15 setembro, 2010

O vestido de carne da Lady Gaga

Posted in Animais, Só falam nisso tagged , às 11:48 am por Deborah Sá

Ao ver Lady Gaga no traje de açougue e aquele sapato horroroso foi inevitável não pensar:

Políticas Sexuais da Carne

Neste livro Carol J. Adams aborda as associações que nossa cultura patriarcal atribui ao consumo de animais mortos (sobretudo os de carne vermelha) e o caráter masculino.

Cozinhar para quem?

No Dia dos Pais podemos ver nas vitrines Kits de Churrasco e os programas matinais ensinam a preparar Costelas, nos outros dias não propõem grandes inovações gastronômicas: Empadinhas, tortas, pudins e mousses com ingredientes de aceitação geral (ovos, leite condensado, frango…).
Revistas femininas reservam ao menos uma coluna dedicada a receitas e ingredientes emagrecedores em pequenas porções, já que muito provavelmente a leitora consumirá a “comida saudável” sozinha. Mulheres casadas ao tentarem introduzir a dieta vegetariana em seus lares falham miseravelmente: Seus maridos dizem não serem coelhos para folhas ou granola e suas crianças, adoram nuggets.

Frutas, legumes e vegetais são considerados alimentos que não “sustentam”, “inspirando pouca força”, “debilitando as funções psicomotoras” e por isto são associados à alimentação feminina. Os produtos de origem animal relacionados à mulher também assumem um posicionamento baixo na escala hierárquica que denominamos aos alimentos (derivados do leite e carnes brancas).

Lembram-se da Ruflles “Para Meninos” (crocante) sabor churrasco e “Para Meninas” de Cream Chesse (lisinha)?

Prato de pedreiro

Esta “necessidade masculina” de ingerir carne também é justificada nos trabalhos que demandam maior esforço físico, o que dá a entender que as tarefas “femininas” não são tão pesadas e estafantes ou que ser atleta e vegan@ é impossível.

Classe e Raça

Se comer carne é um privilégio social e possui hierarquias, quanto maior o poder aquisitivo mais “nobre” será o corte servido. A maioria das empregadas domésticas (pardas e negras) prepara na casa de suas “patroas” alimentos que dificilmente são integrados ao próprio cardápio. Somos estimulad@s a reproduzir as relações de poder nas instâncias possíveis a nossa realidade:
Patrão – branco – come filé mignon
Funcionário – branco – come picanha
Esposa – branca – come filé de frango com molho de creme de leite e mostarda
Empregada – negra – Come carne moída ou salsicha

Certamente se houver alguma crise no mercado da carne e os preços tornarem-se abusivos, @s primeiros a excluírem este ingrediente serão pobres e negr@s.

Comer carne não é meramente uma escolha

Moralmente escolha não é a possibilidade de praticar qualquer ato, mas a sua implicação ética. Com minha constituição física é perfeitamente “possível” bater em alguém mais “fraco”, mas não o faço, seria covardia e muito provavelmente esse “alguém” não consentiria em sentir dor.

Proposta bem-estarista

Criar animais “livres” para matá-los em seguida não anula a morte. Amenizar danos é sempre bom, mas você acha alguma das opções abaixo justa?:

¹ Ok, eu te deixo viver livre. Construa sua família, viva tranquilamente e quando eu julgar conveniente te mato. Não vou ganhar dinheiro com isso e não deixarei morrer nas mãos de um desconhecido.

² Olha, é a lógica do mercado. Não leve pro lado pessoal, fique nessa cadeia lotada de canibais (tiramos os dentes pra que não te machuquem, eles ficam um pouco “alterados” sem ver o sol), em pouco tempo você morrerá e não sofrerá mais.

Ninguém explora aquele que é seu “igual”, se ainda exploramos os animais é porque os julgamos “estúpidos demais” e isentos de viver plenamente. É como colonizadores justificam derramamento de sangue e escravidão.

E o vestido da Gaga?

Onde o uso de casacos de pele é imoral e venera-se couro legítimo, onde se critica sacrifício animal fazendo churrasco, usar um vestido de bife é sintoma de um problema muito maior (que quase ninguém quer admitir).

13 Comentários

  1. Marie said,

    de fato não tinha pensando por esse angulo, imposoção da carne e carater masculino da coisa! bem interessante!

  2. Chris said,

    Também nunca tinha parado para fazer essa relação hierárquica com relação ao consumo de carne, mas realmente reflete nossas relações de poder.

