu tenha me enganado ao pensar que as surras da infância não fizeram mal..

    Mas, ainda assim, tenho um respeito tremendo pelos meus pais.. Eles morrem de orgulho da educação que deram pros filhos e talz.. .. E a gente bem sabe que no tempo deles era bem pior…

    Mas eu sempre fico pensando que a agressão não é, de fato, um meio mto eficaz pra ensinar..


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