27 outubro, 2009

Windowsill

Posted in Cotidiano, Egotrip às 8:41 pm por Deborah Sá

Juro que se eu bebesse algo alcoólico, esse seria meu recurso esta noite. Como não o faço fui até uma lanchonete vegana e pedi um suco de maracujá. Talvez um dos mais amargos que já tomei, não por falta de açúcar, mas da raiva guardada e da impotência.

Queria mesmo é abrir meu coração para aquele atendente que nem sei o nome e dizer o quanto eu ando triste, o quanto a dor no peito vem rasgando nesses dias.
Semana passada minha irmã me disse que uma professora quando lecionava para crianças de 8/9 anos um grupo de garotos forçou uma menina da mesma faixa etária a praticar sexo oral neles. Ela tem deficiência mental. Os garotos não. A mãe da garota e a direção da escola não quiseram denunciar, alguns dos meninos eram “filhos de bandido”.

O Yuri sabe o quanto essa notícia acabou com meu dia, passei minha noite de sexta definhando chorando.

Não há lugar no mundo seguro para uma mulher

Crianças de 8 anos tem ereção? Tem porra já? Mas tem supremacia masculina, isso sim. São “imitações” inconscientes de uma estrutura familiar conturbada? Oras, se não vamos culpar crianças por estupro, podemos inocentar um serial killer de passado problemático?

Hoje ao sair do trabalho com minha irmã um grupo de garotos jogava pedra no mato, eu sabia que por ali existia um gato preto e me aproximei esperando o pior.

Eu: Ei, o que vocês estão fazendo? Não tem vergonha não?
Garoto: Ninguém te chamou, não é da sua conta.
Minha irmã: Não pode fazer isso, tacar pedra no gato, porque você está fazendo isso?
Outro garoto: Tem que tacar mesmo, ele estava matando um passarinho!
Eu: E você não come carne?
Garoto: Como…(cortado pelo “Líder”)
“Líder”: Escuta aqui, segue “seus caminho”
Garotos: (Jogam mais pedra)
Eu me aproximo e cruzo os braços de frente para um deles, ele fecha a cara e me imita.
“Líder”: Você quer bater na gente é?
Eu: Não, porque eu não sou covarde
Grupo: Viiiixeee olha só quanto nós somos
“Líder”: Segue “seus caminho”, segue “seus caminho”…
Outro garoto: Agora que eu vou matar esse gato, tem que matar mesmo, ele é preto!

TODOS os garotos eram negros.
Isso me deixou sem palavras por um instante.

Eu: Por isso mesmo, não podemos ter preconceitos.
“Líder”: Segue “seus caminho”, segue “seus caminho”…
Minha irmã: Isso é covardia

Os garotos saíram andando, perto uma senhora com seu Golden Retriever perguntou para minha irmã:

– O que aconteceu?
– Estavam tacando pedra no gato.
– Isso não pode! É crime! E começou a falar com os garotos que permaneciam. O líder disse algo como “Depois chamamos uns trutas pra dar um jeito nessas duas”.

E eu fui para a lanchonete.
Meu pai ligou preocupado, soube do ocorrido.
Uma coisa eu digo, não vou encostar a mão naquelas crianças, mas se vierem pra cima de mim vou revidar. E se eu morrer ser presa todo mundo já sabe o motivo.

Agora dá licença que vou preparar janta pra usar de marmita amanhã e pegar ônibus cheio.

Sempre vivi na periferia, estudei nas suas escolas, sofri a humilhação de gente que tinha tanto dinheiro quanto eu. Mas eles têm o “gueto” masculino, sua força, seus comparsas, eu só tenho vontade de chorar e lutar. Lutar sempre.

Fico pensando se quero mesmo ser professora de História, pra ter que agüentar gente que não tem metade da minha estatura querendo botar o dedo na minha cara. Seja porque tem o papai rico com mil advogados ou os mil manos em uma terra sem lei.

Este post foi escrito ao som de Windowsill do Arcade Fire

12 Comentários

  1. Raiza said,

    Eu nem sei o que dizer.
    Tem dias em que eu penso no mundo e me dá taquicardia.
    Eu sinceramente não sei como até agora só meti a porrada em uma pessoa.
    As vezes eu fico pensando se a educação pode mudar alguma coisa ou se tem gente que não tem jeito mesmo,é ruim por natureza.
    Sobre ser professora de História.Eu faço faculdade de História.Eu NUNCA vou ser professora.Nem por todo ouro do mundo.Prefiro morrer de fome do que do fígado ou coração.Ou eu vou pra pesquisa ou mudo de área.me expor a esse tipo de monstrinhos já é masoquismo demais na minha opinião.
    Obs:O gato está bem?
    Obs 2:ADORO gatos pretos.

    • Deborah Sá said,

      Minha intenção é dar aula para pessoas do EJA, faculdades ou colegiais. Privete nem dá muita raiva só de pensar >.<

      Ainda não vi o gato hoje =/

  2. Aa said,

    Eu me faço a mesma pergunta, Deborah. Como pretendo trabalhar com crianças novas (antes dos 8), acho que ainda é possível reverter alguma coisa… mas quanto mais velhas elas são, maior é a sensação de impotência do professor.

