9 fevereiro, 2011

Trote da UNB

Posted in Educação tagged às 5:19 pm por Deborah Sá

Sei que o fato aconteceu há quase um mês, mas meus compromissos profissionais impediram de opinar dentro de um prazo que gostaria. Aproveito para agradecer aos comentários que deixam nesse espaço, se não os respondo logo, não é por falta de consideração (vocês são ótim@s).

No trote ocorrido em 11 de Janeiro as calouras da FAV (Faculdade de Agronomia e Veterinária) da UnB (Universidade de Brasília), foram sujas de tinta tendo que lamber leite condensado em uma lingüiça encapada com uma camisinha, na frente de veteranos durante o trote.  Hostilidades em ambientes universitários ganham alguma visibilidade na mídia e a comoção se dá por esperarem uma conduta solene entre os muros dessas instituições; para além dessa classificação simplista, o ambiente universitário não abarca uma massa crítica politizada sendo composto por indivíduos suscetíveis aos preconceitos de sua formação, tal qual são os sujeitos que não freqüentam esse ambiente.

A forma que veteranos da FAV escolheram para agregar as novas alunas reforça o caráter ambíguo que se espera da prática sexual feminina: Ao mesmo tempo em que nos cobram uma infinidade de façanhas, punem socialmente quando descobrem como as realizamos por meio de apelidos, piadas e assédios devastadores. Não são as feministas que imprimem uma natureza humilhante aos atos sexuais, é a pornografia, as piadas de mau-gosto e a moral cristã que se encarregam de estabilizar esses conceitos.

É possível ver nos registros em vídeo que os rapazes encorajavam as moças para “irem mais fundo”, “com mais vontade”, “garganta profunda”, essa camaradagem masculina é o prazer advindo do subjugo e controle sobre os corpos das mulheres, usando nesse caso cadáveres e produtos da exploração (que cedo ou tarde leva ao óbito), de animais não-humanos.

Por que o acesso ao “saber acadêmico” é restrito a tantos incapazes de reconhecer a regalia que é usufruir desses espaços?  Uma das pressuposições que contribuem para essa permanência é associarmos o ingresso ao mérito, isso é, afirmar que a educação no Brasil é de acesso democrático.

Uma família de baixa renda não tem condições de pagar mensalidade do curso de Inglês, tênis, natação, intercâmbio, plano de saúde ou Psicólogo, geralmente não há qualquer orientação pedagógica, e aos vinte e poucos anos muitos filhos tornam-se Mães e Pais. Tutores de maior “instrução” cercam seus rebentos de amparos até que atinjam a maturidade (incluindo escolas de “renome” e Cursinho Pré Vestibular), enquanto alguns tantos sustentam famílias há quem use dinheiro doado e adie a autonomia financeira. Não me oponho quem goza desses benefícios, o indicado seria torná-los direitos (educação de qualidade, saúde, segurança, inclusão digital, lazer…).

Os recém-aprovados passam por rituais que evidenciem a subordinação aos veteranos (nem sempre) de oficio concluído, não raro notar que os escritos que ocupam as testas são menções zombeteiras dos que cursam faculdades privadas.

5 Comentários

  1. Ana Hórus said,

    Na minha opinião trote tinha que acabar,
    dizem que é pra recepcionar e fazer novas amizades, mas na boa eu só vejo submissão, agressão e outras formas que os veteranos encontram para mostrar superioridade aos calouros.

    Não tem gente matura o suficiente pra promover uma brincadeira legal e receptiva
    (sendo radical mesmo, porque o ocorrido me estressou!)

    • Deborah Sá said,

      Também fiquei muito decepcionada =/

  2. E eu aqui tentando uma vaga… imagina eu no meio desse povo, piores q criança rindo umas das outras.
    Odeio esse tipo de comportamento… Talvez porque, diferente deles, eu não tenha condição alguma de pagar uma faculdade que eu pense assim.
    Universotários!

    • Deborah Sá said,

      =/

  3. Carla said,

    essa coisa de “é tradição”-“é sempre assim”-“é só brincadeira” é quase sempre o primeiro passo pra abusos como esse, ou piores.

    beijinhos, linda.


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