29 outubro, 2010

Rodeio de gordas

Posted in Corpo, Só falam nisso tagged , , , às 12:44 pm por Deborah Sá

Não importa onde uma gorda esteja alguém lembrará o quanto é inadequada ao convívio, nos negam o direito de viver, o amor próprio, a dignidade. A presença de uma mulher gorda incomoda e o simples caminhar leva ao murmúrio e dedos em riste. Castra-se o desejo e percepção da própria existência.

Dizem que o caso na universidade é isolado. Quão cruel é falar a uma criança de sete anos que não pode dançar se gorda?  Qualquer músculo pouco exercitado pode atrofiar e é isto que nos fazem crer em capacidade motora. Se ao sorrir todos te humilhassem deixando evidente o fato de ser “torto”, seria capaz de fazê-lo sem levar a mão à boca?

Assim gordas vivem, vendedor@s nos “medem” “Aqui não tem nada pra você”, ou prestativ@s alertam “Tenho um creminho ótimo para tirar essas estrias horrorosas da sua barriga, “Esse aqui é perfeito para esconder os pneus” . Em uma cultura que odeia o corpo feminino podemos assistir em qualquer horário as únicas mulheres que se assemelham a nós repreendidas por um homem com caneta e bisturi: “Gorrrrdurrrrinhas horrrrríveis”.

Quando tinha por volta de doze anos, um garoto da minha rua constantemente me denegria em público e na primeira oportunidade tentou me agarrar à força. São muitos os homens que negam publicamente a atração que sentem por mulheres gordas, ou que julgam “mais fácil” trepar em segredo com alguém de baixa auto-estima para encobrir o grande incompetente que é.

Mulher gorda

Descubra o prazer de celebrar suas dobrinhas, seja na língua por entre estrias e curvas, seja no balanço do quadril. Deleite-se, permita ao corpo qualquer movimento, não tenha medo do espelho, deslumbre-se nele. Busque sua força, aprenda alguma defesa pessoal, faça Yoga, fortaleça sua confiança. Não sejamos tolerantes e compreensivas quando nos depreciam e se necessário for, usemos os punhos.

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27 outubro, 2010

Ca-re-ca

Posted in Egotrip tagged , , às 12:32 pm por Deborah Sá

Era desejo antigo, mas assim como tantas outras convenções me convenci que não era apropriado aos meus traços e biotipo. Ontem, porém, veio a coragem e uma euforia própria das grandes descobertas: Seria careca naquela tarde, o amanhã não poderia esperar:

– Pois não? O que deseja?
– Raspar a cabeça!
– Como assim?
– Na zero (máquina)!
– Nossa, por quê? Seu cabelo está tão bonito!
– É desejo antigo.
– Fulano, venha aqui, esta moça quer… Raspar a cabeça…
– Está maluca? O que aconteceu? Brigou com o namorado? Está doente?
– Não, quero comemorar a ótima fase da minha vida, uma oportunidade de autoconhecimento.
– Sente ali, vou começar pela tesoura *tec* tec* *tec*
– Me empresta? *____*
– Quer cortar?
– Sim *____*

[Me divertindo puxando mechas aleatórias, fazendo “buracos”]

– Agora é sem volta! Maquininha *bzzzzz*
Pensando: (Metade da cabeça, bem punk, que demais! Pareço a Cindy Lauper…)

– Me empresta? *____*

– A maquininha? Quer participar né? Está se divertindo?

– Muito *________*

As mulheres do salão completamente abismadas

– Pronto! Feliz?
– Muito XD
– Agora vamos lavar a cabeça.
– Obrigada!

Na recepção

– Uma pena, era muito bonito seu cabelo, tenha cuidado com o frio e o sol.
– Trouxe uma touca na bolsa *coloca*
– Está mais charmoso assim.
– Mas não raspei pra sair de touca, né?

É incrível sentir vento na cabeça, que é bem sensível (o que dá vontade de esfregar a cabeça por aí para sentir o mundo de outra maneira). Um novo olhar sobre a forma que o corpo exerce seu espaço e a própria concepção estética, desprendimento, liberdade, valorização, celebração e alegria.

18 outubro, 2010

Como Esquecer

Posted in Filmes tagged , , , às 12:56 pm por Deborah Sá

O que é o contrário do amor?

Notei nos primeiros instantes que talvez não fosse simples tarefa escrever ou mesmo falar de como impactou. Por encontrar um pouco de mim em cada personagem, reconhecer na tela grande meus defeitos tornou-se uma inusitada autocrítica. Tal qual Júlia me desdobro em equações racionais para lidar com conflitos e metáforas corporais (nem sempre compreendidas), “Mas do que você está falando? Está maluca?”. O sentimento de corpo aprisionado me rondou em maior parte da vida e a ironia é idêntica quando mal humorada. Júlia tenta superar o término de seu relacionamento com Antônia e ao contrário de Hugo não crê que um envolvimento resolveria sua frustração, ligar-se a uma linha invisível geralmente leva a dependência e ao longo da trama Júlia busca o desprendimento.

Hugo tenta acolhê-la enquanto lida com a morte do companheiro e propõe a Lisa (amiga), dividir uma casa a três. Júlia possui uma amargura que não me pertence levando a uma identificação absurda com Helena, seu modo franco e suas frases poderiam ser facilmente ditos por mim. Mas o que fez gostar tanto deste filme vai além da identificação.

Os personagens não são imbatíveis e plenos, o foco é justamente a fragilidade transitória que tod@s passamos, quer seja comendo biscoitos em frente à TV ou bebendo pra esquecer lidamos de forma distinta com o cotidiano. Não se faz qualquer questão de apontar direções e talvez este seja o grande mérito da narrativa: Permitir que caminhemos por destinos incertos.

Prudentemente as cenas lesbianas não se enveredam por clichês para “Hétero Ver“, tornando as imagens de sexo fluídas de aspecto “sem retoque”, o que pode decepcionar homens que esperam uma Ana Paula Arósio de “Hilda Furacão”, ao invés de uma mulher “comum”. Aprecio quando o cinema consegue mostrar estas mulheres tão palpáveis a nossa realidade, uma das minhas atrizes preferidas Kate Winslet (*suspiro*) geralmente interpreta papéis do gênero.

Embora o Cinema Nacional tente trazer luz a pluralidade, infelizmente estas produções são restritas a poucas salas de exibição, se na programação televisiva as insinuações de sexo oral mulher/homem são freqüentes, ao que tudo indica, falta muito para que em rede nacional uma mulher faça sexo oral em outra.

Nesse ínterim, o Capitão Re-Nascimento da Testosterona encobre qualquer estréia e revive um Nacionalismo bizarro típico de quem espera que a Ditadura retorne para manter o Cidadão de Bem na bolha TFP.

6 outubro, 2010

Pronunciamento sobre a campanha da Dilma

Posted in Por um Estado Laico, Só falam nisso às 4:53 pm por Deborah Sá

Assuntos polêmicos devem ser discutidos, o erro é torná-los relevantes e de abordagem superficial apenas enquanto angariariam votos. Dizem que pessoas de “origem humilde” não poderiam votar por não discernirem o adequado para o país, meu receio nessas eleições é de que justamente essas pessoas “esclarecidas” articulem estratégias para fortalecer a candidatura de José Serra.

Este mesmo José Serra assinou norma técnica para o SUS (Sistema Único de Saúde), ordenando regras para realizar abortos previstos em lei, até o 5º mês de gravidez em 1998, já Mônica Serra (sua esposa) afirma para vendedor ambulante que “Ela é a favor de matar as criancinhas (sobre Dilma)”.

Não importa o quanto afirme ser “a favor da Vida” e realizada com o nascimento do neto, conservadores usarão contra ela todos os artifícios para remediar qualquer dano a classe média. Votarei na Dilma e não me iludo em crer que seus programas de governo trarão qualquer visibilidade para a Comunidade Negra, Feminista, LGBT ou de Direito Animal. O foco do PT é o trabalhador, do PSDB é manter a classe média dentro de uma bolha asséptica ignorando a má distribuição de renda que lhes é benéfica, afinal “precisam” de porteiros, pedreiros, manobristas e empregadas.

Para se eleger o PT abrirá mão de minorias já marginalizadas, priorizando os trabalhadores que sustentam a engrenagem do capital, deixando “O Segundo Sexo” silenciado, cerceado por Religião, Estado e Patriarcado.

Meu voto no primeiro turno foi para o PSOL.