24 maio, 2011

Quem ainda quer falar de amor?

Posted in Só falam nisso tagged , às 10:45 am por Deborah Sá

O amor transcende as relações que criamos em pares, trios e além. Com quem nos deitamos e dormimos de conchinha, traçamos o futuro fazendo de um beijo, sorriso, acolhimento e gozo. Há quem sustente que é perfeitamente possível viver em plenitude sem criar essas alianças pré-concebidas de uma casa com filhos, aliança no dedo, cabelos tornando grisalhos, beijinho na testa. E estão certos, em verdade, não importa qual nosso modelo de “amor” ele terá probabilidades de conflitos e êxito.

Em um mundo repleto de auguras e hostilidade há quem ouse sorrir. Algumas pessoas em suas razões preferem colocar e escolher mais cores ao redor, priorizando a ternura em detrimento da ira. Uma das suspeitas que recaem sobre quem manifesta publicamente seu regozijo e admiração diante do que é gentil e belo é a qualificação simplista de “Imaturidade Pueril”.
Porque a capacidade que temos de nos emocionar, verter lágrimas ou sentir um aperto no peito diante de determinadas ocasiões, parece vergonhoso. Enquanto entusiasta das canções, dos bons clichês, do afago, do carinho; sobretudo da empatia, reivindico maior doçura e complacência de quem porventura tenha acesso a essas linhas.

E se antes de atacarmos um ser em exercício de benevolência nos imaginássemos em seu lugar? E se alguém gosta de enfeitar-se com flores no cabelo? Dançar ciranda? Fazer cafuné? Me indigno e oponho ao que é cruel, mesquinho, tirânico, opressor, silenciador, truculento, ríspido. Muito espanta que tantos outros se ofendam com demonstrações públicas de afeto, desde quando o amor virou démodé? O nosso bem-querer deve permanecer entre quatro paredes apenas para os cônjuges terem acesso ao nosso lado mais cortês? Por que não estender essa possibilidade a quem se aproxima por entre as brechas que o cotidiano nos traz? É tão custoso acenar para uma criança que nos olha com curiosidade? Ou quem sabe acariciar um cão que se aproxima e expõe a barriga pedindo um afago?  Precisamos de mais resmungos e rigidez?

E nós, que sentimos em sobejo sofremos pelo desdém de nossa dor, de nossas pulsões, de nosso palavreado repleto de sentimentalismos. Porque todo e qualquer ato empático valerá a pena para aquel@s que aspiram por algo maior que a circunstância permite, defrontaremos pois, o ódio, com palavras de amor.


As emoções de um isopor

“Você irmão, que está aqui! Frio diante da presença de D-uz com vergonha de chorar. Ele está vendo que aqui você é duro, mas de frente para a caixa de isopor, está lá chorando, feito uma criança!”  Ouvi essa pregação há cerca de dez anos atrás, em uma CCB através de um Cooperador que seguia a linha “Malafaia” (não entendia porque raios um discurso tão ríspido lotava a igreja). Aquelas palavras me incomodaram, como alguém pode definir o que deve nos comover?

Nessa última semana ouvi uma música intitulada “Oração” da “Banda Mais Bonita da Cidade”, o vídeo mostra um grupo em clima amistoso em uma confraternização alegre onde celebram o amor e a amizade. É bonito. Contudo, em uma busca rápida nas redes sociais constata-se que os que se opõem a estética utilizada,  fazem por considerá-los “felizes” demais. Alegam também que a letra é simples e não revela nada de inovador,  não seria um discurso similar ao que ouvi na década anterior onde somente o que é “elevado” é digno de reconhecimento?  Prefiro o atrevimento de uma lágrima diante de um comercial de margarina, do que a apatia ao som dos violinos.

PS: Nenhuma banda é a “Salvação da MPB”, porque não há nada para salvar.

15 Comentários

  1. Roy Frenkiel said,

    Debah, no Suma Irracional, na cagada, saira um texto sobre essa questao de amor pre-definido e sua natureza contemporanea, mas no geral, belo texto, to contigo e nao abro, nunca.

