28 novembro, 2011

Resiliência

Posted in Desabafos às 10:37 am por Deborah Sá


Quando bem pequena ganhei um brinquedo chamado Vira a Mesa, causava medo, não lembro bem o objetivo do jogo e a única coisa que realmente gostava era o pratinho com adesivo de espaguete, sei que o jogo era rápido e se demorasse tremia e virava a mesa jogando os acessórios longe. Virava de costas para TV ao abraçar minha mãe com medo da abertura de um programa do Chico Anysio onde esticava a cara, os olhos e o nariz com computação gráfica. Enxergava um monstro imaginário, um ursinho de pelúcia marrom com olhos vermelhos, dentes pontiagudos (como uma piranha) que se mexia mecanicamente com olhar aterrador, ele só aparecia no escuro na lateral do guarda-roupa, uma imagem holográfica com bastante relevo.

Gostava de ficar sozinha, solicitei para minha mãe aos três anos para dormir na casa de amigos dela,  para os amigos pedi um dos quartos para mim e dormi em uma cama de casal, dizem ainda, que não chamei durante a noite e quieta, fechei a porta. Na minha rua (já morei em quatro endereços), havia uma menina chamada Sheila e ela não tratava bem outras crianças, tenho quase certeza que era mais nova que eu, embora mais alta e magra, um dia brincando de pega-pega escorreguei em um barranco pequeno, ela me pegou pela mão e pedi que não me soltasse, ao dar um sorriso sarcástico me largou, achei que iria morrer. Quando cheguei embaixo percebi que a distância era pouca e praticamente não me ralei. Se minha mãe perguntava qual bolo queria, respondia “bolo de bolo”, o que significava “baunilha”, não sabia o que queria ser quando crescer; pedia os brinquedos mais baratos ou nem fazia muita questão deles. Apegava-me aos brinquedos que ganhava e nunca os rabiscava ou cortava cabelos das bonecas, e após brincar guardava-os na caixa. Alguns adultos me queriam mais enérgica, preferia brincar no Paint Brush a sair na rua, jogar Damas a Educação Física, escrever estórias a fazer contas. Tinha gente que dizia que eu parecia autista (mesmo sendo uma matraca), minha mãe irritada com meus modos dizia “Credo! Parece que você foi estuprada! Vive assustada, não pode ouvir um grito”, chorei quando me xingou de “Filha da Puta” pela primeira vez e minha avó, também perdeu a paciência mandando logo ir tomar banho e deixar de frescura, senão ela mesma iria me bater. Meus familiares não eram más pessoas, mas sem sombras de dúvida viviam a flor da pele.

Quebrando objetos da casa, gritos, paranóia religiosa, choro e berro, ameaças, direcionados a mim alguns tapas, chineladas, beliscões e chacoalhões. Sentia-me responsável de manter a estabilidade em especial depois que minha irmã nasceu, ela também se assustava, mas eu a chamava para longe (quase sempre na escada) e dizia que “iria passar” e “era assim mesmo”, quando tudo voltava ao normal olhava para ela de canto dizendo “Viu?”. Sempre que encontrava brecha a levava para escola, certa vez entrei para fazer companhia e as crianças gostaram quando substituí a professora que foi ao banheiro, eu levantava a placa com a figura de um animal e as crianças diziam juntas “Cachooooro”. Contei pra minha mãe sobre meu avô porque temi que ele ferisse minha irmã, brigava muito com minha “melhor amiga” para que não a desprezasse das nossas brincadeiras e durante as noites, fazia um teatro nas sombras da parede para fazê-la sorrir. Tentava proteger e apoiar, nem sempre consegui e errei um tanto de vezes.

