1 março, 2010

Nerds não são mais compreensivos.

Posted in Egotrip, Gênero, Papo Nerd tagged às 3:09 pm por Deborah Sá

Esta foi uma das minhas primeiras decepções com o “meio” nerd.

O que me atraiu na comunidade “Orgulho Nerd” (ON) foi a “zona de conforto” em encontrar pessoas que assim como eu, não eram populares na escola e buscavam conversas mais substanciais na rede.

Minha primeira participação na comunidade foi no tópico “Existe Nerd Gostosa?”, na época falei que mulheres nerds não eram diferentes de seres humanos em geral e a probabilidade de encontrar alguém que fosse ou não “gostosa’, era similar em qualquer outro lugar.
Em pouco tempo me tornei figura carimbada na comunidade: Alguns membros me chamavam de “Tia Deba”, alguns xavecos, alguns garotos pra sair… Até conhecer o Yuri.
Um dos rapazes com quem fiquei achou estranho que me intitulasse nerd sem ver um único episódio de Star Wars*. Respondi que não acreditava em nerd de boutique.
Quando entrei na ON já possuía uma “veia” feminista, embora visse certas coisas como “naturais”. Vasculhando os arquivos notei pérolas como “Ok, concordo com você, homens em geral são mais “visuais” por isso defendo que ver pornô é questão de gosto”. Com o passar do tempo, fui me aprofundando nos estudos feministas e mudando meus conceitos.
À medida que escrevia algo no meu antigo blog, postava na comunidade e aguardava comentários. O moderador da ON (criador da mesma) ausentou-se por muito tempo e com isto uma onda crescente de SPAMS e Trolls invadiram a comunidade.
Reclamavam mas não tomavam qualquer atitude.
Fui até o perfil saber o motivo deste “abandono”,  ele não respondia, a solução foi deixar um scrap pra mãe dele. Muito atenciosa, respondeu educadamente que o filho tinha coisas mais importantes pra fazer, descobriu que falavam mal do filho pelas costas e com raiva constatou que a comunidade se tornou “um monstro maior que o criador e não queria saber mais disso”.
Fui ovacionada, alguns odiaram a idéia por princípios anárquicos e em pouco tempo elegeram moderadores para a comunidade. Eu era uma deles, a única mulher que “lutou” por isso. A Marisa** era a outra mulher da comunidade (muito mais “antiga” por lá do que eu) e ao que me lembro não se opôs a esta “revolução”.
O Yuri foi adorado por alguns e odiado por muitos que alegavam ter “mãos de ferro”, depois de um tempo ele cansou e pulou fora. Eu permaneci, conversava sempre com todos e logo ganhei fama de feminista da comunidade.
Mas do que isso: Faziam tópicos para enfrentamento direto como “Feminazismo”, “Essa a Tia Deba vai gostar” e outras provocações diretas como, por exemplo, em tópicos que depreciavam mulheres alguém escrever “está demorando pra Deborah falar que é culpa do patriarcado”.
Os nervos tornaram-se cada vez mais acirrados quando alguém teve a brilhante idéia de fazer um concurso de “Miss ON” e a esta altura do campeonato eu defendi que isto não fazia sentido na comunidade nerd, até porque, queriam eleger as garotas que mais se aproximavam dos parâmetros estéticos que fariam ganhar qualquer concurso: Brancas, olhos claros e etc.

Comprovando novamente para meu desgosto:

Os garotos nerds consomem o mesmo tipo de pornografia (alguns se orgulham ao se diferenciar por ver hentais), gostam do mesmo tipo físico de mulher com postura submissa valorizada por um homem comum, são reacionários, defendem as mulheres “de valor”, acham justo pagar uma prostituta para satisfazer qualquer desejo sexual porque “dá menos trabalho”, curtem carros e gabinetes “tunados”,  criam tópicos como “Mulher é interesseira”, sonham casar com a Megan Fox e ridicularizam mulheres foras do padrão inconscientes da própria estética.

O que eu e outras mulheres notamos é que além de extremamente masculino (e talvez por isso), os nerds achincalhavam com qualquer mulher que tentava levantar a voz “lá dentro”, defendendo que não há nada de errado com um homem que estupra uma mulher se ela usava roupas curtas ou que a cena brutal da Monica Bellucci no filme “Irreversível” era excitante.

Antes de sair, avisei as pessoas “mais próximas” que conheci por lá (muitas, em especial as mulheres já haviam saído) que não contassem mais comigo para os debates -seria falta de educação deixar as pessoas me perguntando algo se eu não participaria da comunidade –

A minha ilusão foi crer que um oprimido seria incapaz de oprimir com valores tão similares a quem tanto combatem.


•    * Escrevi sobre Star Wars aqui, aqui e aqui.
•    ** Ela começou a namorar um moço na mesma época que eu e o Yuri e estão muito bem.  A Marisa continua forte lá e não se rebaixa por ninguém :D
•    *** Procurando nos arquivos, ainda tem gente que fala mal de mim, gente contra a Geise Arruda, mulheres declaradamente machistas…
•    **** Um ex-moderador deu entrevista para a Revista Capricho para falar sobre a comunidade.
•    ***** É claro que conheci muita gente bacana, essa foi a parte boa. 20 dos meus 169 “amigos” são de lá.

