31 maio, 2011

Dia Mundial Sem Tabaco

Posted in Consumo tagged , , , às 2:33 pm por Deborah Sá

Nunca fumei cigarro (de nenhum tipo), meu pai por sua vez, foi fumante.
Encerrou esse costume tão logo freqüentou com mais afinco a igreja, em pouco tempo conheceu minha mãe casaram-se e nasci. De sete meses, um parto expulsivo, com bronquite, sinusite e dificuldade de respirar. Um bebê frágil e quase não ganhava peso. Não creio que o fato do meu pai em determinada época ter fumado pré-determinou meus cuidados em incubadora. Era possível me identificar “sem pulseirinha” por ser a menor, minha irmã também era fácil de reconhecer por razões antagônicas, nasceu gorda e rosada, seis anos mais tarde.

Lembro de ver ti@s fumando nas festinhas de aniversário (um deles hoje, com Traqueostomia), meu avô também fumava, mas o cigarro dele tinha um cheiro diferente e era trivial montar o próprio fumo. Não gostava do cheiro, achava fedido e não entendia qual era “a graça”, igualmente não entendia o que havia de tão divertido em beber cerveja (um tio me enganou e disse que era guaraná, cospi, achei asqueroso).

Na Sexta Série havia um garoto que fumava maconha na quadra nas aulas de Educação Física. Todos os alunos sabiam, poucos o acompanhavam. No intervalo era visível o uso indiscriminado do tabaco, sabiam dos malefícios do cigarro e deliberadamente optaram por iniciar seu uso.

Quando freqüentava shows sentia cheiro da Cannabis Sativa, podem duvidar, mas a fumaça não causava um terço do dano que a fumaça de tabaco causava quando era exposta nas mesmas quantidades. Já me ofereceram em rodas de amigos e até de desconhecidos, recusei em todas. Não porque “sou forte”, mas porque não sinto o mínimo tesão nessas práticas.

Um dia compareci na festa de um amigo, de maioria fumante. Não me importei, alegres e dispostos conversavam, a música era divertida e optei por ficar próxima a varanda, onde havia alguma corrente de ar. Logo estava em um quarto com duas moças que conheci no local conversando sobre Feminismo quando uma delas, despretensiosamente soprou a fumaça na minha direção. Os olhos lacrimejaram, pedi licença e ligeiramente corri ao banheiro com uma crise de espirro e tremenda falta de ar, retornando para varanda onde estavam meus amigos preocupados com aquele “estado”. Desesperadamente tentava respirar pelas frestas da varanda, com os olhos em lágrimas, o peito “chiando”, alguns riam. Senti-me patética.

Convivo com fumantes em meu dia a dia, as piores crises ocorrem em ambientes internos nos quais sutilmente peço licença para me retirar. Minto se digo que não passo raiva em sentir a respiração faltar quando estou no metrô e alguém na minha frente solta a fumaça acertando em cheio o rosto. Porém, não é sempre que as crises ocorrem, já saí com amigas fumantes e embora com o nariz formigando, não houve falta de ar.

Beijaria fumantes? Sim, mas com a condição de não terem fumado no instante anterior. É o mesmo critério que aplico para bebidas alcoólicas ou alimentos não veganos. Namoraria uma fumante ou alguém que goste muito de beber? Não. E seria cômico que ao término de cada trepada me faltasse o ar na medida em que a companhia acendesse o cigarro.

Ainda que pelos motivos expressos acima, a fumaça de tabaco cause-me uma série de desconfortos não odeio fumantes. Incomoda-me, sobretudo essa campanha “higienizante” e o mau agouro que desejam a quem escolhe o fumo, cada vez que um@ fumante tosse, outros desejam presenciar um pedaço do pulmão saltando aos olhos fora da órbita.

Sendo uma opção que em primeira instância afeta quem consome, porque nos incomodamos? O Lobby da indústria? E as bebidas alcoólicas? Que causam acidentes de trânsito, violência contra mulheres, crianças e animais não-humanos? E a “escolha” de consumir carne, onde só é considerado o poder de decisão de quem fará uso do abate?

Em desamparo e solidão já cogitei buscar alguma substância que me trouxesse acolhimento. Contudo não o fiz; isso seria (a meu ver), mascarar a dificuldade. Escrevo, choro, grito, faço o necessário para decodificar incompreensões.

