18 abril, 2011

Folha de SP e o Veganismo

Posted in Animais, Consumo tagged às 11:03 am por Deborah Sá

Zumbi Vegan – Trocadilho de Grains (Grãos) com Brains (Cérebros)

Folha de São Paulo – 17/04/2011

Diário de um ecochato

Escritor encara 4 dias de “ecologista radical” e conta que se sentiu fraco com dieta vegana e que não topou fazer xixi só no banho

1º dia

A pior característica do nosso tempo é o desprezo pelo coletivo. Por isso aceitei o convite para passar três dias atento à quantidade de gás carbônico que emito. Também vou obedecer à “dieta vegana”. Não vou comer nem sequer ovo, leite ou derivados. O uso indiscriminado de energia é um vilão. Cortei o elevador. Logo cedo, desci sete lances de escada para buscar as compras, mas o zelador não permitiu que eu voltasse carregando-as. “Quinze dias de casado e já endoidou”. Ele colocou a caixa no elevador e interfonou para a minha mulher. No banho, o chuveiro ligado é só para enxaguar. A pasta de dente vegana é péssima e um tubo de 50 g custa R$ 13! Passei a manhã sem acender as luzes. Estava um dia claro. Fiquei ansioso demais com tudo isso e não consegui
trabalhar no meu livro novo. No almoço, enchi o prato de verdura. Logo, um constrangimento: havia ovo no arroz e, diante do olhar horrorizado de uma senhora, devolvi as duas colheres. Almocei 750 g de alimento exclusivamente vegetal, e não fiquei satisfeito. Passei a tarde irritado e com medo de falhar. Vim escrever em um café, mas mesmo os salgados vegetarianos levam leite na massa. Pedi uma salada de frutas e me acalmei. Talvez minha fome seja imaginária. (Não me sinto bem dizendo isso.) Mas algo é muito claro: meu corpo está estranho. O medo e a ansiedade são físicos. Não quero enfraquecer.

2º dia

Preparei uma “feijoada vegetariana” para o almoço. Ficou um horror. Precisei de uma porção de banana com quinua e linhaça para me sentir alimentado. Emocionalmente, o dia foi bem pior que ontem. Começo a me perguntar se não há algum fetiche no vegetarianismo radical. Por que vocês precisam ser tão fortes? Antes de começar meu “plano verde”, fiz várias pesquisas e concluí que conseguiria cumpri-lo sem prejudicar minha vida. Quanto à energia, tudo bem. Não uso mais o elevador do meu prédio. Além disso, não sei dirigir, tenho economizado muita energia e meu banho está sendo o mais racional possível. Quero continuar dessa forma para sempre. Prometo que nunca mais vou usar o elevador. A dieta vegana, por sua vez, está mexendo comigo. Estou irritado. Sem dizer de outros medos, que me envergonham: será que eu posso ficar burro? Não são os indivíduos, mas as empresas os principais emissores de gás carbônico. A China é um dos grandes poluidores. Essa gente, além de censurar e prender os artistas, ainda está acabando com o planeta. Devíamos parar de comprar os produtos deles. É tudo de péssima qualidade mesmo…

3º dia

8h: Acordei às 3h com um forte enjôo e assustado com os pesadelos. Sonhei com um boi que, mesmo abatido, continuava gritando comigo. Depois, fui atacado por uma horta. Estou me sentindo ridículo. Às 5h, estava com uma fome terrível. Talvez alguém diga que tenho obedecido à dieta errada: coma mais grãos e verduras. Tenho me alimentado bastante, mas não me sinto forte. Eu queria muito comer um pedaço de bolo que está na geladeira. De resto, tomei meu banho racional e usei a escada. Não acendi nenhuma lâmpada e fiz apenas uma xícara de café na máquina. Gastei um pouco mais de água porque me barbeei. Sinto-me fraco e nervoso. 22h40: O dia foi mais sossegado. Almocei em um restaurante vegetariano e passei a tarde comendo frutas. De noite, hambúrguer de soja e salada. Antes de dormir, leite de soja com melão. Não vou ser vegano (nem vegetariano). Só não jogo o tal extrato de clarofila fora porque custou uma nota. Talvez eu coma menos carne. Sempre me senti culpado por causa do abate dos animais e essa experiência me fez pensar mais nisso. Não acho cruel extrair leite de um animal para consumo. Por outro lado, com certeza não uso mais o elevador e meu consumo de água vai ser racional. Só não vou topar essa história de segurar a urina até a hora do banho, porque adoro ir para o chuveiro de manhã. Não vou passar, depois, 24 horas com vontade. Compenso esse pecadilho não dirigindo: não tenho um carro para lavar. Parece um bom negócio: um carro pelo xixi. Estou me sentindo fraco e com o raciocínio embotado. Também tenho vergonha.

