28 fevereiro, 2011

Bruna Surfistinha

Posted in Filmes tagged , , às 3:52 pm por Deborah Sá

Não li “O Doce Veneno do Escorpião”, em grande parte porque superficialmente o descreviam como um manual de dicas de sedução. O relato cine-biográfico de Bruna Surfistinha (pseudônimo usado por Raquel Pacheco, quando garota de programa), despertou-me o interesse. É enriquecedor ter acesso aos relatos de quem vivencia realidades distintas não para o emprego do olhar de presunção antropológica diante daquele que julgamos “não-civilizado”, mas sim, como uma oportunidade de diversificar o modo no qual experimentamos a vida.

Meu ponto de vista sobre prostituição permanece, é uma indústria que lucra com o infortúnio feminino borrando-lhes a identidade (o corpo fora de foco é um recurso usado nas filmagens), esvaziando o sentido dos sujeitos.

Raquel foi adotada por uma família de classe média, hostilizada no colégio por não ser popular (ou “bonita”), esperam dela uma profunda gratidão pelos benefícios que teve acesso, entretanto, tudo o que Raquel desejava era o que jovens comuns aspiram: Carinho, atenção e respeito. Destratam sua experiência por ser abastada focando em sua condição financeira, silenciam-se seus percalços, a gênese de Bruna Surfistinha é seu gênero.
Semelhantemente a Séverine em “A Bela da Tarde” é mal interpretada por buscar independência na prostituição, análoga a “Geni” não fazia acepção no trato e com um sorriso alcançava vez ou outra algum prazer nesse altruísmo.

Há acusações de que Raquel incentiva a prostituição e a glamuriza ao publicar um livro de relatos cômicos, ou, a linha de acessórios eróticos que pretende lançar. O blog da Surfistinha foi uma ferramenta para redigir (ela sempre gostou de escrever), além de um canal de comunicação entre seus clientes. Quem estaria disposto a escutar Raquel? Apoiá-la? A rejeição foi uma constante em sua vida, não restaram amizades, familiares ou qualquer amparo, sob qual justificativa devemos cobrar-lhe posturas morais?
Raquel ergueu-se em solidão e silêncio, nas entrevistas deixa claro que ao verem o filme não buscarão recriar sua história. Seus clientes queriam Bruna, a moça com aparência de “Surfistinha”, despir-se da segunda identidade não seria uma boa publicidade, o público não iria ao filme intitulado “Raquel Pacheco”.

É de admirável coragem se expor (foi necessário dar voz a Bruna, para que Raquel fosse ouvida), ciente que muito provavelmente a família não a perdoará e os intelectuais continuarão a dar de ombros para quem não tem diploma e abriu mão de “regalias” por uma vida “fácil”. Raquel não quer piedade, não desdenha das prostitutas que ganham menos, anônimas, ela respeita suas histórias, só espera que respeitem a sua.

A audiência que espera a nudez de Deborah Secco e excitação sem esforço se decepcionará. Claro, há quem por anestesia empática enxergará uma figura para dar vazão à misoginia (a música que encerra sua narrativa elucida o quão áspera foi sua trajetória)

Nesse vídeo, uma senhora de 74 anos que se prostitui desde os 17, ainda exerce a profissão na Praça da Sé, desamparada e entregue as circunstâncias. Nos camelôs próximos ao local, é possível adquirir o vídeo Pornô de Elisa Samudio.

Há quem sustente a excitação sob a pilastra do ódio, isso não engloba apenas aqueles que deliberadamente buscam vídeos de teor “violento”: Quem contrata prostitutas, travestis ou jovens para entretenimento sexual são homens brancos, casados, comuns.
Patologizar essa “clientela” (“doentes”, “loucos”, “pervertidos”) foge do cerne da questão, há um respaldo social para o homem que paga pelo sexo. Devido à fixação em debates de cunho sexual e grande parte deles, serem atrelados aos valores religiosos, acreditamos que qualquer fantasia é promovida por uma natureza impulsiva.

