25 agosto, 2009

Obrigação moral nos deveres do Estado

Posted in Cotidiano tagged às 4:09 pm por Deborah Sá

Ao caminhar no Centro de São Paulo é impossível não deparar-se com um morador em situação de rua. Dentre eles são poucas as mulheres que transitam. Creio que a primeira “saída” para elas é mesmo ser prostituta…

Há quem se incomode com a presença deles, afinal eles gritam, dançam, pedem um pedaço do salgado, estão lá descalços em dias de chuva ou de calor, enrolados em seus cobertores com uma bituca de cigarro na boca .

Semana passada em um dia de chuva, vi um senhor de aparentemente 60 anos enrolado em um saco de lixo abrindo uma embalagem de amendoim lambendo o interior metálico. E estava lá eu, com minhas roupas quentinhas, minha touquinha, um celular que tira foto na mochila e um livro do Focault buscando espaço com o guarda chuva nas costas. A pequena burguesa…
Peguei meus palitinhos salgados que estavam no bolso lateral, ao recebê-los o homem parecia perturbado e aéreo, não sei a qual realidade ele pertencia.
O que posso fazer? Essa obrigação é minha? Essa obrigação seria do Estado, obviamente os privilegiados economicamente têm larga vantagem nisto. Quem “protege” esses moradores?

Algumas cenas inusitadas que presenciei
– Uma moradora de rua  urinando e um morador de rua se aproximando com um jornal em mãos dizendo “Não vai secar não?” E ela respondeu: “Eu não! Passar jornal na minha perereca?!”
– Uma menina de aproximadamente treze anos dançando funk com uma mini-blusa e um micro-short, cabelo oxigenado e pele parda*. Ela rebolava ao som dos CDs piratas que tocavam “O Pancadão”. Os homens presentes riam e lançavam olhares maliciosos.
– Crianças que pareciam ter 5 anos fumando bitucas de cigarro.
– Um casal de moradores de rua dormindo “de conchinha” (fiquei com vontade de chorar).

* É raro ver uma criança ou adulto branco de olhos azuis nas ruas. Embora existam exceções.

Deviam ser disponibilizados banhos gratuitos, comida e educação (mesmo que muitos saibam ler). Mais importante: O Estado devia perguntar a eles o que ELES querem. Moradia, emprego, saúde, educação?

Antes que algum engraçadinho venha me dizer: “Troque o seu cachorro por uma criança pobre”

Não há incompatibilidade, dá perfeitamente para ter um cão e uma criança. Não há como colocar a responsabilidade social (que supostamente seria do Estado) nas mãos das cidadãos-comuns. O ideal seria oferecer auxílio individual na medida do possível.

E os animais?

Até o presente momento não conheço nenhum açougue que venda carne humana (talvez no mercado clandestino). É injusto negar os direitos básicos a um indivíduo sem renda, assim como não é correto matar um não-humano por valores culturais.
Entendo perfeitamente que não é possível que um moradores de rua sejam vegetarianos, eles comem o que está disponível. O mesmo vale para pessoas em situações extremas de precariedade. Creio não ser o caso de quem me lê neste instante.

Há quem queira morar nas ruas, viver naquele cotidiano. Muitos dos meninos querem o tênis anunciado nas vitrines, as garotas clareiam os cabelos e os carroceiros encostam seus carrinhos após o expediente para folhear atentamente as páginas de uma revista pornográfica.

12 Comentários

  1. Caroline said,

    Pô,Débora…muito legal o teu post.Eu moro no Porto e por ser uma cidade bastante turística tem bastante mendigos,não em situações tão precárias como em SP.Deixa eu partilhar contigo uma situação completamente inusitada:sempre ando pela baixa do porto,e um certo dia veio um jovem,aparentando uns 25 anos,me pedindo dinheiro porque tinha sido demitido,era músico,e que o artista nunca era valorizado,aquela coisa.Falei que lamentava muito,mas que não daria dinheiro e sim compraria alguma coisa pra ele comer,se quisesse.Comprei um hamburger(estávamos na frente do Mc Donald´s).Um mês depois vi a mesma pessoa falando com um casal,a mesma história e detalhe: em Espanhol!Várias outras vezes ele me abordou:-“I am sorry,do you speak English?”-num inglês extraordinário.Um dia não me segurei quando ele novamente me abordou,perguntei se ele nao tinha vergonha de ter qualificações para trabalhar e estar a pedir nas ruas,e de fazer com que os colegas dele fossem julgados da mesma forma,aqueles que realmente precisam.Não acho que eles sejam VAGABUNDOS,acho que eles são resultado da precariedade de apoio a educação, que gera esse ciclo vicioso da sociedade que os transforma nos filhos abortados da globalização.Infelizmente são poucos os países que não sofrem(os) com desamparo aos cidadãos.Beijo!

    • Deborah Sá said,

      Caroline,
      Uma vez auxiliei um homem na Rua Augusta que falava inglês, será que era fraude? Mas pouco importa né? Não vou deixar de auxiliar as pessoas que pedem porque a Veja diz isso em letras amarelas na capa.
      PS: Soube que os moradores de rua daqui queimaram revistas Veja? http://www.paulohenriqueamorim.com.br/?p=16897

  2. luci said,

    essa situação da mendicância é muito complicada, porque as situações são completamente diferentes entre si. por exemplo…

    chegou uma mulher no ônibus uma vez, sem uma mão, dizendo que tinha sido estuprada pelo proprio pai e engravidado de trigêmeos. o pai-avô foi preso e assassinado na cadeia (pelo motivo que você imagina). a mãe dela, abandonou a filha e os netos porque a filha não quis abortar o produto do estupro. então, sem mãe, sem pai e, consequentemente, sem o pai das crianças, em condições péssimas, ela deu a luz aos três filhos. um ta com uma infecção no cérebro, precisa de tratamento médico. ela teve que tirar o utero porque não-sei-o-quê. e a mulher é pobre pra caralho, vê-se, pelo rosto sofrido, que ela fala a verdade. enfim. ai essa mulher pede dinheiro pra cuidar dos filhos. o que você acha que eu vou fazer? não vou dar dinheiro porque esse é um problema do estado? eu dou dinheiro.

    mas dai chega gente com aquele papo de “preciso comprar uma passagem pra ir pro interior”. ah, precisa? vai cortar grama numa casa aê. “tia, tou com fome”. ah, tah com fome? te compro comida, mas dinheiro eu não dou (depois descobri que na cidade em que eu morava, os moleques trocavam a comida COMPRADA por cola. incrivel).

    outro dia estavamos eu e minha mãe numa semaforo onde duas meninas (de uns 17 anos) limpavam os vidros dos carros que paravam ali. minha mãe, que geralmente paga uns reais pra cortarem a grama dela, disse “essas meninas deviam estar trabalhando em alguma casa de familia! e não ai, vagabundando nas ruas”. eu disse “é, claro, se essas meninas parassem na porta da senhora e pedissem pra trabalhar na casa, a senhora diria o que?” ela ficou calada.

    o buraco é mais embaixo.

    acho que essas medidas de “sopão” e “banho” são soh paliativas. penso que o governo poderia fazer alguns pontos, casas, em que essas pessoas poderiam aprender alguma ocupação simples (como trabalhar com ferro, madeira) em troca de comida, dormida e vestimenta. assim, aprenderiam a fazer algo (possivelmente arrumar um emprego no futuro) e os produtos do trabalho seriam revertidos pro estado (cadeiras pra creches, refeições pra escolas publicas etc).

    • Deborah Sá said,

      Luci,
      Justamente por ser complicada quis compartilhar, pra visualizar em outras óticas.
      Um abraço :)

  3. Acho que a questão é bem mais complexa do que dar ou não esmolas…

    Difícil entender sem questionar. Perguntar a estas pessoas o que elas querem afinal. Algumas estão nas ruas pq se recusam a ter um emprego formal.Ganham a vida pedindo e [sobre]vivem desta forma. Façam as contas de quanto arrecada um garoto pedindo em um farol na Av. Santo Amaro, na capital de SP:

    suponhamos que o semáforo feche a cada 6 min (chutando beeeem alto), em uma hora, terá fechado 10 vezes. Das 10 da manhã as 8 da noite são 10 horas.

    10 (paradas) X 10 (horas) = 100 paradas.

    Se em cada parada, consegue-se 50 centavos, no fim do dia, tem-se 50 reais. Trabalhando de segunda a sexta, com 50 reais por dia, tem-se 250 reais por semana e mil reais por mes.
    Vale lembrar que um farol não fica aberto por 6 min.