4º dia

Encerrei a “dieta vegana” no jantar, com um peixe. Não tive nenhum prazer especial. Meu pedido por um copo de leite puro causou estranhamento, mas, quando contei os motivos, o garçom se solidarizou. Algo me surpreendeu: no final de tudo, engordei 300 g! Também fiz um orçamento: o veganismo é caro. Os preços médios dos restaurantes vegetarianos são altos. Falando com mais calma, tudo isso reforça a hipótese de que há fetichismo nesse radicalismo todo. Uma pergunta secundária: até o ovo? E outra, crucial: que culpa de fato está sendo expiada aqui? Não me resta dúvida de que preciso usar a energia de forma mais racional. Os chineses são péssimos, concordo. E é necessário discutir eticamente nossa relação com os animais. Mas o problema urgente é a fome.

Fonte

Meu direito de resposta,
Vegan desde 2008

Não sou assinante da UOL, nem da Folha, mas ontem durante a Virada Cultural observei que uma senhora ao meu lado lia essa matéria. É incrível o quanto as pessoas têm uma preguiça monumental de buscar informações. O mais espantoso é um jornalista produzir uma matéria sem o mínimo de pesquisa. Não é tão difícil encontrar Vegans dispostos a esclarecer dúvidas, embora reconheça que vivemos em um sistema no qual não questionamos como e por que as atribuições de cada humano e não-humano são repartidas.

Por que mulheres ganham menos que homens? Precisamos de Empregadas Domésticas? Por que a maioria das mulheres na mídia é Branca? Por que as cédulas têm escrito “Deus seja louvado”?  Um animal precisa ser sacrificado para nos alimentar? Por que o Brasil tornou-se o epicentro mundial de crimes contra homossexuais?

É compreensível que essas questões sejam camufladas em um País repleto de preconceitos velados, entretanto, o mínimo que se espera ao elaborar uma matéria é assegurar-se de veracidade, sobretudo, se é de sua responsabilidade uma coluna em um Jornal de grande circulação. Esse desserviço corrobora com a hostilidade que os movimentos igualitários encontram em um contra-ataque envaidecido da própria mesquinhez.

“Hoje qualquer miserável tem um carro” ¹, primeiro foram os Negros, depois as Mulheres e seu Feminismo, e depois? Nem as vacas poderemos matar? Esses Comunistas, Anarquistas e baderneiros não tem limites!

¹ Frase de Luiz Carlos Prates, jornalista da RBS/TV Globo de Santa Catarina.

² Escrevi um F.A.Q Vegan dividido em duas partes. Inclusive esclarecendo que o Feminismo tem quase o mesmo tempo de “existência” que o Vegetarianismo.

³ A pasta de dente Vegana que uso chama Contente, custa R$ 2,50 e é vendida na maioria dos supermercados da Periferia da Zona Sul de SP.

29 Comentários

  1. She said,

    Sofro de um mal terrível. Não sou vegan. Não justifica, mas meu consumo de carne é semanal em média. Entretanto, mesmo não fazendo parte do grupo de vegetarianos radicais esse “experimento” enviesado do jornalista me incomodou. Mais vale um debate sério que uma experiência previamente fracassada. Acho reducionista dizer que não é cruel retirar leite de uma vaca. Pensemos mais amplamente: por que os animais precisam funcionar como seres a serviço dos humanos? Acho que conseguiremos entender a luta dos veganos e a postura vegetariana apenas quando entendermos que não estamos acima de nenhuma outra existência. Logo chego lá…

    • Deborah Sá said,

      É exatamente isso She.

      Beijos,

  2. Suri Blackest Eyes said,

    Medo.
    Ansiedade.
    Irritação.
    “E se eu ficar burro?”
    Constrangimento.

    Sinceramente, algo de positivo pode sair daí? A vivência de uma experiência deveria, antes de qualquer coisa, ser acompanhada da tentativa de máximo despojamento de preconceitos. Olha, não dá para encarar dieta nenhuma já disponibilizando-se assim. Aliás, não dá para encarar nada.