    Abrax

    Roy

    • Deborah Sá said,

      Obrigada, Roy.

  2. Amanditas said,

    Você é uma linda, Deborah! Tirou as palavras da minha boca! Estava pra tuitar o seguinte (mas não consegui sintetizar em 140 caracteres – hehe): eu estranho essa gente que tem a maior facilidade pra bater em banda que fala de amor mas sente a maior dificuldade do mundo pra bater em piadas racistas e formas preconceituosas travestidas de arte no geral. É estranho isso, não? Sabe, não se tratar de gostar ou não gostar (ninguém é obrigado a gostar de tal música) mas o que pega é a parte da crítica mesmo, de interpretação de uma obra: é fácil fácil dizer que tal música é piegas, é melosa, e coisa e tal, e não ser chamado de “patrulha”, já quando a gente tece uma crítica dizendo tal humor é superficial, preconceituoso e coisa e tal, daí já vira patrulha, a gente deixa de ser um apreciador (crítico) da obra de arte pra se tornar um vilão. Bem, é mais ou menos isso, to na correria aqui… Mas acho que deu pra entender o que eu quis dizer, né?
    Abraços pra você e pros seus leitores queridos.

    • Deborah Sá said,

      Entendi e concordo, muito obrigada pelo carinho :)

  3. É…, mesmo não tendo muito contato com vc e te conhecido a pouco tempo, sinto vc a própria tradução disso que se chama amor. no sentido mais amplo da palavra, no sentido mais próximo, mais liberto e sem preconceitos. vc é uma linda! literalmente.

    • Deborah Sá said,

      Ai Vanessa, que comentário mais lindo. Me deixou até emocionada ♥
      Também gosto muito de você.

      Beijos imensos e um abraço apertado,
      Deba

  4. Carla said,

    Então, aproveito aqui para fazer uma confissão: sou uma mala sem alça em muitas situações. rs. aí que ouvi a música pela primeira vez e achei um doce. Só que todo mundo passou a retuitar e facebookear, aí comecei a enjoar. Ontem, ouvi outra vez e achei doce mais uma vez. Chego à conclusão de que gosto dela, mas sou chata demais para admitir o tempo todo. rs (e isso vem de alguém que twitta e facebookeia MPB antigo toda hora – “cadê a autocrítica, Carla?”)

    Sobre o post, uma delícia. Vertendo doçura e, ao mesmo tempo, fazendo crítica aos que se perdem na crítica vazia ao outro – aos sentimentos do outro.

    • Deborah Sá said,

      Obrigada, querida :)

      E não tenho nada contra quem não gosta da canção ou da banda, o problema é como essas críticas são feitas.

      Um beijo,

  5. Carla said,

    “Nenhuma banda é a “Salvação da MPB” porque não há nada que salvar em qualquer gênero musical submetido às modificações através do tempo e de novos intérpretes.” sim! não nos prendamos a saudosismos!

  6. Patrick Pereira said,

    Concordo minha cara! Cada dia que passa o ser humano vem se acostumando a ser mera “máquina”, uma “coisa” para cumprir tarefas!
    Não é fácil quebrar este gelo, muitas vezes um simples sorriso é interpretado pelo outro como uma gozação (de tão baixa que a auto estima esta)

    Encontrei seu blog ao acaso e agora sempre voltarei, pq gostei daqui rs!

    • Deborah Sá said,

      Seja bem vindo Patrick,

      Fique a vontade para comentar.
      E de fato, all WE need is love.

      Um abraço,

  7. @natacha_o said,

    Eu ainda quero falar de amor, cantar amor, escrever amor, fazer amor.

    Li(n)do post, vou compartilhar!

    • Deborah Sá said,

      Obrigada, moça de flores no cabelo ;)

  8. Verônica said,

    Que texto bonito, Deborah! Parabéns, você escreve maravilhosamente bem!

    Sobre a Banda Mais Bonita da Cidade, ouvi ontem pela manhã pela primeira vez e passei o dia inteiro alegre! Ganhei o dia!

    • Deborah Sá said,

      Obrigada Verônica,
      Seja bem vinda.

      E volte sempre que quiser ^_^


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