12 abril, 2011

Um estranho no ninho

Posted in Filmes tagged às 4:36 pm por Deborah Sá

Randle Patrick McMurphy foi preso por estupro (em verdade, fez sexo consentido com uma garota de 15 anos), na prisão não era disposto em colaborar com as tarefas e a solução foi simular algum desvio mental.

Atenção: Se pretende ver o filme sem surpresas, recomendo que encerre sua leitura aqui.

No Manicômio a rotina seguia tranqüila e aos poucos Randle criava laços com os internos, sua extrema camaradagem masculina ganhava algum reconhecimento seja pela leveza que os conduzia, seja pelo baralho Pornô que compartilha. A primeira figura feminina apresentada é a sisuda enfermeira Mildred Ratched, representando o arquétipo da Matriarca castradora.

As terapias gerenciadas por Mildred amedrontavam o grupo por expor publicamente o que os levou ali: Dificuldades de interação social e evidente impotência diante de mães controladoras, namoradas promíscuas e conseqüente repressão sexual. Rumo ao resgate da virilidade perdida, Randle inicia providências: Invade a cabine das enfermeiras pedindo por um som mais baixo, questiona os métodos terapêuticos e solicita uma nova televisão para assistir ao Campeonato com os companheiros. A enfermeira responde as provocações com ironia análoga ao Hal 9000.

Não vamos transferi-lo a prisão, é mudar o problema de lugar. O melhor é deixá-lo conosco.

Nesse raciocínio a tristeza, apatia ou violência na qual os pacientes são subordinados, não são responsabilidades do Estado ou da equipe interdisciplinar, o único pretexto para esses eventos é o autoritarismo de uma mulher que ocupa dissimuladamente um cargo de chefia.

Entediado, Randle executa a primeira fuga em grupo e os leva para pescar, antes de chegar ao destino buscam Candy, companheira de Harding (um intelectual com fama de “frouxo”), após distribui afazeres, Randle ocupa-se em levar Candy para um local reservado gerando a cena cômica na qual largam o timão para observar o ato (semelhantemente, a garotos que olham pela fechadura).

A segunda fuga planejada tem sentido inverso trazendo para o local “diversão externa”. Randle liga para Candy e essa leva dinheiro, bebidas e uma amiga, o Vigia noturno não gosta muito da idéia, mas com suborno e uma mulher (a amiga de Candy é oferecida em “moeda de troca”), a celebração é acobertada.

Billy Bibbit, o virgem, tímido e gago, encanta-se por Candy e pergunta a Randle se pretende casar-se com ela (aos 3:00 min. No vídeo abaixo) , Randle não só entrega-lhe a mão:

– Você quer um encontro? Tem de ser rápido…
– Não agora!
– Então quando?
– Em um fim de semana livre.
– Você está ocupado agora? Tem algo pra fazer nesse momento? Não? Que bom. Candy venha aqui um instante. Quero que conheça o famoso Billy Bibbit. Tem que fazer isso por mim, ok? É só um garoto.
– Sim
– Billy? Aposto vinte e quatro dólares que vai “incendiar” essa mulher.
– Minha nossa…
– Candy, querida. Eu te amo. Dê conta dele.

A sádica enfermeira Mildred descobre na manhã seguinte o ambiente devastado e pune severamente Billy, tornando-o ciente que sua mãe, amiga e companheira de fé,  ficará profundamente desapontada ao ouvir a transcrição do ocorrido. Desesperado, Billy tenta o suicídio e Randle em resposta, estrangula a enfermeira quase lhe dando fim.

É o momento de vingança “pelas próprias mãos” onde se pode vibrar por um homem defensor da “boa vida”, asfixiar a vilã. O que antes poderia tornar-se uma excelente crítica ao cárcere ou a patologização humana reduziu-se a enaltecer a forma despretensiosa em que homens desenvolvem-se, e os propósitos femininos; encerram-se em servir de entretenimento ou restringir esses “impulsos naturais”.

Criticar um clássico do cinema (vencedor de cinco Oscars e seis Globos de Ouro), por seu conteúdo misógino é não relevar o teor das representações femininas onde quer que estejam: Na Bíblia, em um quadro, ou uma obra de arte, atentando para as limitações que a mentalidade de cada década produz, obviamente.

Um Estranho no Ninho de 1975 é incontestavelmente mais retrógrado (sob o aspecto da autonomia sexual feminina) do que o musical Cabaret de 1972. O intuito feminista não é “queimar” obras de valor histórico, mas evidenciar o quão injustificável é isentá-las de seu machismo introjetado.

4 Comentários

  1. said,

    necessário publicar, ótimo ler!

  2. Liana said,

    esse filme é fantástico

  3. Marie said,

    Já disse que eu arrasto um bonde enorme por vc???! ótima critica! temos que repenser cada vez mais nos simbolismos das coisas que chegam para nós e são classificadas como obras primas, por tanto devem ser adoradas sem senso critico… sobre isso aquela atris Geena Davis criou uma fundação que faz monitoramento dos papeis femininos na midia, principalmente o cinema: http://www.thegeenadavisinstitute.org/ ta td em inglês mas se vc quiser eu tive o prazer de conhece-la e o trabalho dela tbm, a gente vai se falando sobre!

    • Deborah Sá said,

      Obrigada querida! Também arrasto um bonde por você ;)

      Adoro essa atriz, soube da fundação através do Blog da Lola, que bacana que a conheceu! Depois me conte mais :}

      Beijos grandes

      =****


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