28 fevereiro, 2011

Bruna Surfistinha

Posted in Filmes tagged , , às 3:52 pm por Deborah Sá

Não li “O Doce Veneno do Escorpião”, em grande parte porque superficialmente o descreviam como um manual de dicas de sedução. O relato cine-biográfico de Bruna Surfistinha (pseudônimo usado por Raquel Pacheco, quando garota de programa), despertou-me o interesse. É enriquecedor ter acesso aos relatos de quem vivencia realidades distintas não para o emprego do olhar de presunção antropológica diante daquele que julgamos “não-civilizado”, mas sim, como uma oportunidade de diversificar o modo no qual experimentamos a vida.

Meu ponto de vista sobre prostituição permanece, é uma indústria que lucra com o infortúnio feminino borrando-lhes a identidade (o corpo fora de foco é um recurso usado nas filmagens), esvaziando o sentido dos sujeitos.

Raquel foi adotada por uma família de classe média, hostilizada no colégio por não ser popular (ou “bonita”), esperam dela uma profunda gratidão pelos benefícios que teve acesso, entretanto, tudo o que Raquel desejava era o que jovens comuns aspiram: Carinho, atenção e respeito. Destratam sua experiência por ser abastada focando em sua condição financeira, silenciam-se seus percalços, a gênese de Bruna Surfistinha é seu gênero.
Semelhantemente a Séverine em “A Bela da Tarde” é mal interpretada por buscar independência na prostituição, análoga a “Geni” não fazia acepção no trato e com um sorriso alcançava vez ou outra algum prazer nesse altruísmo.

Há acusações de que Raquel incentiva a prostituição e a glamuriza ao publicar um livro de relatos cômicos, ou, a linha de acessórios eróticos que pretende lançar. O blog da Surfistinha foi uma ferramenta para redigir (ela sempre gostou de escrever), além de um canal de comunicação entre seus clientes. Quem estaria disposto a escutar Raquel? Apoiá-la? A rejeição foi uma constante em sua vida, não restaram amizades, familiares ou qualquer amparo, sob qual justificativa devemos cobrar-lhe posturas morais?
Raquel ergueu-se em solidão e silêncio, nas entrevistas deixa claro que ao verem o filme não buscarão recriar sua história. Seus clientes queriam Bruna, a moça com aparência de “Surfistinha”, despir-se da segunda identidade não seria uma boa publicidade, o público não iria ao filme intitulado “Raquel Pacheco”.

É de admirável coragem se expor (foi necessário dar voz a Bruna, para que Raquel fosse ouvida), ciente que muito provavelmente a família não a perdoará e os intelectuais continuarão a dar de ombros para quem não tem diploma e abriu mão de “regalias” por uma vida “fácil”. Raquel não quer piedade, não desdenha das prostitutas que ganham menos, anônimas, ela respeita suas histórias, só espera que respeitem a sua.

A audiência que espera a nudez de Deborah Secco e excitação sem esforço se decepcionará. Claro, há quem por anestesia empática enxergará uma figura para dar vazão à misoginia (a música que encerra sua narrativa elucida o quão áspera foi sua trajetória)

Nesse vídeo, uma senhora de 74 anos que se prostitui desde os 17, ainda exerce a profissão na Praça da Sé, desamparada e entregue as circunstâncias. Nos camelôs próximos ao local, é possível adquirir o vídeo Pornô de Elisa Samudio.

Há quem sustente a excitação sob a pilastra do ódio, isso não engloba apenas aqueles que deliberadamente buscam vídeos de teor “violento”: Quem contrata prostitutas, travestis ou jovens para entretenimento sexual são homens brancos, casados, comuns.
Patologizar essa “clientela” (“doentes”, “loucos”, “pervertidos”) foge do cerne da questão, há um respaldo social para o homem que paga pelo sexo. Devido à fixação em debates de cunho sexual e grande parte deles, serem atrelados aos valores religiosos, acreditamos que qualquer fantasia é promovida por uma natureza impulsiva.

Ou seja, como os conceitos eróticos são categorizados em “fantasias”, temos a falsa impressão que tudo o que for experimentado é “primitivo”, a Pornografia tem o status que se alcançou enquanto é enxergada como um reflexo “cru” das identidades e práticas sexuais. Todavia, como qualquer indústria, dita tendências, construindo ídolos e estigmatizando minorias.

31 Comentários

  1. Aline Ramos said,

    Adorei o post. Foi justamente o que pensei quando assisti ao filme. Aquela platéia ávida por nudismo e cenas de sexo riram e se emocionaram com Bruna, mas mesmo assim mantém o preconceito com Raquel.

    • Deborah Sá said,

      Obrigada ;)

  2. Muito bom o texto!

    • Deborah Sá said,

      ;)

  3. Daniela said,

    Gostei do post, Débora. E consegui entrar agora clicando no “Adicionar um comentário para este artigo”… estranho.

    Também não me interessei pelo livro pelo mesmo motivo que o teu, mas agora fiquei com muita vontade de ver o filme, e até ler o livro, afinam, quem sabe seja interessante também, né?

    • Deborah Sá said,

      Da próxima vez talvez seja melhor entrar pelo endereço original do blog, sem ser o link de post especifico, quem sabe?

      Depois de ver o filme venha comentar aqui, seria bom conhecer sua opinião.

      Um abraço o/

  4. said,

    adorei, Deba!

    • Deborah Sá said,

      Obrigada, Be :)

  5. Nisia said,

    Obrigada, Deborah, pelo link para o texto de Andrea Dworkin, que eu não conhecia.

    • Deborah Sá said,

      Por nada, o post do link tem conteúdos interessantes também ;)

      Beijos.

  6. Fernanda said,

    Deborah,

    Gostei do teu post e concordo com a maioria das coisas que pontuou. No entanto, acho que se o objetivo do filme era mostrar a Bruna Surfistinha e não a Raquel Pacheco, isto deveria ter sido feito por uma narrativa que não confundisse as duas. Eu achei que o filme é muito confuso nesse sentido, optando por dois discursos que não se amarram e que, no final, fica tudo muito solto. Não há coesão. E acaba nem aprofundando na Bruna S. nem na Raquel.Tudo bem que o filme não busca recriar a história dela, até pq na adaptação de um livro p/ filme mudanças tem de ser feitas, mas fica faltando algo. Acho que por conta desta confusão me surpreendi com o foco dado à personagem principal: na vida real Raquel (B. Sufistinha) sempre me pareceu ter um discurso de autonomia e fortaleza para justificar suas opções , o que no filme parece forçado, pois de certo modo ela é colocada como vítima. Não sinto ela tão dona de si . É mais uma garota em busca de aceitação e amor. E neste ponto, de quem estamos falando? Assim, não acho que haja a separação q vc colocou.

    No mais, uma frase que me chamou a atenção ( e que resume bem o q vc falou sobre prostituição) é uma q B. Surfistinha fala algo do tipo: ” eles me procuram pq faço tudo o q eles querem , não reclamo, não falo dos meus problemas, só os escuto.”

    abs.
    Fernanda

    • Deborah Sá said,

      Olá Fernanda,

      Creio que a idéia do filme não é falar sobre e pela Bruna, mas entender como ela se originou e o que levou Raquel a construir essa identidade, o que ela aprendeu com essas experiências. O trânsito entre essas duas facetas faz parte de como se constituiu, as contradições dela são de fundamento humano, isso torna mais real, ninguém trabalha em totalidade.

