24 fevereiro, 2011

Meu passado de Pequena Miss Sunshine

Posted in Corpo às 3:46 pm por Deborah Sá

Sempre fui extrovertida, embora medrosa (não sei andar de bicicleta, nunca escalei árvores). Falava continuamente e me expressava com desenvoltura, fui então escolhida para ser protagonista da peça Branca de Neve.

Jeniffer: – Ai, animais da floresta.
Eu: – Tem que ter mais emoção, assim ó: Animais da floresta!
Professora: – Hum, ótimo, o que vocês acham da Deborah ser a Branca de Neve? Ela é branquinha do cabelo preto…

Tenho memórias confusas sobre, mas o fato é que de Pavão (animal da floresta), me tornei protagonista e o garotinho que gostava de mim foi o Príncipe, um pesadelo, já que vivia aquela fase de “odeio meninos” e os adultos adoravam dizer que quando eu crescesse, ele seria meu namorado, me deixando com raiva e embaraçada. Não recordo de humilhá-lo, só de deixar bem claro que não queria intimidade, na hora do beijo da peça abri um olho devagar: – Se me beijar, eu te mato!

Devido à educação religiosa (e o contexto Patriarcal) nunca fui muito estimulada a investigar a masturbação, praticar esportes ou ter muita ação de consciência corporal, porém encontrei um modo divertido: A dança. Era o tempo em que todas as adolescentes (ou pré-adolescentes como gostava de me denominar), dançavam Carrapicho, Terra Samba, É o Tchan e similares,  juntava-me com uma amiga e muitas vezes a minha irmã para ensaiarmos as coreografias, adaptarmos, enfim, nos divertimos com Axé ou música eletrônica da Jovem Pan.

Diversas vezes fomos a Jaú visitar parentes da mesma igreja (embora mais ortodoxos), nos recebiam bem, gostava de brincar de “Teatro” com uma prima e a amiga dela, havia um baú com vestidos, roupas, chapéus, tudo para tardes onde nos sentíamos estrelas. Os modismos da “cidade grande” demoravam muito para “chegar” a Jaú e eu adorava ensinar para essa prima coisas que aprendia. Em um dia, na frente do pai dela:

– Ai, nem te contei, super legal a dança do Carrapicho.
– Como é?
– Assim: Bate forte o tambor, que eu quero é tique tique tique táááá *mexendo as mãos e a pélvis*

O pai dela me olhou muito feio, era o tipo de pai que dizia preferir morrer ao ver a filha casando deflorada. Eu não entendia o que havia de errado em dançar daquele modo, ninguém explicava nada, meus pais nunca recriminaram, então continuei. Em outra ocasião, meu tio subiu no caminhão do meu avô e ligou o som do rádio para o pessoal da rua dançar (crianças brincando em uma noite quente), ao tocar “Mr. Boombastic”, me joguei, rebolando e sorrindo. Algumas pessoas pararam de dançar:

– Olha como ela dança!
– Deborah! Que exagero.
– Que coisa feia, dançar assim!
Eu: – Ué? O que tem?

E mais uma vez, ninguém explicou qual mal fazia em dançar rebolando sendo tão divertido. Um ano depois ocorreu aquele evento, me fechei, não dancei mais. Logo fiz as conexões em censurarem minha dança, achavam-me precoce, da coxa grossa, de short curto, me culpei por ser gorda, por ser mulher, por exalar uma sexualidade que trasbordava involuntariamente (se fosse um garotinho provavelmente seria incentivada). Anos mais tarde, me libertei através da escrita e a música foi o que vez ou outra usava para dar vazão ao meu corpo, mesmo que em segredo. A dança tem um papel na desenvoltura, quem encontra timidez em esboçar passos de dança certamente foi tolhido dessa liberdade tachado de “inapropriado” para deixar-se levar por uma batida. Desconheço quem ouça uma boa composição e não sinta necessidade de esboçar alegria em movimento, a  espontaneidade corporal é parcialmente tolerada na infância, visto que crianças que se movimentam ou falam “muito” são consideradas inconvenientes.

