4 novembro, 2009

Moça da Uniban

Posted in Corpo, Só falam nisso tagged às 12:40 pm por Deborah Sá

No último dia 22 uma moça estudante de turismo foi com um vestido curto para a faculdade.

Estes alunos não pertenciam a uma seita religiosa  onde moças que usam roupas inadequadas merecem pedradas, coerção e ameaças de estupro. Estas alunas e alunos são pessoas “normais”. Estão ao nosso redor no shopping, ambiente de trabalho ou até dentro de nossas casas, provavelmente com formação cristã, comemoração natalina, carro na garagem e cachorro no quintal.

O motim se deu em um lampejo de revolta e reivindicação da ordem (moral), dando a idéia de “unidade”, pertencimento a um grupo com os mesmos propósitos. Quem era o “inimigo”? Uma moça sozinha com um vestido curto. A multidão precisaria se unir para combater esse “mal”? A transgressão da “moral e bons costumes” embora incentivada (quem não usa roupas curtas é considerada menos atraente e pouco “feminina”), quando cumprida sofre represálias.

Muitos dos comentários que ouço sobre o fato dizem:

“Está certo que a culpa é dos alunos, mas ela sabia que correria este risco”

Não há lugar seguro para uma mulher, horário, local ou idade para serem vistas como “estupráveis”. Este discurso tem uma linha tênue entre “Mas o que ela queria? De madrugada voltando pra casa depois de beber com roupa curta”?

“Se eles mexessem, falassem gracinhas era normal, o que não pode é chegar ao ponto de ameaça de estupro” / “Não tem como abrir queixa, nem encostaram nela, só falaram palavras obscenas”

Da mesma forma um homem que mostra o seu pau em público, se esfrega nos ombros das moças no ônibus, ou passa uma cantada ele está cumprindo seu papel de lembrar as moças que elas podem andar com decotes e roupas justas: Contanto que paguem “pedágio”. Se ele as julga pouco atraentes talvez reúna outros colegas (as cantadas costumam ser mais agressivas quando os homens andam em grupo) para ofende-la.

Absurdo o Fantástico chamar a consultora de moda Glória Kallil para falar que “A roupa é um instrumento que diz ao mundo o que somos, certamente essa moça não atentou para a mensagem corporal que a vestimenta dela seria interpretada – o que não justifica a ação destas pessoas”.
Se uma casa fosse roubada eles chamariam um engenheiro para analisar o quanto a casa não foi projetada de forma segura? Em algumas cidades do interior e alguns bairros de periferia, os moradores dormem com suas janelas completamente abertas ao contrário de um condomínio de classe média com suas câmeras de segurança.

Não culpam um homem branco, bem vestido dentro de um carro importado pela tentativa de seqüestro no seu bairro nobre.
Se uma mulher branca usa roupas decotadas e for estuprada, dirão que será por falta de senso estético e decoro, se a mulher for gorda, negra ou fora de algum padrão estético, não acreditarão que alguém tenha desejo por ela, nessa última percepção grotesca cometer um estupro não é uma relação de poder e sim o tesão elevado a máxima potência.

Neste raciocínio, uma mulher usando uma roupa justa é incoerente ao reclamar de uma cantada, a postura esperada seria a condescendência com quem invadiu seu espaço físico, levando em consideração sua natureza racional que compreende a produção involuntária de pulsões sexuais em homens escravos da sua própria testosterona.

9 Comentários

  1. luci said,

    debora, você eh professora de historia?

  2. luci said,

    (pergunta nada a ver com o post! sempre leio seu blog, mas nunca comento. e, dessa vez, a chance deu comentar esse post eh ainda menor porque ja me estressei demais com essa historia no meu proprio blog. mas fica a pergunta, beijos!)

  3. […] Moça da Uniban – Aquela Deborah […]

  4. Assunto complexo. A faculdade esta cheia de animais, como vc disse, escravos da propria testosterona.

    nada justifica um comportamento daqueles e eu penso que o que ocorreu é o que geralmente ocorre com grupos de homens sem cérebro: Agem por impulso e seguindo a maioria.

    Observei um detalhe interessante neste caso. Dentre as blogueiras que criticaram o Lingerieday do twitter, o discurso era padrão, elas estavam, cedendo aos impulsos masculinos, agindo como pedaços de carne, objetos de apreciação para os homens e tudo o mais…

    O comportamente desta moça é parecido com o das moças que participaram da brincadeira no Twitter. O que elas tem em comum é o desejo de serem elogiadas, se sentirem desejadas (não estou dizendo que isso é errado, longe de mim.). O estranhamento ocorre justamente por um julgamento tão diferente pra dois comportamentos muito semelhantes. Enfim, coisas que e confundem no feminismo.