    E eu gosto da Lady Gaga, mas achei o vestido de muito mau gosto =/

    • Deborah Sá said,

      Também gosto dela, canta bem e faz músicas divertidas, mas infelizmente não é raro ela soltar declarações decepcionantes =/

  3. Lyh said,

    Triste demais ver esse vestido da Gaga…Alias, no primeiro momento até gostei; achei que fosse como uma crítica ao consumo das peles/couro, mas depois de um minuto lembrei que se tratava da “rainha do exibicionismo”, e que provavelmente, ela não tem interesse em salvar os animais…
    Não sei muito da repercussão geral da roupa, mas muitos fãs devem estar achando o máximo. só torço para que esse acontecimento tenha, pelo menos, aberto os olhos dos outros.

    • Deborah Sá said,

      Idem querida (bom te ver por aqui) ^^

      *abraça*

  4. Camila/Vegan said,

    Quando fiquei sabendo do tal vestido da GaGa, achei que era mais uma daquelas campanhas estapafúrdias do PETA, rs.

    Lendo seu post, lembrei de um ponto interessante sobre esse “culto à carne”: na Antiguidade, havia sacrifícios animais em oferta de suas carnes (ou melhor, do cheiro delas) aos deuses – como forma de honrar aquele/a deus/a, ou de fazer tipo um “suborno” para aquela pessoa ser atendida em seus pedidos.

    Não sei direito como era a alimentação nesta época, mas provavelmente alimentar-se de carne para quem não era da aristocracia era muito difícil, pois ou o camponês obtinha o leite e lã de seus animais, ou ele os matava para consumo da carne e ficava sem o leite, lã ou força de trabalho.
    Ou seja, desde a Antigüidade existe essa valorização maior da carne, daquilo que deve ser ofertado aos deuses, e que é privilégio de poucos.

    • Deborah Sá said,

      Tem razão :)

      Beijos,

  5. bruno said,

    Eu não gostei do vestido da Gaga. Mas achei bem “útil” sabe. Foi uma chuva de hipocrisia, como quando descobriram aquele restaurante oriental em São Paulo que matava cachorros e gatos pra servir nos pratos. Todo mundo falava: “que absurdo”, “coitado dos cachorrinho”, “que coisa nojenta”. Como se não vivessem de morte todos os dias! A cultura deles estabelece um valor para a vida dos gatos e cachorros e a dessa gente (nossos compatriotas) estabelece um valor pra vacas, frangos, porcos… E a grande diferença hein? Cachorros são fofos, reconhecem o dono, são fiéis? Bando de hipócritas! Como vc disse, Deborah, “é sintoma de um problema maior que ninguém quer admitir.”

    bjinho

    p.s.-amay o blog (favoritos!)

    • Deborah Sá said,

      Obrigada, seja bem vindo :)

      Concordo com você, foi útil ao debate :D

  6. Daiana said,

    Muitas vezes, penso estar sozinha. Com tantas feministas, longe de meu convívio. Com tantos vegetarianos, estes um pouco mais próximos. Com defensores de direitos humanos, comemorando conquistas com churrascadas.
    Separados.
    Pensamentos, atitudes, pessoas fragmentadas.
    “Cada um na sua luta” Mas, ninguém pede que sejamos perfeitos, ou tentamos convencer como fanáticos idiotas. Por favor, sejam realistas.
    Respeitar as diferenças, as opções? Sim. Mas, pedir para aceitar (e entendo como aceitar ser conivente, concordar, se calar diante de) coisas incoerentes?
    Ai, é parece tão difícil, é tão difícil nos libertar… de nós mesmos, de nossas vontades, costumes, de nossas conversas sem fim, de nossas teimosias…

    • Deborah Sá said,

      Olá Daiana,

      Recomendo este post do Thiago :)

  7. Charô said,

    Comecei a ser vegan (e ainda estou em adaptação). Agora que estou grávida, a vontade de comer queijo de uma determinada pizzaria é grande. Há momentos em que não resisto… Mas se eu der uma olhada em material educativo, a vontade passa.

    Agora mesmo ia comprar a tal da pizza e creio que vou conseguir deixar de lado.

    =))) Obrigada pelo material!!!

    • Deborah Sá said,

      Por nada Charô,

      Obrigada por compartilhar :)

      Boa sorte e que a Letícia seja muito bem vinda!

      Beijos =***


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