28 dezembro, 2011

Do que se passou em 2011

Posted in Cotidiano, Desabafos às 2:37 pm por Deborah Sá

Essa é a Frida, eu e minha irmã conseguimos um lar para ela

Comecei a andar de bicicleta e caí por duas vezes, ainda não tenho coragem de ocupar a via pública. Foi como se sempre soubesse desse equilíbrio, recluso. É assim que sinto uma porção de vezes diante das dificuldades, que estou trancada, que não consigo expor, que falta a chave para abrir mais uma jaula. E uma vez aberta mesmo que presa em armadilha antiga; recordo como escapei para lançar o corpo fora das grades corroídas de ferrugem. Raspei os cabelos mais uma vez, depois de crescidos foram descoloridos e tingidos com anilina cor de laranja, coloquei um piercing na orelha, planejei o desenho da futura tatuagem que espero fazer em breve. Aprendi as quatro operações matemáticas… E sofri. Ter de explicar que não é frescura, que não é uma reação exagerada, que não lido com isso da mesma forma que a imensa maioria das pessoas, que não é querer ser “boa em tudo”. Tem a ver com minha infância, com o abuso do meu avô, com sentir-se incapaz.

Não há nada que deseje fazer que meu corpo impeça: Dançar, correr atrás para pegar o ônibus partindo do ponto, usar o cabelo curtíssimo, listras horizontais, Yoga, entretanto não foram apenas essas limitações que me impuseram, logo percebi minha auto-estima intelectual em frangalhos, me sentia “burra”, humilhantemente estúpida, embaraçada de conviver com pessoas de nível acadêmico maior (andei com mais universitários esse ano), não que adquirissem posturas esnobes, mas em algumas conversas sentia um nível de abstração que colocava minhas idéias para fora daqueles espaços, parecia outro idioma. Esse ano fiz uma carteirinha em uma biblioteca “de verdade”, não como das escolas que freqüentei de livros escassos, capengas, das cadeiras desconfortáveis e rachadas, fui em uma dessas com bancos de dados e muitos títulos a disposição, ao ver o carimbo com a data e o prazo de entrega para mais quinze dias tive vontade de chorar, parecia que o mundo estava aberto diante de mim, se pareço apaixonada é porque realmente me dedico de coração e essas conquistas assumem grande dimensão em vista de onde parti. Dessa trajetória e minha relação com os estudos escrevi para Lola, nesse Guest Post,  somado entre outros desabafos nesses quase quatro anos de postagens no blog.

Sei que a inteligência é um parâmetro subjetivo, mas assim como uma mulher com acúmulo feminista sente-se “feia” e cogita em um lapso recorrer a métodos que tornem seu corpo parte da norma exclusivamente para livrar-se da pressão, aprendo paulatinamente não me culpar pelas lacunas de minha educação, se não domino algumas disciplinas de caráter técnico que são disponibilizadas para uma pequena parcela é porque me privaram disso, assim como tantas outras possibilidades que me foram extirpadas sem que me dessem a chance de experimentá-las. Enquanto parte dessa margem meu desejo é expandir, compartilhar o que tenho acesso dedicando-me a educação, ser professora. Distante… Mas quais das minhas bandeiras são simplórias e de curto prazo?

Também foi um ano de rever meus ativismos, com mais senso crítico, mais honestidade. Não há muito tempo atrás, sentia medo de trazer a tona o que me incomodava no Feminismo, por exemplo, a Transfobia, o discurso biologizante que faz parte de algumas discussões, ou o elitismo evidente que perpetua alguns debates como o das empregadas domésticas. Com isso não estou “jogando fora” os anos de luta, as válidas reivindicações, questionar uma vertente de pensamento não deveria ser tratado como blasfêmia. Da referida honestidade apliquei ao Veganismo por ser um tema mais delicado que o Feminismo, evitava aprofundar para não entrar em conflito com pessoas próximas, inclusive do meio Feminista. É “aceitável” (muitas aspas, porque vivemos em um país de preconceito velado) reclamar do machismo em uma peça publicitária, em uma letra de música, de uma piada misógina, no entanto o que dizer da onipresença onívora? Da liberdade dada a qualquer humano para que crie uma galinha e a sacrifique no seu quintal? Que atravessar um anzol nos lábios de um peixe seja sinônimo de diversão? Que aves sejam esvaziadas de seus órgãos e recheadas com farofa para comemorar os anos que seguem um após outro? São fatos inconvenientes, eu sei. Mas precisam ser ditos sem eufemismos de uma mentira bucólica, nem romancear o estado de decomposição de quem não escolheu falecer, estou ciente que a pecuária é a campeã do trabalho escravo (mais que a indústria de carvão, setor têxtil e cana de açúcar), o que sugiro é que pensemos além do próprio umbigo, lançar mão do status de ápice da criação, centelha divina, o que parece difícil, pois se inicialmente as religiões ocidentais nos prendiam nesse agraciamento cósmico a ciência têm razões de sobra pra cimentar nosso antropocentrismo.

Conheci e reencontrei pessoas incríveis, me afastei de quem me magoou e parece nem sentir falta. Cumpri a resolução do ano passado que era me desfazer de todas as roupas que me deixavam desconfortável e vestir apenas o que deixava segura. Completei cinco anos ao lado do meu companheiro que me amparou e deixou que minhas lágrimas molhassem sua blusa por repetidas vezes oferecendo conforto quando me sentia absolutamente solitária, o elo com minha irmã permanece pois somos inseparáveis desde que a vi pequena com os cabelinhos cacheados, desde que tive a sorte de tê-la como amiga. Minha mãe se formou em Serviço Social aos quarenta e cinco anos e ao ajudá-la nos trabalhos escrevi pela primeira vez em ABNT. Meu pai mesmo longe, vibra com cada conquista.

Permiti declarar ainda mais falhas, não que fossem secretas, mas compartilhá-las continua um exercício de compreender, perdoar e enfrentar. Ao me reinventar, descobri a mim mesma e agradeço quem se dispôs a acompanhar e desejar-me sorte, sou grata também a quem se abriu nesse espaço compartilhando suas vivências, ensinando por outros olhares, obrigada a quem faz dessa Deborah, alguém que aprende com você.

4 Comentários

  1. Adriana said,

    Estou feliz de ter encontrado seu blog Deborah. Desde ontem tenho lido algumas de suas postagens. Escreve muito bem e é cativante. Parabéns pelo ano que teve, parabéns para sua mãe e parabéns pelos quatro anos de blog.
    Feliz ano novo!
    Abçs
    Adriana

    • Deborah Sá said,

      Obrigada Adriana,

      Feliz ano novo pra você também ;)

  2. Milena said,

    Eu fico feliz de ter conversado com você na arteveg, nem sei se te lembras… ler seu blog, seus posts no fb me fazem sempre refletir em como eu também (como muitas mulheres) aprendi a ser machista, quando eu deveria ser mais feminista.
    Nadar contra a corrente com verdade e elegância é privilégio de poucos e assim você é.
    Um abraço

    Milena

    • Deborah Sá said,

      Muito obrigada Milena,

      Também gostei muito de conversar com você, sinta-se a vontade para comentar, beijos ;}


Os comentários estão desativados.

%d blogueiros gostam disto: