11 janeiro, 2011

Possibilidades e limitações do Cyberativismo

Posted in Corpo, O pessoal é político tagged , às 2:42 pm por Deborah Sá

Redes sociais, compartilhar fotos e preferências: Isso constitui um espaço de interação que expande barreiras geográficas e permite maior alcance de idéias que sem o uso dessas ferramentas, limitariam o discurso ás mesas de bar, faculdade e amigos.

O ativismo ainda carece de participação “real e pública”, se esconder atrás de pseudônimos (por mais bem intencionados que sejam) não trás a visibilidade que os meios de comunicação em massa possuem, bem como seu impacto social. O desinteresse por “tomar as ruas” dos que tiveram origem similar a minha, vêm da necessidade de justiça social acrescida da ausência do envolvimento de familiares em Congressos, Palestras ou Filiações Partidárias. Meus pais eram jovens “comuns” na época da Ditadura, não possuindo boas recordações, tampouco se envolvendo em resistências.

O Movimento Estudantil e seu engajamento inevitavelmente são transpassados pelo recorte de Classe já que o ingresso em uma Universidade Pública é um benefício restrito de proposta excludente. Quem pode em plena quarta-feira ás 15:00 participar de uma manifestação, senão quem é sustentado pelos pais, funcionários públicos ou profissionais autônomos? Uma parcela ínfima, portanto. A revolução popular e abrangente ocorrerá no momento de crise, fome, ocupação e reorganização de estruturas, o que não sei se ocorrerá tão cedo:

– É dificílimo articular movimentos sociais, que em geral se desentendem em disputas internas / partidárias,
– Existe uma geração que foi engajada na juventude e aos poucos se acostumou: Pagando o seguro do carro, a aula de inglês das crianças…
– A aceitação das estruturas opressor/oprimido: “Sou rebaixado no emprego, todavia se for me dada à chance, humilho o garçom”
– Reder-se ao cansaço da rotina na opressão auto-sustentável.

A construção da mentalidade de uma época ou de um grupo é formada pelas vivências e resistências possíveis, sendo impraticável um número de adivinhação no desenvolvimento histórico que não possui qualquer elemento estagnador.

Subversões são louváveis, se podem protestar (mesmo que poucos) em horário comercial, assim o façam, se o Rap tem o poder de levantar a cabeça de jovens desestimulados, que o som se propague.

A liberdade da escrita, a divulgação autônoma

Se meus primeiros diários contavam o cotidiano de uma menina de 07 anos, os seguintes acompanharam as fases que sucederam: Colar embalagens de bombons até a redenção cristã desesperada de escrever “Adoro Deus” em cada rodapé.  O desdém aos relatos levou-me a rasgar todas aquelas folhas e atirá-las no lixo, anos mais tarde fiz o mesmo com recitativos, hinário, bíblia e véu.

Rabiscar o papel a esmo era um exercício que tinha por finalidade encher a lixeira mais próxima; impulsivamente decidi que era o momento de deixar fluir as inquietações e encarar-me genuinamente, um caderno era o objeto de expurgação. O que era estritamente particular (e virtual) ganhou visibilidade na medida em que respondiam e partilhavam vivências, em maior número, mulheres se identificaram com os percalços e corroboravam no amparo de outras.

Foi-me dada a oportunidade de publicação que seria absolutamente nula em outro tempo, não apenas pelo teor de meus posicionamentos, mas a implicação burocrática. Os estímulos culturais e sociais podem despertar reflexões, entretanto prezamos os que são imbuídos de nos categorizar com propriedade acadêmico-científica, esta orientação pode parecer desnecessária, contudo o Espantalho do Mágico de Oz só acreditou em sua capacidade após o diploma.  Por contrabalançar o valor da interlocução, o ativismo virtual permite a execução de transgressões individuais (um incentivo para a autonomia sobre o próprio corpo, por exemplo) que rompem paulatinamente com estruturas mais amplas.

8 Comentários

  1. Thiago Beleza said,

    Também vejo dessa forma essa história de ativismo virtual. Acho que nem chega a ser ativismo, mas é um espaço onde minhas idéias ganham visibilidade. Acho justo e, a longo prazo, pode colaborar para mudanças reais (pelo menos a minha experiência pessoal foi essa).. Enfim, só posso concordar.

