7 dezembro, 2011

Solitários na floresta de concreto e aço

Posted in Cotidiano, Crônicas e contos às 8:06 am por Deborah Sá


Um homem ao volante, um grupo de cães, quer dizer, pombos, isso faz uma diferença enorme no peso moral da época que vivo, pois bem, um grupo de pombos estava no meio da pista enquanto o carro se aproximou e olhei aflita esperando passar, verifiquei se todos haviam conseguido escapar, o do meio não, a visão periférica não conseguiu perceber a expressão exata do passageiro que olhava para trás no momento que o carro acelerava, mas creio que houve um sorriso. Não adiantaria anotar a placa, a empatia certas horas parece excêntrica, histérica. As asas balançavam no vento ou quem sabe, de agonia molhada no sangue fresco. Virei o rosto tentando esquecer o que estava bem do lado, quase na Vinte e Três de Maio. Tenho respeito pelos que têm patas, penas, escamas, rabo, são diferentes de mim pela biologia, próximos por participarmos desse sopro que é o nosso período curto na História do Universo. E eu chorei por aquele, desejei que tivesse sido o menos doloroso possível, esmagado pela estrutura de metal, se foi. E já dentro do ônibus, com o maxilar duro de tristeza e de coração pesado, ouço os passageiros rirem de um suicida que se jogou “de mochila e tudo” nessa mesma Vinte e Três, não é só o monóxido de carbono que torna essa cidade cinza e de ar pesado.

11 Comentários

  1. Valkiria said,

    A violência se espalha e se enraíza no dia a dia das pessoas. Matar pombos é divertido, um suicídio é engraçado. É a falta de respeito pela vida.
    Semana passada ouvi um relato sobre como foi emocionante o assassinato de um camundongo no quintal. “Tiramos até foto”.
    Que tipo de gnt pensa assim????

    Constato horrorizada que são nossos amigos, nossos colegas de trabalho, nossa família… brutalizados pelo cotidiano e anestesiados por um sistema que prioriza alguns em detrimento de outros .

    Não consigo me conformar.

  2. letícia said,

    Eu não gosto de pombos. Porém, os respeito. É ai que está a questão. Eu jamais faria mal a um pombo (ou animal qlqr) e iria chorar de ver um sendo atropelado.
    Eu não gosto nem de pensar na idéia de que alguém cometeu suicídio e acho horroroso quem ri disso. Pq gente, para a pessoa chegar a esse ponto, a situação na cabeça/vida dela deveria estar insuportável.
    É triste ver que a maioria só tem vento na cabeça, só pensa no próprio umbigo e quer mais é que o próximo se foda.
    E ok, todos nós temos uma porcentagem, mesmo que mínima, de egoísmo…mas tem gente que ter por ele e por mais um bocado de gente, viu. É desanimador.

    • Deborah Sá said,

      [2] Em tudo que disse, pessoalmente tenho medo de pombos (aves em geral) e peixes ;P

  3. Gabi Yokomizo said,

    Uma vez, entrou um camundongo na minha casa. Tenho gatos e cães e não deixei que eles o caçassem, mas teria que tirá-lo de casa de maneira que não nos mordesse ou aos bichos da casa, pois as consequências poderiam ser desastrosas.

    Conseguimos capturá-lo e depois de muito pensar e pesar, conseguimos solucionar. Não foi o melhor, não foi fácil e peço sempre para que nunca mais isso aconteça novamente. Em geral, eu tb não mato insetos.

    A crueldade é latente e sempre se manifesta. Principalmente em pessoas parcas e tacanhas. Ah! não importa a escolaridade ou a posição social. Quem não tem empatia, é tacanho. E isso, a maioria da humanidade é.

    • Deborah Sá said,

      Mas ainda existe quem se importa, né? ^_^

  4. hamanndah said,

    Humano nojento que riu ao matar o pombo. Ele não passa de um perdedor, invejoso, cheio de problemas que se sentiu superior em causar dor em um ser com menos poder e força que ele. Como esse tipo de gente lembra os homens machistas, por exemplo.

    Fiquei triste ao ler isso
    Bjs, xarazinha

  5. Roberta said,

    As vezes as pessoas riem para aliviar a dor ou o espanto.Não quer dizer que a cidade seja repleta de sadicos.As pessoas tbm riem para poder se distanciar dos problemas já que normalmente um ser humano ja carrega muitos e sente que não precisa de mais.Se fossemos nos importar com cada coisa que acontece enlouqueceriamos.Realmente é uma pena o pombo ter sido atropelado e um cara ter cometido suicidio.Poderia ter sido diferente…Mas nem foi,o jeito é conviver com isso.

  6. Camila said,

    Morro de medo de ratos e me sinto desconfortável se souber que um esteve em minha casa. No entanto, não consigo me sentir aliviada ao saber que alguém o matou.
    A única coisa que entendo é que ele não tem culpa alguma de estar ali.
    Se é tão fácil capturá-lo para matá-lo, por que não apenas para colocá-lo para fora?
    É triste mas, as vezes (muitas delas, aliás) tenho a impressão de que minhas atitudes é que estão erradas, quando deveria ser o contrário. As pessoas, apenas, se sensibilizam com aqueles que lhe são próximos, com outras espécies, jamais.

    • Deborah Sá said,

      Se é tão fácil capturá-lo para matá-lo, por que não apenas para colocá-lo para fora? [2]

  7. assisti ontem o filme Laranja Mecanica pela primeira vez, e no inicio me vi aterrorizada com a violencia do filme, sem me dar conta de que vejo violencia diariamente e praticamente ela está inserida no meu subconsciente, como fico feliz quando consigo salvar um gato na rua, conversar com os desajustados e esquecidos, apesar de as vezes agir como uma idiota e não o fazer pensando na opinião alheia, ……………sou louca e feliz por isso, e peço a Deus para que continue assim e encontre outros loucos como eu…. sensiveis e verdadeiros consigo mesmo.
    Parabens pela bela escrita…

  8. Dio Aloke said,

    A humanidade é marcada ao mesmo tempo por uma sensibilidade trêmula e uma insensibilidade pétrea. Nessa confusão que chamamos de mundo nosso coração cria calos, que às vezes racham e sangram. O coração de muita gente deixou de ser músculo pra ser apenas fibrose – ou apenas um pedaço de coral morto.


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