Quem escolhe viver “limp@”?  

A titulo de curiosidade; questionam se não desejo “ficar alegrinha” e se há alguma correlação com o Veganismo. Não sou Straight Edge, me abstendo de certas ingestões por não apreciar o gosto, a melhor cerveja que provei foi Norteña e nem de longe supera o sabor de um suco de melão.

Não ingiro algo desagradável para ganhar status entre grupos, se esse é o requisito básico para a interação, dispenso. Sei que tímidos também fazem uso para agirem sem embaraço, não é meu caso, sou expansiva.

Prezo pela sanidade, durante um período conturbado experimentei sensações de amortecimento da realidade, procurei ajuda de um Psicólogo que auxiliou e em pouco tempo (sem remédios) me restabeleci. Creio que as experiências religiosas que provei desde muito nova, foram um pontapé inicial para que pudesse alcançar estágios diferentes de consciência sem o uso de entorpecentes. Já experimentei sentimentos de paranóia, perseguição, apatia, palpitações e depressão. Sabe o que é olhar para o seu corpo e senti-lo morto? Certamente o abuso que sofri repleto de vulnerabilidade, teve algum peso.

Agora sinto segurança sobre meu corpo, mente e equilíbrio. É como se a “chave” estivesse em espectros e com muito custo, tomei o que me era de direito. Se porventura escolher um porre, ou ativar fumaça, será entre quem confio, mas por ora e até onde a vista alcança, a bandeira hasteada é da sobriedade.

18 Comentários

  1. Roy Frenkiel said,

    Bom, fumo, e fumo muito. Jamais acendo cigarro depois da trepada, especialmente no quarto, se minha amante nao fuma. Nao fumo perto da pessoa, e escovo os dentes depois de cada vez que fumo nessas circunstancias. Fora delas, so nao fumo no quarto, em espacos fechados. Quero parar, sempre quis, mas nao me vem facil. Meus pais sempre fumaram, e sempre fumaram maconha. Sobre a maconha ou qualquer outro entorpecente, cada qual vive como quer, ora essa.

    Bjx

    Roy

    • Deborah Sá said,

      Concordo =)

  2. Monica said,

    Pois é, as pessoas se esquecem do bom senso e não respeitam as escolhas (fumar ou não, ser vegan ou não) dos outros, né? Nunca fumei, mas apenas porque achava horrível o gosto do cigarro na boca. De resto, convivi e convivo (em geral) pacificamente com os fumantes. Se os dois lados tivessem um cadinho de boa vontade uns com os outros, talvez a convivência fosse mais tranquila…
    abraço

    • Deborah Sá said,

      Exato,

      Outro abraço :)

  3. Fumei por 8 anos, faz 5 que parei não sinto nenhuma falta, fácil não foi, mas com um pouco de força de vontade é possível. Desde o ano passado várias pessoas da minha família pararam de fumar, inclusive meu irmão e minha mãe.
    Nunca fumei maconha, não por falta de oportunidades, mas por falta de vontade mesmo.

    Abraço!

    • Deborah Sá said,

      Conheço alguns ex-fumantes que também dizem que não foi fácil. Fico feliz que tenha conseguido por espontânea vontade ;)

      Um abraço

  4. m. said,

    eu to tentando parar de fumar. fico dias e dias sem fumar, e, de repente, compro trinta maços e fumo pela prexeca, pelo ouvido e por onde mais der ;T (sou assim com comida tbém, de deixar de comer e depois comercomercomer). acho muito legal vc nunca ter fumado ou bebido e etc pq nao tem “tesao”. muita gente comecou pra se enquadrar mesmo (inclusive eu, provavelmente) e muita gente nao faz pra se enquadrar tbem (tipos os sxes, que ficam um ano se privando tanto e de repente “caem” e tomam tudo que encontram pela frente). =*********** beijos

    • Deborah Sá said,

      Acho que como bem, mas com ponderação, dificilmente me “empanturro” :P

      Também conheço sXe que quando “caiu” foi pra valer ;P

      Um abraço e boa sorte ;D

  5. Ana said,

    Acho que fumo nunca foi um problema pra mim… minha avó foi fumante, meu avô também (ambos morreram enfartados), mas acho que isso nunca foi uma determinante pra eu fumar ou não fumar. Só nunca tive tesão na coisa, como vc disse. Achava banal e fedido, mas só. Também nunca me incomodei com fumantes perto de mim, já beijei um rapaz que fumava, enfim… também nunca usei maconha, não me seduz, blah. Só fui das bebedeiras por um tempo, pra conseguir me soltar um pouco mais nessa vida, mas também parei com isso… não tava valendo os constrangimentos e os desconfortos físicos dos dias seguintes.