    Logo, dar casa, instrução para que as pessoas possam trabalhar seria a solução se essa fosse a vontade delas e se esse fosse a única causa para estas pessoas estarem nas ruas. E se não for?

    É óbvio que ninguém quer viver numa situação destas, mas não dá pra saber. Não da pra generalizar. São pessoas, não ratos. O comportamento não é uniforme.

    Dar ou não esmolas é muito individual. Não da pra discutir se é certo ou errado. Dar comida? E se tudo que a pessoa precisa é de uma lata de cola pra ficar bem? Quem deve decidir qual a real necessidade de uma pessoa?

    • Deborah Sá said,

      Thiago (eu também moro/morei) na Zona Sul :P
      Vejo mais pedintes no Centro. E creio que não ganham tanto assim não, acho que mais no final de ano…
      E ei, ratos não tem comportamento uniforme, também tem individualidades.
      Concordo que é o pedinte que deve escolher o que deve comprar, até drogas. É engraçado as pessoas falarem que são contra as drogas e não analisarem o “porquê” das pessoas usarem.

  4. asnalfa said,

    A situação é muito complexa. Mas parte da solucao é pena de morte e esterilizacao em massa.

    • Deborah Sá said,

      Asnalfa, que reaça o seu comentário :P

      Não seria melhor “reabilitação”, “conscientização” e “controle de natalidade”???

  5. Zaíra said,

    Milhares de pensamentos passam pela minha cabeça agora.
    Meu comentário vai ser meio longo.

    Primeiro que esse post é digno de alguém que ainda não anda anestesiado pela vida, que presta atenção ao mundo e ainda sente.
    A apatia toma conta de quem vive nas grandes metrópoles.
    Só o fato de ver os mendigos já te faz diferente da maioria, que passa por eles como se fossem parte da paisagem.

    E pensar se e para quem dar esmolas é complicado.

    Entendo que dar esmolas não deveria ser necessário.

    Mas se eu der, não me interessa o que a pessoa vai fazer, afinal, a ajuda não é seletiva. Ajudar a quem precisa, essa é a “minha parte”. O que vai ser feito com a grana depois, já não é da minha conta.

    Em resposta a Caroline:
    Emprego é uma coisa difícil de encontrar, mesmo que se tenha qualificações.

    Os salários são baixos, as jornadas de trabalho são muito longas e as vezes a quem trabalhe aos finais de semana.

    Eu acho um absurdo se passar 8 horas por dia dentro de um escritório. Contando a hora de almoço, 9 horas mais, em média, três horas diárias de transporte, 12 horas, mais tempo de sono, que, idealmente, seria de 8 horas, se foram 20 horas de um dia de 24. Não dá pra estudar, ter lazer ou fazer qualquer outra atividade.
    Isso numa situação ideal, em que se trabalha 8 horas, “apenas”. Há quem trabalhe muito mais, e demore muito mais tempo no trajeto casa-trabalho e vice-versa, além de cuidar da casa, dos filhos…

    Há que se baixar a cabeça para chefes tiranos, se tornar engrenagem num sistema e defender algo que você não acredita, perder tempo e liberdade, e enquanto você poderia estar passeando no parque, fazendo um curso, assistindo uma peça de teatro, conhecendo gente ou simplesmente descançando, está se dedicando a uma causa que nem é sua.

    E se passa um terço do dia, logo, um terço da vida adulta, dentro de um escritório, com salários que não condizem com sua função e não são suficientes para realizar as necessidades básicas de saúde, educação, moradia, lazer e cultura, salvo raras exceções.

    Então, uma pessoa que preze sua liberdade e sanidade mental, dificilmente faz isso de bom grado, e não é por ser vagabundo, mas por não acreditar que essa seja a maneira correta de levar a vida, onde uns mandam e outros obedecem, por ter sangue correndo nas veias e mão baixar a cabeça ao que, definitivamente, não está certo.

    Porque tenho que vender minha força de trabalho?

    Trabalho dia após dia, para garantir minha sobrevivência, e conseguir ir trabalhar no dia seguinte, e assim sucessivamente, num ciclo interminável, até que eu me aposente e seja maltratado pela sociedade para a qual eu tanto contribuí.

