28 janeiro, 2011

Defletindo ataques gordofóbicos

Posted in Corpo tagged , , , , às 10:56 am por Deborah Sá

Tidas como comodistas preguiçosas que preferem um brigadeiro ou uma pizza repleta de queijo ao invés de se movimentar, gordas são censuradas: Andar, dançar – diziam para eu não dançar aos 12 -, cantar, cair… Qualquer ação vira vídeo no YouTube para que magros (e nem tão magros assim) humilhem alguém com o peso acima do seu.

“Gorda baleia. Saco de areia”

Quando era bem pequena e mal sabia pronunciar as palavras corretamente, ri no ônibus de uma mulher de traços orientais:
– Que “gaçado”! Por que a cara dela é assim?
– Ela é do Japão, Deborah, as pessoas lá são assim.
– Japão? O que é isso?
– É um lugar muito, muito longe.
– Igual Santo Amaro?

Nessa fase não conhecia a pluralidade étnica (além de meus amigos negros, lindos). Excluir, destratar e humilhar gordos é de uma ignorância e prepotência vergonhosa. Um dos garotos que mais me humilhava publicamente foi o primeiro a tentar me agarrar quando estávamos sozinhos. É chegado o momento de companheiros e amantes de gordas admitirem suas preferências, saírem do armário e incluí-las em sua vida pública, reduzir a participação na esfera privada caluniando-as frente aos amigos é a prova do quanto o ego é pequeno, definitivamente elas merecem alguém com mais hombridade e menos cabaço.

“Não acha que está comendo muito carboidrato?”

Pretexto de quem não admite incomodar-se com o aspecto físico alheio, sou gorda, Vegan, danço, trepo, gozo, corro atrás de ônibus e nada do que desejo fazer é impedido pelo meu condicionamento ou forma física. Entretanto, convivo com pessoas que bebem, fumam, comem carne, ingerem muito açúcar e gordura saturada sem a vigilância do que colocam em seus pratos, ao contrário, essas condutas fazem parte de uma etiqueta social. Mulheres são penalizadas ao obterem prazer gastronômico e sexual, prerrogativas masculinas.

“Não temos nada aqui pra você”

Descrições verídicas

– Quero aquele biquíni da vitrine (de arco-íris)
– Só temos M
– Nada de G ou GG?
– Não, não tem nada aqui para você

– Moça, esse vestido é muito bonito, mas aperta os meus peitos… Teria maior?
– [Mede com o olhar e faz careta] Não, esse é o maior tamanho da loja

– Tem tamanhos especiais?
– Sim, temos muitos, do 44 ao 46 (isso é um número de diferença para quem não sabe)

– Mas o nosso 44 é gigante, estica
– Moça, eu quero um vestido 46
– Okey, nem parece que você tem tanto quadril
[Após me vestir e abrir o provador]
– Minha nossa senhora, que grande o seu quadril, tinha razão, mas minha nossa, nem parecia que… E não é que é grande mesmo? Não parece, não parece

– Tem manequim 46/48?
– Não, só tamanhos normais.

– E aí gostou?
– Essa 46 e 48 tem o mesmo tamanho e não fecham
– [Faz careta de “Ai coitada, humpft”]

– Esses sabonetes têm algo de origem animal?
– Não, mas já que gostou dos sabonetes, tenho um creme maravilhoso pra tirar essas estrias horrorosas da sua barriga!
– [Levanto a blusa e faço carinho] Minhas estrias? Eu amo as minhas estrias! Não quero tirar por nada.

Outras respostas que podem servir de inspiração:

– Já que não gostam de dinheiro de gorda, o problema é de vocês (uma das que mais uso, em alta voz)

Para a clássica “Tem um rosto tão bonito”:
– É que nunca me viu pelada ;)

– Por que está fazendo/usando isso?
– Porque eu sou uma delícia.
– Sério, por quê?
Porque sou um ahaso!

– Não agüenta meia hora de surra de bunda comigo

– Você! Usa Biquíni?
– Não, burca (resposta cedida pela minha irmã a um colega de trabalho que me importunava).

Na contramão – Gordas sem barrigas – Uber-Fêmeas

Assistentes de palco, musas do carnaval e demais responsáveis por entreter na televisão atendem uma (não tão recente) tendência: Desproporção na distribuição de massa e gordura. O tamanho da bunda, seios e especialmente coxas seriam encontrados em mulheres gordas com o diferencial da barriga “chapada”, isso é alcançado com bisturi, malhação, anabolizantes e bronzeamento artificial. Não as julgo superficiais, essa manutenção implica abdicações, investimento, esforço e disciplina.  É a forma de ascensão que oferecem as mulheres para em seguida tratá-las como não merecedoras de respeito “interesseiras” e “fúteis”.

O Mito da Beleza é benéfico ao Capital e Patriarcado, em busca de uma aprovação que nunca ocorrerá nos lançamos em um espiral de culpa que nos vigia através de familiares, enquanto nossa identidade é formada sob o olhar do “outro”, um comercial anuncia o novo sabor de sorvete seguido por dicas de Dieta em SMS.

20 janeiro, 2011

Ganidos

Posted in Animais, Memórias tagged , às 3:09 pm por Deborah Sá

Era corriqueiro o abandono de filhotes próximos aos colégios onde estudei, em grande pesar (acompanhado de lágrimas), colegas narravam a recusa de seus pais ao amparo daquela criatura felpuda. O mundo das crianças e dos cães é similar, são os adultos que ditam as regras e interagem em etiquetas, detendo o poder e autoridade.

A comunicação entre humanos e animais é excepcional, se aprendemos a falar para interagir com adultos, essa forma é (quase totalmente) dispensada na interação com não-humanos, o contentamento, a saudade e a travessura são entendidas por nós, mas o silêncio que permeia por anos essa relação é de difícil esclarecimento verbal e escrito.

Como descrever um gracejo de felino? Aproximam-se pé ante pé e quando nos encontram, correm em disparada com os braços ao alto, impossível não sorrir quando nos imploram atenção mordendo os cadarços. Há cães que se aproximam se a dor nos abate, a cumplicidade em sentinela. Pode parecer supérfluo a quem nunca vivenciou tais experiências,  jamais amando além da própria espécie.

Terça-feira, 16 de  Novembro de 2004

Me desculpem. Não estou nada bem, no domingo o Snoopy comeu algo errado, ou alguém deu chumbinho a ele, teve convulsões, passou muito mal, eu chorei muito, levamos as pressas ao veterinário 24 hrs, ele ficou a noite lá, levou soro, oxigênio… Ontem a veterinária deixou ele vir a minha casa para que eu pudesse cuidar dele, esvaziamos um cômodo da casa, meu pai colocou minha cama no cômodo para que eu pudesse dormir perto dele e ele não se sentisse sozinho, acordei várias vezes de madrugada para dar as doses, dos diversos remédios (tinha até para o cérebro), quando eram quase 5:00 am de hoje, acordei com o choro dele, ele tentava pular na minha cama pra ficar comigo, eu disse: Não vai pular na cama não, eu fico aí com você. Sentei no chão, coloquei ele nos braços, e fiquei fazendo carinho, até que a respiração ofegante foi diminuindo e ele morreu em meus braços, foi bom ele ter morrido em casa, assim ele não pensa que o abandonei, foram muito bons esses três anos, de muitas alegrias, o importante é ele saber, que eu o amei, e sei que ele também me amava! Eu até falava com ele. Todos sabem como sou apegada a todos meus animais, já chorei bastante, mas estou melhorando… O que resta agora são as boas lembranças do meu Fuço.

Aos 15 ganhei um buquê de margaridas da minha mãe e havia um cartãozinho cor de rosa desejando “Felicidades”, era estampado o desenho de uma moça magra e loira com vestido de alça descendo uma escada. Ao mesmo tempo em que me senti feliz (foi meu primeiro buquê), fui extremamente desafortunada por não ser aquela moça magra e no auge de uma beleza que nunca alcançaria.

Naquela mesma semana:

– Parabéns, filha! Você ganhou um Beagle!
– Jura? Você está brincando?!
– Sua boba! Eu não brincaria com isso! Vamos buscar!

E lá fomos eu, minha irmã (com 9 anos) e minha mãe no Fusca bege para comprar o cãozinho, escolhi o maior e com manchas pretas, era muito pequeno e descoordenado, logo cresceu e tornou-se o mais endiabrado do quintal. Meu maior confidente, pouco importava não ser popular, ser gorda, não ter roupa de marca, medo do inferno… Era certo que colocaria as patas sobre meus ombros em um abraço.

Ele fugiu, o encontrei na laje de casa passando mal, hospital, soro, ver aquele cão cheio de energia tremendo e ofegante, não querer que ninguém removesse seu corpo além de mim: Dois lençóis para cobrir, peso nos ombros, descer a escada, entregar para o moço que levaria para uma geladeira e depois cremaria (o corpo contaminaria o solo). Recebi um vaso de violetas e uma Carta de Condolências da Clínica Veterinária. Naquele ano decidi cancelar a escola, concluí a 8ª e parei. O resto vocês já sabem.

Em ambiente urbano não sabemos de onde vem as frutas, o leite ou a carne e poucos seriam aqueles que empunhariam uma faca na jugular de um porco ou decapitariam uma galinha sem forte perturbação, posto que só exista desespero em um grito capaz de romper a ligação silenciosa na comunicação entre nós e não-humanos.

Debruçar-se diante de vozes inaudíveis (um peixe não produz “som” ao morrer), é permitir que outros co-existam e suas necessidades sejam minimamente garantidas, isso não nos torna especiais, apenas justos. Qual o propósito de infringir ou persuadir quem anatomicamente e intelectualmente opera em níveis de consciência distintos?

Não compre, adote

Por que devo castrar meu cão e gato?

Update: Encontrei foto do Snoopy

14 janeiro, 2011

Só não tem medo de Polícia, quem nunca se manifestou contra o Estado

Posted in Eventos às 12:52 pm por Deborah Sá

Ontem (13 de Janeiro de 2011), estive ás 16:50 em frente ao Teatro Municipal, sei que a maioria da população não possui um emprego que abre exceções e libera a participação em passeatas durante a semana, mas tive essa sorte e quero dividir isso com quem estiver disposto a ouvir o que “a grande mídia” não faz questão de noticiar.

Encontrei amig@s e pessoas que saiam do trabalho com faixas, cartazes e apitos, jovens (em maioria), idosos e até crianças eram vistas no local. A caminhada iniciou em direção da Prefeitura passando pelo Viaduto do Chá, as frases incluíam: “Dança Kassab, dança até o chão! Aqui é o povo unido contra o aumento do busão”, “Vem pra rua, vem, vem contra o aumento”, “Pu-ta que Pa-riu! É a tarifa mais cara do Brasil” e “Ei Kassab, vá tomar busão!”.

Percorremos a Rua Direita e Vale do Anhangabaú contando com a adesão de alguns passantes e trabalhadores que aprovavam a iniciativa, embora nem todos abandonassem o expediente. Panfletos foram distribuídos aos passageiros de ônibus e a quem aguardava no ponto, todo o trecho foi percorrido por escolta policial acompanhando de olhos atentos a concentração.

Quando chegamos na Av. Ipiranga na esquina com a Sete de Abril, parte do grupo decidiu seguir na rua lateral (da Feirinha da República que ocorre aos Domingos) e pediu para que os que estavam à frente (seguindo a direção da Av. Ipiranga) acompanhassem, nesta bifurcação a polícia agiu: Ouvi tiros e me afastei, retornando quando senti alguma segurança, a segunda onda de disparos foi mais intensa sendo possível ouvir o som de vidros quebrando, pessoas correndo em todas as direções e eu tentei me abrigar em uma loja quando uma bomba de gás explodiu muito próxima. Temendo o risco e prejuízos, lojistas fecharam as portas e só consegui me abrigar na terceira tentativa: Um bar.

O local completamente invadido pela fumaça branca fazia meus olhos lacrimejarem causando falta de ar, garganta seca e ardência no rosto, quatro manifestantes conseguiram entrar no mesmo lugar e aguardar com portas fechadas o tumulto se dissipar. Funcionários, clientes (incluindo três idosas) tentavam como podiam, respirar e beber água para conter as reações do gás. Logo o Yuri me ligou garantindo que havia conseguido um bom lugar para se proteger.