    Mas é sempre aquela coisa: respeito, mas me respeita também. Sou contra o anti-tabagismo histérico, não acho que um fumante deva ser praguejado por 5 gerações nem nada, muito menos marginalizado ou coisa do tipo. Só acho que em muitos casos falta aí umas doses de bom senso, como quando o sujeito inventa de fumar dentro do carro enquanto te dá uma carona… assim, aquelas coisas: eu não sou 100% limpa também, como carne, tomo coca-cola, gordura trans. Mas não faço um vegetariano comer à força um prato de bife, então também não quero inalar fumaça alheia em lugar sem muita circulação de ar, né?

    • Deborah Sá said,

      Interessante ;)

      Comprometi-me a não beber (ou evitar na medida do possível) refrigerante, nunca gostei muito, nem sinto muita sede ao comer. Pensei nisso, pois não me faz falta e acho dispensável, adoro chás (quase sempre sem açúcar) e sucos.
      Quanto ao cigarro concordo com você ;)

  6. olá!!!
    vim conhecer seu espaço e tô adorando!
    soube de vc pelo blog da Lola, comentei lá e vi q respondeu!!!
    sobre seu post, só um comentário: ODEIO cigarros… credo!!!!
    bjão
    da Li

    • Deborah Sá said,

      Seja bem vida ;D

  7. Olá.
    Não entendi o motivo pelo qual você não namoraria pessoas que gostam de beber. Também fiquei curioso com essas “sensações de amortecimento da realidade” que citou.
    Desculpa, é a primeira vez que acesso o seu blog, então se você já falou sobre isso em algum outro post, eu ainda não li.
    Cheguei aqui por intermédio do seu Guest Post no blog da Lola. Deixei lá no campo de comentários as minhas considerações.

    • Deborah Sá said,

      Fernando,

      Não sinto vontade de beijar uma pessoa que acabou de beber, na verdade não importa o quão interessada esteja, fumar, beber ou comer carne na minha frente é suficiente para “matar o tesão”. Não permanentemente, eu “ficaria” com um@ fumante que não estivesse com o cigarro entre os dedos, um@ onívor@ que não tivesse no hálito o gosto da carne etc.

      Quem bebe/fuma/come carne faz disso uma constante. A convivência seria insuportável.

      Outra coisa, não gosto nada da idéia de fazer sexo com alguém “alegrinh@”, parece que a pessoa não tem vontade própria. Sexo bom pra mim (seja casual ou com parceir@ fixo) é aquele onde tod@s estão sóbri@s e segur@s.

      O “Amortecimento da realidade” que falei é sentir seu corpo adormecer, mas sua mente estar em “alerta”. É perder o controle sobre o próprio corpo nos momentos mais inapropriados, sentir-se vulnerável, suar frio, sentir as pernas bambas, em casos mais sérios, não conseguir se mover, falar, é agonia e desespero. Não desejo isso para ninguém.

      Mas com ajuda (terapia e apoio de quem é mais próximo), consegui praticamente “zerar” essas ocorrências. Falo isso porque não acredito em “cura absoluta”, quando alguém tem uma fobia, trauma ou dificuldade de interação social, aprende a lidar com isso da melhor forma possível. Atualmente, consigo “detectar” os primeiros “sintomas” e sei exatamente como me acalmar diante dessas “crises de ansiedade” (é como chamo).

      Seja bem vindo ao blog ;)

  8. Obrigado pelas respostas.
    Agora entendi melhor.
    Mas na sua resposta, surgiu uma nova dúvida (Desculpa! rs)
    Por que uma pessoa “alegrinha” não teria personalidade?