    Porque isso é o certo?

    Faz sentido muitas pessoas viverem na rua, porque ali você é dono do seu caminho e da sua direção, por mais que seja pela miséria, mas foi sua escolha, e não determinação do outro, de certa forma.

    Na pior das hipóteses, melhor ser livre e miserável do que um robô sem autonomia e espontaneidade.

    Débora, obrigada pelo post inspirador.

    Um beijo!
    E força.

    • Deborah Sá said,

      Concordo com você!
      Mas eu prefiro trabalhar(formalmente), mesmo me dando nos nervos ás vezes uahhahahaha
      Mas se fosse pra ter escolha? Eu só estudaria, pra ser professora depois (sim sou idealista beibe). Isso com uma casinha comprada, o Yuri, a Sparta, o Ted e a Thundera. Estaria perfeito :)

  6. Cerruti said,

    essa situação da mendicância é muito complicada, porque as situações são completamente diferentes entre si. por exemplo…

    chegou uma mulher no ônibus uma vez, sem uma mão, dizendo que tinha sido estuprada pelo proprio pai e engravidado de trigêmeos. o pai-avô foi preso e assassinado na cadeia (pelo motivo que você imagina). a mãe dela, abandonou a filha e os netos porque a filha não quis abortar o produto do estupro. então, sem mãe, sem pai e, consequentemente, sem o pai das crianças, em condições péssimas, ela deu a luz aos três filhos. um ta com uma infecção no cérebro, precisa de tratamento médico. ela teve que tirar o utero porque não-sei-o-quê. e a mulher é pobre pra caralho, vê-se, pelo rosto sofrido, que ela fala a verdade. enfim. ai essa mulher pede dinheiro pra cuidar dos filhos. o que você acha que eu vou fazer? não vou dar dinheiro porque esse é um problema do estado? eu dou dinheiro.

    mas dai chega gente com aquele papo de "preciso comprar uma passagem pra ir pro interior". ah, precisa? vai cortar grama numa casa aê. "tia, tou com fome". ah, tah com fome? te compro comida, mas dinheiro eu não dou (depois descobri que na cidade em que eu morava, os moleques trocavam a comida COMPRADA por cola. incrivel).

    outro dia estavamos eu e minha mãe numa semaforo onde duas meninas (de uns 17 anos) limpavam os vidros dos carros que paravam ali. minha mãe, que geralmente paga uns reais pra cortarem a grama dela, disse "essas meninas deviam estar trabalhando em alguma casa de familia! e não ai, vagabundando nas ruas". eu disse "é, claro, se essas meninas parassem na porta da senhora e pedissem pra trabalhar na casa, a senhora diria o que?" ela ficou calada.

    o buraco é mais embaixo.

    acho que essas medidas de "sopão" e "banho" são soh paliativas. penso que o governo poderia fazer alguns pontos, casas, em que essas pessoas poderiam aprender alguma ocupação simples (como trabalhar com ferro, madeira) em troca de comida, dormida e vestimenta. assim, aprenderiam a fazer algo (possivelmente arrumar um emprego no futuro) e os produtos do trabalho seriam revertidos pro estado (cadeiras pra creches, refeições pra escolas publicas etc).;. All the best!!

  7. Anos depois arrumei um tempinho pra entrar aqui !! :)
    E pra minha surpresa seus post continuam muito bons !!

    Essa situação dos mendigos é muito dificil, eu passo todo dia na consolação onde se voce se deparar com 3 deles no trecho de 500 metros que eu ando é pouco !! :(
    Outro dia eu comprei um saco de pao frances pra um mendigo japones que me viu passando comendo biscoito e ficou me olhando com aquela cara de tanta vontade sabe. Ele fico tao feliz que voce nao imagina! Eu ainda tentei conversar com ele, até porque fiquei curioso dele ser mendigo e japones (nunca tinha visto), so que ele nao falava portugues, entao fui embora. Só que depois me bateu uma angustia, nao só pela situação dele, mas poxa ele nao era daqui e nao entendia nada daqui, ja era senhorzinho, nao sei porque ele imigrou mas eu podia ter pensado em leva-lo ate a embaixada, quem sabe ele tem familia no Japao, talves veio refugiado da guerra, nao sei … :/

    enfim, essa foi uma experiencia que tive e nao dei tudo de mim !!


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