14 novembro, 2011

Precisamos falar sobre o Kevin

Posted in Livros tagged às 10:52 am por Deborah Sá

Uma mãe manda cartas ao ex-companheiro tentando entender as motivações de Kevin, filho de ambos e homicida (executou onze pessoas na escola que estudava). Esse é o ponto de partida e a instigante história talvez seja mais bem aproveitada se quem ainda não a leu fechasse essa página e retornasse depois para contrapor as impressões que exponho a seguir, portanto, se não quer saber de antemão como a trama é conduzida, não prossiga com a leitura.

Eva é sincera de uma maneira que a maioria dos adultos omite por vergonha. Quando um casal hétero é unido por um período estável as perguntas sobre a futura prole são inevitáveis, não raro ouvem: “Quando estiverem na casa de vocês e sozinhos, notarão que faltará algo”, é triste imaginar que duas pessoas que se amam passem por um período em que a distância e o silêncio são tão perturbadores que um rebento é o melhor recurso disponível para quebrar o clima austero. Eva admite que sua vida, embora com mais emoções que a maioria, tornou-se enfadonha. Quem sabe todas as maravilhas da maternidade alardeadas não teriam alguma valia? Não foi o que pareceu quando sentiu o hospedeiro (é assim que ela descreve) em seu corpo e até o desejo de dançar era transgressor, devia limitar seus movimentos por algo de maior valor, por exemplo, a adoção a contragosto de um estilo de “vida saudável”, simultaneamente era nítido o elo entre mulheres, a natureza, e suas crias: Quadris largos, tetas de cadelas que balançavam ao andar…Tudo parecia pavoroso. Gostava de seu corpo magro e associava a gordura dos americanos (ela, descendente de Armênios) a um padrão risível, cultura essa que adorava em cada trejeito de Franklin, o robusto norte-americano, patriota, machista, consumidor de pornografia, cidadão-de-bem.

Franklin fazia o possível para construir uma família ideal encarnando o pai perfeito (presente, que acoberta falhas, mas sem aquela responsabilidade imensa das mães que envolve desde preparar as refeições e levar ao médico até ajudar em trabalhos escolares), mas Kevin percebia (ao que tudo indica desde a mais tenra idade) as encenações de seus pais sentindo repulsa quando não lhe pareciam sinceros ao perguntar “como foi o dia da escola?”, faria parte do script ser sincero na medida em que fosse recíproco. Eva mostrava a Kevin facetas não muito exemplares á medida que as provocações dele intensificavam, carregando alguma vergonha de atos descompensados emendava desculpas o mais rápido que conseguisse. Qual mãe diria a plenos pulmões que causou uma fratura no filho? A vizinhança poderia julgar Kevin como desajustado e perigoso, contudo se essa ocorrência chegasse a público culpariam a educação de uma mãe não tão zelosa, especialmente se em contraste com o marido que levava o garoto a museus e fazia tudo para agradá-lo.

Isso dava algum contentamento a Kevin, ter o “poder” de trazer à tona a farsa construída com tanto esmero que é a polidez social, seu pai, uma criatura tão otimista e prestativa despertava ojeriza, em um jogo que refletia na mesma moeda as facetas da dissimulação de papéis interpretados. Sendo plausível o deslumbre com o que há de belo e nobre, há quem contemple o sujo, feio e pérfido.

Era doloroso para Kevin não receber alguma espécie de gratidão, entretanto sua obrigatoriedade era inaceitável, ansiando por um amor espontâneo que não pôde experimentar, as atenções eram voltadas para Franklin e o ciúme foi condutor das primeiras teimosias. Fraldas? Até uma idade inaceitável para a média comum, quanto mais obstinado seu capricho tão maior era o esforço da mãe de não se mostrar vencida e verbalizar o comportamento inadequado, babás, professor@s, colegas de classe, ninguém passava imune a sua presença, como um vírus (metáfora explicada na sua coleção) que ameaça pela contaminação iminente e do quais alguns aventureiros se aproximam pelo prazer de correrem riscos, atestar a imunidade ou quem sabe, partilhar dessa áurea misteriosa e soturna. Eva decide ter uma filha e Franklin age com ressentimento devido a somatória do cansaço desse grande teatro que é o casamento em fiapos, brigas constantes e vida sexual escassa. Nasce Célia, herdando de Franklin a habilidade de suavizar asperezas e imperfeições, encontrando alguma beleza em criaturas abjetas, de uma fé inabalável e fragilidade espantosa.

