28 dezembro, 2010

Para os meus trolls (3)

Posted in ♥ Trollolândia ♥ às 9:47 am por Deborah Sá

Quem se manifesta na internet sabe que a intervenção de trolls será inevitável, agressivos, engraçados até patéticos, ainda não entendi o que leva alguém a digitar tantas letrinhas, desperdiçar tempo e rogar pragas. Se me consideram abjeta o ideal seria ignorar, certo?

Este ano o blog alcançou um número maior de visualizações e as trolladas seguiram esta tendência. Para descontrair, preparei um apanhado para compartilhar com vocês, escolha seu favorito :D

01 – O Troll Bilíngüe

Acusação: Eu atiro merda na CCB, não sei inglês, preciso de um tradutor, a única coisa que tenho é ser gay e ter pertencido a igreja.
Fato: Nunca fiz curso de inglês e me viro bem, estou lendo “The Sexual Politics of Meat”, recomendo. Não guardo orgulho e espero que tod@s tenham auto-estima para isso. Preciso é de um dicionário, o que é “bessevista” ?

02 – O Troll Máquina do Tempo

Acusação: Eu vivi em outro século, todos têm direito, eu não tenho direito. Vou pro inferno e por isso resolvi criar o blog.
Fato: Talvez a CCB que freqüentava era da ilha de LOST.

03 – O Troll Confuso

Acusação: Eu sou o adversário das suas almas (pausa para risada maléfica), não deixo evangelizarem no blog.
Fato: Pediu no mês anterior para apagar os comentários que ele escreveu.

04 – O Troll RBD

Acusação: Hoste espiritual da maldade, RBD, Depressão espiritual.
Fato: Um dos comentários mais Heavy Metal que já recebi.

05- O Troll SxE

Acusação: 3ª Série B bolou o texto
Fato: Foi na aula de informática

06 – O Troll “A força da sua inveja é a velocidade do meu sucesso”

Acusação: Eu tenho inveja de quem “permaneceu na fé”
Fato: Soberba, é pecado.

07- O Troll Fashion

Acusação: Eu não tenho LOOOZ
Fato: O esmalte Impala Cromo Dourado é mais vibrante que o Anel de Ouro da Colorama.

08 – O Troll “Alguém que te ama” (alcunha espontaneamente cedida)

Acusação: Deus quer me dar uns apertos, um sacode e um fogo devastador
Fato: Valeu, estou feliz com meus dedinhos.

09 – O Troll ponto e vírgula

Acusação: Não posso ser seduzida pelo vento. Não posso torcer para enquadrar.
Fato: Eu não torço.

10 – Os Trolls da Avenida Q

Acusação: Preciso de psicólogo, desequilibrada, vitimizo as minorias. Não tenho bagagem cultural para interpretar uma obra de arte, só escrevi esse post para “aparecer”. Tenho grande poder de influência sobre quem me lê. Sou gorda, feia, boba e cara de mamão.
Fato: Foi o post mais visualizado do blog (711 visualizações em um único dia), me “xingaram muito no Twitter”  (pelas costas, porque aqui foram mais educados), os envolvidos na produção/execução da peça e seus fãs tiveram o direito de resposta nos comentários, construindo a defesa que consideraram apropriada.

Embora determinadas provocações despertem riso, aprová-las indistintamente poluiria o blog desvirtuando a temática, o que as diferencia de um comentário comum é a abordagem cujo intuito depreciativo abandona argumentações plausíveis. A refutação com base em características físicas, imposição religiosa, elitismo e heteronormatividade demonstram que as estruturas reacionárias se sustêm em intolerância e violência.

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Parte 1Parte 2

16 dezembro, 2010

Bissexualidade

Posted in LGBT às 5:49 pm por Deborah Sá

Hoje passou por mim uma mulher muito bonita e agradeci a Deusa por eu não ter um pênis, caso contrário a ereção seria evidente, o primeiro pensamento que ocorreu foi “PORRA, SAPATÃO”.  Em um daqueles instantes que a excitação te toma de súbito e você olha para os lados para conferir se alguém notou seu estado, atônita.

Digo entre @s mais próxim@s: “Acordei Sapatão” ou “Ando muito Sapatão”, creio que Bissexuais passam freqüentemente por isso, em determinadas épocas sentir sua orientação “puxar para algum lado” (além de mulher/homem/temos Trans é bom não esquecer).
Na Caminhada Lésbica a Dri Quedas me perguntou quem sofria mais discriminação: Lésbicas ou Bi. Embora não seja lésbica, noto minhas amigas sofrerem mais: São invisibilizadas, hostilizadas e motivo de chacota.

O mundo LGBTTT também tem ciúme, pressões estéticas (gays “bombados” e “másculos”, lésbicas depiladas e “femininas”), mito do amor romântico, traição, entregas e corações partidos. Nossa matriz é a mesma e é impossível criar um “novo mundo” sem resquícios do anterior.