Uma vez minha tia bateu o carro e tomada por uma calmaria, tranqüilizei ela e minha irmã, era essa minha responsabilidade, nos momentos de tensão trazer alguma harmonia, acobertei e tomei a frente de erros dos outros para assumir o dever sozinha, entrava na frente dos meus pais para proteger nossos animais de estimação. Não tive que trabalhar cedo para sustentar o lar, mas a carga assumida foi emocional sendo um ponto de equilíbrio comum que ligava as pessoas, se elas brigavam me reunia separadamente com as partes e tentava conciliá-las. Parece que o instinto de preservar outros era muito maior que o de cuidar de mim, a dor era um estado de permanência. Ainda carrego esse traço, quando alguém próximo começa um atrito é inevitável não sentir um frio na barriga e prever que está na hora de agir, é preciso apartar, apaziguar, é instintivo.

Não entendia bem (e confesso que ainda não compreendo em totalidade) o que me tornava alvo fácil se tentava o melhor que podia, por que quando tinha alguns meses de idade uma garotinha veio correndo na minha direção e tascou-me uma mordida? Por que com garotas ainda mais gordas na escola os valentões me expunham ao ridículo? Por que uma menina que nunca vi disse não gostar de mim e torceu meu braço no banheiro da igreja? Por que estava sob a mira do ódio se tentava doar amor? Não devolveria aquelas sensações, não daria o troco, me achavam imatura, retardada, ingênua, fraca, por ser imaginativa, chorona, não dar vazão a minha sexualidade. Só de imaginar que magoava alguém pranteava de remorso, cheguei ao ponto de pedir desculpas ao tapete que me fazia tropeçar (parece piada, mas é verdade que só me dei conta porque minha tia viu e mandou largar mão de ser idiota). Se derrubava o tacho de salada no chão ou quebrava um prato, abria o berreiro, era como se vivesse em estado de atenção, um Vira a Mesa eterno, com seus tremores prestes a espatifar minha tentativa de remendar a realidade quebradiça. Provavelmente as pessoas davam mais ênfase a essa faceta, por isso o choque em me perceber serena quando o caos rondava “Justo você, “a bunda mole” do grupo, agüentou o tranco sozinha”, esses também foram incapazes de ver que entrei na puberdade e menstruei primeiro que qualquer outra garota do meu círculo social, que imaginava meu pai esquartejando meu avô se lhe contasse a verdade, que a família me culparia e seria desintegrada. Quando confessei a verdade a minha mãe, meu avô morreu e chorei por culpa.

Ao me chamarem de retardada acreditei em cada uma das acusações, por isso me sentia limitada, incapaz, burra, sem a malícia que a vida exigia, escolhi abrir mão se isso significava ferir alguém, era incapaz de matar um caramujo e não compreendia o sadismo, como alguém consegue desejar e executar a violência? Essa sempre me pareceu nauseante, desesperadora, repulsiva.

Traduzido com legenda aqui

Bloqueei a Matemática do meu aprendizado, não sabia tabuada até esse ano de 2011 quando entrei no Kumon, as pessoas realmente não entenderam (e muitas ainda não compreendem) quando chorando parei diante de um problema e não conseguia lê-lo, fui a uma livraria, achei que precisava mudar de ambiente, no entanto minha vista não conseguia processar, olhos mareados, cinco linhas para decifrar e me sentia a criatura mais estúpida da face da terra. Nesses momentos esqueço-me de toda a força, do que superei, do esforço em revidar escrevendo minhas angústias, não há chão, não existe caminho percorrido ou origem, estou diante do infinito e das limitações. Isso não significa que quero ser perfeita, não significa que “estou correndo atrás do prejuízo”, aprendi a fazer subtrações “cortando o zero” apenas esse ano, tamanha minha dificuldade, resolvi os primeiros problemas, aprendi a tabuada até dez, fatorações e frações. É uma espécie de analfabetismo, me exigiam Camões sem o conhecimento das vogais. Sabia que aprender Matemática seria doloroso porque mexe com minha insegurança intelectual, diziam que era incapaz de certas coisas e aprender Matemática era uma delas, a inteligência que elogiavam em mim é a que flerta com a loucura e o devaneio, aquela de quem é alheia ao meio em que vive, daquela que se perde em uma lógica própria, covarde, a inteligência quase imbecil.