      Usando-me como referência: Se acompanha o blog pode perceber que para chegar “onde estou” foi parte de um processo intenso de autoconhecimento, no meu passado era sensível, chorona, medrosa e insegura, também me preocupava muito em respeitar o espaço de todos e em deixá-los felizes, hoje sou mais independente, mas não significa que tudo o que senti (e de alguma forma constitui o que sou) morreu, atualmente tenho ciência que se não me “policiar” posso me dedicar tanto aos outros que esqueço de “cuidar-me”. Igual a Amélie Poulain, sabe? Ou aquela personagem de “As Horas” que tenta se matar por causa de um bolo. Veja bem, nunca é só sobre o bolo, é um acúmulo de “confusões”. Os trolls usam isso contra mim o tempo todo: “Tá vendo, isso é falta de D-uz no coração, está na sua face”.

      Todas as nossas “contradições” ou “fraquezas” não são motivo de vergonha, é preciso coragem e maturidade para admitir quando precisamos de ajuda, reconhecer um empecilho é fundamental para encontrar formas de enfrentá-lo.
      Ainda sobre a não “divisão” da personagem:

      O filme citado no post “A Bela da Tarde”, é propositalmente mais “confuso” por ter fundamentos surrealistas e não ter literalmente “cortes” entre a edição das seqüências, no caso de Séverine não sabemos o que é imaginativo ou real. A Raquel “se apresenta” quando fala por si, em boa parte do filme o que vemos é Bruna que tem “algo” de Raquel, pois é uma “subcategoria” dela. E parece que é muito consciente em “não se perder” (já que não aparenta qualquer transtorno de personalidade).

      Não creio que mostrar os percalços e as opressões que passou seja se “vitimizar”, conheço moças que vivenciaram coisas parecidas e carregam marcas emocionais até hoje. Ela deixa bem claro que não quer piedade, busca apenas respeito.

      Sobre “eles me procuram pq faço tudo o q eles querem , não reclamo, não falo dos meus problemas, só os escuto.”
      Por isso disse que a gênese da Bruna é o gênero, não é para isso que nós mulheres somos educadas? Quantas esposas, namoradas e companheiras temem falar das suas inseguranças, dos seus problemas temendo “perder” um homem? Leu meu post “Transferência Patriarcal”? Creio que isso é tão intenso que a grande maioria das mulheres vê-se representada.

      Qual a diferença entre uma mulher casada com dependência econômica e emocional que faz sexo sem prazer e a Bruna Surfistinha? A Bruna buscava dinheiro para não depender de ninguém. E aos olhos da sociedade ela não merece respeito, por ser mulher, por ter sido prostituta. Algumas feministas foram obrigadas circunstancialmente a se prostituir: Andrea Dworkin e Valerie Solanas, por exemplo.

      É claro que elas seguiram rumos de empoderamento distintos, mas a Bruna construiu sua vida em solidão, ninguém a amparou, o Estado, o cidadão comum (que na verdade eram seus clientes), as feministas… Não estou culpando as feministas ou o feminismo, que fique bem claro, mas eu acho que não tenho nenhuma moral para cobrar “posturas morais” de quem não é respeitada e se empoderou.

      Lembrando que é puramente a minha concepção sobre o filme, não sou detentora da verdade absoluta. Respeito sua opinião.

      Um abraço,

      • Carla said,

        “eles me procuram pq faço tudo o q eles querem , não reclamo, não falo dos meus problemas, só os escuto.”

        Essa frase. Essa frase. A gênese, de fato, é o gênero. Bruna e Raquel se confundem porque é uma confusão inevitável. Confundo a santa e a puta em mim, e não porque elas existem de fato: confundo-as naquilo que me sinto compelida a ser, para o agrado de outros. Não há essência: o que confundimos, de fato, são os papéis que nos obrigamos a cumprir, os encontros que nos libertam deles, pedaços de nossa história que falam de nossas forças, pedaçõs de nossa história que falam de nossas fraquezas.

        Mas vejo um perigo em um filme como este: o de, como em qualquer biografia, tornar o assunto individual – “é a história dela”. E, sendo “história dela”, sentimos o direito de lhe atirar pedras, porque, afinal, “ela não é vítima, é bem-sucedida, tá fazendo um sucesso danado e tem até filme”… E a opressão fica em último plano da discussão. Por isso, aliás, gostei da discussão que vc puxou, Deba. Pq vc está aí para enxergar nuances, detalhes, a vida dela atravessando as vidas de muitas outras.