    O que assusta é que trata-se de jornalismo, algo que deveria estar pautado em ética e (tentativa máxima de) imparcialidade. Ao contrário, o texto só promove a solidificação do que é por aí divulgado de forma errônea. Triste, de verdade.

    PS imbecil: na hora da feijoada vegana, quinua, linhaça e banana me deu uma fome huahuahua

    • Deborah Sá said,

      Esse cara nunca comeu a Feijoada que faço 8)

      • Suri Blackest Eyes said,

        quando visito minha família geralmente eu preparo feijoada. a versão vegana ganhou o coração de todos, gostosa e não deixa aquela impressão de coisa pesada e indigesta (e isso segundo relatos de familiares não vegetarianos)

      • Deborah Sá said,

        :)

  3. Giulia said,

    No mínimo patético. Sou a vegana mais preguiçosa pra se preocupar com comida que já vi e como melhor que praticamente todos que conheço….
    Bizarro isso aí. Considerando o nível de instrução do sujeito, tem que ser muito burro pra tratar a experiência desse jeito.

  4. Giulia said,

    Burro e cretino, né. Já perdi completamente a paciência de ficar me justificando pra essa gente, tentando explicar que vegano come comida gostosa, pode ser muito saudável e tudo mais, sabendo que vão filtrar tudo o que foi dito e só usar as informações que der pra depreciar o veganismo, distorcendo tudo o que puderem.

    O que faço, hoje, é tentar ajudar quem tá realmente interessado e influenciar quem tá a minha volta. Quando descobrem que sou vegana, normalmente preciso nem responder os questionamentos bobos. Os onívoros que convivem comigo já tomam partido pq até eles tão de saco cheio desses preconceitos hehe.

    De qualquer jeito, por mais comum que seja gente que pensa exatamente como ele, não deu pra deixar de me impressionar com a energia que o sujeito gastou nessa experiência com o único objetivo de fracassar.

    (desculpa o comentário duplo :P desceu muito seco)

    • Deborah Sá said,

      Sem problemas Giulia :)

      Sei como é cobrarem d@s ativistas toda a paciência do mundo, incluindo quando somos ofendid@s.

  5. Gabs said,

    Ah Deb,na real…desisto da humanidade.Se eu fosse Deus,teria me contentado com os dinossauros :(

    • Deborah Sá said,

      Deus é o Dr. Manhattan, entediado, azul e nu :P

  6. Camis said,

    UAHSUAHSAUHSAUSH
    Deborah, desculpa, eu sei que o assunto é delicado, mas G-zuis:
    “Talvez minha fome seja imaginária. (Não me sinto bem dizendo isso.) Mas algo é muito claro: meu corpo está estranho. O medo e a ansiedade são físicos. Não quero enfraquecer.”

    Isso no 1º dia! 1º dia!!!!!! UAHSUAHDUAHSDAUHSDAUSHD
    Não pode ser sério, essa pessoa nunca na vida passou um diazinho de verão a base de salada? Sério mesmo? Comeu salada e uma salada de frutas e já tá endoidando? Não sabia que proteína ajudava a manter a sanidade!
    Fora que né? Quem fica ansioso ou sente falta de luz artificial, em casa, pela MANHÃ?

    Eu como carne e compro bolsa de couro (shame on me), mas olha, fico SEMANAS sem comer carne e ainda não fiquei fraca, muito menos burra. Burra eu fico cada vez que leio esse tipo de coisa. Ou cada vez que leio a Folha, dá no mesmo.
    Parabéns por estes posts sobre veganismo, são muito esclarecedores – mesmo que eu ainda não tenha me tornado uma gosto muito de conhecer o seu ponto de vista.
    Bj!

    • Deborah Sá said,

      Camis,

      Obrigada, se houvesse um botão de “Curtir” comentário, usaria agora ;)

  7. Escarlate said,

    Então…. É da Folha né? AH TAH.

    Merdinha metida a jornal de conteúdo, você espreme e só sai preconceito. E isso que eu ia comentar: No primeiro dia o cara já se sente como se tivesse há dias no Saara? Já tá morrendo, filho?

    Pois é, trágico.