Sentimental demais, dizem, mas lhes digo queridos, a força que me move não tem outra causa senão o amor. Tateio um terreno ainda desconhecido, no entanto abandonei a vergonha de mostrar minhas cicatrizes e se não as querem ver, que procurem outros que atendam anseios de rigidez.

16 novembro, 2011

Feminismo biológico (ou uterino) e Transfobia

Posted in Corpo, Gênero, LGBT tagged , às 4:34 pm por Deborah Sá


Homem pode ser Feminista? Sim. A confusão se dá porque no caso do Feminismo o vocábulo é diferente de quem simpatiza com o Movimento Negro, não existe termo para “branca-que-defende-as-bandeiras-do-movimento-negro-mesmo-não-sendo-diretamente-afetada-por-ele”, já no caso do Feminismo é uma expressão usada por quem trás consigo a certeza de que mulheres são indivíduos, algumas Feministas defendem que o máximo que um homem pode ser é pró-Feminista. “Feminista de verdade”, é quem tem corpo de mulher, vivência de mulher etcetera, etcetera. Reduzindo muito a empatia de terceiros, por que a palavra de um homem ou um@ trans# que são feministas tem menor valia se comparada a uma mulher# não feminista? Isso é biologizante.

Por ventura uma transexual# deve ser silenciada em seus posicionamentos feministas porque concluiu sua transformação corporal após os 20 anos, alinhando seu gênero aos contornos de corpo? Se uma mulher nasceu biologicamente do gênero feminino, mas pede que o tratamento seja por nome social masculino, altera suas roupas, modifica/muda seu corpo (usando faixas nos seios, tomando hormônios), não o chame por ela e sim ele. Isso não é misoginia, não é ódio ao próprio corpo. A defesa do feminismo é que o nosso corpo é nossa escolha está mais do que na hora de entender que nosso gênero também. Se você tem um amigo ou amiga que passa por essa dolorosa situação culpá-l@ e forçar algo (que é quase em totalidade o já realizado pela sociedade), não auxilia em nada além do desamparo. Oferecer apoio e compreensão é o mínimo esperado se amamos quem enfrenta esse embaraço, qual o intento de adicionar mais pensamentos tacanhos de um misticismo biológico?

O que me faz mulher não é o que tenho entre as pernas, as cólicas ou menstruação, não sou sagrada e alterar o corpo não é profano. O Feminismo que me representa não é esse que policia outras ativistas e enxerga companheiras de luta como “marionetes do patriarcado” ou “inimigas”, que corta laços e manda mensagens quilométricas para quem não segue a risca os mandamentos que brotam em alguma pedra medieval (a La Avalon), talhada por imaginação, menosprezando bissexuais as encarando como indecisas e temerosas em assumir a própria sexualidade, reduzindo ser Feminista a viver em uma bolha virtual (um Lesbos cibernético e impraticável). Aprecio e apoio elos e fortalecimentos entre mulheres, mas não é apenas a elas que chamo de irmãs.

Deborah Sá é Feminista autônoma, Vegana sem ser vaca e defende negr@s e suas ações afirmativas sendo branca, não importando se picotam sua carteirinha de feminista em pedacinhos.

Update 21/08/2013:

As inquietações e desconfortos sobre determinismos biológicos ainda me incomodam dentro do feminismo. Porém, em alguns momentos de meu próprio texto identificados com o símbolo # passo a idéia errônea e dicotômica entre ser mulher. Escolhi não apagar a publicação, mas colocar esse adendo. Ademais, escrevi esse texto por em diversos discursos e espaços feministas (sobretudo virtuais) notar silenciadores de outras identidades.

14 novembro, 2011

Precisamos falar sobre o Kevin

Posted in Livros tagged às 10:52 am por Deborah Sá

Uma mãe manda cartas ao ex-companheiro tentando entender as motivações de Kevin, filho de ambos e homicida (executou onze pessoas na escola que estudava). Esse é o ponto de partida e a instigante história talvez seja mais bem aproveitada se quem ainda não a leu fechasse essa página e retornasse depois para contrapor as impressões que exponho a seguir, portanto, se não quer saber de antemão como a trama é conduzida, não prossiga com a leitura.