Ao nos tornarmos “mocinhas” e “mocinhos” não é permitido bater para as garotas, nem é de bom grado um garoto rebolar os quadris ao som da moda. Querem-nos “engessados” delimitando até onde nosso corpo pode exprimir o que sente, a dança possui técnicas e linguagens, mas também pode ser a intuição e a forma lúdica que o corpo guarda para se emancipar.

12 Comentários

  1. Cely said,

    Que lindinha pequenina! Nossa, eu SEMPRE fui a esquisita das crianças, não gostava de brincar em grupo, não sabia andar de bike ou patins, e também não dançava! Meus pais eram controladores demais, tentaram me criar pra ser bonequinha. O engraçado é que, mesmo com os esforços, era comum que eu mostrasse comportamentos masculinos, como tentar agredir crianças na escola, sentar de perna abertona, andar meio “maloka” e essas coisas todas, acho que era eu tentando me expressar de alguma maneira.

    Ainda bem que ao menos descobri cedo a minha sexualidade com a masturbação, creio que aos 10-11 anos. No começo morria de culpa, achava que era pecado, mas serviu pra conhecer bem meu corpo =]

    Bjs

    • Deborah Sá said,

      Cely, que ótimo que hoje nos sentimos bem ^_^

      Beijos, linda :D

  2. krasis said,

    minha infância foi metade caseira e metade brincava com um pessoal da rua que morava numa vilinha. Era mto controlado pela minha mae e por isso tinha horário pra tudo, isso pq eu era um muleque quietinho e não “aprontava”. Quando surgiu o videogame em casa, passei boa parte do tempo jogando, brincando com meu irmão ou andando de bicicleta.
    Não tive grandes experiências na infância e adolescencia, como ja falei pra Esther…fui meio que “o garoto inexistente” da escola, tinha meia duzia de amigos e era trollado raramente quando nao tinham mais opções. Em relação a religião, eu ja tinha um Q de agnóstico e me neguei de pé junto a não frequentar mais missas chatas ou de fazer curso de cumunhão (talvez seja por isso que minha mãe me odei até hoje uHuahUAHUAhua), oq eu gostava mesmo era admiriar uma estátua de Jesus morto, deitado e com um vel por cima, pensava q era um ator ou que era de verdade…achava animal aquilo AUHAuhaUHAuAHU.
    Sobre sexualidade, só fui descobrir com uns 14~15 anos oq era e como funcionava, e acabou sendo em forma de trollagem ao me perguntarem se eu me masturbava e não sabia oq isso significava, assim virando motivo de piadas “aaaah seu virgem idiota nerd cabaço”.
    Acho que só fui me “soltar” mais no 1º colegial e com a tchubinha do rocque!

    • Deborah Sá said,

      Conheço moços que passaram por experiências similares, felizmente hoje você sabe perceber quais eram as expectativas lançadas e quais são suas emoções legítimas.

      Um abraço forte :)

  3. Carla said,

    Sua linda!

    Eu não era extrovertida, tb era medrosa, e tb tinha paixonite por danças – mas, como já lhe disse, dançava escondido. Minhas formas de expressão eram o desenho e a escrita, mas eu me lembro que até nisso eu travava quando tinha que mostrar pra alguém. Guardava tudo.

    O que faz a gente se guardar tanto? Guardar o corpo, a voz, a vida?

    Amei o post. E as suas fotos. Sempre linda, linda!

    • Deborah Sá said,

      Linda :D

      Acho que é o medo do desconhecido que nos cala, é um caminho sem muitos referenciais ao descobrir o que nos move. Também “me guardei” por muitos anos.

      Beijos =***

  4. Rosa said,

    Você é FODA!!!!
    Tudo que muitas de nós sofremos na infância, você consegue expressar de uma forma simples e esclarecedora, tenho muito orgulho e me sinto privilegiada de fazer parte da sua vida

    • Deborah Sá said,

      Rosénha :D

      Você também é um exemplo de força e coragem, te amo muito e obrigada pelo carinho ♥

  5. Gabriela said,

    uma garota que sabe se valorizar:
    http://tangledupinlace.tumblr.com/post/3466950102/fa-t-shion-february-do-you-work-birthday-parties

    • Deborah Sá said,

      =)

  6. Hamanndah said,

    Criança linda!
    bjs

    • Deborah Sá said,

      ;)


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