9 dezembro, 2010

Transferência Patriarcal

Posted in Corpo, Gênero tagged , , , às 9:17 am por Deborah Sá

Após o contato com esta teoria muitas perspectivas ganharam novo significado levando-me a uma distinta relação com o mundo. Não pretendo fornecer qualquer fórmula imediata de superação ou medida padrão de raciocínio, mas se compartilhar isto com vocês as tornará mais seguras, estou certa que será útil.

A primeira estrutura masculina que me recordo ter algum conhecimento foi “Deus”, essa crença pode (não é uma regra, mas pode vir a ser um fator) catalisar fobias, distanciamento da realidade e contenção de impulsos sexuais e/ou criativos. Não importa o quão atéias nos descobrimos; a concepção de um ser de consciência elevada e vigilância constante vez ou outra, foi alvo de alguma consideração. Em posição antagônica temos o personagem “Diabo”, que usando de alguma onisciência e visual antropomórfico ocupa “Deus” em um mercado de “hipotecas espirituais”.

Em seguida a tutela sobre nossos corpos e mentes é transferida de homem em homem, pois é na figura masculina que aprendemos a buscar alguma confiança: Nosso pai, nosso chefe, nosso companheiro (em caso HT). A possibilidade de amor próprio e segurança que conhecemos são configuradas em dependência se não sabemos separar qual é um desejo genuíno e qual a expectativa masculina sobre nossas ações.

É-me recorrente ouvir de moças com vasta experiência sexual que seu companheiro está insatisfeito com algum aspecto estético (outrora despercebido), este rapaz que por sua vez possui pouquíssimo conhecimento estranha que sua namorada não possua seios próximos uns aos outros ou tons rosados nos mamilos. É este tipo de poder que homens exercem quase que instantaneamente sobre a auto-imagem de suas parceiras, nossa insegurança é tão enraizada que basta um comentário masculino pra especularmos sobre nossa conduta, este homem, não necessariamente precisa ter relevância em nosso cotidiano, podendo não nos ser atraente e até mesmo um desconhecido.

Mas por que nos deixamos abater nestas circunstâncias? Porque a figura masculina nos inspira o temor, isto é, não apenas punições materiais, mas a reprovação moral de uma figura de autoridade (similar ao temor a “Divino”). Características físicas são habitualmente relacionadas ao caráter e indicativos das estruturas de poder reforçadas nas produções artísticas, enquanto virilidade, força, poder, coragem e atitude forem atreladas quase que exclusivamente a figura masculina, até será possível superar o medo de entidades sobrenaturais, mas não deixaremos de contar calorias e implantar silicone.

Um exercício interessante é percorrer uma loja de brinquedos: A sessão “Azul” promete: “Seja o herói”, “Combata, domine e explore”, “Vença”, “Construa”, isso estimula a competitividade e induz ao sentimento de “colonizar o mundo”, “fincar a bandeira” onde achar apropriado.
A sessão “Rosa” estimula o cuidado e manutenção do bem-estar: São animais, bebês (trocar fraldas é entretenimento?), bonecas e utensílios domésticos. Para a interação são sugeridas “Maquininhas de trançar cabelos”, “Chapinhas” e adaptações de maquiagens.

Alguns criticam a sexualização precoce, em verdade crianças possuem impulsos sexuais e usam das ferramentas apresentadas para compreender os próprios anseios, é através da imitação do mundo “dos adultos” que elas buscam alguma “maturidade” e se a mulher adulta elogiada pelos homens é curvilínea e de maneirismos peculiares, é isto que uma garotinha buscará. A diferença entre uma brincadeira de “menina” para uma brincadeira de “menino” é que a garota subentende desde muito nova que seu gênero é performático e trabalhar a sua “imagem” é o que a separará das “comuns” ou “populares”.

Em um concurso de arroto é reforçado o desempenho do gênero masculino, implicando rituais de socialização entre os seus, nenhum grupo de garotos faz “suas brincadeiras” na frente das garotas a não ser para hostilizá-las por serem “mulherzinhas” (jogando uma barata, por exemplo), se revidar a garota será “a menina-macho” o que gerará outras medidas “corretivas”.

É injusto que mulheres sintam-se fracas quando afetadas por piadinhas, xingamentos e cantadas grosseiras, não importa quão munidas estamos de embasamento teórico-feminista, livros de auto-ajuda ou quem sabe até um@ companheir@ que nos ame exatamente pelo o que somos. A quantidade de estímulos encorajadores é desproporcional em uma realidade onde somos hostilizadas cotidianamente. Compreender essas circunstâncias nos permite não menosprezar inseguranças e entendê-las como um condicionamento na construção da identidade, a partir disto é possível nos afastarmos daqueles que nos cerceiam. Ao delimitar nosso espaço, o aval para exercemos a autonomia tornar-se-á obsoleto.

