27 janeiro, 2012

Que sejam

Posted in Desejo às 10:30 am por Deborah Sá

Que sejam biscates, que sejam bichas luxuosas,
Que sejam saias minúsculas e sorrisos debochados
Que sejam sapatões de moicano e cabelos coloridos
Mulheres de cueca, homens de fio dental
Batom vermelho ornamentando vastos bigodes
Que sejam Poliamor, multiamor, multicolor
Que explodam faíscas de olhares fascinados.
Que sejam corpos e fluídos, sorrisos e gozos.
Que sejam descobertas e desabrochares
Que sejam o suor de alívio e o tremor de deleite.

Que sejam corpos de tons vívidos
Matizes sob o prisma de prateadas jóias.
Indevidos são os que se acometem com nosso alvoroço
Entorpecidos por despertarmos luxúria
Incorretos são os que pensam que assim somos por ansiarmos ódio
Por não nos “darmos respeito”.
Todos os que estão abaixo do sol merecem deferência
Discretos ou escancarados
Com a altivez de um trotar indomável
Nem acima, tampouco abaixo
Somos onde quer que transitemos, majestosos.

23 janeiro, 2012

Lei da Palmada – Instrução ou punição?

Posted in Corpo, Educação, Infância tagged , às 12:45 pm por Deborah Sá

Isso é uma palmatória, se você não sabe reconhecer uma provavelmente seus pais ou avós sabem.

Faz praticamente vinte anos que olhei meu braço e vi ranhuras de um chinelo, uma havaiana branca de tiras azuis. Corri quase como uma quadrúpede ensaiando bipedismo ao colocar os braços na frente pra evitar chineladas. E elas vieram, sem que recorde o motivo. Presenciei adultos punindo crianças entre elas minha irmã de rosto corado depois de levar uma bronca, sem compreender porque truculência resolveria ambas as dificuldades. Quando somos realmente pequenas (os) e os adultos parecem figuras majestosas e soberanas, é absolutamente inquestionável qualquer coisa que venha deles, um ângulo que revelam para qualquer hóspede cotidiano é o quanto vivem a beira de um colapso nervoso, a vida adulta é um copo de cólera tilintando o excesso.

Nem todas as crianças são anjos de candura, algumas podem ser ardilosas o bastante para acusar injustamente colegas mais dispersos, incitar intrigas, agredir os mais novos, maltratar animais. Punir essa minoria (que costuma atear o comportamento de manada) não a tornará mais maleável se a fórmula para o delito e intransigência inexiste, nem todo pedófilo foi molestado na infância, nem toda criança que é ferida o repete em estruturas menores.

A Lei da Palmada inquieta porque retém um dos plenos poderes da educação ortodoxa: O “direito” de agredir quem contraria suas expectativas de aprendizagem, se essa descrição soa tremendamente injusta é porque o é. Qual a diferença entre uma criança frustrada que quebra os bibelôs de sua mãe, para uma tutora que belisca quem não soube lavar a louça da forma que ela esperava? É a violência patrimonial e física, alternada e imediata, o jogo de poder entre crianças e adultos transtornados sobre o que sentem em relação um ao outro, um teste de nervos. Sim, o (a) tutor (a) pode estar em “um dia difícil”, sobrecarregado com as atribuições da modernidade, mas isso não significa que a criança esteja satisfeita em seus dissabores. O mínimo que se espera é que haja maturidade de quem tem mais vivência para estabelecer a conciliação.

Assumir o caráter irrevogável da violência na educação de jovens e menores, é presumir que enquanto estiverem abaixo da hierarquia dos guardiões das tradições, maior será a vulnerabilidade á palmatória de seus mestres e se porventura, os subjugados apanham é por merecerem tal tratamento seguindo o abominável ditado: “Manda quem pode, obedece quem tem juízo”.  Somente é dado poder equivalente para os infantes quando se tornam gerentes de sua própria prole, ou seja, sua peculiar semi-propriedade privada. Para os que temem um reinado opressor de quem mal saiu das fraldas, o que os difere dos maridos que temem a falsa acusação de suas esposas na Delegacia da Mulher?

Não pretendo definir se a índole inata da criatura humana, na civilização minimamente estabilizada (guerras, conflitos extremos, ser apartado do convívio social, são fatores que extrapolam a análise), é boa ou má. Todavia, não parece razoável o ataque para cada descompasso que enfrentamos entre nossos pares, quem dirá aplicar rigorosas penas aos que como espectadores e integrantes do seu redor, podem não ter a completa dimensão das estruturas que circundam, mas inevitavelmente são afetados pelos impactos das condições do presente.

Os filhos de pisadelas e beliscões não necessitam reger em antigos compassos.