Com os hormônios em disparate o desejo de Kevin pela mãe parece mais forte acompanhado de pecado e culpa, a expiação se dá por roupas justas (dois números –ou mais- abaixo de seu manequim, o que delineava bem seus mamilos e genitais), sapatos menores, comidas extremamente salgadas e engorduradas. Com todo desconforto físico alcançável encontrar “paz de espírito” não parece uma possibilidade, mas um clichê de mau gosto levando a frustração. A trégua foi dada em um momento febril ainda na infância: Agradeceu os cuidados da mãe e a leitura feita de Robin Hood bem como o desenho da irmã, mas tão logo recuperado a virilidade indiferente retorna. Exprimir emoção era “fraqueza” e parecia decidido disciplinar quem cruzasse o seu caminho, apegar-se a uma ideologia, rodopiar em um salão sem medo do ridículo, destacar-se em sala de aula, a missão consistia em descortinar frivolidades trazendo a tona vísceras ainda quentes. Traço comum em Seriais Killers, é um missionário e executor da eugenia social.

Assim, meu palpite sobre Kevin, além do Complexo de Édipo e Sadomasoquismo (com predominância sádica) é de que a angústia crescente ficou insustentável ao passo que alguns fatores desagradáveis poderiam ser eliminados com alguma finalidade. Uma família de classe-média alta com recursos financeiros de sobra, uma casa dos sonhos, no entanto, o que fazer com um coração que já não bate nem apanha? Esse despropósito facilmente reconhecível é palpável para maioria de nós enquanto aguardamos sabe-se lá o que, desolados diante de uma visão turva. Esse é o principal elemento que forma infratores? Há como antever e remediar?

A delinquência juvenil possui ares de “incivilizada” já que é freqüentemente atrelada às classes sociais malquistas, o desespero da classe média é encontrar essa possibilidade germinando abaixo de seu nariz, se os filhos de outros não possuem filtros, pensam eles, é isso que os torna violentos sendo indicado reforçar a redoma de vidro para proteger seus herdeiros do ardil que espreita além do quintal. Assistentes sociais, Psiquiatras, Psicólogos, Advogados e espectadores, buscando o porquê do ruído de engrenagens pelo som da ferrugem; a similaridade entre eles, nós e Dana Rocco reside na ingenuidade de que compreendemos a fórmula do delito.

http://vimeo.com/31998818
Trecho do musical West Side Story

3 Comentários

  1. Verônica said,

    Que paulada… vou precisar digerir esse post. Parabéns.

  2. carlajaia said,

    TALVEZ HAJA SPOILER EM MEU COMENTÁRIO….

    Esse livro mexeu mto comigo, em vários aspectos. Kevin, vazio de paixão – e ressentido com as simples paixões dos outros – conta a história da vida classe média que ele levava. Vida essa em que Franklin buscava ver perfeição – mas falhava. Franklin não podia sustentar sua farsa, não diante do filho. Vida essa que Eva desprezava “vc é mto dura com as pessoas”, Kevin chegou a dizer algo assim para ela. E havia Celia – e Celia era de uma doçura cortante, como se não coubesse ali. Ou como se coubesse ali exatamente para ser ferida e aceitar as feridas com meiguice.

    O que Kevin amava? Ou quem? Teria ele buscado o amor da mãe? Teria ele buscado um sentido – um sentir? Não há respostas para o que ele fez e é interessante como Eva começa a narrativa com respostas mais claras do que ao final. No final, ela nada sabe. Nada mais. Nem mesmo sabe sobre a “culpa da mãe”, que parece tão óbvia em nossos discursos, que parece tão óbvia quando ela confessa que não amou o primeiro filho.

    Ótima a sua resenha! Quero tb escrever sobre esse livro. Há algumas reflexões interessantes, lá pelo meio, sobre maternidade, sobre como a classe média se percebe como intocável e, diante da tragédia, não sabe como agir – a figura da Mary, mãe da Laura, ilustra mto isso.

    Se eu conseguir escrever algo interessante, mando pra vc!

    Bjos

    • Deborah Sá said,

      Compartilho com você as impressões, se escrever algo sobre, me avise ;)

      Beijos


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