        (obs. como eu disse, é um perigo que vejo em biografias em geral. aquelas, por exemplo, de “pessoas que vieram do nada e venceram na vida”. não que as histórias não mereçam ser contadas. toda história merece. mas o perigo é esse: individualização. por exemplo, falando de outra biografia: a pobreza em que viviam “os filhos de francisco” se apaga no “e eles conseguiram se superar, ficar ricos e viver felizes para sempre”.)

      • Deborah Sá said,

        Carla,

        Entendo sua preocupação, penso de forma similar e acrescento que muitos erram em acreditar que todas as conquistas são realizadas por mérito. Como naquele filme “A Espera da Felicidade”, esquecendo que cada individuo escreve sua história com as ferramentas de informação que teve acesso.

        Raquel sempre será julgada, por ser mulher e ex-prostituta.
        O “direito de jogar pedras” é imaginado quando supomos que outros estão em situações de maior conforto do que nós. Acontece algo similar com “madames”.

        O PETA joga tinta em casacos de mulheres ricas, mas não faz protesto sobre o couro que é superestimado em clipes de rock, pop, sertanejo e universo BDSM. Sem perceber usam uma motivação sexista para tentar cobrir outra opressão (animais).

        Um erro de alguns “esquerdistas” (não estou falando que é seu caso, mas já ouvi “vermelhinhos” se recusando a ver o filme da Bruna por essa razão) é imaginar que a violência e o preconceito só atingem a mulher pobre, a proletária, ignorando o quanto muitas “madames” sofrem na mão de seus maridos respeitáveis, ou que o sofrimento de uma prostituta que saiu da classe média, não foi tão tenebroso assim.

        Suas idéias soltas são sempre bem vindas :)

      • Carla said,

        obs2: são apenas ideias soltas. :)

      • Fernanda said,

        Deborah,

        Agora vc me pegou….concordo tudo o que disse nesta resposta, mas ao mesmo tempo continuo sentindo aquilo que escrevi. É contraditório,mas acho que é uma boa maneira para se exercer a crítica. Principalmente no que tange à vitimização, que eu coloquei no meu comentário, mas que depois comecei a me questionar.

        “O trânsito entre essas duas facetas faz parte de como se constituiu, as contradições dela são de fundamento humano, isso torna mais real, ninguém trabalha em totalidade. ”

        Sim, sem dúvida. Quando fui assistir o filme era isso que eu tinha em mente. E saí confusa pq achei(e acho) que o filme não consegue ir além da superficialidade e não trabalha bem com essas contradições. É uma crítica à estrutura do filme e não uma crítica moralista em relação a Raquel . Quando falei em “divisão” foi com base na comparação entre o que vc tinha escrito e o que eu tinha visto no filme. Não que fosse algo que eu gostaria de ver, muito pelo contrário. Nesse sentido, muito interessante o comentário que Carla fez.

        E em relação ao ” eles me procuram pq faço tudo o q eles querem (…)” é isso mesmo. Vejo e sinto isso acontecer todos os dias, desde o julgamento do meu corpo até das minhas opiniões. E, obviamente, não só comigo, mas com mulheres próximas a mim. Tem uma prima minha que é o retrato do que vc colocou: a vida dela é satisfazer os desejos do namorado, com medo de perdê-lo ou sei lá o quê. Tudo,absolutamente tudo, passa por ter relação com o dito cujo. Ao mesmo tempo, fico triste de ainda ler coisas do tipo

        http://colunas.epoca.globo.com/mulher7por7/2011/02/18/quer-seduzir-pergunte-me-como/

        abs
        fernanda

      • Fernanda said,

        Bem lembrado, Carla.