    • Deborah Sá said,

      Fiz uma moqueca que ficou ótima :D

      Nunca me senti fraca em três anos de Veganismo :)

  8. Danut said,

    O cara devia ter uma dieta como a minha, que como muito mais carne do que deveria (falando aqui de saúde mesmo, não de princípios veganos).
    Aí de um dia pro outro o cara resolve que vai parar de comer carne e qualquer coisa com origem animal. E já começa a experiência cheio de preconceitos, o que afetam ainda mais o seu corpo.
    É óbvio que vai dar merda.

    Seguindo o raciocínio inverso, carne faz um mal terrível para a humanidade, já que minha colega que passou mais de ano sem comer carne um dia foi comer e passou mal depois.

    Faça-me o favor. A Folha já foi minimamente séria…

    • Deborah Sá said,

      Acredito que eu também passaria muito mal se voltasse a comer carne O_O

  9. Morinda Nôni said,

    Bem, pessoas mais esclarecidas já disseram tudo aí em cima, apenas acrescento meu comentário para que, quem sabe com vários comentários desfavoráveis, o(a) infeliz autor(a) reflita antes de publicar matérias tão ruins sobre assuntos tão relevantes, no futuro. De fato, não é possível alguém ficar burro, porque nasceu gente e, no caso, com tão poucas sinapses cerebrais ao ponto de achar que a recomendação de fazer xixi no banho significa fazer apenas 1 xixi ao dia, ao contrário de uma descarga sanitária a menos nesse mesmo dia. Além disso, também não sabe cozinhar coitado(a). Posso mandar uma receita maravilhosa da melhor feijoada (vegetariana) que já comeu na vida! E, ficar fraco de barriga cheia é puxado né, meu filho? Vai passar fome prá ver o que é ficar fraco…. Abraços (e cultura minha gente, cultura).

    • Ághata said,

      Morinda, não faça xixi no banho. É uma postura contra indica por ser não ser higiênica.

    • Deborah Sá said,

      Morinda,

      Passe sua receita aqui :)

  10. Paula said,

    “Acordei às 3h com um forte enjôo e assustado com os pesadelos. Sonhei com um boi que, mesmo abatido, continuava gritando comigo. Depois, fui atacado por uma horta. Estou me sentindo ridículo.”

    Porque você é!

    Um beijo de quem conhece pessoas que são vegetarianas a mais de 40 anos e que não sonham com hortas assassinas.

    • Deborah Sá said,

      Beijo =***

  11. Carla said,

    Fazer “pesquisa” já tendo um resultado em mente. Dá nisso.

    Péssima a matéria.

    • Deborah Sá said,

      Medíocre, de fato.

  12. Ághata said,

    Não sou vegan. Não como carne vermelha e nem de aves, mas ainda consumo carne de peixe e fiquei super ofendida com essa matéria! O cara se comporta de forma estereotipada e maluca!!!

    Vegan é uma dieta cara?? Precisa ser muito ignorante pra dizer isso! As populações vulneráveis economicamente praticamente não comem carne (quando comem, é só carne de galinha). Carne vermelha e de peixe é coisa cara!

    E ele não pode mudar radicalmente a dieta ou vai se sentir mal mesmo! Isso é independente da nova dieta ser saudável ou não.

    E que história é essa de só fazer xixi no banho?? Isso é anti higiênico e não deve ser feito!

    E, porra, que falta de respeito de ficar acusando veganismo de fetiche, de que há uma necessidade de sofrer!

    Por que o idiota não preparou uma macarronada com molho de tomate?? Se queria bolo, por que não fez um vegan?? Tem cupcake, sorvete e vários tantos outros doces sem derivados de animais! Tem vários doces árabes que não levam derivados de animais na massa também!

    Tem um restaurante vegetariano aqui perto de casa. de longe, o mais barato daqui. Aliás, ele nem precisaria ir em um restaurante vegan.

    Sabe qual é a dieta que deixa a pessoa realmente cansada, irritadiça, acabada e deprimida? Uma dieta rica em açúcares, fast food e frituras.

    • Deborah Sá said,

      [2]

  13. Regiane Caprio said,

    Nossa que cara fraco!!! Deveria ter vergonha de escrever essa porcaria num jornal , por pior que fosse o jornal!! Ridiculos os comentarios dele !!!

  14. Roy Frenkiel said,

    Ue, mas e a resposta, Deborah? Escreve ai refutando tudo!

    beijos

    RF

    • Deborah Sá said,

      Já escrevi, está como “Meu direito de resposta” ;)


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