25 Comentários

  1. Mexy said,

    Bem nessas mesmo, Deba.
    A gente já conversou muito sobre isso, e entender essa transferência me ajudou a entender melhor até pelo que eu passei e passo cotidianamente.
    A opinião masculina nos pesa esmagadoramente. A avaliação constante, sutil ou agressiva, é capaz de perpetuar em nossa auto-imagem por semanas, anos, eternamente, quem sabe.
    É rotineiro ver mulheres buscando sinais de avaliação nas palavras de seu companheiro, por exemplo. É muito comum (pelo menos é o que eu vejo com frequência nos relacionamentos HT’s) ver a moça indignada por ver o companheiro babando em outra mulher com características físicas totalmente diferentes das delas. Não é nem preciso que ele manifeste o fato de tê-la achado atraente, a sua companheira já irá se torturar contínuamente por acreditar que não é o que ele busca, não é o que ele quer.
    É justamente por isso que a pornografia afeta muitos casais. Afinal, como acreditar que ele me acha bonita se o material masturbatório que ele possui é constituído por pessoas completamente opostas a mim? O que pode ser pior, para a mulher colonizada, do que ser considerada não-atraente por um homem?
    Nos foi imposta essa crença onde a beleza e a docilidade são os melhores atributos que uma fêmea pode possuir, e que é nosso dever exibir estes atributos para o público que nos deve avaliar e julgar se somos boas ou ruins: os homens.
    Falei, falei, e devo ter falado merda, ou não ter feito sentido, mas falei.
    Gostei do post.
    <3

    • Jo said,

      amor…ainda acho que Você, Debah e Cely…talvez até mais, poderiam se unir em um único blog para destruir o Brasil inteiro.
      Eu até compro domínio e monto o layout! =D

      • Deborah Sá said,

        <3

  2. Este conceito da divindade está fortemente atrelado ao cristianismo, uma crença originalmente proveniente de um certo ramo judaico que aceitou a vinda de um certo salvador, cuja influência cresceu rapidamente do Oriente Médio por várias regiões do já decadente Império Romano. O patriarcalismo já era o chão religioso tanto no Oriente Médio quanto no Império Romano naquela época, tendo em vista que o golpe patriarcal já havia sido aplicado em quase todas as regiões da Europa, Oriente Médio e África nos séculos anteriores.
    Na Europa este golpe patriarcal se deu bem antes, e pode ser inclusive aferido em registros muito mais antigos — o momento em que os Druidas crescem em poder na Europa Céltica, por exemplo, ofuscando e tramando contra o poder das antigas sacerdotisas.
    Eu estou falando tudo isso pra lembrar que o conceito de Divindade, de Deus, que hoje nos permeia é totalmente deturpado primeiro pelo espúrio golpe patriarcal aplicado há quase aproximadamente dois milênios e depois pelas maquinações dos líderes de uma crença religiosa que se tornou um dos maiores bastiões deste patriarcalismo no ocidente, a Religião Católica.
    Hoje é, para a maioria das pessoas, impossível conceber uma dividade que não seja patriarcal, mas isso só se dá por conta de outro golpe — também ligado ao golpe patriarcal e à Igreja — que foi a destruição das crenças pagãs européias e o controle sobre seus registros. Quase tudo que se sabe sobre as tradições não-patriarcais vem de registros cristãos e de pesquisadores que conduziram suas pesquisas já dentro de um Zeitgeist do mundo cristianizado.
    É por isso que sou tão verbal em dizer que o Cristianismo é um dos grandes cânceres na face da terra. Está envolvido em tantos absurdos contra seus “inimigos” — pagãos, mulheres, natureza, etc — que torna-se irredimível.
    Mas houve um tempo que a mais alta divindade era a Mãe Terra: Modron, como é nomeada no Mabinogion galês. Houve um tempo que nenhuma soberania ou poder era concedida a homem algum, se não pelo desejo e desígnio das mulheres. Houve um tempo em que todos os Deuses nasciam e prestavam respeito à Deusa que estava acima de todas. E para quem está a par deste tempo é não só possível como óbvio conceber que acima de todos os Deuses está e sempre estará a Deusa.
    Deus só é macho nas imaginações pobres daqueles que não conhecem as velhas tradições. E este “golpe” religioso tem TUDO a ver com todos os outros golpes patriarcais dos quais vc está falando.
    Não considere minha fala como nenhum tipo de pregação pagã. Minhas intenção é somente a de prover um outro ponto de vista a respeito desta questão da divindade masculina. Respeito a inteligência dos ateus muito mais do que a de qualquer pessoa que siga uma religião patriarcal — estas sim as quais deploro profundamente.

    • Deborah Sá said,

      Daniel,

      Obrigada por contribuir com o debate, respeito todas as formas de fé e sei que nem todas as pessoas usam como desculpa para exercer as próprias pulsões.