Eva é sincera de uma maneira que a maioria dos adultos omite por vergonha. Quando um casal hétero é unido por um período estável as perguntas sobre a futura prole são inevitáveis, não raro ouvem: “Quando estiverem na casa de vocês e sozinhos, notarão que faltará algo”, é triste imaginar que duas pessoas que se amam passem por um período em que a distância e o silêncio são tão perturbadores que um rebento é o melhor recurso disponível para quebrar o clima austero. Eva admite que sua vida, embora com mais emoções que a maioria, tornou-se enfadonha. Quem sabe todas as maravilhas da maternidade alardeadas não teriam alguma valia? Não foi o que pareceu quando sentiu o hospedeiro (é assim que ela descreve) em seu corpo e até o desejo de dançar era transgressor, devia limitar seus movimentos por algo de maior valor, por exemplo, a adoção a contragosto de um estilo de “vida saudável”, simultaneamente era nítido o elo entre mulheres, a natureza, e suas crias: Quadris largos, tetas de cadelas que balançavam ao andar…Tudo parecia pavoroso. Gostava de seu corpo magro e associava a gordura dos americanos (ela, descendente de Armênios) a um padrão risível, cultura essa que adorava em cada trejeito de Franklin, o robusto norte-americano, patriota, machista, consumidor de pornografia, cidadão-de-bem.

Franklin fazia o possível para construir uma família ideal encarnando o pai perfeito (presente, que acoberta falhas, mas sem aquela responsabilidade imensa das mães que envolve desde preparar as refeições e levar ao médico até ajudar em trabalhos escolares), mas Kevin percebia (ao que tudo indica desde a mais tenra idade) as encenações de seus pais sentindo repulsa quando não lhe pareciam sinceros ao perguntar “como foi o dia da escola?”, faria parte do script ser sincero na medida em que fosse recíproco. Eva mostrava a Kevin facetas não muito exemplares á medida que as provocações dele intensificavam, carregando alguma vergonha de atos descompensados emendava desculpas o mais rápido que conseguisse. Qual mãe diria a plenos pulmões que causou uma fratura no filho? A vizinhança poderia julgar Kevin como desajustado e perigoso, contudo se essa ocorrência chegasse a público culpariam a educação de uma mãe não tão zelosa, especialmente se em contraste com o marido que levava o garoto a museus e fazia tudo para agradá-lo.

Isso dava algum contentamento a Kevin, ter o “poder” de trazer à tona a farsa construída com tanto esmero que é a polidez social, seu pai, uma criatura tão otimista e prestativa despertava ojeriza, em um jogo que refletia na mesma moeda as facetas da dissimulação de papéis interpretados. Sendo plausível o deslumbre com o que há de belo e nobre, há quem contemple o sujo, feio e pérfido.

Era doloroso para Kevin não receber alguma espécie de gratidão, entretanto sua obrigatoriedade era inaceitável, ansiando por um amor espontâneo que não pôde experimentar, as atenções eram voltadas para Franklin e o ciúme foi condutor das primeiras teimosias. Fraldas? Até uma idade inaceitável para a média comum, quanto mais obstinado seu capricho tão maior era o esforço da mãe de não se mostrar vencida e verbalizar o comportamento inadequado, babás, professor@s, colegas de classe, ninguém passava imune a sua presença, como um vírus (metáfora explicada na sua coleção) que ameaça pela contaminação iminente e do quais alguns aventureiros se aproximam pelo prazer de correrem riscos, atestar a imunidade ou quem sabe, partilhar dessa áurea misteriosa e soturna. Eva decide ter uma filha e Franklin age com ressentimento devido a somatória do cansaço desse grande teatro que é o casamento em fiapos, brigas constantes e vida sexual escassa. Nasce Célia, herdando de Franklin a habilidade de suavizar asperezas e imperfeições, encontrando alguma beleza em criaturas abjetas, de uma fé inabalável e fragilidade espantosa.