12 Comentários

  1. Flávia said,

    É, Deborah…eu tb já me decepcionei mto com a “comunidade nerd”, tb fui mega excluída(e sofri mto, mto bullying) na escola, e desenvolvi esse pensamento de que “bom, se a pessoa já foi oprimida e sabe como é ruim, não vai oprimir os outros, né?” Dá até tristeza ver essa minha antiga ingenuidade. Mas é q passar por bullying realmente construiu meu caráter, e eu sempre tento não oprimir ninguém, sempre tento defender os oprimidos…mas as vezes parece ser uma luta perdida.
    Vendo o post de hoje da Lola, perdi as esperanças no mundo e na humanidade.(como já aconteceu outras vezes com outros posts dela, que, apesar de duros, são necessários pra manter os olhos das pessoas abertos, e abrir alguns ainda fechados.) Mas eventualmente a esperança volta.
    Já falei q adoro seu blog?

    • Deborah Sá said,

      Obrigada Flávia :)

      Eu entendo bem como é, uso minha frustração para seguir em frente :D

      Beijos =***

  2. Júlia said,

    É um dos motivos para eu não entrar em comunidades nerds. Saí de uma sobre futebol que era recheada dessas coisas, também. Só estou na Nintendo DS e uma sobre o Steam porque são úteis, têm dicas, etc. Mas é importante que a gente se pronuncie, sim, contra esse tipo de comportamento. Eu só não costumo fazê-lo porque “é impressionante como eu nunca faço nada, é sempre a confusão que vem até aqui”, hahaha.

    • Deborah Sá said,

      Uahhahahhaha

      Acabei saindo de todas também =/

  3. Carla said,

    Ei, linda! Sou tb do tipo que me sempre me considerei nerd. Mas não de boutique, como vc diz: nada de Star Wars ou qq coisa nerd-clichê. Mas era isso: ser diferente na escola, adorar ler, pesquisar assuntos que não interessavam à galera em geral, etc, etc. Mas tb nunca consegui entrar em, sei lá, grupos nerds. A não ser minhas amigas dos tempos de escola, nerds queridas. :) Já tentei me sensibilizar com os pobres meninos legais desprezados pelas mulheres más. Não me sensibilizo mais. Pq é como vc diz: o mesmo olhar, para uma mulher ideal, um corpo ideal, uma figura dos sonhos. E que pretensão: só pq não vão pra micaretas nem “pegam todas” dizem que são “gente-boa” e estão sendo subestimados? Precisa mais que isso pra “valer à pena”, né? rs

    • Deborah Sá said,

      E que pretensão: só pq não vão pra micaretas nem “pegam todas” dizem que são “gente-boa” e estão sendo subestimados? Precisa mais que isso pra “valer à pena”, né?

      Coooom certeza ;D

  4. Carla said,

    “defendendo que não há nada de errado com um homem que estupra uma mulher se ela usava roupas curtas”… dizem isso? morram!

  5. Aline said,

    Disse tudo, Deba. A comunidade decaiu tanto… Mas ainda guardo uma vaga e boa lembrança dos tempos antigos e sempre lembrarei das boas amizades que fiz lá! Beijos!

    • Deborah Sá said,

      É…e de fato também conheci gente bacana lá, a Dani e eu por exemplo, somos bem próximas ^_^

      Beijos,

  6. Hj em dia os nerds não são mais aqueles… nerds que vemos em filmes,
    eles são descolados também,meus amigos dizem que sou nerd pq falo muito de informatica, mais se uma pessoa olhar pra mim nunca dirá isso,
    eu me interesso muito por assuntos que envolvem historia e tecnologia principalmente computadores,sempre gostei de pesquisar e ter um assunto na ponta da lingua, mas nunca aparentei ser um nerd, acho que e por isso que nunca sofri com isso,pra falar a verdade nem ligo

    • Deborah Sá said,

      Você não foi “zoado de nerd”, pois deve atender padrões de gênero (Bullying é sempre relacionado as expectativas de gênero).

      Um abraço,

  7. Wolks said,

    Muito interessante o seu post. Infelizmente tenho amigos que se dizem nerds e são assim como foi relatado aqui, tanto nos comentários como no post. Na verdade eu não os chamaria de nerds, mas de “Tetudos”, ou seja, caras que se dizem nerds e na verdade não se aceitam e queriam ser o carinha “foda” que “pega todas” e ficam frustrados por não conseguirem fazer o mesmo.

    Se acham diferentes, mas são igual aos caros idiotas, tendo esse ideal de mulher que vendem por ae, incapazes de ver o quanto uma menina nerd é bonita e se torna ainda mais atraente por ser inteligente. Meninas nerds são inteligentes e acabam que muitas vezes os caras as consideram uma ameaça por isso, preferem a menina que todo mundo diz ser “bonita”, mas que é submissa e não muito inteligente, pois esta pode ser exibida como um trofeu para os colegas.

    As pessoas são muito presas a padrões, às vezes o cara fica reclamando da vida e tem uma garota nerd e legal do lado dele que era só o cara dar uma chance para talvez descobrir que ela é a mulher perfeita para ele.

    Lembro de muitos colegas reclamando que em alguns jogos que jogavamos não haviam mulheres, mas quando surgiu uma garota eles se sentiram ameaçados, foram logo tratando mal e dizendo coisas do tipo: “Ela joga bem, mas deve ser uma feiosa” logo querendo julgar a mulher pela aparência.

    Enfim, espero que algum dia o pensamento desses caras mude (dificil) um pouco e abram a cabeça, sinto vergonha desse tipo de gente.


Os comentários estão desativados.

%d blogueiros gostam disto: