30 julho, 2010

Toy Story 3

Posted in Filmes às 4:51 pm por Deborah Sá

Algumas pessoas defendem o cinema como puro entretenimento. Dizem que o ideal é entregar-se a trama despretensiosamente deixando qualquer ideologia da sala pra fora. Acreditar que qualquer produção cinematográfica não tenha em sua trama conceitos morais beira a ingenuidade, em especial as direcionadas ao público infantil. Mães, pais e educadores certificam previamente a classificação etária e a proposta pedagógica do que será exibido.

Toy Story mostra a amizade entre dois bonecos: Woody e Buzz (um cowboy e um astronauta – ambos brancos), enfatizando o aspecto lúdico de brinquedos não virtuais e a valorização de crianças bem comportadas. Enfoco aqui, a última produção da trilogia.

[Se pretende ver o filme, não prossiga a leitura contém spoilers]

Dia e noite

A animação que precede o filme intitulada “Dia e Noite” usa dois personagens em um fundo preto, representando o “cenário” noturno e o outro diurno. Deste modo:


Não se engane pelo arco-íris

Defendendo as belezas de seu tempo, o “dia” reflete a imagem de uma moça em seu banho de sol, despertando na “noite” comportamentos galanteadores. O enfoque cômico normatiza a observação imperceptível de mulheres (chamo isso de “Buraco da Fechadura”). Ao término da animação de seis minutos, há um discurso em voz grave contra a intolerância e preconceito.

Casamento?

Andy (dono dos brinquedos) irá para faculdade levando além de sua bagagem, Woody. Os demais teriam como destino o sótão, ressentidos, tentam convencer o cowboy a mudar-se para uma creche. Woody os chama de “egoístas” argumentando: – Não podem fazer isso! Olhem nos seus pés! (há a inscrição “Andy” em todos) Nós somos do Andy, os brinquedos dele!

Fraternidade entre quem é reconhecido como sujeito

Homofobia

Na creche, Barbie (recém-chegada) encontra Ken (efeminado) e formam um casal. São muitas as cenas onde personagens demonstram reprovação aos modos de Ken, nenhuma piada ou insinuação homofóbica é repreendida.

Tortura

Após ser torturado, Buzz enfrenta seus amigos sendo resetado no modo “espanhol” (em cenas de estereótipos latino-americanos). Qual a relevância pedagógica de inserir a tortura? “Vilões torturam?“ Já ouvi uma criança que no contexto de uma brincadeira em que era vilã encenou uma cena de tortura com um coleguinha. Crianças não devem ser privadas sobre o mundo que as cerca, adultos devem falar abertamente sobre o real significado das palavras (sejam quais forem).

Onde está o discurso igualitário de “Dia e Noite”? A música tema de Toy Story “Amigo estou aqui” aplica-se a camaradagem de um universo que embora colorido, ainda é masculino, branco e hétero.

2 Comentários

  1. _Vegan said,

    “Algumas pessoas defendem o cinema como puro entretenimento. Dizem que o ideal é entregar-se a trama despretensiosamente, deixando qualquer ideologia da sala pra fora.Acreditar que qualquer produção cinematográfica não tenha em sua trama conceitos morais beira a ingenuidade, em especial as direcionadas ao público infantil”.

    Concordo. Acho, ainda, que o ambiente das salas de cinema, as explosões e efeitos visuais mil, os enredos com batalhas grandiosas e feitos heróicos, toda a propaganda e divulgação do filme ampliam a influência da ideologia nas “entrelinhas e entrecenas” dos filmes , especialmente os hollywoodianos. Minha impressão é que tais recursos, aliados à passividade do público, torna as pessoas mais receptivas às mensagens e portanto é um meio muito eficaz de controle social.
    Inclusive, se cinema não fosse uma forma de manipulação e propagação de valores culturais,sociais e políticos, por que então gasta-se uma soma considerável de dinheiro APENAS para estes filmes? [os quais são, na maioria das vezes, filmes RUINS, com diálogos bobos, atuações péssimas – já que o elenco é escolhido com base em atrativos físicos e popularidade e não na qualidade do trabalho de atuar -, roteiros mais que previsíveis e repetitivos…]
    E os filmes infantis não fogem à regra – no caso da Disney, só personagens heteros, brancos e de classe média [para não desagradar aos pais, é claro]. Esses filmes ainda são muitíssimo tradicionais nos papéis de gênero, como era de ese esperar.
    Enfim, fecho falando que concordo com seu post e que, novamente concordando contigo, não acredito que cinema seja “apenas entretenimento”. Principalmente esses filmes chatos mainstream ;D

    • Deborah Sá said,

      [2] Em tudo o que falou, obrigada por acrescentar no debate.

      Beijos, linda.


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