        A premissa que estes filmes trazem ao colocarem que com esforço,dedicação e competência as pessoas superam tudo é tão perigoso… pq torna invisível a opressão,culpando o indivíduo pelo seu sucesso ou fracasso. É o tipo de argumento bastante utilizado por quem é contra ao bolsa família ou às cotas.

        Não acho que seja o caso de Bruna Surfistinha.

      • Deborah Sá said,

        Fernanda,

        Entendo.
        Gostei da abordagem, da narrativa, a busca de ser amada por todos, isso é muito forte e talvez por conhecer mulheres que passaram situações parecidas, foi de empatia imediata.
        “Agradar e se adequar” sempre é uma pressão para todas nós.

        Li a matéria que indicou, o triste é que são as mulheres que tem de comprar calcinhas provocantes, sentar-se de maneira X ou sorrir de maneira Y. A minha “Dica de Sedução” para qualquer gênero é que não devemos fingir o que não somos, o desespero de mulheres hétero é esperar muito pouco dos homens, basta o cara dar uma flor para achar que ele é o “melhor” que encontrará por toda a eternidade. Os homens que são atenciosos e amorosos devem ser amados, mas não precisamos criar uma dívida de gratidão.
        Somos incentivadas a nos sentir repulsivas, insuportáveis, chatas e sorrir de qualquer estupidez que um homem fala para agradá-lo, ninguém é obrigado a “fazer moral” para ser reconhecida, se temos de respeitar e conviver com as práticas dos outros (por mais irritantes que sejam), porque desdenham dos nossos sonhos, motivações e expectativas?
        Se o relacionamento não vai bem, você já explicou o que lhe incomoda e a pessoa não dá o mínimo de consideração, é melhor romper.

        Cobram que sejamos tolerantes com aqueles que ignoram nosso amor. Isso é sacrifício.
        Amor é bem-estar, cumplicidade e reciprocidade.

        Abraços,

  7. Ághata said,

    Muito bom o post.
    Fiquei até com coragem de assistir o filme.

    • Deborah Sá said,

      Obrigada :D
      Veja e depois comente aqui ;)

      Beijos =***

  8. Arttemia Arktos said,

    Confesso que não li o livro e não estou interessada em ver o filme, mas eu acho sim que a imagem da Bruna Surfistinha e a exposição da Raquel na mídia contribue para glamourizar a prostituição. Ela se apresenta como uma pessoa que se prostituiu e venceu na vida através disso. É claro que nos termos capitalistas, mas venceu. Ganhou fama, conquistou um marido que era cliente, ficou bem de vida, edita livros, vai comercializar acessórios eróticos, dá entrevistas e sua vida vira filme. Meninas na mesma situação que ela podem achar que a prostituição é um caminho para a fama e o dinheiro fácil e não é á toa que a própria Raquel numa entrevista afirmou que recebe milhares de emails de mulheres pedindo dicas de como se tornar garota de programa. A vida dela é a versão real da Pretty Woman. Podemos tentar entender a pessoa que ela é e o que se tornou, mas não há como negar que sua imagem contribui para naturalizar a prostituição. Exatamento como ess@s artistas que não fazem mais tanto sucesso e vão para pornografia e aumentam a aceitação por parte das pessoas de que a exploração sexual de seres humanos é aceitável. Quant@s por aí não começam a achar que se a Raquel conseguiu, se a Rita Cadilac e o Alexandre Frota ganham muito dinheiro com a exploração de seus corpos em vídeos pornôs, que também el@s poderão ser os próximos a alcançar fama e riqueza? O apelo é forte, vivemos num mundo que valoriza sucesso e dinheiro não importa como. É justamente isso que a indústria do sexo precisa e quer, de pessoas que estejam na vanguarda desse comércio sinalizando que a exploração de pessoas e da sexualidade humana é só mais uma forma de ganhar dinheiro e ser bem sucedido e que isso não tem nada demais…