      Um abraço

  3. Mariani Lima said,

    E não só a opinião masculina que nos afeta, a feminina também. Muitas mulheres ficam policiando umas as outras, e julgando se fulana está gorda, tem peito caído, celulites, etc… (se alguma mulher vem com esse papo, eu já corto)
    É muito cruel isso, principalmente para quem tem a auto-estima baixa, insegurança, e foge dos padrões que nossa sociedade impõe.
    Enfim, eu não me importo com a opinião d@s outr@s, às vezes é até bom perceber esses pensamentos toscos nas pessoas o quanto antes, para evitar contato. Quem gostar de mim, gostará do jeito que eu sou, simples assim.
    A sociedade só precisa se dar conta disso.

    • Deborah Sá said,

      Mariani,

      O patriarcado e o capital fazem com que o oprimido policie a submissão dos seus, lamentável =/

  4. Raiza said,

    Só uma revolução feminista dá jeito nisso.A aguardo ansiosamente.

    • Deborah Sá said,

      Aguardemos :)

  5. Lidiane said,

    Eu não queria que o post acabasse

    • Deborah Sá said,

      *abraça*

  6. cely said,

    A sensação que eu tenho é exatamente essa..de uma desproporcionalidade gigante entre os estímulos positivos e a opressão. Ainda que eu fuja feito louca, esbraveje, me defenda, de vez em quando alguém ainda consegue me atingir. Já acho que pessoas como eu, você e outras mulheres são grandes guerreiras apenas por manter a sanidade, porque o peso que colocaram nas nossas costas é enlouquecedor!

    • Deborah Sá said,

      Perfeito, Cely <3

  7. Valter Paulino said,

    Debora

    Como homem, este teu texto e constrangedoramente perfeito.
    Sempre que posso digo isso, ou algo parecido com isso, a minha filha.

    Abraços
    Valter

    • Deborah Sá said,

      Valter,

      Bem vindo e força para ela, sempre o/

  8. Antes de qualquer coisa, elogiar a belíssima exposição acerca do homem e seu bastão de ouro em torno do qual gravita o mundo em que vivemos.
    O mundo é pensado para as necessidades masculinas. A liberdade é masculina, os comerciais daqueles carros de viagem que inspiram a liberdade (uahuaha) são todos guiados por homens, e as “mulheres livres” são, no máximo, as namoradas desses homens livres (risos).
    Jovens mulheres inquietas tem o paradigma sobre o qual desejam viver ainda em estágio embrionário (na melhor das hipóteses). Não queremos ser como nossas mães, nem como nossas avós, muito menos como nossas bisavós. Nos idiotizam, nos futilizam, nos hipinotizam, exploram nossa sexualidade, fomentam discórdia entre nós, riem da nossa cara quando levantamos pra falar de igual pra igual, exploram nossas inseguranças. Como pacificar internamente os efeitos dessas condições sociais impostas e seguir lutando contra essas mesmas condições?
    abraço!

    • Deborah Sá said,

      Camila,

      É de fato uma luta árdua, mas o apoio de outras mulheres no fortalece. Obrigada por comentar :)

      Grande abraço.

  9. Jo said,

    Muito bacana Debah!
    Esse post me fez lembrar daquele vlog fantástica feminista (que esqueci o nome agora aUHAuaHUAhu) No qual se refere a construção de identidade de uma criança, influenciando-as por produtos, anúncios, ações e idéias de gênero….azul para garotos e rosa para garotas, destruição e conquista para garotos e delicadeza e amor para garotas.
    Em flashbacks me lembro de toda essa influência exercida na infância e de como isso causa uma grande impacto futuro, diria até que assustador. Confesso que esse tipo de influencia, no qual somos expostos na infância, torna-se muito difícil de enxergá-la, analisava e perceber que o quanto estamos agindo por ela depois de anos mais tarde. É só batermos os olhos nos gostos das pessoas…filmes, jogos, livros, roupas e etc. tudo ou quase tudo é classificado por gêneros.
    Creio que ainda há muito dos “velhos valores” para se desvencilhar e tentar tornar a sociedade um ambiente mais igualitário e sem competiçoes.

    bjo lind@

    • Deborah Sá said,

      Suflair,

      Você tem razão, e é muito bom te ver por aqui.

      Abraços,

  10. Bárbara said,

    Nossa, gostei tanto do seu texto que nem sei por onde começar a elogiá-lo =/
    Parabéns e muito obrigada por compartilhar seus pensamentos conosco =)

    • Deborah Sá said,

      Bárbara,

      Obrigada pelo elogio! Fico muito feliz que se sintam motivadas e compartilhem suas opiniões comigo!

      Beijos.

  11. May May said,

    Se a sua intenção era q alguma menina se sentisse melhor, deu certo!

    Kisses :***

    • Deborah Sá said,

      Que ótimo May!

      Beijos =****

  12. Liana said,

    Deborah, gostei tanto deste seu texto que o compartilhei no meu facebook. Quanto mais gente ler este tipo de coisa, melhor.

    • Deborah Sá said,

      Obrigada :)


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