4 julho, 2011

Sustentabilidade e Bem Estarismo

Posted in Animais tagged , , às 2:34 pm por Deborah Sá

A Sustentabilidade se baseia na produção de bens de consumo reduzindo sempre que possível, os impactos ao meio ambiente. Atendendo a demanda, empresas investem em divulgações que tornem explícitas o quão cautelosa é a seleção de mão de obra, material, origem e transporte até que o produto seja consumido. Em 2007 Anya Hindmarch criou a “I am not a plastic bag”, uma sacola para transportar itens dispensando as costumeiras embalagens plásticas, a idéia foi recebida com entusiasmo inclusive no Brasil, onde qualquer feira livre dispõe de sacolas estilizadas há décadas.

Se o conceito da Ecobag é reduzir, essa capa é contraditória

Assim as Ecobags atenderam um novo público: “@ consumidor@ consciente”. Geralmente de classe média, maior acesso a informação e poder aquisitivo suficiente para investir em compras que não pesarão tanto na consciência e que de alguma maneira faça valer sua participação enquanto cidadã@.

Companhias petrolíferas e grandes corporações proclamam em peças publicitárias ensolaradas todo o esplendor da Nova Era Sustentável, que pode ser resumida em: “Fique tranqüilo, nós não queremos apenas seu dinheiro também o usamos para um mundo melhor e você faz parte disso. Obrigado”.

Depois de acalmar os ânimos e congratular pelo benefício coletivo indireto, nos resta sorrir pela satisfação de dever cumprido. Se essa Sustentabilidade é abraçada pelo Capital, há muitas razões de sê-lo. A abordagem propositalmente superficial limita os questionamentos éticos que envolvem o sistema Capitalista e suas manobras, em verdade, cria pessoas realmente orgulhosas e aliviadas em aumentar os lucros de logotipos familiares.

Optando tão somente por essa interpretação, atos como desligar a torneira enquanto se escova os dentes e reciclar o lixo ganham ares desproporcionalmente heróicos. Para amplitude do debate, cabe uma honesta questão: São atos que se bastam? Se a maioria das latinhas de alumínio no Brasil é reciclada, quem as recolhe? Fazem isso pelo planeta ou porque é fonte de renda? A empresa que produz refrigerante aproveita a deixa “Nós reciclamos, faça sua parte” e o consumidor muito feliz, deixa-se levar.

Sustentabilidade alheia a má distribuição de renda, os métodos de produção, a desigualdade entre as minorias sociais e toda a cadeia de eventos até as prateleiras, é um engodo sedutor excepcionalmente lucrativo para seus produtores vistos como benfeitores. A coligação com o Bem Estarismo não poderia ser mais acertada, nesse vídeo, os argumentos para os produtores são ressaltados:


“Em um hematoma, perde-se cerca de 400g de carne. Então, quanto o produtor está perdendo por não implantar boas práticas?”

“Um produto com esse selo (de Abate Humanitário), custa 150% mais caro que no molde convencional, mas graças a Deus, toda nossa produção é vendida”

“O objetivo é que o animal seja abatido e não tenha percepção do que está acontecendo com ele, que ele esteja inconsciente, não sinta dor. Muitas vezes as pessoas podem questionar ‘Mas se o animal vai pro abate, o que importa sentir dor ou não? ’ Nós temos que pensar que os animais produzem alimento para nosso consumo e é importante que até o momento da sua morte, nossa obrigação ética é dar um meio adequado para esse animal, do nascimento ao abate”.

Mesmo sob a ótica Bem-Estarista, animais não cedem em nenhum momento sua “mão de obra”, ou “produção”, eles são usados ao bel-prazer de outra espécie, que encarcera, insemina e estipula qual será “a data de validade” e o custo da mercantilização de seus corpos. Se o tratamento dispensado a esses animais fosse direcionado aos humanos, chamá-lo de “humanitário” seria indubitavelmente macabro.

Comercial de chá, proposta de bem estar: Uma mulher desperta e se espreguiça na janela, a música tema é de flautas transversais. A câmera foca a luz vermelha em sua nuca. Ela cai, convulsiona e morre. Locução: Isso é… Bem Estarismo. ;)

O que esses animais realmente ganham? Uma vida digna pela honra de estarem entre talheres? A felicidade em comer uma carne “contente”?  Há quem diga que não importa o quanto Defensores de Direito Animal se oponham, o pragmatismo diante da realidade oferece como paliativo o Bem-Estarismo e devemos ser gratos. Não, não seremos gratos pelo fatalismo.

Quem não tem condições de pagar por um Abate Humanitário merece ingerir derivados com antibióticos, hormônios e pus; não raros acrescidos de canibalismo? Se a classe média “consciente” faz questão de certificar a origem do que consome, se preocupa com o que sua empregada oferece aos filhos? A quem a Sustentabilidade Bem-Estarista oferece amparo e conforto?

O seu amor é canibal, comeu meu coração, mas agora eu sou feliz.

15 Comentários

  1. Bruno said,

    Poxa, “Abate Humanitário” é uma das coisas mais estranhas que já vi. Adorei o Blog. Parabéns pelo texto.