Com os hormônios em disparate o desejo de Kevin pela mãe parece mais forte acompanhado de pecado e culpa, a expiação se dá por roupas justas (dois números –ou mais- abaixo de seu manequim, o que delineava bem seus mamilos e genitais), sapatos menores, comidas extremamente salgadas e engorduradas. Com todo desconforto físico alcançável encontrar “paz de espírito” não parece uma possibilidade, mas um clichê de mau gosto levando a frustração. A trégua foi dada em um momento febril ainda na infância: Agradeceu os cuidados da mãe e a leitura feita de Robin Hood bem como o desenho da irmã, mas tão logo recuperado a virilidade indiferente retorna. Exprimir emoção era “fraqueza” e parecia decidido disciplinar quem cruzasse o seu caminho, apegar-se a uma ideologia, rodopiar em um salão sem medo do ridículo, destacar-se em sala de aula, a missão consistia em descortinar frivolidades trazendo a tona vísceras ainda quentes. Traço comum em Seriais Killers, é um missionário e executor da eugenia social.

Assim, meu palpite sobre Kevin, além do Complexo de Édipo e Sadomasoquismo (com predominância sádica) é de que a angústia crescente ficou insustentável ao passo que alguns fatores desagradáveis poderiam ser eliminados com alguma finalidade. Uma família de classe-média alta com recursos financeiros de sobra, uma casa dos sonhos, no entanto, o que fazer com um coração que já não bate nem apanha? Esse despropósito facilmente reconhecível é palpável para maioria de nós enquanto aguardamos sabe-se lá o que, desolados diante de uma visão turva. Esse é o principal elemento que forma infratores? Há como antever e remediar?

A delinquência juvenil possui ares de “incivilizada” já que é freqüentemente atrelada às classes sociais malquistas, o desespero da classe média é encontrar essa possibilidade germinando abaixo de seu nariz, se os filhos de outros não possuem filtros, pensam eles, é isso que os torna violentos sendo indicado reforçar a redoma de vidro para proteger seus herdeiros do ardil que espreita além do quintal. Assistentes sociais, Psiquiatras, Psicólogos, Advogados e espectadores, buscando o porquê do ruído de engrenagens pelo som da ferrugem; a similaridade entre eles, nós e Dana Rocco reside na ingenuidade de que compreendemos a fórmula do delito.

http://vimeo.com/31998818
Trecho do musical West Side Story

2 novembro, 2011

O Veganismo precisa de gente como você?

Posted in Animais tagged às 9:26 pm por Deborah Sá

É notável a recente onda de ataques a Vegetarianos e suas práticas, sobretudo de Onívoros que por acreditarem serem o alvo perfeito para o recrutamento, fazem uma série de exigências ao camarim. Como se o Veganismo fosse uma banda a brilhar no palco em busca de novos talentos, mas não satisfeito, esse “convocado” põe-se a desmoralizar ativistas que se esforçam em prol dessa causa. Sei que pode ser duro para alguns onívoros ouvir isso caindo como uma bigorna em suas cabeças, mas serei direta: Nós não precisamos de você, sequer somos astros, líderes espirituais ou qualquer outra qualidade apresentada ao som de fogos de artifício.

Portanto, nós não precisamos adequar nosso discurso para sermos mais agradáveis, se você tem preguiça de lavar rúcula ou acha oneroso refogar uma abobrinha, não interessa. Há uma forte tendência e maior abertura na atualidade sobre Direito Animal e alimentação Vegetariana, contudo, estamos em esmagadora minoria (menor que qualquer movimento pró-direitos humanos). Se no Brasil há esse tímido espaço não significa que urgentemente devemos tratar com decoro qualquer um que se acha precioso demais para ser ignorado por “conversores”. Talvez resida aí um dos primeiros mitos sobre Vegetarianos que necessita o quanto antes de adequado descarte, nem todos nós queremos “conversão” a todo custo. Invariavelmente muitos confundem essa Filosofia e Ativismo com religião, para tanto, pretendo esclarecer o abismo que separa essas motivações e a quem realmente buscamos atingir, ou em vocabulário mais adequado a metáfora, oferecer “salvação”. Sob a ótica cristã (ortodoxa), a evangelização leva a redenção a cada uma das almas cujas ações, se boas, levarão ao júbilo eterno e se más, ao enxofre e ranger de dentes. É dado o livre arbítrio, embora o discernimento ofereça uma prévia das conseqüências pós-morte. Mesmo quando uma criança não é fruto de genitores cristãos há uma série de referências teológicas ao redor, o calendário, feriados, Natal, em sátira ou levado a sério, também há espaço em emissoras de TV, jornais, revistas. É muito fácil encontrar igrejas a poucas quadras de qualquer domicílio, se necessário for, os missionários “vão até Maomé”.

No Veganismo, a eternidade e outras dimensões não estão em jogo, não sendo necessária muita perspicácia para notar que beira o surreal equiparar a oferta de informação em ambos os casos. Após difundida a informação sobre Veganismo sobra o livre arbítrio, mas, o que ocorre se um onívoro optar por continuar seus hábitos usuais? Morrerá? Será assombrado por fantasmas no rolete? Pagará multa? Entrará para o contrabando de queijo coalho para burlar a segurança nacional? Em verdade, sua vida permanecerá idêntica e no consenso geral não há nada nesse ato que salte os olhos. E o que implica essa “escolha”? Ao comer uma fatia de pizza coberta de queijo não se condena a alma de outros ao inferno, mas se encerra prematuramente (se comparada fora do confinamento) a vida de uma vaca que foi concebida com esse propósito, alimentar uma indústria, alimentar um patrão e por último, alimentar um humano.

Fazendo-me explícita, o foco não é pensar na sua alma e na sua eternidade, o propósito são outros sujeitos afetados nessa escolha, é a privação, segregação, dor, abuso e morte de alguém incapaz de requerer alforria. São integrantes de uma realidade extremamente concreta, os que perambulam em jaulas pequenas num retrato de desordem psíquica sem qualquer alento. Mas, se não há lucro nessa conduta moral, porque alguém se dispõe a reexaminar uma série de condutas perfeitamente justificadas em seu tempo?

Segundo Comte, “a Moral consiste em fazer prevalecer os instintos simpáticos sobre os impulsos egoístas”. É o genuíno altruísmo que por si só não precisa de embasamento, esse impulso empático inerente em alguma medida a cada um de nós, é o que nos faz tomar as decisões justas mesmo que não acarrete benefício próprio. A ética por sua vez é a justificativa teórica para essas medidas, se o assassinato é punido perante a lei, antes foi regulamentado por bases éticas sendo socialmente “errado” em sua moralidade e através da ética é permitido ao acusado a chance de defesa. Conforme a percepção dos indivíduos e seu recorte histórico, as bases morais adquirem multifacetadas interpretações. Por exemplo, embora seja esperado ver em uma calçada de grande movimentação os transeuntes saborearem pedaços de porco envoltos no pão, a comoção seria outra se o vendedor agisse dessa forma:

Minha mãe quando garota, não gostava de presenciar minha avó degolando galinhas ou codornas na sua frente, meu avô paterno era um jardineiro que caçava nas horas vagas, desses que matam uma cobra ou um macaco, levam para casa, limpam, temperam, cozinham e comem com gosto. Para essa geração é um ritual que faz parte de suas vivências, algumas pessoas mais velhas contam que no início relutaram e por fim se acostumaram, como se arrancar o último pio de uma ave, causasse o mesmo impacto de escutar o estalo de pilhas que saltam de um controle remoto forçados diante da impaciência. A maioria das pessoas da minha geração não teria coragem de abater um porco sem remorso e não raro, os que hoje acham essa atitude “uma tremenda bobagem” (em média quase duas décadas mais velhos) são os mesmos que dizem “Pra mim, depressão é curada na pancada, apanhei muito e nem por isso fiquei louco”.