Permaneci no ambiente por cerca de quarenta minutos, é difícil aceitar tamanha truculência para conter uma manifestação pacífica, a atendente do bar disse que a Polícia acertou duas bombas quebrando painéis de vidro de uma lanchonete ao lado. Uma mulher trouxe na mão uma cápsula (?)

É o nome disto? Não sei identificar essas coisas...

Julguei imprudência tomar para mim este objeto que causaria repreensão violenta em uma abordagem, deixei o local e fui para casa encontrar-me com o Yuri e um amigo querido (que participou do ato).

Imagino o quão doloroso foi o período da Ditadura, bastaram algumas balas de borracha e bombas para sentir medo. A violência (e o despreparo) policial não é exclusividade no trato do Movimento Estudantil: Moradores de rua, Bolivianos, Negr@s, ambulantes (não raro, idosas que vendem milho correm de policiais)… Qualquer resistência pode gerar este confronto uma vez que o alvo não possui treinamento militar, instaura-se o medo para que a força de trabalho não cesse os lucros do capital. Tomemos as ruas de forma crescente! Nos negligenciam saúde, educação e distribuição de renda, certamente não concederão oficinas gratuitas de Krav Maga.

Foto: Marcos Gomes

11 janeiro, 2011

Possibilidades e limitações do Cyberativismo

Posted in Corpo, O pessoal é político tagged , às 2:42 pm por Deborah Sá

Redes sociais, compartilhar fotos e preferências: Isso constitui um espaço de interação que expande barreiras geográficas e permite maior alcance de idéias que sem o uso dessas ferramentas, limitariam o discurso ás mesas de bar, faculdade e amigos.

O ativismo ainda carece de participação “real e pública”, se esconder atrás de pseudônimos (por mais bem intencionados que sejam) não trás a visibilidade que os meios de comunicação em massa possuem, bem como seu impacto social. O desinteresse por “tomar as ruas” dos que tiveram origem similar a minha, vêm da necessidade de justiça social acrescida da ausência do envolvimento de familiares em Congressos, Palestras ou Filiações Partidárias. Meus pais eram jovens “comuns” na época da Ditadura, não possuindo boas recordações, tampouco se envolvendo em resistências.

O Movimento Estudantil e seu engajamento inevitavelmente são transpassados pelo recorte de Classe já que o ingresso em uma Universidade Pública é um benefício restrito de proposta excludente. Quem pode em plena quarta-feira ás 15:00 participar de uma manifestação, senão quem é sustentado pelos pais, funcionários públicos ou profissionais autônomos? Uma parcela ínfima, portanto. A revolução popular e abrangente ocorrerá no momento de crise, fome, ocupação e reorganização de estruturas, o que não sei se ocorrerá tão cedo:

– É dificílimo articular movimentos sociais, que em geral se desentendem em disputas internas / partidárias,
– Existe uma geração que foi engajada na juventude e aos poucos se acostumou: Pagando o seguro do carro, a aula de inglês das crianças…
– A aceitação das estruturas opressor/oprimido: “Sou rebaixado no emprego, todavia se for me dada à chance, humilho o garçom”
– Reder-se ao cansaço da rotina na opressão auto-sustentável.

A construção da mentalidade de uma época ou de um grupo é formada pelas vivências e resistências possíveis, sendo impraticável um número de adivinhação no desenvolvimento histórico que não possui qualquer elemento estagnador.

Subversões são louváveis, se podem protestar (mesmo que poucos) em horário comercial, assim o façam, se o Rap tem o poder de levantar a cabeça de jovens desestimulados, que o som se propague.

A liberdade da escrita, a divulgação autônoma

Se meus primeiros diários contavam o cotidiano de uma menina de 07 anos, os seguintes acompanharam as fases que sucederam: Colar embalagens de bombons até a redenção cristã desesperada de escrever “Adoro Deus” em cada rodapé.  O desdém aos relatos levou-me a rasgar todas aquelas folhas e atirá-las no lixo, anos mais tarde fiz o mesmo com recitativos, hinário, bíblia e véu.