    • Deborah Sá said,

      Arttemia,

      Sim, muitas mulheres podem pensar em ganhar dinheiro com o mundo pornográfico e a prostituição.
      Mas ninguém é tão ingênua ao ponto de pensar que isso é fácil, pra começar, qual pai ou mãe (comum) teria orgulho de ter uma filha prostituta? Já é difícil para uma moça “rodada” (esse post da Cely fala bem sobre), encontrar quem as respeite, imagine uma prostituta? Os ex-famosos que participam de produções pornográficas o fazem em uma tentativa de alavancar suas carreiras e sabem que é impossível participar disso sem estigmas.
      A atriz que participa de um pornô dificilmente será contratada em uma novela, não darão qualquer chance de mostrar seu papel como “atriz convencional”. Participar disso pode ser uma proposta pessoal de quebrar barreiras morais, jogar seu nome na “lama” como uma afronta, “todo mundo” faz sexo oral, mas basta filmarem (com ou sem consentimento) um mulher para ela ter apelidos e ser hostilizada.

      E a pornografia não questiona isso, ela reafirma o sexo como prática de humilhação, nega a identidade.
      Quem opta se expor na internet pelo prazer exibicionista também tem essa noção, por isso é tão comum usarem pseudônimos e esconderem seus rostos, realmente, acredito que ninguém seja tão ingênua.

      Recomendo que veja o filme, leia o livro ou veja essa entrevista (completa, até a parte 4):

      Um abraço.

  9. Carolina said,

    Olá! Tenho passado por aqui de vez em quando, descobri seu blog por acaso e estou fascinada, você não só escreve muito bem como é um ser humano maravilhosamente sensível e inspirador! Para uma mulher como eu, em vias de conscientização sobre a questão do patriarcado, tem sido muito bom poder ler o que você escreve e também as leituras que você indica. Tenho modificado meu modo de ser e pensar, aliás, o modo como eu achava que deveria ser e pensar… Parabéns! (Lina)

    • Deborah Sá said,

      Obrigada Lina!

      Seja bem vinda!

      Beijos,

  10. Arttemia Arktos said,

    Antes de mais nada quero deixar claro que não tenho nada contra a pessoa da Surfistinha, eu tenho sim tudo contra a prostituição. E realmente me incomoda que se passe uma idéia glamourizada que não tem nada a ver com a realidade que as prostitutas, a maioria delas pelo menos, vive. A maioria delas é pobre, negra, não é famosa e muito menos ficou bem de vida com isso.

    Uma imagem vale mais do que mil palavras e por mais que ela reafirme que não faz apologia da prostituição ou diga que saiu porque não era uma coisa boa numa entrevista que assisti no Superpop, a imagem que ela passa é de uma pessoa bem sucedida por causa da prostituição. Ela escreve livros que viram best-sellers ou quase isso, é convidada para programas e é uma celebridade. E é isso que as pessoas veem.

    Do mesmo modo que a atriz porno Jenna Jameson no programa da Oprah diz que as mulheres tem que se negar a fazer certas coisas quando participam de filmes pornográficos, denuncie condições precárias e até violencias que muitas vezes as mulheres enfrentam neste mundo, o que as pessoas veem é uma mulher loura, linda, bem vestida e maquiada que está dando entrevista para uma das mulheres mais prestigiadas do planeta.

    A mensagem não cola. O que as pessoas irão enxergar, ou algumas pelo menos, é que apesar de tudo, pode ter valido a pena pois tanto a Surfistinha quanto a Jenna estão ali, bem sucedidas e “desfrutando” da fama e ganhando dinheiro com isso. Apesar de todo estigma que as duas atividades carregam, pois como disse a Jenna “uma vez atriz pornô, sempre atriz pornô”.

    E essa imagem pode sim passar outra mensagem que tanto uma quanto a outra não tem intenção de transmitir. A própria Surfistinha declarou no Superpop que recebe milhares de emails de mulheres pedindo dicas para ingressarem na prostituição pois acham que mesmo com tudo o que há de negativo, de ruim, talvez elas consigam chegar onde a Bruna chegou.

