30 novembro, 2009

As dificuldades em conviver com o meu silêncio

Posted in Egotrip às 12:56 pm por Deborah Sá

Não sei por que estou tremendamente triste, tenho visto ótimos filmes (Besouro e Thelma e Louise), voltei de uma viagem ao Guarujá, estive bem com meu corpo e meu trabalho é reconhecido.
Nada do que tenho feito tem prolongado a minha sensação de bem-estar, sinto que preciso reorganizar todos os meus desejos.
A única certeza que tenho é que quero muito fazer a minha tatuagem.
Quase sempre não relaxo, a tensão faz parte do meu modo de encarar a vida. É a vegan.
Não espero fazer sentido, ontem o Café Filosófico foi brilhante, embora discordasse quando a psicóloga informou “quem têm depressão não tem imaginação”.

Fico nessas de tentar me manter “ok” a maior parte do tempo. Sei sim, o que acaba comigo é me deixar fragilizada, exposta, e ando me sentindo assim. Ontem no Guarujá estava tudo lindo e do nada um cocô bóia no meu braço, comecei a gritar histericamente (pode rir, dou risada disso também). Na hora quase vomitei e me senti realmente muito mal, um grande medo meu. Nisto a construção social foi muito forte, tenho um nojo MORTAL de bosta humana, de animais não humanos limpo numa boa. Pra ter noção, nem exame de fezes eu faço.
Sinto-me melhor. Na verdade não foi só o episódio da merda que me deixou assim, o Yuri (com razão) brigou com uma moça na volta do ônibus porque ela ouvia música alta no celular e incentivava o sobrinho a fazer barulhos irritantes. Acordei sentindo medo no meio da discussão entre eles. E sabe? Odeio conflitos, até brigo com as pessoas, mas tenho um impulso imediato de mediar conflitos, construção do gênero feminino de apaziguar sempre, se anular pra não desagradar os outros. E pra ajudar os noticiários sempre aterrorizam as pessoas falando de discussões que terminam em morte. Fico eu, com cu na mão, me sentindo impotente diante de uma multidão. Os eventos parecem gigantescos; para os outros é algo extremamente banal. Por esta razão quando alguém diz pra me conter e “descer do palanque”, “largar minhas bandeiras” fico realmente brava, já me policio além do necessário. O bastante pra cogitar suicídio, seus merdas.

4 novembro, 2009

Moça da Uniban

Posted in Corpo, Só falam nisso tagged às 12:40 pm por Deborah Sá

No último dia 22 uma moça estudante de turismo foi com um vestido curto para a faculdade.

Estes alunos não pertenciam a uma seita religiosa  onde moças que usam roupas inadequadas merecem pedradas, coerção e ameaças de estupro. Estas alunas e alunos são pessoas “normais”. Estão ao nosso redor no shopping, ambiente de trabalho ou até dentro de nossas casas, provavelmente com formação cristã, comemoração natalina, carro na garagem e cachorro no quintal.

O motim se deu em um lampejo de revolta e reivindicação da ordem (moral), dando a idéia de “unidade”, pertencimento a um grupo com os mesmos propósitos. Quem era o “inimigo”? Uma moça sozinha com um vestido curto. A multidão precisaria se unir para combater esse “mal”? A transgressão da “moral e bons costumes” embora incentivada (quem não usa roupas curtas é considerada menos atraente e pouco “feminina”), quando cumprida sofre represálias.

Muitos dos comentários que ouço sobre o fato dizem:

“Está certo que a culpa é dos alunos, mas ela sabia que correria este risco”

Não há lugar seguro para uma mulher, horário, local ou idade para serem vistas como “estupráveis”. Este discurso tem uma linha tênue entre “Mas o que ela queria? De madrugada voltando pra casa depois de beber com roupa curta”?

“Se eles mexessem, falassem gracinhas era normal, o que não pode é chegar ao ponto de ameaça de estupro” / “Não tem como abrir queixa, nem encostaram nela, só falaram palavras obscenas”

Da mesma forma um homem que mostra o seu pau em público, se esfrega nos ombros das moças no ônibus, ou passa uma cantada ele está cumprindo seu papel de lembrar as moças que elas podem andar com decotes e roupas justas: Contanto que paguem “pedágio”. Se ele as julga pouco atraentes talvez reúna outros colegas (as cantadas costumam ser mais agressivas quando os homens andam em grupo) para ofende-la.

Absurdo o Fantástico chamar a consultora de moda Glória Kallil para falar que “A roupa é um instrumento que diz ao mundo o que somos, certamente essa moça não atentou para a mensagem corporal que a vestimenta dela seria interpretada – o que não justifica a ação destas pessoas”.
Se uma casa fosse roubada eles chamariam um engenheiro para analisar o quanto a casa não foi projetada de forma segura? Em algumas cidades do interior e alguns bairros de periferia, os moradores dormem com suas janelas completamente abertas ao contrário de um condomínio de classe média com suas câmeras de segurança.

Não culpam um homem branco, bem vestido dentro de um carro importado pela tentativa de seqüestro no seu bairro nobre.
Se uma mulher branca usa roupas decotadas e for estuprada, dirão que será por falta de senso estético e decoro, se a mulher for gorda, negra ou fora de algum padrão estético, não acreditarão que alguém tenha desejo por ela, nessa última percepção grotesca cometer um estupro não é uma relação de poder e sim o tesão elevado a máxima potência.

Neste raciocínio, uma mulher usando uma roupa justa é incoerente ao reclamar de uma cantada, a postura esperada seria a condescendência com quem invadiu seu espaço físico, levando em consideração sua natureza racional que compreende a produção involuntária de pulsões sexuais em homens escravos da sua própria testosterona.