    O álcool pode deixar a pessoa mais vulnerável e até menos atenta ao que está fazendo, mas isso não necessariamente faz com que a pessoa perca sua personalidade, mesmo enquanto está alterada, eu acho…

    Algumas pessoas bebem esporadicamente e apenas em momentos específicos. Acho que poderia ser algo suportável, não?
    Enfim… Entendo o que você quer dizer e acho bastante razoável, realmente.

    Eu tendo a ser mais tolerante.

    • Deborah Sá said,

      Fernando,

      Tenho aversão a cheiro de cigarro ou bebida.
      Não tenho nenhum problema em conversar ou ser amiga de alguém com esses hábitos, mas seria incapaz de me apaixonar (eu acho), porque “broxaria” cada vez que a pessoa fizesse isso na minha frente.

      Defendo que cada pessoa faça o que deseja com o próprio corpo, se a pessoa se sente feliz e descontraída bebendo, o indicado é encontrar alguém que compartilhe esses momentos com ela. “Alegrinh@” ou não, cheirando a bebida já é o suficiente para matar meu desejo. E encaro isso como um direito.

  9. Twilight Haters said,

    Deborah, gosto muito das suas opiniões e, por isso, quero te perguntar um negócio aqui, porque é algo que me perturba MUITO no discurso da maioria das pessoas que se dizem contra o especismo.

    O caso é aquele: muita gente não consome nada de origem animal, não usa couro, nem produtos testados em animais. Ainda hoje tava lendo uma menina falando sobre esses tais testes de medicamentos e cosméticos e veio aquele papo de “devia testar em presidiários que só ocupam espaço”.

    Eu não vou vegan nem vegetariana nem nada por questões bem pessoais, mas respeito quem escolhe o ser. Só que acho duma incoerência ENORME a pessoa se afirmar vegetariana pelo fim do especismo, porque animais são seres indefesos que não escolhem virar bife, e depois dizer que são a favor de pena de morte ou de testar cosméticos em seres humanos não-voluntários. Acabo vendo que a briga contra especismo acaba não sendo uma defesa pelo fim da servidão dos animais “irracionais” ao homem, mas uma forma de afirmar que existe uma superioridade do animal ao homem. Entendo que as pessoas dizem que somos todos animais iguais, mas condenam o homem, sem dar a ele a possibilidade da escolha, ao que acham errado que seja feito com os animais, o que, naturalmente, já elimina a condição de igualdade.

    Queria saber sua opinião sobre isso… porque pra mim parece, assim, o cúmulo da incoerência e do absurdo…

    Ana (a mesma de lá de cima xD)

    • Deborah Sá said,

      Ana,

      Obrigada pela consideração ;)

      Na verdade acredito que não é porque alguém defende uma vertente ideológica que abraçará todas as possíveis correlações de luta. Já disse (aqui no blog), que julgo absurda a quantidade de homofóbicos e misóginos na cena SxE. Mas no final das contas, cada um@ enxerga as opressões até onde dá (ou até onde convém).

      No caso do teste em humanos involuntários sou contra, me oponho também ao atual sistema carcerário/punitivo, a alternativa para esse último caso não sei…Quanto ao segundo, seria interessante existirem investimentos em novas tecnologias porque testar em organismos bem diferentes dos nossos é incoerente, quando tenho dor de dente vou ao dentista e não ao Veterinário…

      É claro que existem Defensores de Direito Animal (Vegetarianos ou não), que não se importam com o debate de raça e classe (a maioria da população carcerária é negra e pobre, não que seja um dado biológico, mas é um atestado de marginalização social e suas conseqüências). Da mesma forma, há Feministas que não vêem nada de contraditório em pagar muito pouco para uma empregada doméstica (ou até mesmo abrir mão “desse serviço”).

      Da parte que me cabe: Sou Abolicionista Animal (na prática Vegana e nas idéias) visando a emancipação coletiva entre tod@s human@s, isso implica uma mudança radical nos métodos de produção e o debate de raça, gênero e classe.

      Se um@ Defensor@ de Direito Animal tiver essa postura que você indicou, serei contra, porque as lutas podem coexistir. Da mesma forma é possível que uma Feminista compreenda e se sensibilize com a causa animal ao ponto de tornar-se Vegana.

      Um abraço,


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