    E isso é acreditar na glamourização da prostituição, é acreditar no mito de que a prostituição é um crime sem vítima. E é por isso que eu mantenho minha posição de que a exposição tanto de uma quanto da outra, não contribui para esclarecer a verdadeira situação das mulheres prostituidas tanto na pornografia quanto na prostituição.

  11. Beti Timm said,

    Tantas e tantas Brunas e Raquéis da vida, marginalizadas, rejeitadas, aviltadas, estigmatizadas, mas que reverteram de modo diferente, Deram a volta por cima, mudaram suas vidas de uma forma muito mais intensa e verdadeira, exemplificando, a Maria da Penha, que mostrou as mulheres o caminho da dignidade. Pq não fazer então um filme sobre ela?

    Não acho que é enaltecer uma vida sofrida como é a das prostituras, mascarar a crueza da vida dessas mulheres, buscando uma nuance cômica e mais leve. Sabemos que não funciona assim e tentar dirigir para este lado seria hipocrisia e de nenhum objetivo real e construtivo.

  12. Maria de Lourdes said,

    Esta temática toda em volta da prostituição é a prova de que nós mulheres não somos seres humanos…porque hoje em dia escravidão é condenável,ninguém pensa 2 vezes antes de achar abominável a escravidão de um negro ou de qualquer ouro ser humano( digamos,humano do sexo masculino pelo menos),e no entando,questiona-se se nós mulheres gostamos/escolhemos ou não de sermos compradas para o estupro.

    Por que é tão difícil de enxegar tal coisa? Se fossem animais sendo torturados e violentados,seria glamourizado e questionado se eles gostam ou não? e por que tantos esforços para nos convencerem a sermos putas e nunca os mesmos esforços para nos encourajar a engajarmos em carreiras científica,política,algo que realmente nos valorizaria pela nossa capacidade de fazer algo e não por orifícios? E o direito de ser prostituta é sempre unilateral:ninguém cogitia a idéia de homens se prostituidno para satisfazer mulheres…que poder é esse então?

    É nauseante que tudo o que é nos dado como escolha e direito tem a ver com nossa servidão sexual.

  13. Vinícius César said,

    Ótimo texto!!! É um assunto muito fértil para discussões e reflexões,
    mas há um ponto em que não concordo, pois isso que é destacado não é um fato:
    “Quem contrata prostitutas, travestis ou jovens para entretenimento sexual são homens brancos, casados, comuns.”
    Por quê cita homens brancos? A mulher é vítima de misoginia, e isso
    não é coisa só de homem branco. A sociedade mundial é responsável
    por isso, até muitas mães que condicionam os filhos a isso e não corrigem atitudes preconceituosas quando estes as praticam também tem culpa. Cuidado com os estigmas!!!

    • Deborah Sá said,

      Comentei isso pois muitos dos que posam de “homens de bem”, advogados, executivos, são os mesmos que traem suas esposas com prostitutas. E a culpa do machismo não é das mães, não são apenas elas responsáveis pela educação de seus filhos, a pedagogia vem de tudo que nos cerca, a cultura.

  14. yume said,

    Menina,se vc estivesse aqui eu te daria um beijo!! Muito foda seu post!! Não sei dizer o quanto fico feliz de ver feministas braseiliras despertando para esta questão!!

    Agora é fazermos o movimento tomar força,dar voz ás prostitutas,atacar os clientes e não as mulheres exploradas( como já vi gente fazendo por aí..o cliente é sempre o “pobre homem solitário seduzido/enganado por um puta”).

    A Marcha de Mulheres aqui do RJ está priomovendo uma campanha assim,espero que dê resultados…com Copa e Olimpíadas nem quero imaginar o que vai rolar por aqui….

    • Deborah Sá said,

      Yume,

      Obrigada, depois divulgue a ação da Marcha, fiquei curiosa ;)

      Um abraço


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