    • Deborah Sá said,

      Obrigada :D

  2. “Sustentabilidade alheia a má distribuição de renda, os métodos de produção, a desigualdade entre as minorias sociais e toda a cadeia de eventos até as prateleiras, é um engodo sedutor excepcionalmente lucrativo para seus produtores vistos como benfeitores.”

    clap, clap, clap

    Bjx

    Roy

    • Deborah Sá said,

      Obrigada :)

  3. Excelente texto!!!! Mas, dá pano pra manga, eim? rsrs

    Vivo me perguntando se é possível haver sustentabilidade no capitalismo… [acho que muita gente se pergunta também]. Como Roy disse, sustentabilidade não depende unica e exclusivamente de materiais, é todo um contexto complexo. De que adianta por ex, usar fibras naturais se quem as colhe vive no limite da linha de pobreza? Isso é sustentável?

    Mas os “marqueteiros” estão aí, né… Fazendo com que até a “benfeitora Unilever” ganhe selo de sustentabilidade [!!!!!!!]….

    Enfim, o que esperar de uma sociedade antropocentrista? Somente essas merdas mesmo [pode escrever merda aqui? rs]. Merdas tão absurdas como “Ongs de Proteção Animal e Ambiental” defendendo gado verde e abate humanitário!!

    Nave mãe, me resgate!!! =P

    Bjão =D

    • Deborah Sá said,

      Olá Luciana,

      Concordo com você e sim, pode usar todo tipo de gíria ou linguagem aqui, ainda mais nesse contexto XD

      Um abraço,

  4. Me referi à WWF e WSPA ;- )

  5. […] Sustentabilidade e bem-estarismo por Deborah Sá […]

  6. Carla Jaia said,

    Muito bom, lindeza!

    “Se a maioria das latinhas de alumínio no Brasil é reciclada, quem as recolhe? Fazem isso pelo planeta ou porque é fonte de renda? A empresa que produz refrigerante aproveita a deixa “Nós reciclamos, faça sua parte” e o consumidor muito feliz, deixa-se levar.”

    • Deborah Sá said,

      = ****

  7. […] que nem tem açúcar — nem valor nutricional — nas suas versões zero) e pro meio ambiente (como  os carros “verdes”, que nem poluem — nem causam […]

  8. marcd said,

    Oi parabens pelo texto, é realmente uma contradição, abate humanitario. visite o meu blog de design sustentavel:
    http://marciodupont.blogspot.com

    E passe no seguinte blog, excelentes textos, contra o maltrato aos animais: http://sindromemm.blogspot.com

  9. Frida O. said,

    ~Comentando post de 1 ano atrás~

    Olá, Deborah! Descobri seu blog a poucos dias, através da Lola e estou amando.
    O que mais me choca, como estudante de medicina veterinária é que o Bem-Estar Animal no Brasil é visto como frescura de gringo pra não importar produtos daqui e etc. Na boa? BEA é uma piada de mau gosto.
    Lógica bem-estarista: ‘veja como nossos porquinhos são felizes antes de os matarmos e transformá-los em ‘carne’ e vendê-la a você. Agora durma tranquil@ pois você já fez o podia por eles comprando nossos produtos da fazenda feliz por 3x o preço’.
    Ok, são capitalistas, precisam vender o peixe deles. Mas o ambiente acadêmico é diferente, inovamos, questionamos, derrubamos velhos mitos, certo? Errado.
    Discussão sobre a real necessidade de consumir produtos animais? Não trabalhamos. Discussão sobre métodos alternativos no uso de animais na pesquisa? Tá brincando, né? ‘Tá achando que isso é curso de bicho-grilo pra ter papinho politicamente correto?’
    Enfim, é incrível ver como é tabu discutir direitos animais em um curso de MEDICINA Veterinária. Aqui a cartilha é prevenir, tratar, matar e comer, f*ck the logic.
    Parabéns pelo post!

    • Deborah Sá said,

      Bem vinda, Frida!

      Que bom que gostou, fique a vontade para comentar nos posts que desejar, já leu “A Política Sexual da Carne”?, é bem interessante, faz o paralelo entre a masculinidade e o consumo de carne.
      Minha irmã já cursou biologia por um tempo e passou pelo mesmo problema:
      http://krasis.wordpress.com/2011/10/31/a-mao-que-afaga/

      Um abraço,

  10. Victor said,

    Mas poxa, o abate humanitário é feito de forma a se evitar a dor, já que o animal não sofre. Vendo por esse lado, não haveria muita diferença entre tirar a vida de um vegetal e de um animal para o nosso consumo, ambos eram seres vivos, e ambos morreram sem dor. Seguindo essa linha de raciocínio, privar qualquer ser vivo daquilo que chamamos de vida para o nosso bel-prazer seria errado, pois assim como o animal, o vegetal também quer viver, o vegetal também se reproduz, o vegetal também se alimenta (de nutrientes da terra), etc, caso contrário não estaria vivo, e não tentaria perpetuar sua espécie, certo?! Logo, adiante com esse seu parâmetro ético, seria errado predestinar qualquer ser vivo à nossa alimentação.

    Mas tenho consciência da complexidade do assunto, acredito que o ser humano ainda não compreende a natureza e suas leis. Eu tenho minhas convicções e você tem as suas, ambos tomamos caminhos diferentes para tirar as nossas próprias conclusões… O importante é lutar por um mundo melhor, e qualquer gesto bom conta!

    abraços ;-)


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