Ou seja, como os conceitos eróticos são categorizados em “fantasias”, temos a falsa impressão que tudo o que for experimentado é “primitivo”, a Pornografia tem o status que se alcançou enquanto é enxergada como um reflexo “cru” das identidades e práticas sexuais. Todavia, como qualquer indústria, dita tendências, construindo ídolos e estigmatizando minorias.

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24 fevereiro, 2011

Meu passado de Pequena Miss Sunshine

Posted in Corpo às 3:46 pm por Deborah Sá

Sempre fui extrovertida, embora medrosa (não sei andar de bicicleta, nunca escalei árvores). Falava continuamente e me expressava com desenvoltura, fui então escolhida para ser protagonista da peça Branca de Neve.

Jeniffer: – Ai, animais da floresta.
Eu: – Tem que ter mais emoção, assim ó: Animais da floresta!
Professora: – Hum, ótimo, o que vocês acham da Deborah ser a Branca de Neve? Ela é branquinha do cabelo preto…

Tenho memórias confusas sobre, mas o fato é que de Pavão (animal da floresta), me tornei protagonista e o garotinho que gostava de mim foi o Príncipe, um pesadelo, já que vivia aquela fase de “odeio meninos” e os adultos adoravam dizer que quando eu crescesse, ele seria meu namorado, me deixando com raiva e embaraçada. Não recordo de humilhá-lo, só de deixar bem claro que não queria intimidade, na hora do beijo da peça abri um olho devagar: – Se me beijar, eu te mato!

Devido à educação religiosa (e o contexto Patriarcal) nunca fui muito estimulada a investigar a masturbação, praticar esportes ou ter muita ação de consciência corporal, porém encontrei um modo divertido: A dança. Era o tempo em que todas as adolescentes (ou pré-adolescentes como gostava de me denominar), dançavam Carrapicho, Terra Samba, É o Tchan e similares,  juntava-me com uma amiga e muitas vezes a minha irmã para ensaiarmos as coreografias, adaptarmos, enfim, nos divertimos com Axé ou música eletrônica da Jovem Pan.

Diversas vezes fomos a Jaú visitar parentes da mesma igreja (embora mais ortodoxos), nos recebiam bem, gostava de brincar de “Teatro” com uma prima e a amiga dela, havia um baú com vestidos, roupas, chapéus, tudo para tardes onde nos sentíamos estrelas. Os modismos da “cidade grande” demoravam muito para “chegar” a Jaú e eu adorava ensinar para essa prima coisas que aprendia. Em um dia, na frente do pai dela:

– Ai, nem te contei, super legal a dança do Carrapicho.
– Como é?
– Assim: Bate forte o tambor, que eu quero é tique tique tique táááá *mexendo as mãos e a pélvis*

O pai dela me olhou muito feio, era o tipo de pai que dizia preferir morrer ao ver a filha casando deflorada. Eu não entendia o que havia de errado em dançar daquele modo, ninguém explicava nada, meus pais nunca recriminaram, então continuei. Em outra ocasião, meu tio subiu no caminhão do meu avô e ligou o som do rádio para o pessoal da rua dançar (crianças brincando em uma noite quente), ao tocar “Mr. Boombastic”, me joguei, rebolando e sorrindo. Algumas pessoas pararam de dançar:

– Olha como ela dança!
– Deborah! Que exagero.
– Que coisa feia, dançar assim!
Eu: – Ué? O que tem?

E mais uma vez, ninguém explicou qual mal fazia em dançar rebolando sendo tão divertido. Um ano depois ocorreu aquele evento, me fechei, não dancei mais. Logo fiz as conexões em censurarem minha dança, achavam-me precoce, da coxa grossa, de short curto, me culpei por ser gorda, por ser mulher, por exalar uma sexualidade que trasbordava involuntariamente (se fosse um garotinho provavelmente seria incentivada). Anos mais tarde, me libertei através da escrita e a música foi o que vez ou outra usava para dar vazão ao meu corpo, mesmo que em segredo. A dança tem um papel na desenvoltura, quem encontra timidez em esboçar passos de dança certamente foi tolhido dessa liberdade tachado de “inapropriado” para deixar-se levar por uma batida. Desconheço quem ouça uma boa composição e não sinta necessidade de esboçar alegria em movimento, a  espontaneidade corporal é parcialmente tolerada na infância, visto que crianças que se movimentam ou falam “muito” são consideradas inconvenientes.

Ao nos tornarmos “mocinhas” e “mocinhos” não é permitido bater para as garotas, nem é de bom grado um garoto rebolar os quadris ao som da moda. Querem-nos “engessados” delimitando até onde nosso corpo pode exprimir o que sente, a dança possui técnicas e linguagens, mas também pode ser a intuição e a forma lúdica que o corpo guarda para se emancipar.

9 fevereiro, 2011

Trote da UNB

Posted in Educação tagged às 5:19 pm por Deborah Sá

Sei que o fato aconteceu há quase um mês, mas meus compromissos profissionais impediram de opinar dentro de um prazo que gostaria. Aproveito para agradecer aos comentários que deixam nesse espaço, se não os respondo logo, não é por falta de consideração (vocês são ótim@s).

No trote ocorrido em 11 de Janeiro as calouras da FAV (Faculdade de Agronomia e Veterinária) da UnB (Universidade de Brasília), foram sujas de tinta tendo que lamber leite condensado em uma lingüiça encapada com uma camisinha, na frente de veteranos durante o trote.  Hostilidades em ambientes universitários ganham alguma visibilidade na mídia e a comoção se dá por esperarem uma conduta solene entre os muros dessas instituições; para além dessa classificação simplista, o ambiente universitário não abarca uma massa crítica politizada sendo composto por indivíduos suscetíveis aos preconceitos de sua formação, tal qual são os sujeitos que não freqüentam esse ambiente.

A forma que veteranos da FAV escolheram para agregar as novas alunas reforça o caráter ambíguo que se espera da prática sexual feminina: Ao mesmo tempo em que nos cobram uma infinidade de façanhas, punem socialmente quando descobrem como as realizamos por meio de apelidos, piadas e assédios devastadores. Não são as feministas que imprimem uma natureza humilhante aos atos sexuais, é a pornografia, as piadas de mau-gosto e a moral cristã que se encarregam de estabilizar esses conceitos.

É possível ver nos registros em vídeo que os rapazes encorajavam as moças para “irem mais fundo”, “com mais vontade”, “garganta profunda”, essa camaradagem masculina é o prazer advindo do subjugo e controle sobre os corpos das mulheres, usando nesse caso cadáveres e produtos da exploração (que cedo ou tarde leva ao óbito), de animais não-humanos.

Por que o acesso ao “saber acadêmico” é restrito a tantos incapazes de reconhecer a regalia que é usufruir desses espaços?  Uma das pressuposições que contribuem para essa permanência é associarmos o ingresso ao mérito, isso é, afirmar que a educação no Brasil é de acesso democrático.

Uma família de baixa renda não tem condições de pagar mensalidade do curso de Inglês, tênis, natação, intercâmbio, plano de saúde ou Psicólogo, geralmente não há qualquer orientação pedagógica, e aos vinte e poucos anos muitos filhos tornam-se Mães e Pais. Tutores de maior “instrução” cercam seus rebentos de amparos até que atinjam a maturidade (incluindo escolas de “renome” e Cursinho Pré Vestibular), enquanto alguns tantos sustentam famílias há quem use dinheiro doado e adie a autonomia financeira. Não me oponho quem goza desses benefícios, o indicado seria torná-los direitos (educação de qualidade, saúde, segurança, inclusão digital, lazer…).

Os recém-aprovados passam por rituais que evidenciem a subordinação aos veteranos (nem sempre) de oficio concluído, não raro notar que os escritos que ocupam as testas são menções zombeteiras dos que cursam faculdades privadas.