O lado “ruim” de ser Bissexual é o preconceito duplo: Acham-te indecisa que não sai do armário ou uma “depravada”. A Bissexualidade não é medida em porcentagem, tampouco é indicativo de ausência criteriosa (muita gente julga ser Bi equivalente a trepar-com-@-primeir@-que-aparecer).  Não somos levadas a sério enquanto não somos (ou parecemos) hétero, neste sentido não aprovo as rivalidades que se colocam entre mulheres de orientações sexuais diversas, pois só torna ainda mais substancial a misoginia que o patriarcado nos prega. As militâncias convergem ao passo que o mundo nos vê, sobretudo como mulheres, e devemos usar isto em nosso favor.

9 dezembro, 2010

Transferência Patriarcal

Posted in Corpo, Gênero tagged , , , às 9:17 am por Deborah Sá

Após o contato com esta teoria muitas perspectivas ganharam novo significado levando-me a uma distinta relação com o mundo. Não pretendo fornecer qualquer fórmula imediata de superação ou medida padrão de raciocínio, mas se compartilhar isto com vocês as tornará mais seguras, estou certa que será útil.

A primeira estrutura masculina que me recordo ter algum conhecimento foi “Deus”, essa crença pode (não é uma regra, mas pode vir a ser um fator) catalisar fobias, distanciamento da realidade e contenção de impulsos sexuais e/ou criativos. Não importa o quão atéias nos descobrimos; a concepção de um ser de consciência elevada e vigilância constante vez ou outra, foi alvo de alguma consideração. Em posição antagônica temos o personagem “Diabo”, que usando de alguma onisciência e visual antropomórfico ocupa “Deus” em um mercado de “hipotecas espirituais”.

Em seguida a tutela sobre nossos corpos e mentes é transferida de homem em homem, pois é na figura masculina que aprendemos a buscar alguma confiança: Nosso pai, nosso chefe, nosso companheiro (em caso HT). A possibilidade de amor próprio e segurança que conhecemos são configuradas em dependência se não sabemos separar qual é um desejo genuíno e qual a expectativa masculina sobre nossas ações.

É-me recorrente ouvir de moças com vasta experiência sexual que seu companheiro está insatisfeito com algum aspecto estético (outrora despercebido), este rapaz que por sua vez possui pouquíssimo conhecimento estranha que sua namorada não possua seios próximos uns aos outros ou tons rosados nos mamilos. É este tipo de poder que homens exercem quase que instantaneamente sobre a auto-imagem de suas parceiras, nossa insegurança é tão enraizada que basta um comentário masculino pra especularmos sobre nossa conduta, este homem, não necessariamente precisa ter relevância em nosso cotidiano, podendo não nos ser atraente e até mesmo um desconhecido.

Mas por que nos deixamos abater nestas circunstâncias? Porque a figura masculina nos inspira o temor, isto é, não apenas punições materiais, mas a reprovação moral de uma figura de autoridade (similar ao temor a “Divino”). Características físicas são habitualmente relacionadas ao caráter e indicativos das estruturas de poder reforçadas nas produções artísticas, enquanto virilidade, força, poder, coragem e atitude forem atreladas quase que exclusivamente a figura masculina, até será possível superar o medo de entidades sobrenaturais, mas não deixaremos de contar calorias e implantar silicone.

Um exercício interessante é percorrer uma loja de brinquedos: A sessão “Azul” promete: “Seja o herói”, “Combata, domine e explore”, “Vença”, “Construa”, isso estimula a competitividade e induz ao sentimento de “colonizar o mundo”, “fincar a bandeira” onde achar apropriado.
A sessão “Rosa” estimula o cuidado e manutenção do bem-estar: São animais, bebês (trocar fraldas é entretenimento?), bonecas e utensílios domésticos. Para a interação são sugeridas “Maquininhas de trançar cabelos”, “Chapinhas” e adaptações de maquiagens.

Alguns criticam a sexualização precoce, em verdade crianças possuem impulsos sexuais e usam das ferramentas apresentadas para compreender os próprios anseios, é através da imitação do mundo “dos adultos” que elas buscam alguma “maturidade” e se a mulher adulta elogiada pelos homens é curvilínea e de maneirismos peculiares, é isto que uma garotinha buscará. A diferença entre uma brincadeira de “menina” para uma brincadeira de “menino” é que a garota subentende desde muito nova que seu gênero é performático e trabalhar a sua “imagem” é o que a separará das “comuns” ou “populares”.

Em um concurso de arroto é reforçado o desempenho do gênero masculino, implicando rituais de socialização entre os seus, nenhum grupo de garotos faz “suas brincadeiras” na frente das garotas a não ser para hostilizá-las por serem “mulherzinhas” (jogando uma barata, por exemplo), se revidar a garota será “a menina-macho” o que gerará outras medidas “corretivas”.

É injusto que mulheres sintam-se fracas quando afetadas por piadinhas, xingamentos e cantadas grosseiras, não importa quão munidas estamos de embasamento teórico-feminista, livros de auto-ajuda ou quem sabe até um@ companheir@ que nos ame exatamente pelo o que somos. A quantidade de estímulos encorajadores é desproporcional em uma realidade onde somos hostilizadas cotidianamente. Compreender essas circunstâncias nos permite não menosprezar inseguranças e entendê-las como um condicionamento na construção da identidade, a partir disto é possível nos afastarmos daqueles que nos cerceiam. Ao delimitar nosso espaço, o aval para exercemos a autonomia tornar-se-á obsoleto.