Rabiscar o papel a esmo era um exercício que tinha por finalidade encher a lixeira mais próxima; impulsivamente decidi que era o momento de deixar fluir as inquietações e encarar-me genuinamente, um caderno era o objeto de expurgação. O que era estritamente particular (e virtual) ganhou visibilidade na medida em que respondiam e partilhavam vivências, em maior número, mulheres se identificaram com os percalços e corroboravam no amparo de outras.

Foi-me dada a oportunidade de publicação que seria absolutamente nula em outro tempo, não apenas pelo teor de meus posicionamentos, mas a implicação burocrática. Os estímulos culturais e sociais podem despertar reflexões, entretanto prezamos os que são imbuídos de nos categorizar com propriedade acadêmico-científica, esta orientação pode parecer desnecessária, contudo o Espantalho do Mágico de Oz só acreditou em sua capacidade após o diploma.  Por contrabalançar o valor da interlocução, o ativismo virtual permite a execução de transgressões individuais (um incentivo para a autonomia sobre o próprio corpo, por exemplo) que rompem paulatinamente com estruturas mais amplas.

4 janeiro, 2011

O figurino de Dilma

Posted in Só falam nisso tagged , , , às 5:03 pm por Deborah Sá

A análise sobre Dilma na Cerimônia de Posse não se focou na eloqüência ou veracidade de seu discurso, a mídia preferiu usar outros parâmetros que mais pareciam uma releitura do Determinismo Biológico.

Dizem que a roupa não favoreceu um biotipo “que requer vários cuidados para que a pessoa pareça bem-vestida”, nem seus braços foram poupados de criticas. Antes de qualquer atribuição, Dilma é uma mulher que ocupa um cargo destinado quase que exclusivamente ao poderio masculino, acusações semelhantes eram vislumbradas no início de sua campanha e a tendência é que se intensifiquem.

Semana passada, vi um trecho do programa “Vanity Insanity” onde (no capítulo específico), homens contavam suas frustrações de cirurgias mal sucedidas, o primeiro era um lutador (luta livre) que tentou implantar silicone nas panturrilhas, o segundo um homem que gastou muito dinheiro para reparar danos capilares e no terceiro e último, um que aprendeu a lidar com a perda dos cabelos. Esse criou um site para promover a auto-estima de homens carecas e diz receber e-mails desesperados de jovens que cogitam suicídio aos primeiros sinais de calvície.

“As pessoas que tem cabelo não fazem idéia do quanto é impactante vê-los caindo, há uma indústria que fatura bilhões com implantes de cabelo, shampoos e outros acessórios que prometem mais fios. Esta mesma indústria vende a imagem do homem careca como alguém impotente e pouco atraente. Em verdade, não conheço um só homem careca que não seja charmoso” [Trecho sintetizado]

Não menosprezo o quanto deve ser doloroso perder os cabelos involuntariamente, mas esta pressão é sentida diariamente por mulheres em maior quantidade, qualquer revista feminina nos instrui a procurar minuciosamente novos defeitos. O candidato Serra ganhou um número expressivo de votos, vejamos o padrão estético dos candidatos do PSDB:

José Serra, Geraldo Alckmin e Aloysio Nunes

Não vi nenhuma reportagem que aborde este incontestável padrão: Os candidatos que uniram forças para arrecadar votos em São Paulo são do gênero masculino, brancos e com poucos cabelos. E essas camisas? Não são de pouca criatividade? Combinou com o tom de pele? Acham que a maquiagem aplicada foi adequada ao período diurno? É impressão, ou o candidato Serra não adequou os tons grisalhos de forma uniforme? As unhas estão feitas? Mesmo se Serra fosse eleito, esta abordagem não seria necessária já que o desempenho governamental independe do formato de um rosto ou um crânio. Quer dizer, a menos que você seja mulher.

Confundem-se normas de gênero com características biológicas e caráter, isso conduz uma linha tênue e perigosa que estipula padrões comportamentais de um grupo marginalizado. Cobram de Dilma coquetismos e disfarces de sua anatomia amparados na alegação arcaica: Uma mulher não pode ocupar a Presidência, pois não preenche um requisito anatômico/biológico.

No Brasil é tolerável ser negra contanto que alise os cabelos, ser pobre enquanto não freqüentar os mesmos espaços de quem tem dinheiro, ser mulher se dócil e podemos até ser gordas, mas o uso de biquíni é atestado esquizofrênico.