8 agosto, 2011

Ridicularização

Posted in Animais tagged , , às 12:25 pm por Deborah Sá

Um método utilizado para legitimar a violência, é realizado na medida em que ressaltamos as disparidades entre nós e de quem emitimos juízo. Dessa forma, a ridicularização é uma estratégia das mais eficientes. Ridicularizar é tornar vulnerável encobrindo qualquer possibilidade de defesa, divertindo-se com a condição “subalterna” do próximo a anular sua autonomia, diretos e anseios.

A monstra (1680). Juan Carreño de Miranda (1614-1685). Óleo sobre tela, 165 x 107 cm. Museu do Prado (Madri).

A monstra desnuda (1680). Juan Carreño de Miranda(1614 – 1685). Óleo sobre tela, 165 cm por 108 cm. Museu do Prado (Madri)

Essas pinturas realizadas na Espanha do Século XVII foram executadas a pedido do Rei Carlos II; retratam Eugenia Martínez Vallejo, que em 1680, a fim de atender aos caprichos e às excentricidades da família real foi convidada a morar no palácio. Foi uma das muitas pessoas com defeitos físicos ou mentais responsáveis pelo divertimento régio. Por conta de sua aparência, ficou conhecida como a gorda, ou “A Monstra”.¹

No final do século XIX e início do XX, espetáculos conhecidos como Freak Shows (Circo de Aberrações), exibiam humanos e não-humanos que possuíam alguma mutação genética, doenças ou quadros ainda não diagnosticados pela medicina. Em “O Homem Elefante” filme de 1980, Bytes, proprietário de um desses ramos de entretenimento faz uso oportuno de Joseph Merrick, que por sua aparência é nomeado de “Homem Elefante”. O modelo de adestramento consiste em agressão severa até que Merrick se resigna na antropomorfia. O pretexto para tamanha punição é sua aproximação com o que não é humano, sublime ou divino, ele é espancado e ferido para lembrar-se de seu caráter selvagem. Vira instrumento, escravo, abominação. Bestializar o oponente é a prerrogativa usada para justificar a perversidade, interpretando seus agentes como heróis (enquanto essa violência é compreendida como parte de um processo “civilizatório”); ou em absoluta indiferença a desgraça a aqueles que recebem golpes. Qual senhoril trata com compaixão seus escravos, se a função dessas existências é tão somente de vassalagem aos olhos de vossos senhores?

A linguagem e as produções artísticas, não permitem um recorte absoluto da mentalidade de uma época, mas apontam para fortes tendências dentro de determinado período, se a tática de ridicularização perpassa a equiparação entre humanos e animais (para muitas ofensas há um animal símbolo), é pouco provável e talvez fosse de um esforço redundante animalizar não-humanos. Eles já ocupam nossa escala mais baixa de consideração. Qual o propósito de um leão pular entre aros de fogo? Ou de um cavalo responder cálculos matemáticos com as batidas de seu casco? Provavelmente isso não é muito útil entre seus semelhantes em espécie, mas oferece a garantia de alimento entre as grades. Relembrando que a maioria dos animais criados nessas condições apresenta desordem mental. Não obstante a imensa lista de “serventias” por nós determinadas aos animais (incluindo a data de validade) abordo de forma breve algumas amostras de representações contemporâneas e seu uso no entretenimento. Começando por um comercial de caminhões:

A ironia inicia pela trilha sonora (O velho Mac Donald tinha uma fazenda), aludindo a imagem bucólica que faz parte do imaginário de quem vive em cidades e jamais presenciou um desses grandes animais de perto, sequer imaginando o que escondem as paredes de um abatedouro (depois que a “vida útil” chega ao fim, é enviada ao abate). Vinculado nos principais canais de comunicação, essa linguagem é direta e trivial, é banal assistir vacas leiteiras transportadas semelhantemente a caixas, no entanto a comoção pública seria outra se um esquema de leite humano fosse denunciado e ao invés dessas, outras lactantes (dessas de polegares opositores), transparecessem similar satisfação. Os bastidores desse vídeo que levou oito horas para ser produzido estão aqui.

Vinculado essa semana em horário nobre na Rede Globo, o filme Zohan de 2008, abusa de piadas escatológicas, a intenção é fazer um humor com “crítica política” a Palestinos e Israelenses, a maneira encontrada é uni-los em caricaturas xenofóbicas: Do tom de pele ao sotaque, misturar Hummus em todo alimento, tomar refrigerante exótico e usar a interjeição: “Babaganush (!)”. Como não deixaria de ser, o trato grosseiro aos animais é expandido fomentando com a natureza “selvagem” dos personagens. Incluindo uma cena de “embaixadinha de gato”.

No mesmo ano, houve a participação do artista Costa-Riquenho Guillermo “Habacuc” Vargas em uma Bienal da América Central. A intenção com sua obra “Exposición nº 1” era criticar a invisibilidade da morte de um imigrante Nicaragüense: Natividad Canda Mayrena morto por dois Rottweilers na Costa Rica. Policiais que presenciaram a cena, justificaram o não envolvimento alegando que atirar contra os cães inevitavelmente feriria Natividad. Um motivo nobre para protestar, questionável foi o processo escolhido por Habacuc: Retirou um cão das ruas e o nomeou Natividad, prendeu-o em uma corrente curta não oferecendo água ou alimentação,e acima dele escreveu com flocos de ração canina: “Você é o que lê”. Houve indignação e o cão “desapareceu” não deixando pistas de seu paradeiro. ²

No comercial há a exposição de suscetibilidade. No filme, o absurdo permissivo próprio da comédia, no entanto, nele é feito uso de digitalizações, ao contrário de Amarelo Manga, Manderley e Old Boy onde o sacrifício de animais é real com intenção de causar espanto e asco. Na exposição de arte, há um cenário para a inanição. Assegurar direitos aos não humanos em sua integridade física e moral, não se trata de iluminação ou transcendência. É desconstruir a prepotência em que nos lançamos a delírios de poderes por nós investidos, repassados geração após outra. Indago a nós, Deusas e Deuses, Rainhas e Reis, Príncipes e Princesas, quantos manjares, altares e sacrifícios bastarão? Deixemos, pois, o cetro rolar.

3 agosto, 2011

O verdadeiro Babe, O Porquinho

Posted in Animais, Curtas/Documentários, O pessoal é político tagged às 10:51 am por Deborah Sá


O curta Pig Me foi realizado por Rebecca Bang Sørensen, Ditte Gade, Marie Louise Højer Jensen, Israel Hernandez e Mette Tange, e ilustra os esforços de um jovem porco e suas tentativas de aproximação entre humanos.

Recomendado pela Luka, através do Smelly Cat.