Uma contestação presente em muitos argumentos anti-vegetarianos é de que a empatia com não humanos é descabida por ser demasiadamente pessoal e de um sentimentalismo pueril, por exemplo, o termo estupro não poderia se aplicar se alguém o fizer com uma vaca, tortura, cárcere, nada disso faz sentido quando o afetado é desprovido de atributos humanos (e não há dúvidas que o conceito de humanidade foi modificado através do tempo). Em uma cena do clássico “Planeta dos Macacos” de 1968 um humano é levado a júri:

– Prezados juízes, meu caso é simples. Baseia-se em nosso primeiro artigo da fé. De que o Poderoso criou o macaco á sua imagem, que lhe deu alma e mente. Que os diferenciou dos animais da selva e o fez senhor do planeta (…) O objetivo apropriado de estudo do macaco é o próprio macaco. Mas alguns jovens cínicos optaram por estudar o homem (…) O Estado acusa Dra. Zira e um cirurgião corrupto chamado Galen de fazer experiências com este animal, modificando-lhe o cérebro e a garganta, criando um monstro que fala. (…) Isso raciocina? Com a permissão do Tribunal, exporei essa farsa com um exame direto. (…) Diga, Olhos Brilhantes [nome do humano], qual é o segundo artigo da fé?

– Não conheço sua cultura, admito.

– É claro que não conhece nossa cultura, ele é incapaz de pensar!

– Por que todos os macacos foram criados iguais?

– Alguns macacos são mais iguais que outros.

Naturalmente por não possuir tais respostas é taxado de aberração bestial, anomalia e injúria ao criador.  Pois bem, deveríamos abdicar de descrever qualquer situação que envolva membros de outra espécie? ”Vi um cão que roçava na grama em um dia de sol, ele estava muito feliz” ou “O homem chutou o gato”, são frases que não fazem sentido se o olhar especista for grande o suficiente para encarar animais como que em uma fábula na qual por mágica um objeto trivial ganha vida: Um cofrinho tragicamente encontra o martelo para esfacelar seu gesso. Triste no contexto, todavia, só um punhado de pó branco que pode ser escondido embaixo do tapete,  no eufemismo, termos como solidão, canibalismo, alienação, relutância, corte, morte, sangue, desmembramento e decomposição são enfeitados com folhas de alface ou uvas de plástico na tentativa de alguma leveza ás vitrines de um açougue. Não é algo bonito de se ver. Se fosse de sua responsabilidade definir, qual seria a faixa etária permitida para assistir as filmagens de um abate?

Crianças não são inconscientes do ambiente que estão inseridas, a mídia expôs imagens de Kadafi ensangüentado e certamente crianças de variadas idades tiveram acesso a isso. Por volta dos onze anos (quando não antes), elas já sabem o que significa seqüestro, tortura e outros termos oriundos da violência. Quando estarão prontas para ver como é feita a sangria de um boi?  Sejamos honestos, nem a maioria dos adultos tem estômago para tanto.

O Veganismo deve ser construído por quem se importa com os animais, bem verdade que a maioria de nós na infância já experimentou o que é se preocupar além de nossos semelhantes, pedindo para levar um cão para casa, enfrentando os adultos ou mais velhos se necessário. As formas de preconceito e ódio são aprendidas, a mão que puxa para afastar infantes de novas amizades é a mesma que aos gritos manda se afastarem do vira-lata pedindo atenção. Se nada disso lhe desperta comoção, caro leitor, acredite, não fará falta. Felizmente em maioria estão aqueles que desejam mudar, embora não se sintam prontos ou não saibam por onde começar. Pedimos respeito, não por nós mesmos, mas pelos que estão em seu garfo sem um minuto de silêncio.