    • Deborah Sá said,

      Concordo Aa =/

  3. whothehelliscely said,

    Apesar de acreditar muito no poder transformador da educação, acho que a criança é construída desde seus primeiros dias, até antes de sair do útero. É muito difícil lidar com o patriarcado enraizado, porque a gente acaba vendo uma esperança nas crianças e de repente somos surpreendid@s por violência brutal.

    Eu não teria estômago para lecionar :( não sei nem como poderia punir uma criança moldada como essas.

    Sensação de fracasso, impotência….

  4. Mariani Lima said,

    Que absurdo!

    Sabe, essas coisas também acabam com o meu dia… me deprime saber que as crianças estão desse jeito, como será o futuro com essa base?

    Se você tem vontade de dar aulas, deve fazer isso. Quem sabe você não consegue mudar o pensamento dessa geração? Espero que sim. ^^

  5. Thiago said,

    É por acreditar que podemos mudar pessoas que escolhi dar aulas.
    Justamente para pessoas com metade da minha estatura, pois -acredito- é nelas que ainda pode ser feito alguma mudança considerável. Não sou esperançoso de mudar todos onde dou aula, mas fazendo com que alguns entendam.

    Mas realmente encontramos alguns que a raiva, frustração ou o que quer que tenha está tão enraigada, tão profunda, que é difícil sequer conversar.

    De qualquer forma, eu a encorajo a seguir seu anseio.

  6. asnalfa said,

    Eu sabia… existem crianças más. Mas os adultos nao admitem. Por isso sou a favor do aborto e da pena de morte.

  7. Zaíra said,

    Tava vendo agora na internet o vídeo da garota q foi de minissaia pra faculdade e teve q sair escoltada, porque seus “colegas” se sentiram “agredidos” pelo que ela vestia, e alguns tentaram agarrá-la, sob o pretexto de que quem se veste de forma insinuante, quer mesmo é sexo.

    Não sei se o que mais irrita, a atitude em si, ou sua repercussão.
    Há o mais variado tipo de comentário, desde quem apóia a atitude, dizendo que a roupa dela é indecente, até os que dizem que ela não deveria ter sido hostilizada, MAS que suas roupas eram impróprias para o local em que estava.

    Inclusive, um educador, Mário Sérgio Cortella, disse: “A jovem tem o direito de utilizar a roupa que deseja, desde que ela não ultrapasse aquilo que é a norma coletiva, a convivência. Aqueles que reagiram de forma absolutamente exagerada, podiam tê-la reprovado do ponto de vista estético, se não desejavam a roupa daquele modo, mas, jamais, do ponto de vista ético, que é a agressão, a brutalidade, a violência, o desrespeito, a intolerância”

    Quem são os outros para “desejar” o modo como ela se veste?
    O que é essa “reprovação estética”.

    Ainda não vi nada defendendo a garota, ou dando a essa atitude o caráter que ela tem de fato.

    O que impera é que a reação dos alunos foi imprópria, mas a garota provocou vestindo-se como uma puta.
    Parece que estamos voltando à época que um estuprador tinha sua pena atenuada se a sua vítima vestisse roupas que provocassem seu instinto masculino…

    Eu vim aqui no seu blog, Deh, porque sei que aqui tenho espaço pra comentar sobre isso, mesmo que não tenha relação direta com o post, e porque sei tbm que aqui eu alcanço outros olhos leitores e indignados tanto quanto eu.

    Um beijo,
    E força!

  8. Dånut said,

    É, as vezes o mundo desanima a gente tanto…

    Sobre ser professora. Olha, tu vai ter que aguentar MUITO isso de te colocarem o dedo na cara… E o pior é que normalmente quanto menos razão a pessoa tem, mas ela insiste…
    Eu acho que o trabalho de professor deve compensar pelos bons alunos, mas não é pra qualquer um aguentar essa gente não (eu por exemplo jamais aguentaria, já tenho vontade de tacar uma cadeira nos meus colegas, imagina se fosse o professor).

  9. babsiix said,

    Porra, como assim criança de 8 anos querendo sexo oral? Nem sabia q criança ficava excitada nessa idade.. Mas, muito mais q isso, estão assimilando e perpetuando aquilo q veem a sua volta.. Como fica a punição para esse tipo de caso? Se n fossem “filhos de bandido”

  10. Djamila Ribeiro said,

    Pois é Débora, a situação é difícil. A superestrutura racista é tão grande que infere no olhar do próprio negro o fazendo ver como feio e inferior. É uma estrutura tão perversa que faz com que o negro introjete o olhar racista sobre ele mesmo.
    Já tive um gato preto que amava muito e as pessoas se horrorizavam com isso. Diziam que não era bonito, que dava azar. No fim das contas mataram o bicho envenenado. Na nossa cultura tudo que é preto é ruim, feio, inferior. Nem os bichos se salvam…


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