    Penso que esta moça na Uniban foi vítima da fúria dos conservadores e as moças do Lingerieday da fúria das feministas…. No fim, elas são todas vítimas de um mesmo problema: Falta de liberdade individual e a necessidade da sociedade de determinar, segundo seus padrões culturais, o certo e o errado.

    òtimo post… e adoro seu blog…

    • Deborah Sá said,

      Olá Thiago :)

      Quando falei que eram escravos, foi uma ironia. Tanto um homem quanto uma mulher não podem controlar se sentirão excitados com algo, mas podem per-fei-ta-men-te não agarrarem alguém. Quem age com tais impulsos é do mesmo naipe de quem mata e diz que foi o diabo.

      O que critiquei no Lingerie Day foi o contexto, a idéia partiu de homens que usaram mulheres como entretenimento. Não tenho nada contra mulheres que gostam de usar roupas curtas, se sentem bonita assim, isto é para elas, não quer dizer imediatamente que ao colocarem uma mini blusa estão pedindo opinião dos outros. Muito menos assédio.

      Através de conversas com minhas amigas e experiência própria, noto que sempre vão achar uma brecha para criticar uma mulher, seja ela bonita demais ¹, rica² ou inteligente. Não há mulher perfeita, aliás, as únicas consideradas perfeitas o são por atributos estéticos.

      Feministas não pensam de maneira idêntica, o mesmo vale para cristãos, ateus, vegetarianos…
      Se as mulheres são criadas para serem submissas, só gostarem de rosa, usar salto, terem calças muito justas com bolsos insuficientes para guardar uma carteira e etc, vou criticar mesmo, porque sinto que os homens têm uma larga vantagem em liberdades individuais, que vão desde o vestuário até a de não temer um estupro.

      Não sou a favor da burca, nem da minissaia, sim da liberdade de escolha. O que não me impede de emitir opiniões pessoais, como considerar um horror um namorado controlar o tamanho da saia da namorada. Já leu Persépolis? Nele a narradora conta o quanto a maquiagem era um sinal de transgressão, a ausência de depilação tornou-se um pesadelo para quem buscava o padrão ocidental.

      Li (em uma revista de maquiagem da minha mãe) que 80% das japonesas pensam em realizar a cirurgia de “ocidentalização” para mudarem a anatomia dos olhos. Pessoalmente, acho lindo mulheres com olhos puxadinhos, mulheres de cabelo crespo, nariz grande, gordas…
      Se o padrão dominante é outro, não podemos culpá-las por se sentirem péssimas com a aparência. Recebemos poucos estímulos positivos de nossa imagem corporal e um bombardeio diário com intervenções nocivas.

      ¹https://aqueladeborah.wordpress.com/2009/03/26/os-prejuizos-em-nascer-bonita/
      ²https://aqueladeborah.wordpress.com/2009/06/23/vida-de-madame/

  5. astrocat said,

    eu não acredito que foram pedir a opinião da gloria kalil. af. e não entendi até agora o que o lingerie day tem a ver com isso. situações completamente diferentes.

  6. Haline said,

    O que acho mais importante nessa história toda é que, mesmo os ultra conservadores, estão contra a decisão da uniban. Foi tão, mas tão estapafúrdio expulsar a menina da universidade que praticamente ninguem concordou com isso. Quanto a atitude dos alunos nada mais é que a expressão mais viva do quanto o machismo está enraizado. E do quanto as mulheres participam ativamente disso. Elas estavam no meio da multidão. Eu não entendo. Estavam lá fazendo coro contra si mesmas. Tão importante pensar nisso. Pq todas as mudanças sociais são conseguidas através de luta, de discordancia, do combate mesmo. A instauração de q novo modelo é assim. Então eu acho que tinha que ter mais educação mesmo. Sentar esse povo na sala e dizer : olha, vcs são prejudicados com isso. homens e mulheres são prejudicados pelo machismo. Sim, pq os homens fazem inumeras burrices e se prejudicam tambem. Como virar servo da publicidade e comprar o carro do ano. Como não fazer um exame de prostata e por ai vai. Claro que nós, mulheres, somos as maiores prejudicadas, mas o problema que vejo é que a maioria nao faz link, não sabe q uma coisa tá ligada a outra. Da moral ao estupro, a diferença salarial, a falta de inserção no mercado e etc.

  7. whothehelliscely said,

    Esse caso está me deixando possessa! Também fiz um post sobre..
    Adorei o conceito de “pedágio”!

    Bjos


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