    • Deborah Sá said,

      Quando que alguém como eu sem ensino superior, feminista, vegana e atéia ia ter “voz” divulgada? Nunca. Eu recebo e-mail de moças que se sentem mais seguras com a aparência depois de ler o que escrevo. Esse retorno não tem preço.
      O Cyberativismo só empaca as lutas sociais se ficar como meio único, é um instrumento precioso que deve ser usado inclusive na divulgação de notícias ignoradas na grande mídia.

  2. Twilight Haters said,

    Não sei se porque sou das Letras e, principalmente, da Análise do Discurso, mas acredito em discursos como forma de ação… muita gente fala em “geração que não faz nada e se esconde atrás de um computador”, mas acho mesmo que, se bem usada, a internet poderia ser uma ferramenta de manifestações de alcance impensável. Só ver como repercutiu aquela idiotice de “Cala Boca Galvão”… se a gente usasse twitter e afins pra coisas sérias, conseguiria muito mais visibilidade do que com passeatas com um alcance municipal, ou mesmo nacional.

    É claro que isso não elimina uma necessidade de atitudes mais efetivas, menos passivas, não sei como definir. Mas o primeiro passo pra isso, acredito, é o discurso. E nada como uma rede mundial de comunicação pra divulgar esse discurso de forma eficiente, né?

    Ana

    • Deborah Sá said,

      Olá,

      Sim, concordo com você sobre o discurso, é através dele que os conceitos se reformulam e a linguagem é poderosíssima. Ao mesmo tempo em que uso o ativismo virtual, faço da minha vivência uma prática igualitária (dentro das possibilidades de ser inserida nos sistemas).
      Não abro mão de nenhum dos dois :)

  3. Roy Frenkiel said,

    Apesar de acreditar que a liberdade de expressao e a expressao em si sao as formas mais basicas de ativismo, seja ele social, politico, cultural ou religioso, o problema da virtualidade e o excesso de expressoes (nao de liberdade, para qual excesso nao e aplicavel) e achismos reverberando sem fronteiras. Nesse sentido, so saindo as ruas e que o protesto ganha o espaco da “realidade” contraposto a “intencao virtual”.

    Acredito, no entanto, que a apolitizacao do mundo nao e necessariamente uma involucao. Se levarmos em consideracao os ultimos grandes protestos de nossa historia, veremos como eram tempos mais injustos e para mais pessoas. O fato de que as pessoas conseguem viver, majoritariamente, e aquelas que nao conseguem nao tem o respaldo educacional auto didatico ou estrutural academico, ja faz com que nao precisem arriscar para viver. Ai entram as minorias, os “outros” da sociedade, hoje em dia divididos especialmente em duas camadas no mundo ocidental: Gays e muculmanos. Mesmo essas minorias compraram em grande parte a apatia da populacao. A desilusao por mudancas radicais na estrutura do governo tambem aumentam essa apatia social.

    Mas nao sei se e pela idade e experiencia que tenho, Deborah, eu cheguei a duas conclusoes nessa vida:

    1 – ideologia = religiao. Mesmo pensamento, mesmo absolutismo e mesma intolerancia por ideias contrarias. Logo, sou anti-ideologico em pensamento. Pragmatista no geral.

    2 – O mundo sempre muda a medida que buscamos essas mudancas em nossas vidas: Quando nos tornamos exemplos vivos do que falamos, temos mais chances de influenciar quem a nossa volta.

    Beijao, excelente texto (voce esta escrevendo cada vez melhor),

    RF

    • Deborah Sá said,

      Oi Roy,

      1 – Enquanto feminista, vegana e atéia é óbvio que creio em ideologias, o que não implica uma vivência em totalidade até porque estou dentro de um sistema exploratório, convivo com feministas que comem carne, por exemplo, e as amo, ninguém vive em uma ilha.

      2- Concordo ;)

      Obrigada pelo elogio,
      Um abraço

  4. Carla said,

    “Os estímulos culturais e sociais podem despertar reflexões, entretanto prezamos os que são imbuídos de nos categorizar com propriedade acadêmico-científica, esta orientação pode parecer desnecessária, contudo o Espantalho do Mágico de Oz só acreditou em sua capacidade após o diploma.”

    Linda!

    • Deborah Sá said,

      Obrigada :) Você também é :D


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